Sal Pradelica — outubro de 1887 — Era da Estagnação
Contexto histórico
Outubro de 1887. Cento e sete anos depois da noite em que a montanha rachou sobre Ivandir, o continente de Cross está na sétima década de uma guerra que ninguém mais planeja vencer. A Era da Estagnação não tem ofensivas: tem turnos. Um comandante competente, em 1887, planeja para adiar.
Sal Pradelica é o quinto dos sete Estados internos da Ordem Clerical — cordilheira leste-central, quinhentos a mil e duzentos metros, inverno continental seco. Dela sai o Sal de Selo: noventa mil toneladas por ano, monopólio absoluto do continente, achado por acaso em 1781 dentro das próprias galerias-prisão por homens que não sabiam o que tinham nas mãos. É o sal que faz o perímetro de toda aldeia cristã, de toda trincheira, de todo umbral de porta entre o Mar do Coro e a linha. Sem Pradel não há barreira em lugar nenhum.
E Pradel, como todo o resto da Ordem, opera sobre onze mil purificadores — número fixado por cálculo de necessidade em 1826 e nunca revisto. Desde 1881 morrem mais do que se formam. O déficit acumulado, em 1887, passa dos seiscentos. Ninguém publica o número. Todos os Cardeais-Estado o conhecem.
Um purificador acorda a pedra. Mineração leiga produz minério morto; clérigo cético produz minério morto; e um cartucho de Crisma-Argênteo só mata demônio se alguém com fé real passou vinte segundos com ele na mão. Não é metáfora. É a linha de balanço sobre a qual o continente inteiro está sentado.
Em outubro de 1887, na semana seguinte ao Feriado de Ivandir, a diocese de Pradel-Leste conclui que não consegue mais guarnecer o setor. Não houve batalha. Não houve cerco. Não houve aviso ao inimigo, porque não houve inimigo a avisar. Uma ordem administrativa recua a linha em vinte e dois quilômetros e evacua nove aldeias.
Sem comunicado. Sem sino.
É a primeira perda de território do canon por atrito de fé, e não por combate — e é a data que os inquisidores citam, dali em diante, quando falam dos Anjos que se esvaem.
"Perguntou-me o rapaz quantos homens o inimigo tinha para tomar a aldeia dele. Respondi que nenhum. Ele quis saber então por que a estávamos entregando. Respondi que porque eu tinha cinquenta e um anos e as mãos tremiam, e ele riu, porque achou que eu estava brincando."
— depoimento de Onésimo Farkas à Comissão de Inquérito de Pradel, fevereiro de 1888, fólio 12
I. A Medida
A balança era de latão e tinha sessenta anos, e Onésimo Farkas conhecia-lhe cada defeito como um homem conhece os defeitos da própria esposa, isto é, sem já os notar e sem já poder viver sem eles: sabia que o prato da esquerda descia meio grão a mais em manhã fria, sabia que o fiel emperrava se alguém batesse a porta com força, sabia que os pesos de meio grama tinham sido gastos por três gerações de dedos até ficarem quarenta e sete centigramas, e compensava tudo isso — compensava havia vinte e nove anos, todas as manhãs, sem escrever a compensação em lugar nenhum porque não havia onde escrevê-la, porque o Cânone Mineralógico de 1842 não previa que uma balança envelhecesse.
Levantou a mão direita. Esperou.
Era isso, sempre isso, primeiro isso: levantar a mão e esperar, e contar quantos segundos levava até o tremor aparecer. Nos primeiros anos não aparecia nunca. Depois aparecia ao fim de um minuto, e ele achou que fosse cansaço. Depois ao fim de trinta segundos, e ele achou que fosse a idade. Agora aparecia ao fim de sete, oito, às vezes cinco, e ele já não achava nada, porque achar coisas sobre o próprio tremor era um luxo de purificador jovem e Onésimo tinha cinquenta e um anos e o rosto de um homem de sessenta e cinco, e sabia exatamente o que o tremor era, e sabia que todo purificador antes dele soubera, e que todo purificador depois dele saberia, e que ninguém em Aurum Roma escrevera isso em documento nenhum porque escrevê-lo obrigaria a resolvê-lo.
Sete segundos. Baixou a mão.
Sete era bom. Sete dava para três cartuchos seguidos, se ele não conversasse, se ninguém batesse a porta, se o rapaz da entrega não escolhesse justo aquela hora para perguntar se a diocese ia pagar o frete deste mês ou do mês passado.
Pegou o primeiro cartucho.
E aqui era onde começava a coisa, e Onésimo — que não era homem de pensar em coisas grandes, que tinha sido filho de carroceiro em Solnica e teria continuado carroceiro se o pároco não tivesse notado uma quietude nele aos onze anos, uma quietude que o pároco chamou de vocação e que Onésimo, aos cinquenta e um, ainda chamava simplesmente de sossego — aqui era onde ele sempre pensava a única coisa grande que pensava, e pensava-a exatamente do mesmo modo, com as mesmas palavras, havia vinte e nove anos, como quem repassa uma oração que já não precisa de sentido para funcionar:
Isto vai matar uma coisa que não morre.
Era isso. Era só isso. Era o cartucho de latão com nove gramas e meio de Crisma-Argênteo bruto no interior, prateado e morto, tão morto quanto uma colher, e daqui a vinte segundos não estaria morto, e a diferença entre uma coisa e a outra não passava por nenhum instrumento que existisse no mundo, não podia ser medida, não podia ser demonstrada, não constava de relatório, e no entanto era a única diferença que importava entre um soldado que voltava do Limes e um soldado que não voltava.
Fechou a mão sobre o cartucho. Fechou os olhos.
E rezou — mas não a oração do Cânone, que ele também rezava, em voz baixa, porque o Cânone exigia e porque desviar do Cânone era matéria disciplinar desde 1842; rezou por baixo dela, na segunda camada, na camada que ninguém fiscalizava, do jeito que a mãe dele rezava em Solnica, do jeito veherênico de três vezes que a mãe dele nunca soubera ser veherênico e que Onésimo só descobrira ser aos trinta e um anos, num sermão em Pradel, quando um cônego novo explicou de que região vinha o costume das três repetições e Onésimo saiu da igreja naquele dia com uma coisa fria no estômago, entendendo que rezara a vida inteira uma oração de gente que a Ordem perseguia.
Que o que sai daqui não falhe. Que o que sai daqui não falhe. Que o que sai daqui não falhe.
Vinte segundos.
Abriu a mão. O cartucho não tinha mudado de cor, não tinha esquentado, não tinha feito nada que um homem pudesse ver. Onésimo colocou-o na caixa da direita.
Pegou o segundo.
Às onze horas tinha feito noventa e um cartuchos e as mãos não paravam mais, e ele parou, porque um purificador que continua com as mãos assim produz pedra morta e não sabe, e produzir pedra morta sem saber era a única coisa do ofício que Onésimo temia de verdade — não a morte, que vinha e vinha rápido e era conhecida, mas a possibilidade de estar há semanas benzendo nada, de estar há semanas mandando para a linha caixas de latão que um sargento distribuiria com aquele cuidado de quem distribui dinheiro, e que um rapaz de dezanove anos carregaria na cartucheira com aquela confiança de quem carrega a salvação, e que não fariam absolutamente nada quando fosse preciso.
Sentou-se. Comeu pão. Bebeu água.
Depois abriu o livro de registro e escreveu 91, e a data, e assinou, e olhou para o número, e o número era o problema.
Porque o setor de Pradel-Leste tinha, em papel, quatro purificadores licenciados. Kral morrera em março — quarenta e quatro anos, quatorze de ofício, deitou-se numa tarde de quarta e não levantou na quinta. Wozniak fora transferido para Ferrum Alpina em maio, porque Ferrum Alpina fazia a Hashmalita e a Hashmalita movia os tanques, e quando a Cúria do Hashmal pedia um purificador não estava a pedir. E a rapariga, a Ilinca, tinha vinte e seis anos e três de licença e no mês passado, no meio de um lote, largara tudo em cima da mesa e saíra da sala, e voltara no dia seguinte, e no outro dia saíra outra vez, e Onésimo não a repreendera porque sabia perfeitamente o que era aquilo e sabia perfeitamente que não tinha cura e sabia perfeitamente que dizer o nome daquilo em voz alta obrigava a comunicar à diocese, e comunicar à diocese significava perder a Ilinca também, e então ele não dissera nada, e continuava a não dizer, e escrevia nos registros dela os números que ela conseguia fazer, e completava o resto com os dele.
Quatro em papel. Um e um pedaço em pedra.
E o setor consumia, por mês, entre onze e treze mil cartuchos consagrados só para as guarnições de trilho, e mais quatro mil para os postos avançados, e mais o Sal — e o Sal era o pior de todos, porque o Sal de Selo não se benzia por unidade, benzia-se por tonelada, e uma tonelada levava três dias de um homem inteiro, e o setor tinha nove aldeias com perímetro doméstico a renovar antes do inverno, e o inverno começava em cinco semanas.
Onésimo fez a conta outra vez. Fez a conta uma terceira vez. Fez a conta uma quarta vez com o lápis, no verso do registro, devagar, como quem procura o erro que sabe que não vai encontrar.
Depois ficou muito quieto, com o lápis pousado, e a quietude dele naquela sala era a mesma quietude que um pároco notara nele aos onze anos e chamara de vocação.
Só que agora ele já sabia o nome dela.
II. O Trilho
O quilômetro do cabo Halas era o cento e quarenta e dois, e ele conhecia-o de tal maneira que teria conseguido caminhá-lo de olhos fechados e dizer onde estava pelo som da bota — quatorze passos de brita solta depois da curva, depois pedra assentada, depois o trecho de dormentes novos de 1879 que ainda rangiam de um jeito diferente porque a madeira era de outro lote, e ninguém no mundo além dele e talvez de mais três homens sabia disso, e nunca ninguém precisara de saber.
Dezassete anos.
Ele tinha entrado com vinte e dois. Tinha entrado com a ideia — a ideia que todos os rapazes de Solnica tinham, e Solnica ficava a onze quilômetros dali, e havia mais homens de Solnica na guarnição do que homens de qualquer outro lugar — a ideia de que servir na guarnição de trilho era antessala, de que se fazia dois ou três anos ali e depois pedia-se transferência para o Limes, e no Limes é que se era soldado de verdade, e no Limes é que se via aquilo, e ele queria ver aquilo, todos queriam, do mesmo jeito confuso e faminto com que um rapaz quer ver o mar.
Dezassete anos. Cento e quarenta e dois. E ele nunca vira.
Nunca vira um demônio. Nem grande, nem pequeno, nem de longe, nem em fotografia decente. Vira uma vez, em 1874, uma coisa a trezentos metros que o sargento da altura jurou ser um Classe I e que Mirek, honestamente, achava ter sido um cão. Vira homens que tinham visto, e reparara que os que tinham visto de verdade não falavam disso e os que falavam disso não tinham visto. E vira, uma vez, o que sobra: um saco de lona que passou pelo posto num vagão de carga em 1881, com escolta de dois cavaleiros da Casa VII, e um dos cavaleiros deixou o saco no chão da plataforma enquanto ia mijar, e Mirek chegou perto, porque tinha vinte e nove anos e era estúpido, e o saco continha cinza — só cinza — e Mirek levantou-o com uma das mãos para ver quanto pesava.
Pesava demais.
Foi a única coisa em dezassete anos que ainda lhe voltava em sonho, e ele nunca conseguiu explicar a ninguém por quê, e desistiu de tentar por volta de 1884.
O ofício era este: caminhar. Caminhar o quilômetro cento e quarenta e dois de ponta a ponta, quatro vezes por turno, e olhar para os carris e para os taludes e para a linha de árvores, e não deixar que nada acontecesse. A doutrina exigia um posto a cada dez quilômetros desde o Massacre da Linha de Ferro, e isso significava — Mirek fizera a conta uma vez, com um capelão, numa noite em que ambos tinham bebido — que seiscentos mil homens no continente inteiro passavam a vida a garantir que nada acontecesse.
Seiscentos mil homens. Metade do exército de linha da Ordem.
— Metade — dissera o capelão, com o olhar de quem descobre uma coisa e imediatamente prefere não a ter descoberto. — Metade do exército existe para que a outra metade coma.
Mirek achara aquilo engraçado na altura. Deixara de achar por volta do décimo segundo ano.
Porque a verdade sobre o quilômetro cento e quarenta e dois — a verdade que ele nunca dissera à mulher, e que a mulher provavelmente sabia porque as mulheres de Solnica sabiam tudo o que os maridos não diziam — é que não acontecer nada não é a mesma coisa que paz. Não acontecer nada é um trabalho. É um trabalho que se faz com o corpo e que consome o corpo e que não deixa nada atrás, nem cicatriz, nem história para contar, nem sequer o direito de se queixar, porque queixar-se de quê, exatamente: de dezassete anos de caminhar por uma linha em que nada aconteceu, o que é precisamente o resultado que se pretendia?
Ele tinha quarenta e um cartuchos consagrados na cartucheira. Quarenta e um, contados, assinados, e ele sabia o nome do homem que os benzera porque o nome vinha no lacre da caixa: O. Farkas. Sabia que o regulamento dava cento e doze por ano. Sabia que nunca, em dezassete anos, tinha disparado um único.
E sabia — e isto era o que ele não dizia nem a si mesmo em voz alta, e portanto o dizia daquele jeito enrolado com que os homens dizem as coisas por dentro, começando por outro assunto e chegando ali por acidente — sabia que aqueles quarenta e um cartuchos custavam mais do que ele. Que cada um deles tinha levado vinte segundos de um homem que estava a morrer daquilo, e que quarenta e um cartuchos eram, portanto, treze minutos e quarenta segundos da vida de O. Farkas, mais a fração de todos os outros dias, e que a soma de todos os cartuchos de toda a guarnição era uma quantidade de vida humana que ele não conseguia representar, e que estava tudo parado, ali, em cartucheiras de homens que caminhavam por linhas onde nada acontecia.
Ele caminhou até ao fim do quilômetro. Voltou.
O vento vinha de leste e vinha frio e vinha com aquele cheiro de terra seca que o pessoal velho de Solnica chamava de vehrannen, e Mirek dizia a palavra desde criança sem nunca ter perguntado o que era, do mesmo modo que dizia dezenas de outras coisas, e se alguém lhe tivesse dito naquela tarde que estava a dizer veio o vento do mundo que havia antes, ele teria rido e continuado a caminhar.
Sopra sempre na semana do Feriado. É o que se sabe.
O despacho chegou na quarta-feira, pelo comboio das duas, num maço com a correspondência ordinária e o correio pessoal e três jornais de Pradel com quatro dias de atraso.
O sargento leu-o duas vezes. Depois chamou Mirek, e leu-o em voz alta, e a leitura demorou menos de um minuto.
Mirek esperou pelo resto.
— É isso — disse o sargento.
— Como é que é isso.
— É isso, Halas. Recolher os postos do cento e trinta ao cento e sessenta e dois. Passar para a retaguarda até dia trinta. Está aqui.
— E a guarnição fica onde.
— No cento e vinte.
Mirek fez a conta com uma facilidade que lhe pareceu obscena.
— São vinte e dois quilômetros.
— São.
— E o inimigo está onde, sargento.
O sargento olhou para ele. Era um homem de Bielgrod, catorze anos de posto, e não tinha nenhum motivo para responder àquilo a um cabo, e respondeu na mesma, e a resposta foi a coisa mais honesta que Mirek ouviu naquele outono:
— Onde sempre esteve. A oitenta quilômetros. Não se mexeu.
E ficaram os dois ali, na plataforma, com o maço da correspondência ainda por abrir e os três jornais de quatro dias de atraso, e o vento de leste, e o quilômetro cento e quarenta e dois atrás deles com os catorze passos de brita solta depois da curva.
— Então porquê — disse Mirek.
E o sargento — que também não sabia, que só saberia em fevereiro, quando a Comissão de Inquérito publicasse o fólio 12 e o fólio 12 circulasse pela guarnição inteira num único exemplar mal copiado que passou de mão em mão durante três semanas — encolheu os ombros com aquele gesto de quem já não espera que as ordens tenham motivo, e disse:
— Não diz.
III. A Ordem
Diocese de Pradel-Leste — Chancelaria — Despacho n.º 411 de 1887
Ao Comando de Setor, às Casas Paroquiais de Strazhka-Pequena, Solnica, Vieska, Bierkut, Dolna Ruda, Trzy Krzyże, Hnilec, Zamostie e Wąska Woda, e à 3.ª Companhia de Guarnição Ferroviária.
Considerando o estado dos meios sacramentais do setor;
Considerando a impossibilidade material de assegurar a renovação dos perímetros domésticos das povoações supra antes do início da estação fria;
Considerando que a manutenção de perímetro incompleto constitui risco superior à ausência de perímetro, por induzir confiança não correspondida;
Determina-se:
1.º — A retirada da população civil das nove povoações, para os concelhos de retaguarda designados em anexo, com termo a 30 do corrente.
2.º — O recolhimento dos postos de guarnição do quilômetro 130 ao 162, com reposição da linha de vigilância no quilômetro 120.
3.º — O levantamento dos Santíssimos, alfaias e livros paroquiais, a cargo dos respetivos párocos.
4.º — A presente determinação não é matéria de anúncio público. Não haverá toque de sino.
Pradel, aos 21 de outubro de 1887.
Pelo Cabido, o Cônego Chanceler, Bartolomeu Sroka
IV. O Altar
Bartolomeu Sroka assinou o despacho 411 às onze e vinte da manhã de vinte e um de outubro, e às onze e vinte e um estava a olhar para a própria assinatura, e às onze e vinte e dois percebeu que não conseguia parar de olhar para ela, e às onze e meia ainda estava ali.
Não era a decisão. A decisão estava certa. Sroka tinha cinquenta e oito anos e vinte e seis de chancelaria e sabia distinguir uma decisão certa de uma decisão confortável com uma clareza que lhe custara, ao longo da vida, quase todos os amigos que tivera: a decisão estava certa porque um perímetro pela metade era pior do que perímetro nenhum, e era pior por uma razão que nenhum leigo aceitava e que todo clérigo operacional conhecia — porque a aldeia com sal velho na soleira dorme como quem tem sal novo, e manda as crianças à lenha ao anoitecer, e deixa a porta encostada em noite quente, e a aldeia sem sal nenhum não faz nada disso. O que mata não é a falta. É a confiança não correspondida.
Isso estava certo. Sroka escrevera-o no próprio despacho, na terceira consideranda, e escrevera-o bem.
O que ele não conseguia parar de olhar era a quarta determinação.
Não haverá toque de sino.
Ele próprio a redigira. Ninguém lha impusera. Podia tê-la omitido e o despacho continuaria válido, e o efeito prático seria o mesmo, porque não havia sino de aviso para uma evacuação administrativa e nunca houvera, e portanto a determinação não determinava rigorosamente coisa nenhuma. Era supérflua. Um chanceler de vinte e seis anos de casa não escreve linhas supérfluas.
Escrevera-a porque tinha medo do sino.
Porque se um pároco de qualquer daquelas nove aldeias tocasse o sino — e o Vit Halas de Strazhka-Pequena era perfeitamente capaz de tocar o sino, era exatamente o género de homem que tocaria o sino —, o sino seria ouvido em Solnica, e de Solnica em Bierkut, e o continente inteiro tem um único vocabulário para sino tocado fora de hora, e esse vocabulário diz estão a chegar. E não estavam. Não vinha ninguém. O inimigo estava a oitenta quilômetros e não se mexera desde 1859.
Se o sino tocasse, nove aldeias sairiam a correr de uma coisa que não existia, e três dias depois alguém perguntaria de que é que tinham fugido, e a resposta teria de ser dada, e a resposta era:
De nós. Fugiram de nós. Fugiram porque nós não conseguimos mais.
Sroka pousou a pena. Olhou para a janela, onde a manhã de Pradel estava exatamente igual a todas as manhãs de Pradel, com o mesmo pó de sal a assentar nos peitoris, o mesmo pó que assentava desde 1781, o mesmo pó que ele limpava com o polegar todas as manhãs sem pensar e que naquela manhã não limpou.
Depois fez uma coisa que não constava de nenhum protocolo da chancelaria: tirou de uma gaveta o mapa do setor, abriu-o na mesa, pegou na régua, e mediu.
Vinte e dois quilômetros.
Ficou a olhar para a régua sobre o papel. E o pensamento que lhe veio — o pensamento que ele teria dado uma quantia considerável para não ter tido, ali, com a régua na mão — foi que aquela era a primeira vez em vinte e oito anos que a linha se mexia no mapa, e que a última vez fora em Cherniwicz, em 1859, e que em Cherniwicz a linha andara duzentos quilômetros para a frente, e que toda a gente do continente sabia a palavra Cherniwicz.
E ninguém, nunca, iria saber a palavra Pradel.
Porque não haveria batalha para lhe dar nome. Não haveria mortos para contar. Não haveria relatório de perdas, nem despacho de louvor, nem gravura na imprensa ilustrada, nem sermão. Haveria nove aldeias vazias e um número administrativo, e daqui a vinte anos alguém em Aurum Roma que olhasse para dois mapas em cima da mesa notaria uma diferença de vinte e dois quilômetros e não teria a mais pequena ideia do que a tinha causado.
Sroka enrolou o mapa. Guardou a régua.
E rezou — porque também ele rezava, e rezava bem, e era essa a parte que ninguém acreditaria se ele contasse — rezou pedindo perdão não por ter recuado, que estava certo, mas pela quarta determinação, que era covardia com aparência de prudência, e ele sabia distinguir as duas coisas com aquela clareza que lhe custara todos os amigos.
Não retirou a determinação.
Em Strazhka-Pequena, o padre Vit Halas leu o despacho na sexta-feira à noite, sozinho, sentado no banco da frente da própria igreja, porque a casa paroquial era fria e a igreja era pior mas na igreja ele conseguia pensar.
Leu-o três vezes. Não por não perceber. Por hábito.
Depois levantou-se e foi ver o que havia.
E o que havia era isto, e ele foi vendo pela ordem em que se vê quando se está a decidir e ainda não se sabe que se está a decidir:
Havia o Santíssimo, que ia. Isso não era decisão. Havia o cálice e a patena de Ouro Litúrgico, do inventário de 1836, que iam. Havia os três livros paroquiais — batismos desde 1791, casamentos desde 1791, óbitos desde 1791 —, e os livros iam, e os livros pesavam onze quilos os três, e a carroça era a carroça do Marek Halas, e o Marek Halas tinha um cavalo.
Havia o sino.
O sino era de 1804 e pesava perto de trezentos quilos e estava a doze metros de altura numa torre construída à volta dele, e não havia maneira nenhuma de tirar aquele sino de Strazhka-Pequena com um cavalo, e o padre Vit ficou muito tempo debaixo da torre a olhar para cima, e o pensamento que teve foi que o sino ia ficar ali a tocar sozinho ao vento durante os anos que se seguissem, sem ninguém para o ouvir, e que era isso, era exatamente isso e nada mais complicado do que isso, que ele não conseguia suportar.
Havia a pia batismal, que era de pedra e ficava.
Havia a argamassa. E aqui o padre Vit parou, e encostou a palma da mão à parede lateral da nave, do lado de dentro, onde o reboco estava por rebocar desde a reparação de 1869 e se via a argamassa crua — e a argamassa crua de Strazhka-Pequena tinha Cinza-Santa misturada, como toda a argamassa de toda a igreja de todo o continente cristão, e o padre Vit sabia quanto custava, e sabia que a Cinza-Santa na parede era a razão pela qual aquela nave era o único metro quadrado de solo naquela aldeia onde um pacto não pegava, e sabia perfeitamente que ia deixar aquela parede ali.
E depois disso, quando já tinha visto tudo, é que ele viu a coisa que não estava no inventário.
Estava na parede sul, à altura do peito, escrito a canivete numa pedra, e estava ali desde antes de ele chegar, e ele chegara em 1852:
V. H. + M. K. — 1817
Não sabia quem eram. Nunca tinha sabido. Tinha perguntado uma vez, aos velhos, em 1854, e os velhos não sabiam, e os velhos que talvez soubessem já tinham morrido em 1854. Setenta anos de missas rezadas a meio metro daquelas quatro letras, e ele nunca conseguira descobrir de quem eram, e passara a rezar por eles do mesmo modo que se reza por um nome ilegível numa lápide, isto é, com uma espécie de teimosia particular que não interessava a ninguém.
O padre Vit Halas, sessenta e três anos, quarenta e um de sacerdócio, pôs a mão em cima das letras.
E percebeu, com uma clareza que lhe pareceu quase indecente pela simplicidade, que era isto que ele ia deixar. Não o sino, que era grande e caro e de que se falaria. Não a pia. Não a parede com Cinza-Santa que custava um ano de dízimo da aldeia inteira.
Ia deixar duas pessoas que se tinham gostado em 1817 e a quem alguém rezara durante trinta e cinco anos sem saber os nomes.
E depois disso — depois disso não haveria mais ninguém a rezar por eles. E era essa a perda. A perda inteira, a perda verdadeira, a única perda que aquele despacho realmente produzia e que não constava dele em parte nenhuma, era que ia deixar de haver quem rezasse.
Ficou ali algum tempo.
Depois foi buscar o cinzel.
V. O Carroceiro
O circuito eram onze dias e Marek Halas fazia-o desde os vinte e dois anos, e a única coisa que mudara em vinte e três anos fora o cavalo, três vezes, e uma delas mal.
Ia assim: saía de Strazhka-Pequena numa segunda, dormia em Vieska, descia a Bierkut pela estrada de baixo porque a de cima partia eixo, fazia Dolna Ruda e Trzy Krzyże no mesmo dia porque distavam uma légua e meia e as duas juntas não davam meia carga, subia a Hnilec, atravessava para Zamostie, tomava a curva comprida até Wąska Woda, e no nono ou décimo dia entrava em Solnica, que era a maior e a última e a única onde ele dormia duas noites, e voltava a casa na quinta ou na sexta conforme a chuva.
Levava pregos. Levava linha preta e linha branca e, duas vezes por ano, linha vermelha, que era para bordado e portanto para casamento. Levava óleo de candeeiro em lata de dez litros, agulha, cravo de ferradura, açúcar em pão, tabaco de folha, chá mau, sabão, e sal.
Sal de cozinha. Sal grosso, de Pradel, do mesmo maciço de onde saía o outro, cortado das mesmas galerias por homens que desciam ao mesmo poço — e completamente inútil contra o que quer que fosse, porque não passara por cima dele nenhum padre, e porque o que fazia a diferença entre aquilo e o outro não era a pedra.
Vinte e três anos a ouvir a mesma piada em nove aldeias. E do outro, Marek, também trazes? E ele a responder sempre a mesma coisa, porque uma resposta que serve é uma resposta que não se troca: do outro trata o senhor padre, que eu não tenho as mãos limpas para isso. E as mulheres a rir, e ele a descarregar.
Tinha ainda, debaixo do banco, o livro.
O livro era um caderno de capa preta, comprado em Pradel em 1871 para substituir outro, e nele estava escrito quanto lhe deviam as nove aldeias. Não em conta-corrente de escritório, que Marek nunca aprendera; em linhas. Ostrowska, dois litros de óleo e sabão, deve. Kubik da forja, trinta cravos, pago em ferradura. Casa do moinho de Hnilec, açúcar de três circuitos, deve.
Eram, ao todo, e ele sabia-o de cabeça sem nunca ter somado, qualquer coisa como onze meses de trabalho por cobrar. Nunca cobrara por carta e nunca cobrara com voz alta, porque numa aldeia de cento e poucas pessoas a dívida não é instrumento financeiro: é uma forma de as pessoas continuarem a precisar umas das outras, e um carroceiro que cobra a sério deixa de ser carroceiro e passa a ser credor, e a aldeia arranja outro.
Foi com o livro debaixo do banco que ele saiu de Pradel na terça-feira, vinte e cinco de outubro, com nove sobrescritos lacrados em cima da carga.
Deram-lhos na chancelaria, num guichê de madeira escura, e o escrevente — um rapaz de vinte e poucos anos, de manguitos — contou-os em voz alta à frente dele, um a um, e pediu-lhe que assinasse a folha de entrega.
Marek assinou. Depois ficou a olhar para os nove.
Porque em vinte e três anos a chancelaria mandara-lhe coisas: circulares de dízimo, tabelas de festa móvel, uma vez um decreto sobre cemitérios que ninguém percebeu. Mandava-as em maço aberto, atado com fio, e o fio era o luxo que havia.
Nove sobrescritos lacrados, lacre por lacre, cera vermelha, com o selo do cabido carimbado de fresco em todos.
— É para hoje? — perguntou o escrevente, sem levantar a cabeça.
— É para o circuito.
— Então é para hoje.
E Marek Halas, que tinha quarenta e cinco anos e não era homem de fazer perguntas na cidade, pegou nos nove sobrescritos, arrumou-os debaixo da lona, e saiu de Pradel com uma coisa parada no peito que não conseguia nomear e que não tinha nada que ver com medo — porque ele já tivera medo na vida, várias vezes, e sabia o formato do medo, e aquilo não tinha aquele formato. Aquilo era mais parecido com a sensação de se estar a carregar chumbo e de não se ter pesado a carga à saída.
Em Vieska não abriram na frente dele. O padre de Vieska tinha setenta e um anos, agradeceu, pousou o sobrescrito na mesa da sacristia com o lacre virado para baixo, e perguntou-lhe pela mulher.
Em Bierkut abriram.
O padre de Bierkut chamava-se Pawlak, tinha quarenta e três anos, era de Cracoviana e falava depressa. Rasgou o lacre ali, de pé, no adro, com Marek ainda a segurar as rédeas, leu, virou a folha para ver se havia mais, não havia, leu outra vez, e depois fez uma coisa que Marek não esperou: voltou-se para ele e leu em voz alta.
Leu tudo. As três considerandas. As quatro determinações. A data. A assinatura.
E no fim ficaram os dois no adro, e a manhã em Bierkut estava azul e seca, e havia uma mulher a bater um cobertor a vinte metros dali, e o som das pancadas continuou durante todo o silêncio dos dois.
— Isto é verdadeiro? — disse o padre Pawlak.
E Marek percebeu, com uma clareza desagradável, que a pergunta não era sobre o papel. O papel era obviamente verdadeiro. A pergunta era se o mundo lá fora — a estrada, os outros oito sobrescritos, Pradel, o cabido, o continente — estava mesmo a fazer aquilo, ou se havia algures um degrau que ainda ia aparecer e desfazer a coisa.
— Levo mais oito iguais — disse Marek.
O padre Pawlak olhou para a lona da carroça.
Depois disse obrigado, o que era absurdo, e entrou na igreja, e Marek ficou no adro com a mulher a bater o cobertor, e foi-se embora sem descarregar os pregos, e só se lembrou dos pregos à saída da aldeia, e não voltou para trás.
A partir dali ele já sabia, e essa foi a parte pior — não o saber, mas o chegar sabendo.
Porque um carroceiro chega e é visto de longe. A aldeia ouve o eixo antes de ver a carroça, e há sempre alguém à porta, e há sempre uma criança que corre até à estrada e volta a dizer que é o Marek, e as mulheres saem com o dinheiro ou sem ele, conforme o mês, e o ferreiro levanta a cabeça, e é uma espécie de pequena festa mínima e absolutamente igual todas as vezes, onze dias atrás de onze dias, e ele passara vinte e três anos a ser aquilo para aquelas nove aldeias.
E em Dolna Ruda, e em Trzy Krzyże, e em Hnilec, e em Zamostie, e em Wąska Woda, ele chegou com os pregos e a linha e o óleo e o açúcar em pão, e descarregou, e recebeu o que havia para receber, e escreveu no livro de capa preta o que ficava por receber — e entregou o sobrescrito no fim, sempre no fim, porque entregar primeiro teria sido impossível.
Em Dolna Ruda o padre leu sozinho e pediu-lhe que ficasse para o jantar. Marek ficou.
Foi o jantar mais estranho da vida dele, e não por causa do que se disse. Estavam quatro à mesa — o padre, a irmã do padre, o filho do ferreiro que ajudava à missa, e ele — e falou-se do preço do centeio, e de uma vaca de Zamostie que tinha parido gémeos, e de um primo em Pradel que arranjara lugar nos caminhos de ferro, e de um cão. Falou-se de um cão durante quase um quarto de hora.
Ninguém mencionou o papel. Estava em cima do aparador, aberto, com o lacre partido, a três passos da mesa, e ninguém olhou para ele nem uma vez, e a maneira como ninguém olhou para ele era tão cuidada, tão bem executada, tão igual em quatro pessoas que não tinham combinado nada, que Marek percebeu a meio da sopa que estava a assistir a uma coisa que não tinha nome e que a aldeia já sabia fazer.
Deram-lhe um colchão na despensa. Ele não dormiu logo.
E o que pensou, deitado no escuro com o cheiro das maçãs de inverno em cima dele, foi que em vinte e três anos de estrada nunca lhe tinham mentido daquela maneira — sem uma única palavra falsa, sem um único desvio, com toda a gente a dizer apenas coisas verdadeiras sobre centeio e vacas e cães durante uma hora e meia inteira.
Percebeu que era delicadeza. Levou mais um bocado a perceber que a delicadeza era com ele.
Em Trzy Krzyże o padre tinha morrido em agosto e não fora substituído, e quem recebeu o sobrescrito foi a mulher que abria a igreja, e ela não sabia ler, e pediu ao filho, e o filho tinha dezasseis anos e leu mal e leu até ao fim, e depois a mulher não disse nada e guardou o papel no avental, e Marek não conseguiu perceber se ela entendera ou não, e nunca soube, porque não voltou lá.
Em Hnilec o padre perguntou-lhe se as outras oito também. E ele disse que sim.
Em Zamostie o padre perguntou-lhe se ele ia levar gente na carroça, e Marek — que até àquele instante não pensara nisso, nem um segundo, nem de passagem — percebeu que ia, que era evidente que ia, que ia fazer aquele circuito quantas vezes fosse preciso durante cinco semanas com pessoas em cima da carga em vez de carga, e que a carroça dele era, naquele setor, e contando com a do moleiro de Hnilec que estava partida desde a primavera, a única que havia.
Em Wąska Woda o padre não estava e ele deixou o sobrescrito com a irmã do padre, e a irmã do padre segurou-o com as duas mãos, e olhou para o lacre, e disse: já sabemos.
Sabiam. Claro que sabiam. Marek trazia o papel a cavalo e a notícia ia à frente dele desde Bierkut, de aldeia em aldeia, pela estrada e pelos atalhos e pelo caminho velho do moinho, por quem vai buscar lenha, por quem casou com alguém de outro sítio, pelo modo como estas coisas correm num campo onde toda a gente é prima de toda a gente em terceiro grau.
O papel chegava sempre depois. O papel é que era o atraso.
Solnica foi a última e foi a que ele não conseguiu.
Solnica era grande — oitocentas e tal almas, forja, dois fornos, uma feira ao domingo — e tinha uma particularidade que Marek conhecia desde miúdo sem nunca ter pensado nela: a rua comprida, a que descia para o ribeiro, tinha as casas do lado de cá dentro de Sal Pradelica e as casas do lado de lá dentro de Vykhradia, e a fronteira passava no meio da rua, e nunca ninguém quis saber, porque a rua era uma rua e as pessoas casavam de um lado para o outro e o padre baptizava toda a gente e o cobrador vykhradiano aparecia duas vezes por ano e era mal recebido em ambos os passeios.
O despacho 411 era da diocese de Pradel-Leste.
Não tinha autoridade nenhuma sobre metade daquela rua. Nem um palmo. As casas do lado de lá respondiam a Vykhrad, e Vykhrad não recuara nada, e não tinha por que recuar, e não fora consultada.
Marek entregou o sobrescrito ao pároco e ficou depois à porta da taberna a ver a rua, e a coisa que viu naqueles dois dias foi esta, e foi a única de todo o circuito que ele contou à mulher ao fim de tudo:
A rua esvaziou-se inteira.
Os dois lados. As casas de Vykhradia também, que ninguém mandara sair, que nenhum papel mencionava, que podiam ficar com pleno direito e com a coroa vykhradiana por trás. Saíram na mesma. Primeiro duas famílias, depois seis, depois a rua.
Porque não é o perímetro doméstico que faz uma aldeia. É a aldeia que faz a aldeia. E quando vinte e duas casas de um lado de uma rua levantam o Santíssimo e atrelam o que têm, as vinte e uma do outro lado não ficam a olhar para a estrada vazia por uma questão de jurisdição.
Marek Halas viu aquilo e pensou uma única coisa, sem rodeios e sem teologia nenhuma, encostado à ombreira da taberna com o chapéu na mão:
O papel recuou vinte e dois quilómetros. A rua recuou sozinha.
Voltou a Strazhka-Pequena na sexta-feira, quatro de novembro, com a carroça quase vazia, o que nunca acontecia, porque ninguém encomendara nada para o circuito seguinte.
Foi isso, e não os sobrescritos, e não Bierkut, e não a rua de Solnica, que o apanhou: nove aldeias e nenhuma encomenda. Vinte e três anos e era a primeira vez. Ele tinha na cabeça, sem esforço, o que cada casa costumava pedir em novembro — óleo, sempre óleo, porque escurecia às quatro; linha preta, porque em novembro se remendava; cravo de ferradura, porque o gelo vinha e as bestas escorregavam — e não levava nada anotado para levar, e ia ter de descarregar em casa o que sobrara e olhar para aquilo encostado à parede.
Desatrelou. Deu de comer ao cavalo. Entrou.
A mulher estava à mesa com a candeia acesa e perguntou-lhe como tinha corrido, e ele começou a contar, e contou Bierkut e contou a irmã do padre de Wąska Woda e contou a rua de Solnica, e contou bem, melhor do que costumava contar coisas, porque trazia seis dias a ouvir-se dizer aquilo.
E a meio, a mulher disse:
— E a nossa?
Marek Halas parou.
Porque em seis dias e nove aldeias ele dissera aquilo de todas as maneiras que há — a aldeia vai sair, vocês vão sair, têm até ao dia trinta — e dissera-o dezenas de vezes, com paciência, a gente que lhe fazia perguntas a que ele não sabia responder, e não dissera uma única vez, nem a si próprio, dentro da cabeça, ao acordar, a palavra que faltava.
Estava na lista. Era a primeira da lista. Vinha antes de Solnica e de todas as outras, logo a seguir a Casas Paroquiais de, em letra de escrevente, com o nome inteiro.
Strazhka-Pequena.
Ele tinha o tio a tirar uma pedra da parede sul com um cinzel e o irmão a caminhar um quilómetro onde nunca acontecera nada, e passara a semana a ser o homem que traz a notícia aos outros, que é a coisa mais fácil do mundo a seguir a não a trazer a ninguém.
Não respondeu à mulher naquela noite. Levantou-se, foi buscar o livro de capa preta debaixo do banco da carroça, trouxe-o para a mesa, e ficou a folheá-lo à luz da candeia — Ostrowska, dois litros de óleo e sabão, deve — e a mulher deixou-o estar, porque era uma mulher de Solnica e sabia tudo o que os maridos não dizem.
Ele leu o livro inteiro. Onze meses de trabalho por cobrar, espalhados por nove aldeias que em vinte e seis dias deixariam de ser moradas.
Podia cobrar. Tinha o direito e tinha as linhas escritas e tinha, naquele instante, a única alavanca que um homem tem sobre gente que vai partir: estar ali antes de ela partir.
Fechou o livro.
Não o queimou, porque queimá-lo teria sido um gesto, e Marek Halas não era homem de gestos. Guardou-o na arca, debaixo da roupa de inverno, onde ficou os anos todos que se seguiram — e onde, muito depois, quando já ninguém sabia dizer onde ficava exatamente Trzy Krzyże, ainda era a única lista que existia no mundo dos nomes de quem tinha morado nas nove aldeias, casa a casa, com a letra torta de um carroceiro e um número ao lado de cada um.
VI. O Vento
Levaram nove dias a esvaziar Strazhka-Pequena, o que era mais do que o previsto e menos do que se temia.
Os primeiros a sair foram os que tinham parentes em Pradel, e saíram sem drama, quase com pressa, como quem aproveita uma desculpa que já esperava. Os últimos foram três casas de velhos, e a essas o padre Vit teve de ir buscar uma a uma, e numa delas — a da viúva Ostrowska, oitenta e um anos — teve de ficar sentado quatro horas antes de a mulher se levantar, e não disse nada durante as quatro horas, porque não havia nada a dizer e porque dizer alguma coisa teria sido pior.
A guarnição recolheu no dia vinte e oito.
O cabo Mirek Halas caminhou o quilômetro cento e quarenta e dois pela última vez na manhã de vinte e oito de outubro, sem que ninguém lho tivesse mandado, e caminhou-o inteiro, de ponta a ponta, e contou os catorze passos de brita solta depois da curva, e ouviu os dormentes de 1879 a ranger daquele jeito diferente que só ele e talvez mais três homens no mundo sabiam distinguir.
No fim, ficou parado uns minutos.
Não havia nada para ver. Havia o carril, e o talude, e a linha de árvores, e nada acontecia — nada, exatamente como em todos os dias dos dezassete anos, com a única diferença de que a partir daquela manhã o nada passaria a acontecer sem ninguém para o garantir.
Tirou a cartucheira. Contou. Quarenta e um.
Voltou a pô-la.
Onésimo Farkas soube do despacho pelo próprio despacho, porque a chancelaria enviava cópia aos purificadores licenciados do setor, e o seu nome estava na lista de distribuição em quarto lugar, entre um Kral que morrera em março e um Wozniak que estava em Ferrum Alpina desde maio.
Leu-o na oficina, de pé, com as mãos ainda sujas.
Depois sentou-se e ficou sentado até escurecer.
O que ele pensou — e pensou-o do modo enrolado e ao mesmo tempo brutalmente simples com que os homens sem instrução formal pensam as coisas que os homens com instrução formal levam livros a não conseguir dizer — foi que ele era o motivo.
Não o inimigo. Não a Estagnação. Não a Cúria, nem o cabido, nem o Cônego Sroka, que ele nem conhecia e a quem não guardaria rancor porque não havia rancor nenhum a guardar.
Ele. As mãos dele. Os sete segundos.
Se ele tivesse trinta e cinco anos, o setor tinha perímetro. Se o Kral não tivesse deitado numa quarta-feira, o setor tinha perímetro. Se a Ilinca conseguisse ficar na cadeira, o setor tinha perímetro. Havia nove aldeias a esvaziar naquele outono porque o número de pessoas capazes de fazer aquilo naquele canto do mundo tinha descido de quatro para um e um pedaço, e não havia mais nenhuma explicação por baixo dessa, e não haveria nunca, e era isso.
E depois — e foi isto que o levantou da cadeira, e foi isto que Onésimo Farkas nunca conseguiu explicar à Comissão de Inquérito em fevereiro, embora tenha tentado duas vezes e o escrivão tenha registado ambas as tentativas em fólios que ninguém leria — depois veio o outro lado da mesma conta.
Se ele era o motivo de as aldeias saírem, então ele era também o motivo de todas as outras terem ficado.
Vinte e nove anos. Nove gramas e meio de cada vez. Vinte segundos de cada vez.
Não havia registo daquilo. Não havia contagem, não havia medalha, não havia sequer maneira de estabelecer a proposição — porque o que ele produzira, ao longo de vinte e nove anos, não era uma quantidade de cartuchos: era uma quantidade de coisas que não tinham acontecido. Aldeias que não foram entradas. Homens que voltaram e não souberam porquê. Noites em que uma coisa chegou ao perímetro de sal de uma casa em Bierkut ou em Hnilec ou em Solnica e encontrou o sal aceso e foi-se embora, e a família lá dentro dormiu até de manhã e nunca soube de nada, e nunca saberia, e continuaria a não saber para sempre.
Isso não se pode contar. Isso não entra em fólio nenhum.
E Onésimo Farkas, que era filho de carroceiro e que teria continuado carroceiro, levantou-se da cadeira ao escurecer, acendeu a lâmpada, e voltou para a mesa, porque na terça-feira seguinte havia lote para o quilômetro cento e vinte.
Levantou a mão direita. Esperou.
Seis segundos.
Seis também dava.
Em Strazhka-Pequena, no dia trinta, quando já não havia mais ninguém, o padre Vit Halas fechou a igreja e não trancou, porque trancar seria ridículo.
Levava o Santíssimo, o cálice, a patena e os três livros paroquiais, e mais nada, porque o resto do que ele tinha decidido levar não ocupava espaço: levava, embrulhado num pano, no fundo do saco, um bocado de pedra da parede sul com quatro letras e uma data, cortado com um cinzel numa quinta-feira à noite por um homem de sessenta e três anos que não sabia trabalhar pedra e que estragou a parede à volta e não se importou.
Ficou um instante à porta.
O vento vinha de leste e vinha frio, e trazia aquele cheiro de terra seca que o pessoal velho chamava de vehrannen, e o sino de 1804 estava lá em cima, a doze metros, calado.
Não tocou o sino.
Foi a única coisa do despacho 411 que o padre Vit Halas cumpriu inteiramente, e cumpriu-a por sua conta, e não por obediência — cumpriu-a porque, de pé àquela porta, com o saco ao ombro, chegou exatamente à mesma conclusão a que o Cônego Sroka chegara em Pradel nove dias antes, e chegou a ela sozinho, e por um caminho completamente diferente, e não gostou dela do mesmo modo.
Um sino tocado ali, naquela manhã, não teria dito estão a chegar.
Teria dito o que era verdade, que é uma coisa muito pior de dizer aos vizinhos.
Subiu para a carroça do Marek. O cavalo andou.
E a linha ficou onde ficou, e ficou lá na primavera, e ficou lá em 1890, e o mapa que se desenhou nesse ano foi o mesmo mapa de 1859 com uma correção de vinte e dois quilômetros num único setor, feita a tinta mais nova, sem legenda.
"Pergunta o senhor cônego se houve combate. Não houve. Pergunta se houve mortos. Não houve. Pergunta então, com o devido respeito, o que é que houve.
Houve que nos acabou o que era preciso, senhor cônego, e o que era preciso não é pólvora."
— depoimento de Onésimo Farkas à Comissão de Inquérito de Pradel, fevereiro de 1888, fólio 12, segunda tentativa