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Tales of Cross
Livro Grátis, inteiro 245 min

O Cataclismo

Da queda de Ivandir à intervenção dos Arcanjos — 1780 a 1815

Ano
1780
Era
Era da Cinza
Onde
Ivandir e o leste
Leitura
245 min
páginas
196
O Cataclismo 1 de 196

Da Queda de Ivandir à Intervenção dos Arcanjos — outubro de 1780 a outubro de 1815

Contexto histórico

Outubro de 1780. No extremo leste do continente de Cross, em um reino que à época era a principal potência continental, com seiscentos mil habitantes em uma capital que se considerava a cidade-coroa do mundo cristão arcaico, a montanha rachou. Foi a primeira a rachar — e seria, em três semanas, a primeira de muitas.

O continente de Cross, naquele outono distante que viria a fechar-se como ponto-zero canônico de toda a história subsequente, conhecia oito potências políticas reconhecidas. Veheran, no extremo leste, era a maior. Ivandir, sua capital, era a maior cidade. O Rito Veherênico, sua confissão litúrgica anterior à centralização romana, era o referencial religioso de toda a cristandade do continente — peregrinos vinham de Brytonia insular, dos Alpes Kantonais, dos fiordes do norte germânico, das estepes vykhradianas, dos vinhedos meridianos para os quatro festivais anuais de São Veherano. A Sé que viria a se tornar Aurum Roma, naquela época ainda chamada simplesmente Sé Aurelina, reconhecia em fórmula canônica subscrita pelo Arcebispo Sergio II em 1689 o primado honorário do Patriarca de Ivandir. O leste mandava. O centro consultava. O oeste exportava.

E o continente, sob aquela hierarquia que parecia natural, já vinha — havia cem anos sem que ninguém ousasse nomear — esvaziando as suas igrejas. A prática litúrgica declinava, lenta mas continuamente, em vilas, em cidades, em paróquias, em catedrais. Primeiro em Ivandir, que era também a primeira em tudo. Depois em Aurum Roma, em Brithon, em Vykhrad, em Stromakra. As naves cresciam grandes e os fiéis pequenos. Os sermões dirigiam-se a um número decrescente. Os concílios menores classificavam os fenômenos estranhos — luzes votivas a tremular em conjunto, sinos que dobravam sozinhos, animais perdidos voltando das serras com olhos brancos — como fenômenos climáticos e arquivavam.

O que ninguém percebia, porque ninguém ainda tinha o vocabulário teológico para perceber, era que as prisões celestes sob as montanhas — colocadas nos princípios do mundo pelos altos Serafins durante a Teomaquia, conforme os manuscritos que Aurelianus I revelaria quarenta anos depois em coma litúrgico — eram sustentadas, em sua barreira metafísica operacional, por oração coletiva genuína. Fé em ato. Não fórmula recitada. Fé executada com propósito.

Quando essa fé diminuiu abaixo de um limite que nenhum teólogo humano calculou nem calcula — o Inferno percebeu. O Inferno é paciente.

Na noite de 17 para 18 de outubro de 1780, Ivandir caiu em catorze horas. Seiscentos mil mortos. A primeira porta abriu-se na Montanha da Coroa — hoje conhecida como Cordilheira do Iracundo, Selo VII —, e por aquela porta passaram, em diferentes ondas das semanas e meses seguintes, demônios do primeiro selamento, Vigias caídos da tradição enoquita que ali estavam presos desde o Dilúvio, e entidades sem nome canônico que a Inquisição posterior referiria apenas como os calados. A queda de Ivandir foi seguida pela queda de Vladigrad, Aurinopolis, Magnaport, e mais quatorze cidades veherênicas e adjacentes em três meses. O exército profissional de Veheran fragmentou-se. O Rei Teorbano III, em campanha militar fora da capital, sobreviveu — e dirigiu, dos vinte e seis anos seguintes, o recuo agonizante do reino para o que sobraria do oeste, em três cortes paralelas em Vehr-Maior, Sul-Vehr, Mons-Veher, Ostvehr.

O continente inteiro, em pânico desorganizado pelos primeiros cinco anos, viveu o que viria a ser chamado de Era da Cinza — trinta e cinco anos de choque, fragmentação, primeiros pactos heréticos, primeiras Brancas Médiuns nascentes, primeiras revelações angélicas fragmentárias do coro do Hashmal, primeira Intervenção dos Arcanjos em 1786 (conclave de vinte e três bispos em vigília de quarenta dias no Mosteiro de Vallia Sacra, descida dos Sete Arcanjos em onda destrutiva em raio que matou trinta mil soldados humanos pela própria salvação), refundação clerical centralizada em Aurum Roma, queda final de Veheran em 1813, eleição do Primeiro Um — Aurelianus I — no Sínodo dos Setenta também em 1813, e estabelecimento canônico da fronteira leste do Limbus Mundi em 1815.


"Quem nasceu antes do Cataclismo viu o mundo. Quem nasceu durante, viu o mundo cair. Quem nasceu depois — nós — vê o que sobrou. Estas três visões não se compreendem em conversa. Estas três visões se transmitem em silêncio. Que estas páginas sejam o silêncio transcrito, e não a conversa fingida."

— Prólogo manuscrito do Compilator Aurum, 1890


Prólogo do Compilator

Reuni para este volume — terceiro da série encomendada por Lumen I em 1889 — os fragmentos disponíveis sobre os primeiros trinta e cinco anos pós-Cataclismo. Os fragmentos chegaram-me em formatos variados: ata oficial de sínodo (capítulos sobre o conclave de 1786 e sobre a eleição de Aurelianus I), diário recuperado (Sister Ostra de Vehr-Sul, ano três de contato), depoimento sob juramento (Conde Esteban de Brytomark ao Sínodo dos Setenta em 1813), carta privada (Arcebispo Hesther em correspondência com sua mãe brytônica), crônica militar (Sebastien Korvac em arquivo da Reformada), depoimento camponês (Joana de Sárvar, aldeã da serra adjacente a Ivandir, em interrogatório inquisitorial de 1782), e tradição oral transcrita (anciões veherênicos refugiados em Aurum Roma, recolhida por mim em 1888-1890).

Costurei os fragmentos em narrativa contínua. Onde os fragmentos contradizem-se entre si — e contradizem-se em pelo menos onze pontos verificáveis —, anotei nas margens manuscritas a discrepância e segui a versão que pareceu, em juízo prudente, mais próxima do que os arquivos cruzados sustentam.

Onde os fragmentos calam — e calam em pelo menos seis episódios significativos, particularmente nos primeiros dois anos pós-Cataclismo, quando ninguém conseguia organizar registro escrito —, completei em voz canônica de minha responsabilidade autoral, baseando-me em tradições orais coerentes entre si e em registros indiretos. Esta completação é trabalho de cronista, não de testemunho. O leitor que desejar saber onde testemunho termina e cronista começa deverá consultar as notas manuscritas marginais que acompanham a edição completa do Cofre do Coro.

Este volume é, portanto, parte testemunho direto e parte reconstrução canonicamente fundamentada. É a forma — escrevo isto sem desculpas — que se pode produzir hoje, em 1890, cento e dez anos depois do evento, com testemunhas oculares todas falecidas e com a documentação direta perdida em ruínas que a Reformada ainda não autoriza expedição de recuperação.

Que este livro sirva à juventude que nunca conheceu nada além da Estagnação como aquilo que a Crônica das Cinco Eras já procurou ser: memória, instrução, advertência. E que sirva, sobretudo, como um lembrete de que o presente em que vivemos não é o estado natural dos homens. Houve mundo. Houve queda. Houve resposta. Houve, e nestas páginas se relembra.

Domine, ne abscondas. Compilator Aurum, Aurum Roma, ano de Nosso Senhor de 1890.


O que o arquivo registrou

Antes de a narrativa começar, deve ficar dito o que existe no arquivo, e em que estado existe.

Não há sobreviventes diretos de Ivandir. Não há um. Cada linha que se segue sobre a noite de 17 para 18 de outubro de 1780 foi recolhida de gente que estava longe o bastante para continuar viva: aldeões das serras adjacentes, mercadores que tinham acabado de partir pela estrada do sul, batedores militares de reinos vizinhos que subiram a crista para ver por que o céu tinha mudado de cor. A cidade não contou a própria queda. Contaram-na os que a viram de fora, e a distância a que cada um estava é a distância a que a verdade nos chegou.

Esta é a cronologia que a Cúria registrou. É a versão que se ensina às crianças dos sete Estados, e é a versão que se recita no oitavário do Feriado. Recolho-a aqui inteira, e sem a corrigir, para que o leitor tenha diante dos olhos aquilo que o continente julga saber antes de eu lhe mostrar o que os fragmentos dizem por baixo.

Tarde do dia 17. Primeiro tremor sentido em Ivandir. O sino da Catedral de São Veherano — o sino central, o que só se toca em coroação e em morte de rei — começa a tocar sozinho. O Arcebispo manda evacuar os bairros baixos. O Rei convoca o Conselho dos Quinze para vigília na Câmara Coroada. Nenhum dos Quinze pede para sair da cidade. Consta que a Câmara foi servida com o jantar de sempre.

Noite, por volta das dez. Segundo tremor, mais forte. Abre-se uma rachadura no flanco norte da Montanha da Coroa, a cordilheira adjacente. A aldeia da serra evacua em pânico. Os mercadores dos arrabaldes começam a fugir pela estrada do sul, e são eles — os que fugiram cedo, os que depois carregaram isso a vida inteira — a maior parte das nossas testemunhas.

Madrugada, por volta das três do dia 18. Terceiro tremor, devastador. A montanha rachou de cima a baixo. Algo subiu. Uma testemunha de aldeia a trinta quilômetros de distância — Joana de Sárvar, aldeã da serra, cujo depoimento foi tomado sob juramento em interrogatório inquisitorial de 1782, quatro meses antes da sua morte — descreveu assim, e a escrivaninha registrou palavra por palavra, porque o inquisidor mandou registrar palavra por palavra:

"Não era fumaça. Não era fogo. Era escuro andando dentro do escuro. E gritava sem boca."

Manhã do dia 18. Ivandir está em chamas. Um batedor de reino vizinho — o Conde Esteban de Brytomark, então com vinte anos, cujo depoimento ao Sínodo dos Setenta em 1813 é a nossa peça mais completa — chega à crista da serra e vê a cidade de cima:

"Os sinos tocavam todos juntos. Toda igreja, toda capela. Toda. E depois não tocaram mais."

Tarde do dia 18. Ivandir cai em silêncio. Da serra adjacente, os observadores veem erguer-se sobre a cidade fumaça em forma de letras. A Inquisição classificaria as letras, três anos mais tarde, como alfabeto Hor'kava. A tradução aceita é parcial, e é esta:

"A primeira porta. Vinde."

Três semanas depois. Vladigrad, Aurinopolis e Magnaport caem. Nenhuma das três tinha Selo próprio: caíram pela expansão do que saiu por Ivandir, que levou três semanas para as alcançar. É por isso que estão hoje as três sob o Limbo, e é por isso que não há nada a recuperar nelas.

Um ano depois. Rompe o Selo II. Depois o V, o III, o I, o IV, o VI — um por ano, de leste para oeste, com a pontualidade de uma coisa que está a contar. Ninguém viu o padrão enquanto ele acontecia. O padrão só ficou visível décadas mais tarde, quando alguém se sentou com um mapa e as datas ao lado e percebeu que a ordem não era acaso.

Sete parágrafos e duas frases de gente morta. Foi nisto que couberam seiscentas mil pessoas, uma coroa, um rito de mil anos e a última noite em que este continente foi o que era.

O que se segue é a tentativa de as tirar de lá.


ATO I — A QUEDA

Ivandir, 17-18 de outubro de 1780


I. A Noite Antes


A panela de cobre estava no fogo desde a hora nona, o que para Magda significava, sem que precisasse consultar o relógio do corredor que de qualquer modo não funcionava direito desde a primavera, que faltavam aproximadamente uma hora e meia para o jantar das meninas; tempo suficiente para terminar o caldo de carne, atravessar a despensa duas vezes em busca do louro seco que Marja escondia em jarra de barro porque Marja era nova no orfanato e ainda achava que se podia esconder coisas na despensa daquela casa, descascar as últimas três batatas, picar a cebola que sobrara da tarde, e — porque era o que ela sempre fazia naquele intervalo de uma hora e meia entre o caldo no ponto e o jantar servido — sentar-se por dois minutos exatos na banqueta de carvalho junto à janela da cozinha, encostar a têmpora contra a moldura, e olhar a praça do segundo distrito que se estendia além dos vidros estreitos.

A praça estava como sempre. Carruagens passando. Velhos sentados nos bancos sob os plátanos. Algumas crianças correndo, vindas do orfanato vizinho. A torre da catedral de São Veherano elevando-se ao fundo, com a sua cúpula em mosaico bizantino capturando os últimos raios da tarde como a cúpula sempre capturara nos vinte e nove anos em que Magda trabalhara naquela cozinha. Magda olhou. Demorou. Demorou um pouco mais que os dois minutos exatos.

Havia algo errado, e ela soube sem conseguir nomear, e isto irritou-a por dois segundos antes de a irritação ceder a uma curiosidade obtusa e domesticada que era a maneira pela qual Magda processava qualquer coisa que não coubesse no seu pequeno horizonte cotidiano. Olhou de novo. Olhou cada elemento. Carruagens — passavam normais. Velhos — sentados normais. Crianças — corriam normais. Plátanos — quietos no vento que vinha de oeste, normal para outubro. Torre da catedral — em pé, mosaico capturando luz.

Mas algo estava errado.

E ela então percebeu, com aquela percepção lenta dos que cozinharam vinte e nove anos no mesmo lugar e conhecem o ambiente com o olfato antes do olho: as pombas tinham sumido. As pombas da catedral, que se aninhavam nas calhas da torre e que à essa hora — à hora do crepúsculo, todos os dias do ano — desciam em bando para a praça para catar restos dos vendedores de pão que fechavam barraca; as pombas que Magda cumprimentava silenciosamente da janela todos os dias, como uma velha cumprimenta os hábitos pequenos que ainda lhe sobraram da juventude; as pombas, esta tarde, não estavam.

Olhou para cima. As calhas da torre estavam vazias. Olhou para o céu. As pombas não estavam voando nem em formação alta nem dispersas. Olhou para a praça. Não estavam catando nada. Magda inclinou-se para a frente, com a têmpora ainda na moldura, e escrutinou a praça inteira em busca de uma única pomba. Não havia. Em vinte e nove anos, Magda nunca tinha visto a praça do segundo distrito ao crepúsculo sem pombas. Não em outubro. Não em qualquer outro mês.

— Marja — chamou, sem virar a cabeça.

— Sim, dona Magda?

— Vem aqui.

A jovem Marja, que tinha catorze anos e tinha entrado para o orfanato como ajudante de cozinha havia apenas três meses, depois de ter sido transferida da casa Lvov por motivo que Magda preferia não saber, parou de descascar e atravessou a cozinha. Aproximou-se da janela. Magda apontou com o queixo para a praça.

— Vê pomba?

Marja olhou. Demorou. Marja era nova nos hábitos da cozinha, mas era observadora — Magda já tinha notado isto, e era a única coisa que tornava Marja tolerável apesar do louro escondido na despensa. Marja olhou cuidadosamente. Voltou os olhos para Magda.

— Não, dona Magda.

— Nenhuma.

— Nenhuma.

Magda assentiu de leve. Endireitou-se. Pegou o pano da bancada e secou as mãos, embora não tivesse acabado de tocar em nada que merecesse secagem. Atravessou a cozinha sem dizer mais nada. Foi à despensa pegar o louro — pegou-o sem comentar com Marja, que voltou às batatas em silêncio constrangido — e retornou ao fogo. Mexeu o caldo. Provou. Faltava sal. Pôs sal. Provou outra vez. Estava bom.

Mas continuou pensando nas pombas, e a maneira pela qual ela continuou pensando nas pombas, naquela hora antes do jantar, foi a maneira pela qual Magda Vehrensk sempre pensava em qualquer coisa que a desconfortava: rezando. Rezou em silêncio, dentro da própria cabeça, o Pai Nosso veherênico que tinha aprendido em criança com a sua avó na aldeia de Sárvar antes de migrar para Ivandir aos dezenove anos. Rezou três vezes — porque os anciões veherênicos selavam três vezes, e porque Magda, embora não pertencesse à liturgia oficial do Rito por preguiça acumulada de uma vida sem dramas, mantinha as fórmulas privadas que tinha aprendido sem perguntar. Rezou pela tarde. Rezou pelas pombas. Rezou pelas meninas que em uma hora viriam jantar a sopa que estava no fogo. Rezou por si mesma, por hábito, sem pedir nada específico.

Quando terminou a terceira repetição, sentiu — e isto, ela registrou consigo mesma, era o tipo de sensação que ela teria registrado havia trinta anos e que nas últimas duas décadas tinha começado a ignorar sistematicamente por considerar superstição inútil de velhice — sentiu que algo estava ouvindo. Não Deus. Não exatamente. Algo. Alguma coisa que não era Deus mas que ocupava o espaço que Deus ocupa quando se reza com atenção. A sensação durou três segundos. Depois passou.

Magda pegou o cucharão. Mexeu o caldo. Chamou Marja para arrumar a mesa das meninas. Continuou a tarde.

Mas pela primeira vez em vinte e nove anos naquela cozinha, deixou a panela cair em silêncio em vez de bater no fogão para anunciar o fim do preparo, como sempre fazia, porque o ruído de cobre contra ferro pareceu, naquele exato instante, algo que não devia ser feito naquela tarde.

Sentou-se à mesa lateral. Pôs a cabeça entre as mãos. Marja olhou-a de soslaio. Magda não a viu. Magda olhava para o chão de pedra polida, e no chão de pedra polida, em silêncio, dois segundos antes de Marja perceber o tremor que estava prestes a começar, Magda viu o cucharão de cobre cair lentamente da bancada onde o tinha pousado, sem que ninguém o empurrasse, sem que o vento o movesse, sem que nada que ela conseguisse identificar lhe impusesse a queda.

Caiu. Bateu no chão. Rolou três voltas e parou.

Magda continuou em silêncio. Não levantou. Não pegou o cucharão.

E foi quando o primeiro tremor chegou.


II. O Primeiro Tremor


Esteban tinha lido o contrato pela terceira vez e ainda assim a cláusula sexta lhe parecia ambígua, e em ambiguidade contratual a única coisa que distinguia um herdeiro brytônico promissor de um herdeiro brytônico medíocre era o reflexo treinado de reler até a ambiguidade tornar-se decisão, como o seu pai sir Aldous lhe tinha repetido ao longo dos sete anos em que o estava treinando para suceder a chefia da casa Brytomark menor; e por isso, naquela noite de outubro em hospedaria de cidade estrangeira a três mil quilômetros do conforto da sua biblioteca em Brithon, Esteban relia, sentado à mesa, com o cotovelo direito apoiado nas folhas de couro e a destra fechada sobre o cálice de vinho rosado de Stromakra que o estalajadeiro lhe servira sem pedir e que ele tinha aceitado sem comentar porque negar bebida a um estalajadeiro estrangeiro era falha diplomática menor mas era falha.

Quando o primeiro tremor veio, Esteban acreditou, durante exatamente um segundo e meio, que o tremor vinha de dentro dele.

Tinha bebido pouco. O seu pai tinha-lhe ensinado, entre as muitas regras práticas de governo de casa, que em negociação no estrangeiro nunca se bebia mais que dois cálices até o fechamento do contrato — e Esteban estava no primeiro cálice, sorvido lentamente em cinco intervalos. Mas mesmo assim, no primeiro segundo do tremor, o seu corpo registrou primeiro que a cadeira tinha-se movido, e ele pensou que tinha sido a sua coxa esquerda a empurrar a cadeira sem que ele tivesse percebido, ou que o cálice na sua destra tinha tilintado contra a folha de couro do contrato por alguma instabilidade momentânea da sua própria mão.

No segundo segundo, percebeu que a cadeira estava se movendo sozinha, e o cálice estava tilintando sozinho, e as folhas de couro do contrato estavam vibrando sozinhas, e o vinho rosado dentro da jarra de barro sobre a mesa estava — Esteban via a superfície agora com a clareza repentina que apenas o medo concede — formando círculos concêntricos finos a partir do centro, como se uma pedra tivesse caído nele, embora pedra alguma houvesse caído.

Levantou-se. Pousou o cálice. A mão estava firme. A mão estava firme, ele registrou, com aquele orgulho rápido e quase pueril que jovens herdeiros têm quando descobrem, em momento de teste real, que o treinamento paterno lhes deixou alguma coisa de útil. A mão estava firme. A cadeira é que se movia. A casa é que tremia.

Atravessou o quarto até a janela. A janela do quarto número quatro da Hospedaria do Mosaico dava para a Travessa de São Veherano, estreita, em pedras de basalto vulcânico importado das ilhas meridianas, com a Catedral de São Veherano em segundo plano elevando-se quatro quarteirões à frente. Era esta vista que Esteban estivera examinando, durante os três dias da sua estadia em Ivandir, em todos os intervalos do trabalho diplomático — porque a catedral, com o seu mosaico bizantino e os doze sinos consagrados e a cúpula em ouro de Sárvar, era a única razão pela qual Esteban tinha aceitado pessoalmente a missão comercial em vez de tê-la delegado ao seu primo Gregory, que era o que sir Aldous lhe tinha sugerido inicialmente: porque ele, Esteban, jovem brytônico de vinte anos, queria, antes que a carreira lhe tomasse a juventude, ver a Catedral de São Veherano com os próprios olhos, e em três dias tinha visto, e tinha rezado nas três missas vespertinas, e tinha — embora a casa Whithall jamais admitiria publicamente — sentido-se mais perto do que entendia por Deus do que se sentia havia anos em sua paróquia familiar em Brytonia.

Encarou a janela. O tremor estava agora mais forte. Os vidros vibravam audivelmente, com aquele som de cristal contra cristal que faz vibração estrutural quando passa de mecânica a sísmica. Lá fora, na Travessa, três homens corriam para a praça do terceiro distrito gritando algo em veherênico que Esteban não dominava o suficiente para traduzir. Uma carruagem tinha parado, com o cavalo agitando a cabeça e relinchando.

E foi neste instante — o terceiro segundo do tremor, segundo a contagem que Esteban refaria depois, mil vezes, em correspondência e em depoimento ao Sínodo dos Setenta trinta e três anos mais tarde — que os sinos da Catedral de São Veherano começaram a tocar.

Não eram tocados. Esteban soube imediatamente, porque a cúpula da catedral era visível da janela da hospedaria e nenhuma figura humana estava nela, e porque os sinos consagrados de São Veherano eram doze e estavam tocando todos os doze simultaneamente em uma harmonia perfeita que nenhum sineiro humano produziria sem erro nas primeiras três pancadas, e porque — esta era a parte que Esteban relataria com hesitação durante o resto da vida — o tom dos sinos não era o tom canônico do Rito Veherênico em hora de emergência, que ele tinha estudado em manual antes de viajar, mas um tom outro, mais grave, mais lento, em ritmo que não correspondia a nenhuma fórmula registrada.

Esteban encostou a têmpora no vidro da janela. O vidro estava frio. O tremor continuava. Os sinos continuavam. E em algum ponto entre o terceiro e o quarto segundo, ele teve, com a clareza que apenas o medo absoluto produz, uma certeza pequena e terminal que ele jamais comunicaria a sua mãe brytônica em correspondência: alguém estava chamando aqueles sinos para tocar daquela maneira, e quem estava chamando não estava na catedral.

Vestiu o casaco. Pegou a espada de viagem — não a usava em hospedaria por questão de decoro, mas estava ali, na arca aos pés da cama, e ele a pegou sem pensar. Pegou também a bolsa de couro com os contratos da casa Whithall, porque mesmo no medo, mesmo no terceiro segundo de algo que ele ainda não conseguia nomear, o reflexo treinado de proteger a documentação comercial em emergência veio antes de qualquer outro reflexo, exatamente como sir Aldous lhe tinha ensinado.

Desceu as escadas da hospedaria. O Mosaico estava em pânico crescente — o estalajadeiro, em pé atrás do balcão, gritando ordens para a esposa em veherênico rápido demais para Esteban acompanhar; três hóspedes brytônicos que ele tinha conhecido superficialmente nos dias anteriores descendo as escadas atrás dele com casacos meio vestidos; uma criança chorando no segundo andar. Esteban atravessou o salão. Tentou conversar com o estalajadeiro, mas o estalajadeiro estava acima de qualquer conversação. Saiu para a Travessa.

A Travessa estava cheia. A cidade inteira parecia ter saído. O tremor, agora — ele perceberia depois que tinha sido o segundo tremor, mais forte que o primeiro, em sequência de três que culminaria às três da madrugada com o terceiro tremor, o devastador — continuava sob os pés, mas em magnitude menor, em vibração contínua sem pico claro. Os sinos da Catedral de São Veherano continuavam.

Esteban olhou para a praça do terceiro distrito. Estava cheia. Estava cheia como ele nunca tinha visto praça cheia em três dias de Ivandir — havia talvez duas mil pessoas em uma praça que cabia mil. Todas olhavam para a montanha.

A Montanha da Coroa elevava-se a sete quilômetros ao norte de Ivandir, parte da cordilheira oriental que separava o reino de Veheran das estepes vykhradianas. Esteban tinha-a visto, em sua chegada três dias antes, como elemento secundário da paisagem — uma silhueta cinzenta no horizonte, com neve no cume desde setembro, sem nada de especial. Agora, naquela noite, à luz mista das tochas e do crepúsculo que ainda recusava-se a apagar plenamente, Esteban olhou para a Montanha da Coroa e viu uma rachadura.

A rachadura era enorme. Estendia-se desde o cume — onde a neve, Esteban percebeu com clareza absurda, brilhava em vermelho — descendo pela face norte da montanha em linha quebrada que rachou contra o céu como uma cicatriz que se abre. Da rachadura saía fumaça. A fumaça subia, e a fumaça — porque era esta a parte que Esteban nunca conseguiria explicar adequadamente a sua mãe em correspondência, ainda que tentasse repetidamente nos seis meses seguintes — a fumaça subia em forma de letras.

Esteban não lia veherênico. Mas reconheceu, sem ter como reconhecer, que aquilo era escrita. Caracteres. Algum alfabeto. Não o latino. Não o veherênico. Algo outro. E os caracteres subiam, formavam-se contra o céu cinza, mantinham-se por dois ou três segundos legíveis para quem soubesse ler, dissipavam-se, e eram substituídos por caracteres novos que vinham logo abaixo. A montanha estava escrevendo no céu.

Esteban ficou parado. À volta dele, o terceiro distrito de Ivandir continuava o seu pânico orquestrado. Ouviu alguém atrás dele rezar o Pai Nosso veherênico em voz alta, três vezes, como os anciões selavam. Ouviu uma mulher chorar. Ouviu um homem gritar em veherênico uma palavra que Esteban entenderia mais tarde, em refúgio, como sendo o termo coloquial veherênico para fim. Ouviu os sinos continuarem.

E neste instante, exatamente, sentiu — pela primeira vez na vida, sem que nada na sua educação brytônica protestante moderada o tivesse preparado para isto — que o mundo do qual ele tinha vindo, em três semanas de viagem desde Brithon, já não existia. Algo tinha terminado. Algo outro tinha começado. Ele estava entre os dois.

Olhou para a hospedaria à esquerda. Olhou para a praça à direita. Olhou para a Travessa. Olhou para a Catedral de São Veherano, cujos sinos continuavam a bater em ritmo que não pertencia a nenhuma fórmula canônica.

E foi neste momento — neste exato momento, conforme registrado em depoimento ao Sínodo dos Setenta em 1813 — que sentiu, na bolsa de couro com os contratos da casa Whithall, um peso adicional que não estava ali quando saiu do quarto.

Pegou a bolsa. Abriu. Os contratos estavam dentro. Mas em cima deles, sobre o couro virgem, havia agora — Esteban juraria em juramento perante o Sínodo trinta e três anos depois — uma medalha veherênica antiga com a face de São Veherano gravada em prata oxidada, que ele não tinha colocado ali, que ele nunca tinha visto antes, e que pesava aproximadamente duas onças contra a sua palma como peso pequeno mas real.

Esteban segurou a medalha. Olhou para a Catedral. Olhou para a montanha em rachadura. Olhou para a medalha. Fechou os dedos sobre ela.

E começou a correr.

Correu não pela rua principal, que estava obstruída pela multidão, mas pelas travessas laterais que ele tinha aprendido a navegar nos três dias de Ivandir. Correu em direção ao Orfanato de São Veherano-Menor, que ficava a oito quarteirões da hospedaria, no segundo distrito, e onde — ele lembraria depois, em explicação que ele próprio não conseguia justificar racionalmente — ele sabia que precisava ir, sem saber por quê, em obediência cega à medalha que pesava na sua palma e que lhe parecia, com a clareza absurda dos momentos de medo absoluto, ter sido posta ali por alguém que sabia onde ele precisava ir.

Correu. A Travessa de São Veherano. A Praça do Terceiro Distrito. A Rua dos Cervos. A Travessa dos Cantos. A Rua de Magda Vehrensk, embora ele não soubesse o nome da rua nem o nome de Magda. O segundo distrito. A porta do orfanato.

E quando chegou — três minutos e meio depois de ter saído da hospedaria, segundo o seu próprio relato posterior — encontrou a porta do orfanato escancarada, com uma cozinheira velha gritando da soleira em veherênico que ele não entendia, e dezenas de meninas saindo em fila desorganizada para a rua porque a velha cozinheira, em obediência a alguma percepção sua, estava evacuando-as antes que as autoridades o ordenassem.

Esteban parou em frente à porta. A velha — Magda, embora ele só saberia o nome anos depois — olhou-o em pleno olho, em três segundos exatos.

Ele estendeu a medalha de São Veherano.

A velha olhou para a medalha. Olhou para o rosto de Esteban. Olhou para a medalha de novo. Não falou. Empurrou em direção a ele uma menina pequena, talvez de oito ou nove anos, com cabelo escuro mal trançado e os pés descalços porque as botas tinham ficado no quarto e não havia tempo de buscar.

A menina olhou para Esteban com aqueles olhos abertos que algumas crianças têm na primeira hora do mundo que está acabando. A velha disse algo em veherênico arcaico, três vezes, três palavras que Esteban nunca esqueceria mas que jamais conseguiria pronunciar corretamente em qualquer registro posterior. A velha então fechou a porta atrás de si — fechou, com sete meninas ainda dentro do orfanato, e Esteban registraria em depoimento que a velha fechou a porta sabendo que estava fechando-se com elas, fechando-se para não abrir a porta novamente, fechando-se como quem se fecha com o próprio dever — e a menina pequena ficou em pé na rua, descalça, ao lado de Esteban, em silêncio absoluto.

Esteban olhou para a menina. A menina olhou para Esteban.

Pegou-a no colo. Não disse nada. Começou a correr de novo, em direção ao norte, em direção às serras do norte, em direção à única rota de saída de Ivandir que ele tinha estudado nos três dias da sua estadia.

Os sinos da Catedral de São Veherano continuavam a bater. A montanha continuava a escrever no céu. E Esteban, em cujos braços a menina não chorou nem gritou nem perguntou nada durante os primeiros catorze quilômetros, levaria nove anos para descobrir que aquela menina se chamava Ostra, que era órfã desde os três anos, que tinha sensibilidade angelical confirmada segundo o que viria a se chamar de protocolo da Ordem Branca em formação, e que serviria Vehr-Sul como Branca Médium até morrer em ano três de contato pleno em 1785, deixando atrás de si um diário no verso de uma página litúrgica que seria recuperado em 1814 e que viria a ser leitura canônica de toda Branca Médium em formação no continente.


III. A Rachadura


Eu vi a montanha antes do tremor.

Não pelos olhos. Pelo silêncio. As outras meninas estavam jogando boneca no canto do quarto. Eu não jogava. Eu sentava na janela. A janela dava para o pátio interno. Não dava para a montanha. Mas eu vi a montanha.

A montanha era de pedra. A pedra tinha olhos. Os olhos da pedra estavam abertos antes do tremor. Eu sabia que os olhos da pedra estavam abertos porque o ar do quarto parou de mexer-se. O ar é coisa que mexe. Quando para, é porque alguma coisa olha.

Magda chamou Marja na cozinha. Magda nunca chamava Marja na cozinha. Magda chamava Marja apenas quando era preciso. Magda chamou Marja para ver a praça. Eu não vi a praça. A janela do quarto das meninas não dava para a praça. Mas eu sabia que Magda tinha chamado Marja porque o silêncio do quarto das meninas tinha-se ligado ao silêncio da cozinha através do corredor.

Eu sentei na janela. As outras meninas continuavam a boneca. A boneca não tinha pomba. As pombas tinham sumido. Eu sabia que as pombas tinham sumido porque o ar do pátio interno estava mais leve que o normal — pombas pesam no ar mesmo quando não estão voando, e quando o ar do pátio fica leve, as pombas saíram do bairro inteiro.

A boneca era de pano. Tinha sido feita por mãe Karlina, da casa de irmãs de São Veherano-Maior, em maio. Tinha três botões em vez de olhos porque mãe Karlina não conseguia comprar pares de botões iguais e tinha colocado três para que parecesse de propósito. Eu gostava da boneca. Não era minha. Era de Vesna, que era a mais velha do quarto e tinha doze anos. Vesna deixava-me segurar a boneca às vezes. Eu segurava.

O primeiro tremor.

Não foi tremor. Foi o ar acordando. O ar tinha estado dormindo desde maio, talvez desde abril, eu não saberia precisar. O ar acordou. Quando o ar acorda, o chão treme. Mãe Karlina tinha-me explicado isso uma vez, sem querer, durante a aula de catequese: que o chão é da terra e o ar é do céu, e quando o céu acorda, a terra responde. Eu não sabia o que era responder. Mas o chão respondeu.

As outras meninas pararam a boneca. Vesna pegou-me pela mão. Vesna era boa nestas horas. Vesna sabia o que fazer porque tinha doze anos e tinha visto outras coisas. Vesna disse:

— Para a porta.

Levantei. Não soltei a mão de Vesna. As outras seguiram. Saímos do quarto. Descemos a escada. A escada tremia. Não era nova. Mãe Magda dizia que a escada tinha noventa e dois anos e que a casa do orfanato fora antes do Casa-do-Ano, isto é, da Casa Litúrgica do Ano Velho, e que a escada era boa. A escada era boa. Mesmo tremendo, segurou.

Chegamos ao corredor de baixo. Magda estava na porta da rua. Magda gritava. Magda nunca gritava. Magda dizia para Marja sair. Marja saiu. Magda contava as meninas. Magda contava sempre as meninas em sequência decrescente, das mais velhas para as mais novas, porque ela dizia que assim ninguém ficava sem ser contada. Vesna era a primeira. Vesna, doze. Marta, onze. Greta, dez. Helga, dez. Ainda dez. Mim — eu — nove em janeiro próximo, oito agora. Tomasa, oito. Edda, sete. Mara, seis. Adelaide, seis. Outras meninas que não me lembro o nome agora.

Magda contou.

Magda terminou de contar. Magda parou. Eu vi Magda parar. Magda olhou para a porta da rua, depois olhou para nós, depois olhou para a porta da rua de novo. Magda decidiu uma coisa. Eu vi.

A porta abriu antes de Magda chegar. Um homem estava do lado de fora. Não conhecia o homem. Era alto. Usava casaco castanho. Tinha cabelo claro, brytônico. Carregava espada de viagem. Estendeu uma medalha. A medalha era prateada e tinha São Veherano gravado.

Magda olhou para a medalha. Eu via Magda olhar. Vi também que Magda decidiu de novo, e a decisão de Magda foi rápida, e a decisão de Magda foi me empurrar para o homem.

Eu não chorei. Eu não soltei a mão de Vesna, mas Vesna soltou a minha. Vesna entendeu. Vesna era boa nestas horas. Vesna recuou três passos para ficar com as outras. Magda empurrou-me. O homem pegou-me no colo. Eu fiquei pequena no colo do homem. Eu sabia que tinha sido grande para Vesna e que ficava pequena para o homem, e isto era confuso, e eu não chorei.

Magda fechou a porta.

Vesna ficou do outro lado da porta.

Vesna tinha doze anos. Marta tinha onze. Greta e Helga tinham dez. Eu ia ter nove em janeiro. Tomasa, oito. Edda, sete. Mara e Adelaide, seis. Mais sete que não lembro nome agora. Atrás daquela porta. Ficaram.

Eu não chorei. Eu segurei o pescoço do homem. O homem começou a correr. Corremos. Corremos muito. Não sei quanto tempo.

A montanha estava escrevendo no céu. Eu vi por cima do ombro do homem. As letras eram caracteres de uma língua que eu não conhecia. Hoje sei que era Hor'kava, mas naquela noite eu não sabia. Vi os caracteres formarem-se, ficarem, dissiparem. Vi mais caracteres formarem-se debaixo. Vi a fumaça mover-se em ordem, não em desordem. Vi que algo estava escrevendo, e que o que estava escrevendo não era a montanha em si mas algo que estava agora debaixo da montanha, e que estava usando a fumaça como pena.

Eu reconheci, depois, em ano três de contato pleno em Vehr-Sul, que aquele primeiro reconhecimento de algo escrevendo de baixo para cima foi o primeiro contato angélico — não, eu corrijo, foi o primeiro contato anti-angélico — da minha vida, e que ele me marcou para o que viria depois. Mas naquela noite, com oito anos completos, no colo de um homem brytônico que eu não conhecia, eu apenas vi as letras e não chorei.

O homem correu por catorze quilômetros. Não parou. Subiu a serra norte. Outras pessoas corriam também — não muitas, naquela hora, porque a maioria de Ivandir ainda olhava para a montanha sem entender que precisava correr, mas algumas. O homem encontrou outras pessoas no caminho. Vimos uma carruagem virada em uma curva. Vimos um cavalo solto. Vimos um homem caído no chão de bruços — não morto, eu acho, mas exausto ou desmaiado, eu não sei, o homem brytônico não parou para verificar. Vimos uma família em fuga: pai, mãe, três crianças. Vimos uma velha freira sentada no chão à beira do caminho, rezando o terço em pé enquanto sentada — gesto estranho. O homem brytônico fez uma reverência mínima ao passar, sem parar.

Subimos a serra. Quanto mais subíamos, mais frio. Eu estava descalça. As botas tinham ficado no quarto das meninas. O homem brytônico, em algum ponto da subida — eu não sei precisar quando, porque o tempo durante essa noite não andou em sequência regular —, parou, tirou o casaco castanho, embrulhou-me nele com cuidado, voltou a pegar-me, voltou a correr. Eu reconheci, depois, que ele não tinha dito uma palavra desde o orfanato. Não falou.

Em algum ponto da serra — eu acho que foi por volta de meia-noite, mas posso estar errada —, o terceiro tremor veio.

Foi o devastador. Eu o senti pelos pés do homem brytônico, porque os pés do homem brytônico estavam no chão e o chão respondeu com força de céu acordado por inteiro. O homem brytônico cambaleou. Caiu de joelhos com cuidado, para não me jogar no chão. Permaneceu de joelhos durante os trinta segundos do tremor. Eu olhei por cima do ombro dele — eu não consegui evitar, eu olhei — e vi, ao longe, sete quilômetros atrás de nós, a Catedral de São Veherano começar a afundar.

A cúpula em mosaico bizantino afundou primeiro. O ouro de Sárvar capturou os últimos lampejos do incêndio que tinha começado a alastrar-se pela cidade desde a Travessa do Mosaico, e foi este o último brilho que eu vi de Ivandir naquela noite — a cúpula afundando, em rotação lenta, com o ouro refletindo o incêndio, como se a catedral inteira fosse uma flor fechando-se para a noite.

Eu não chorei.

Eu não falei.

O homem brytônico recuperou-se do terceiro tremor. Levantou-se. Continuou a correr. Eu não soltei o pescoço dele. Continuamos.

Naquela noite, em algum ponto da serra norte, em uma estalagem de cantoneiros que estava aceitando refugiados em pânico, o homem brytônico depositou-me em um banco de madeira ao lado da lareira. Foi a primeira vez que ele me tocou o rosto. Tocou com a mão direita — a esquerda ainda fechava-se sobre a medalha de São Veherano que Magda lhe entregara. Disse, em latim eclesial corrente que eu reconheci embora não pudesse responder no mesmo registro:

— Como te chamas?

Eu disse: — Ostra.

Ele disse: — Eu te chamo Esteban.

E ficou ao meu lado durante o resto da noite, em pé com a espada de viagem deitada sobre o joelho dobrado, sem dormir, enquanto eu — descalça, embrulhada em casaco castanho que cheirava a vinho meridiano de Stromakra e a fumaça de Ivandir — peguei no sono na primeira hora da minha vida em que o mundo ao meu redor já não existia mais como eu o conhecera ao acordar daquela tarde.


IV. Os Sinos


A aldeia de Lago-Alto, na serra norte adjacente a Ivandir, era pequena demais para ter sineiro próprio, e por isso os habitantes da aldeia mediam as horas pelos sinos da Catedral de São Veherano, que se ouviam, em noites claras de outono, com clareza surpreendente apesar dos trinta quilômetros que separavam a aldeia da capital. Joana, em vinte e nove anos de vida em Lago-Alto, tinha ouvido aqueles sinos batido as horas canônicas todos os dias. Conhecia o som de cor.

A noite de 17 para 18 de outubro de 1780 começou clara. Lua cheia, vento leste fraco, temperatura próxima de zero. Joana estava acordada porque Tomáz tinha colicado pela quarta noite consecutiva, e Joana, em colo, balançava o pequeno em movimento circular que tinha aprendido em juventude com a sua avó, com aquela paciência de mulher do norte que sabe que noites mal-dormidas são parte do contrato. Os outros dois — Pavel e Marina — dormiam na cama maior. Joana, sentada na cadeira ao lado da janela do quarto da frente, com Tomáz no colo, ouviu o primeiro tremor antes de senti-lo.

Foi um som — disse depois, em interrogatório de 1782, ao Padre Inquisidor Rovan Hessel ainda jovem, que registrou em arquivo da Reformada o seu depoimento como segundo testemunho civil válido sobre as manifestações do Cataclismo —, foi um som que vinha debaixo da terra, e que se ouvia com os ossos antes dos ouvidos. Joana descreveu como o som que se ouve quando um trovão muito distante chega através da pedra de uma fundação de casa em montanha, mas multiplicado, prolongado, sustentado.

Tomáz parou de chorar imediatamente. Foi a primeira coisa que assustou Joana — não o som em si, mas o silêncio repentino do recém-nascido, que tinha colicado havia uma hora sem parar e que parou de uma vez. Joana olhou para o filho. Tomáz estava acordado, olhos abertos. Não chorava. Não dormia. Estava escutando. Em três meses de vida, Joana nunca tinha visto Tomáz escutar daquela maneira.

Foi quando o som chegou aos ouvidos, e não apenas aos ossos.

Joana olhou pela janela. A serra ao sul — em direção a Ivandir — não era visível da janela do quarto da frente. Apenas as três casas vizinhas e a estrebaria do velho Kovac. As três casas vizinhas estavam escuras. A estrebaria do Kovac também. A noite era clara. A lua iluminava a aldeia em luz prateada-cinza.

E foi quando os cães começaram.

Primeiro o cão dos Vasiliev, na casa adjacente — Otto, o cão grande de pastor das estepes, que normalmente latia uma ou duas vezes durante a noite e calava. Otto começou a latir e não parou. Logo se juntou o cão dos Bratrov, do outro lado, e logo depois os cães da estrebaria do velho Kovac. Em três minutos, todos os cães de Lago-Alto estavam latindo, e o ar da aldeia — o ar que Joana tinha respirado por vinte e nove anos sem nunca o ter pensado como elemento — mudou de qualidade.

Joana descreveu, em depoimento, como dizer que o ar mudou de qualidade. Disse que era como se o ar parasse de ouvir. Foi a frase exata. "Como se o ar parasse de ouvir." Hessel anotou em arquivo. A frase entrou em literatura técnica da Reformada como uma das primeiras descrições civis do fenômeno conhecido depois como silêncio anti-litúrgico — o vazio metafísico que precede a manifestação demoníaca de baixo grau em ambiente próximo à fenda de Selo.

Joana levantou-se da cadeira. Tomáz ainda calado, ainda escutando. Joana foi acordar Pavel e Marina. Pavel já estava acordado — disse à mãe, ainda meio dormindo, que tinha ouvido o trovão. Marina dormia profundo, com o polegar na boca. Joana acordou-a com cuidado. Vestiu os três em camadas — Pavel e Marina podiam andar, Tomáz no colo. Pegou o xale de lã grosseira que tinha sido da sua mãe. Pegou a faca de cozinha, embora não pretendesse usá-la, porque a sua mãe lhe tinha ensinado que mulher em fuga noturna sai com uma lâmina no cinto, mesmo que apenas para ter peso na mão.

Saiu para o pátio.

A aldeia de Lago-Alto era um anel de catorze casas em torno de uma praça pequena com um poço comum. Joana atravessou o pátio em direção à casa do velho Kovac, que era o homem mais idoso da aldeia e o que, no concílio comunal, tinha autoridade decisória em emergência. Encontrou o velho já em pé, fora de casa, com a sua bengala de carvalho na mão direita e os cães latindo à sua volta sem que ele os mandasse calar.

— Joana.

— Kovac.

— Você ouve?

— Ouço.

— Os Vasiliev já saíram?

— Não sei. Não passei pela casa.

— Vai. Verifique. Eu vou na dos Bratrov.

Joana foi. Os Vasiliev tinham acabado de sair — Andrej Vasiliev em pé na soleira, com a sua filha Anna nos braços e o filho Pavel-Vasiliev (homônimo do filho dela) ao lado, ainda sem casaco. Joana ofereceu-se para levar Pavel-Vasiliev junto, e Andrej assentiu sem dizer nada, e em três minutos a aldeia inteira estava reunida na praça do poço, em silêncio quase total — o silêncio dos catorze adultos da aldeia, das vinte e duas crianças, dos cinco cães que tinham calado finalmente, todos olhando para o sul.

E foi neste momento que os sinos começaram.

Os sinos de São Veherano. Os doze sinos consagrados da Catedral. Em harmonia perfeita. Em ritmo que nenhum sineiro humano produziria. Joana ouviu-os com clareza absoluta — trinta quilômetros de distância, mas a noite era clara e o vento leste fraco, e os sons percorriam o ar daquela noite com uma facilidade que Joana, em vinte e nove anos, jamais tinha experimentado.

O velho Kovac fez o sinal da cruz. Outros aldeões o seguiram. Joana fez também, com Tomáz ainda no colo, em silêncio.

— Joana — disse Kovac, baixo. — Conta os sinos.

— Como?

— Conta os sinos. Quantos sinos.

Joana contou.

Os doze sinos batiam simultaneamente. Em harmonia. Em ritmo lento. A cada conjunto de doze badaladas — porque os sinos faziam ciclos —, Joana e o velho Kovac, conforme prosseguia a contagem, perceberam algo que mais tarde, em interrogatório, Hessel registraria em arquivo da Reformada com a precisão técnica que só Kovac, um velho de oitenta e três anos com ouvido apurado por décadas de canto litúrgico amador, podia ter notado: um décimo terceiro sino.

Não doze. Treze.

O décimo terceiro sino era levemente desafinado em relação aos doze, e ligeiramente atrasado — entrava na metade do segundo tempo de cada badalada coletiva, não no início. Mas estava lá. Inegavelmente. Treze.

— Kovac — sussurrou Joana. — A Catedral só tem doze.

— Eu sei.

— De onde vem o décimo terceiro?

— Não vem da Catedral.

— Então de onde?

Kovac olhou em direção à montanha — a Montanha da Coroa, visível agora da praça da aldeia em luar pleno, com a fenda já em forma claramente legível mesmo a trinta quilômetros de distância, com a fumaça subindo em filete que se ramificava em padrões que naquela hora ninguém na aldeia ainda interpretava como escrita.

— Vem dali.

— Da montanha?

— Da fenda.

Joana olhou. Olhou a montanha. Olhou a fenda. Tentou ouvir o décimo terceiro sino isoladamente — sem o ruído dos outros doze. Ouviu. O décimo terceiro sino era mais grave que os outros, e batia em ritmo levemente desencontrado. E quanto mais Joana o ouvia, mais convencia-se de que Kovac tinha razão: aquele sino não vinha da torre de São Veherano. Vinha de mais ao norte. Vinha do lado da montanha que rachou.

E foi quando — porque Joana ouviria isto em diferentes versões pelo resto da vida, dependendo do ouvinte e do contexto, mas a versão que registrou na Reformada em 1782 e que se tornou canônica era esta — Joana percebeu que o décimo terceiro sino estava chamando. Os outros doze batiam em emergência canônica veherênica, em fórmula que mesmo Joana, sem saber latim, reconhecia como liturgia. O décimo terceiro batia em invocação. Era oposto. Estava chamando algo para subir.

Olhou para Tomáz, no seu colo. Tomáz ainda olhava em silêncio, sem chorar. E Joana, na praça do poço da aldeia de Lago-Alto, com o décimo terceiro sino soando da fenda na Montanha da Coroa a trinta quilômetros de distância, com o velho Kovac em pé ao seu lado, com a aldeia inteira em silêncio organizado em torno do poço, fez algo que mais tarde explicaria a Hessel como o gesto correto da mãe veherênica diante de coisa que ela não compreende: pegou Tomáz com cuidado, segurou-o em frente da própria face, olhou-o nos olhos, e disse-lhe três frases em veherênico arcaico que tinha aprendido com a sua avó e que ela própria não tinha pronunciado em mais de vinte anos.

As três frases, traduzidas para latim eclesial, são: "Não escuta. Não responde. Espera a Mãe falar."

Tomáz fechou os olhos. Não dormiu. Apenas fechou. Joana entendeu — sem saber por quê, sem ter como saber, sem ter sido instruída — que tinha acabado de operar o primeiro rito veherênico de proteção infantil contra invocação demoníaca menor, e que o seu filho de três meses, em alguma camada do consciente recém-nascido que ela jamais entenderia adequadamente, tinha acatado.

O décimo terceiro sino continuou a bater.

A aldeia de Lago-Alto reuniu-se no centro do pátio. Decidiram, por consenso silencioso conduzido pelo velho Kovac, descer pela serra em direção a Sárvar-do-Coro, vilarejo maior a vinte quilômetros mais a oeste, fora da linha de visão direta da Montanha da Coroa. Em quatro horas, antes do amanhecer de 18 de outubro, toda a população de Lago-Alto — catorze adultos, vinte e duas crianças, cinco cães, três cavalos — estava em marcha pela trilha da serra com as poucas coisas que tinham conseguido empacotar.

Joana foi com Tomáz no colo, Pavel e Marina caminhando ao seu lado, Pavel-Vasiliev pela mão do irmão. Os sinos de São Veherano continuaram a bater até as três e dezessete da manhã, quando — Joana ouviria de longe, da serra a meio caminho de Sárvar-do-Coro — calaram todos juntos, em um único instante, e em seguida, no silêncio que se abriu, a Catedral começou a afundar.

Joana não viu a queda. Estava na floresta. Apenas ouviu, dezessete minutos depois, o som que percorreu a serra como uma onda baixa de pedra contra pedra, e que Pavel — sete anos, andando segurando a saia da mãe — descreveu, em pergunta sussurrada, como o som de uma cidade que cai dentro de si mesma.

Joana não respondeu à pergunta. Apenas apertou o passo. Em Sárvar-do-Coro, alcançada às onze da manhã de 18 de outubro, encontrou-se com outras três aldeias da serra também em refúgio, todas com a mesma história a contar.

Lá ela permaneceria por três meses, sem notícia do marido Karol — que ela só viria a saber em janeiro de 1781, em carta diplomática da campanha veherênica norte, ter sobrevivido à mobilização e estar agora servindo a Teorbano III em recuo organizado em direção a Vehr-Maior. Mas isto, escreveria Joana em depoimento a Hessel em 1782, "isto seria depois. Naquela manhã de Sárvar-do-Coro, com três crianças e sem casa e sem ouvir mais os sinos de Ivandir, eu apenas sentei na praça e dei mama a Tomáz, e Tomáz mamou pela primeira vez em vinte e quatro horas, e eu chorei silenciosamente porque já tinha terminado o tempo de não chorar."


V. A Fumaça em Letras


A luneta de campo de Korvac era de fabricação brytônica, modelo Whithall-1773, com três tubos telescópicos de bronze polido e lente de cristal de Manchaster, suficiente para resolução de detalhe a setenta quilômetros em condições atmosféricas favoráveis. Korvac tinha-a calibrado pessoalmente na hora do crepúsculo do dia anterior, antes do tremor noturno que tinha sacudido todo o seu acampamento de batedores às vinte e duas e cinco horas e que tinha — todos os doze homens da sua unidade testemunhariam em relatório à casa Whithall depois — feito a luneta saltar para fora da bolsa em que estava acondicionada e cair, sem dano, no chão coberto de folhas secas ao lado da fogueira apagada.

Korvac tinha dormido pouco. Três horas talvez. O tremor noturno tinha mantido a unidade em vigília armada por duas horas e meia. Tinham ouvido, naquela noite, os sinos da Catedral de São Veherano a sessenta e dois quilômetros, com a clareza que apenas a transparência atmosférica do outono permite. Tinham contado os doze sinos. Tinham, como aldeã Joana e velho Kovac em Lago-Alto, percebido o décimo terceiro — embora Korvac, mais letrado em fórmula litúrgica veherênica por causa da educação materna, tivesse identificado o décimo terceiro não apenas como invocação, mas como invocação na fórmula técnica do Domus Inferi — a fórmula de Hor'kava que séculos depois apareceria nos Tratados de Demonologia da Reformada como chamamento da Primeira Porta.

Mas Korvac em 1780, em colina vykhradiana, com a sua unidade de doze batedores e uma luneta brytônica, ainda não tinha vocabulário canônico para nomear o que estava ouvindo. Apenas reconheceu, com a fração do reconhecimento que a sua mãe veherênica lhe tinha legado em fragmentos de catecismo arcaico ensinados na infância, que algo de muito grave estava sendo invocado, e ordenou à sua unidade que se mantivesse em posição elevada e que não descesse para Ivandir até instrução militar formal por mensageiro brytônico.

A instrução militar formal não chegou. Em sessenta e dois quilômetros, naquela noite e naquela manhã, nenhuma comunicação organizada saiu de Ivandir.

Por isso, ao amanhecer de 18 de outubro, com a luneta calibrada na crista da colina e os doze homens da sua unidade em formação semicircular de observação ao seu redor, Korvac fez o que decidiu fazer com base em julgamento próprio: olhou para Ivandir através da luneta.

A primeira coisa que viu foi que a Catedral de São Veherano não estava mais em pé.

Os doze sinos tinham calado às três e dezessete da madrugada — Korvac tinha registrado a hora exata em seu diário de campanha, porque sineiro brytônico-veherênico que aprendeu liturgia em infância materna nunca esquece de anotar quando sinos calam. A cúpula da catedral — visível à distância em qualquer outra circunstância como o ponto mais alto do horizonte sul — tinha desaparecido da silhueta. Onde antes se erguia a torre central, agora havia apenas fumo.

Korvac estabilizou a luneta. Forçou foco. A resolução da Whithall-1773 era suficiente para detalhar, a setenta quilômetros, a forma de um edifício individual em condições claras. Em sessenta e dois quilômetros, com atmosfera ligeiramente ofuscada por fumaça residual, Korvac conseguiu resolver — não nitidamente, mas o suficiente — a silhueta geral da cidade.

A cidade estava em chamas em três focos principais. O primeiro foco era no terceiro distrito, próximo ao que Korvac reconheceu como a região da Hospedaria do Mosaico, embora ele não conhecesse a hospedaria pelo nome — apenas tinha visto, em mapa de campanha, que aquela região concentrava hospedarias de mercadores brytônicos. O segundo foco era no segundo distrito, na zona do Orfanato de São Veherano-Menor — embora Korvac não conhecesse o orfanato, conhecia apenas a posição relativa pelo mapa. O terceiro foco era no primeiro distrito, no Palácio Real, sede de Teorbano III, embora o rei estivesse à época em campanha militar fora da capital.

Os três focos de incêndio estendiam-se, conforme Korvac observava em vinte minutos de luneta sustentada, em padrão que não era padrão de incêndio aleatório. Os focos cresciam em geometria, não em desordem. Cresciam como se alguém os estivesse alimentando em sequência. Korvac, no seu diário de campanha que entregaria à Reformada Refundada trinta e seis anos depois, descreveu o padrão como "incêndio em forma de roteiro," e observou que a sua mãe veherênica, em algum sermão de catecismo arcaico, tinha-lhe ensinado que o fogo demoníaco cresce em ordem porque o demônio é metódico, enquanto o fogo humano cresce em desordem porque o homem é apressado. Korvac em 1780 nunca tinha verificado a doutrina materna; em outubro daquela manhã, verificou.

Subiu a luneta. Mirou na Montanha da Coroa, a sete quilômetros ao norte de Ivandir. A montanha estava rachada. A rachadura estendia-se do cume até o sopé, em linha quebrada que cortava a face norte da montanha em duas. Da rachadura, em volume crescente, saía fumaça em letras.

Korvac viu as letras. Distinguiu-as. Reconheceu — com o frio de quem reconhece sem ter como reconhecer — que eram caracteres Hor'kava. Sabia o nome técnico porque a mãe veherênica em infância lhe tinha mostrado uma cópia ilustrada de um Tratado de Demonologia veherênico arcaico, publicado em Ivandir em 1684, em que constavam em apêndice doze sigilos infernais cuja iconografia ele tinha decorado em criança por puro fascínio.

Os caracteres na fumaça eram aquela mesma família. Formavam-se. Mantinham-se de três a cinco segundos legíveis. Dissipavam-se. Eram substituídos.

Korvac tentou ler.

Não conseguia. A fluência dele em Hor'kava em 1780 era de catorze sigilos individuais decorados, sem capacidade de composição sintática. Mas reconheceu, entre os caracteres em formação, três que aparecem repetidamente: o sigilo de Bael (Primeiro Rei), o sigilo da Primeira Porta, e o sigilo composto de invocação maior.

A montanha estava chamando. Em fórmula Hor'kava executada com precisão técnica. Em volume contínuo. Em geometria que não permitia confusão com fenômeno natural.

Korvac abaixou a luneta. Inspirou. Soltou o ar. Voltou a olhar — com os olhos nus desta vez, sem ampliação. A Montanha da Coroa, mesmo a sessenta e dois quilômetros de distância, era agora visível em rachadura clara. Não precisava de luneta. A fumaça em letras, a esta hora da manhã, era observável por qualquer cidadão com olhos funcionais em qualquer ponto elevado do norte do continente.

Korvac chamou o seu sub-oficial — Tenente Halverson, vinte anos, brytônico puro sem origem veherênica.

— Halverson.

— Capitão.

— Recolha os cavalos. Recolha as armas. Saímos em dez minutos.

— Para onde, capitão?

— Para o oeste.

— Pelo trajeto previsto da campanha?

— Não. Pelo trajeto mais rápido para Vykhrad. Depois, para Aurum Roma.

Halverson hesitou. Era a primeira vez em três anos de serviço sob Korvac que recebia ordem fora do mandato formal da casa Whithall. A campanha de reconhecimento previa retorno a Brithon via porto da Maritima Coronata após seis semanas. Aurum Roma não estava no itinerário.

— Capitão. A casa Whithall não autoriza...

— Halverson. Olhe a montanha.

Halverson olhou. Não tinha luneta. Mas a montanha era visível.

— Capitão...

— A casa Whithall não autoriza. Mas a casa Whithall não está em ponto de observação esta manhã. Eu estou. Saímos em dez minutos.

Halverson saudou. Saiu para executar.

Korvac ficou na crista. Manteve a luneta levantada por mais oito minutos. Observou, durante aqueles oito minutos, três coisas adicionais que entrariam no seu diário de campanha e, trinta e seis anos depois, no arquivo da Reformada:

Primeiro: viu, na fumaça em letras que subia da rachadura, um intervalo regular de quatro segundos a cada sete repetições em que a escrita simplesmente parava — como se a entidade que estava escrevendo precisasse de respirar entre versículos. Korvac notou o intervalo. Cronometrou. Quatro segundos, exatos. Sete repetições, exatas. Padrão.

Segundo: viu, ao longo dos oito minutos, três figuras escuras saírem da fenda da montanha e descerem pela face norte em direção a Ivandir. As figuras eram pequenas demais para resolução individual mesmo com a luneta — apenas pontos negros em movimento descendente —, mas eram três, e moviam-se em formação. Não eram animais. Não eram humanos em fuga. Eram outra coisa.

Terceiro: viu, ao longe, uma quarta figura que, ao contrário das três anteriores, subiu em vez de descer. Saiu da fenda e elevou-se acima da montanha. Korvac focou a luneta nela e perdeu-a — desapareceu na fumaça em letras. Reapareceu por dois segundos a três quilômetros de altitude estimada. Desapareceu de novo. Não voltou a aparecer enquanto Korvac observou.

A quarta figura era a que Korvac entregaria à Reformada Refundada como sendo, em sua avaliação retrospectiva de trinta e seis anos depois, a primeira aparição confirmada de um Vigia caído vivo sobre o continente desde antes do Dilúvio. Em 1780, não tinha como saber. Apenas registrou em diário: "uma figura subiu enquanto três desceram. A primeira não voltou. As três continuaram em direção à cidade."

Aos vinte minutos exatos da abertura da observação, Korvac fechou a luneta. Guardou. Desceu da crista. Encontrou Halverson e a unidade já em formação de marcha. Subiu no cavalo. Olhou pela última vez em direção ao sul.

A fumaça em letras continuava a subir. A montanha continuava a escrever. Os três focos de incêndio em Ivandir continuavam a crescer em geometria. As três figuras desciam.

Korvac fez o sinal da cruz com a mão esquerda — gesto veherênico arcaico que sua mãe lhe ensinara em criança e que ele jamais executava em público adulto, mas que naquela manhã, sob o que estava acontecendo a sessenta e dois quilômetros à frente, executou sem hesitar.

— Marchamos — ordenou.

A unidade marchou.

Em quatro dias chegariam a Vykhrad. Em catorze, a Aurum Roma. Em vinte e oito, com a primeira comunicação direta entregue à Sé Aurelina, Korvac seria recebido em audiência privada pelo Arcebispo Hesther, que à época tinha trinta e dois anos e que viria a tornar-se, em 1786, o líder do conclave dos vinte e três bispos que invocaria os Sete Arcanjos no Mosteiro de Vallia Sacra.

Naquela audiência, Korvac entregaria a sua luneta brytônica como prova material das observações de 18 de outubro. Entregaria o diário de campanha. Entregaria, em depoimento oral suplementar, a sua interpretação da fumaça em letras como Hor'kava de invocação maior.

E pediria, ao final da audiência, autorização eclesiástica para abrir nova carreira no serviço da Sé Aurelina, abandonando a casa Whithall.

Hesther aceitaria a proposta em audiência de noventa minutos. Em janeiro de 1781, Sebastien Korvac, ex-Capitão brytônico, entrava em formação inquisitorial menor sob mentoria direta do então Arcebispo Hesther. Em 1816, seria o primeiro Padre Inquisidor-Mor da Reformada Refundada sob mandato de Aurelianus I. Em 1838, mentoraria pessoalmente o ingresso na Inquisição do jovem Rovan Hessel, vinte anos, em primeiro ano completo da Era das Cruzadas Negras. Em 1849, morreria em Aurum Roma, oitenta e nove anos, com a luneta brytônica de 1780 ainda em seu gabinete como objeto de altar pessoal — onde ela permanece hoje, em 1890, no salão maior do Palatium Reformatum, com placa em latim eclesial que diz: Per hanc, demonem primum vidit hominis primus inquisitor refundatus.

Por esta, o primeiro inquisidor refundado dos homens viu o primeiro demônio.


ATO II — O CONTINENTE ESCURECE

Outono e inverno de 1780 — primeiras ondas pelo continente


VI. A Corte em Campanha


Teorbano III estava jantando na tenda real quando o mensageiro chegou, e o seu primeiro pensamento, ao ouvir a comoção fora da tenda e o som das botas correndo sobre a terra batida — antes mesmo de o oficial de plantão pedir entrada formal — foi: "morreu Adelina."

Adelina era a sua segunda esposa, com quem se casara em 1771 após o falecimento da rainha Mirjam por epidemia. Adelina, em outubro de 1780, estava em Ivandir, em palácio real, à espera dele para o regresso da campanha previsto para meados de novembro. Adelina tinha cinquenta e três anos e saúde frágil desde a primavera. Teorbano III não a amava como amara Mirjam, e Adelina sabia disso sem ressentimento, em arranjo silencioso entre os dois que era a forma adulta dos casamentos régios na ausência de paixão. Quando o mensageiro chegou correndo, e Teorbano ouviu as botas e o ofegar, o seu primeiro pensamento — e Teorbano em depoimento testamentário registrado em ata real de 1796, dois anos antes da sua morte, confirmaria a precisão deste pensamento — foi de que Adelina tinha morrido durante a sua ausência, e que isto seria triste mas administrável, e que ele rezaria por ela três Pai Nossos veherênicos e organizaria o luto canônico em retorno a Ivandir.

Foi por isso que, quando o oficial de plantão pediu entrada, e Teorbano respondeu "entre" sem levantar a vista do prato, e o oficial entrou trazendo um mensageiro coberto de poeira que parecia ter cavalgado por trinta horas sem descanso, e o mensageiro, ao se ajoelhar diante do rei, falou as primeiras três palavras em sintaxe que escapou imediatamente do controle protocolar — "Majestade, Ivandir caiu" —, Teorbano não conseguiu, durante exatamente quatro segundos, processar o significado. As três palavras combinaram-se de forma que ele inicialmente leu como informação sobre Adelina morta, e a palavra caiu, no contexto, soou primeiro como sinônimo eufemístico de morte súbita.

Foi quando o mensageiro continuou — "o tremor de sábado-feira fez a Montanha da Coroa rachar, e em catorze horas a Catedral de São Veherano afundou, e o terceiro distrito está em chamas, e o segundo distrito também, e o palácio real, majestade, o palácio real também" — que Teorbano entendeu que não se tratava de Adelina.

Tratava-se de algo muito maior.

Pousou o garfo. Pousou a faca. Limpou as mãos no guardanapo de linho que estava sobre os joelhos. Olhou para o oficial de plantão. Olhou para o mensageiro. Inspirou. Soltou.

— Mensageiro. De onde vens?

— Do segundo distrito, majestade. Saí de Ivandir antes do amanhecer de domingo, anteontem. Cavalguei trinta e seis horas com troca de cavalo em Sárvar-do-Coro. Não dormi. Estava no...

— Posição.

— Camareiro auxiliar de Sua Eminência o Arcebispo de Ivandir.

— Sergio?

— Sergio, majestade. Eu servia na sacristia.

— O Arcebispo?

O mensageiro baixou a cabeça. Demorou cinco segundos para encontrar a fórmula adequada. Teorbano esperou.

— Não voltou, majestade. A última missa de sábado-feira foi a vésperas das sete da noite. Ele estava na nave central, junto ao altar maior, no momento em que a Catedral começou a afundar. Eu — o mensageiro inspirou — eu estava no nártex, à porta. Saí pela porta dos serventes. O Arcebispo... — Pausa. — Não saiu.

Teorbano fechou os olhos. Abriu-os. Olhou em direção à abertura da tenda. Lá fora, no acampamento, ouvia-se o ruído da rotina militar — os ferreiros martelando, os cozinheiros preparando o jantar coletivo, alguns soldados conversando em torno das fogueiras. Quatro mil homens em campanha ritual contra bárbaros do Volga-distante. E em Ivandir — em Ivandir, na sua capital, na cidade onde Adelina estava à espera dele e onde a Catedral de São Veherano em pé desde 1147 elevava-se sob a cúpula em mosaico bizantino —, em Ivandir, naquela exata tarde de segunda-feira 19 de outubro, alguma coisa de natureza maior que campanha ritual estava acontecendo, e Teorbano III, sentado em tenda real no front norte, não tinha ainda informação suficiente para nomear o que era.

— Mensageiro. Adelina.

— A Rainha?

— Adelina.

— Majestade, eu não sei. O palácio real entrou em chamas pelo segundo aristo da noite. Eu não tive contato com a guarda do palácio. Eu — pausa — eu não sei.

— Compreendido. — Teorbano voltou a olhar para a tenda. — Oficial de plantão.

— Sim, majestade.

— Convoque o Conselho de Campanha. Imediatamente. Aqui. Sem demora.

— Sim, majestade.

— E mande chamar o Padre-Capelão Ostrenko. Também imediatamente.

— Sim, majestade.

— E o Capitão de Cavalaria Vyrov, da segunda companhia. Também.

— Sim, majestade.

O oficial saiu. Teorbano olhou para o mensageiro, ainda ajoelhado.

— Mensageiro. Levanta. Senta. Aqui. — Apontou para a cadeira lateral. — Conta-me tudo do começo.

O mensageiro — chamava-se Petrov, Teorbano descobriria, e tinha trinta e quatro anos, e tinha servido na sacristia de São Veherano há onze anos — sentou. Sentou com a hesitação de homem que cavalgou trinta e seis horas e a quem se oferece subitamente intimidade com o monarca. Teorbano serviu-lhe pessoalmente uma taça de vinho — vinho aurélio, importado, da reserva real de campanha — e Petrov bebeu três goles em silêncio antes de começar.

Petrov contou. Contou os doze sinos. Contou o décimo terceiro sino. Contou a fumaça em letras — Petrov tinha visto a fumaça do lado de fora da catedral, ao fugir, e descreveu os caracteres como "letras de pesadelo, majestade, letras que se faziam sozinhas no céu". Contou o afundamento da cúpula. Contou os três focos de incêndio. Contou que tinha encontrado, em fuga, três figuras escuras nas ruas próximas ao primeiro distrito — três figuras que não eram homens, que não eram animais, que se moviam com as articulações em ângulos errados e que uma delas falava em uma língua que Petrov não conhecia.

Teorbano escutou em silêncio. Quando Petrov terminou, Teorbano fez três perguntas:

— Os bispos sobreviveram?

— Eu vi o Bispo Auxiliar Markovic sair pelo nártex norte com cinco padres. Vi Bispo de Sárvar-Maior sair pela porta dos serventes. Não vi o Patriarca Sergio. Não vi os outros bispos.

— A guarda do palácio?

— Não sei, majestade. Não cheguei lá.

— A milícia urbana?

— Em pânico, majestade. Sem comando. Em fuga.

Teorbano assentiu de leve. Pousou a taça. Olhou em direção à abertura da tenda. Lá fora, ouvia-se o ruído da convocação do Conselho de Campanha — os oficiais sendo acordados das suas tendas, os cavalos relinchando, vozes pedindo entrada. Em meia hora, todos os comandantes da campanha estariam ali.

— Petrov.

— Majestade.

— Vais comigo de volta a Ivandir.

— Sim, majestade. Quando?

— Hoje à noite. Saímos em três horas, com guarda real reforçada. Cavalgaremos por trocas. Estarei em Ivandir em quatro dias.

— Sim, majestade.

— E Petrov. Mais uma coisa.

— Majestade.

— Tu viste a fumaça em letras. Tu ouviste o décimo terceiro sino. Tu viste as três figuras. Isso é tudo. Não viste mais nada. Em particular, não viste o que o Patriarca Sergio possa ter dito ou feito na última missa de vésperas antes da queda. Isto, mesmo que tenhas visto, não viste. Compreendido?

Petrov olhou para o rei. Compreendeu. Hesitou. Encontrou a coragem para responder.

— Majestade. Eu vi o Patriarca Sergio dar instruções específicas durante a missa, em latim arcaico que eu, sacristão, raramente ouço o Patriarca usar em vésperas comuns. Eu vi.

— Eu sei que viste. Não viste. Em interesse da Coroa de Veheran, não viste.

— Sim, majestade.

— A informação que precisarmos sobre o que o Patriarca disse, a recolheremos com bispos sobreviventes, em sigilo real. Não sai dos teus lábios para mais ninguém. Compreendido?

— Compreendido, majestade.

— Bom. Repousa por duas horas. Em três, partimos.

Petrov retirou-se. Teorbano ficou em pé, sozinho na tenda. Inspirou. Soltou. Olhou para o prato de jantar interrompido — meio frango com batata, pão escuro veherênico, vinho aurélio. Tinha, em meia hora, perdido fome. Perdera também — embora isto demorasse semanas a perceber em consciência — o reino.

Quando o Conselho de Campanha entrou na tenda, doze oficiais e o Padre-Capelão Ostrenko, encontraram o Rei Teorbano III sentado ainda à mesa de jantar, com o garfo pousado sobre o linho, com a expressão neutra de homem de Estado, e com a primeira ordem dos próximos vinte e seis anos da sua vida já formulada na cabeça.

— Senhores. — Levantou-se. — Sentem-se. Suspendam a campanha contra o Volga-distante. Os bárbaros vão esperar. Marchamos para Ivandir esta noite. Não para a entrar — para a contornar. Estabeleceremos comando real provisório em Vehr-Maior. Tenente Vyrov, organize o destacamento avançado, duzentos cavaleiros, partimos em três horas. Capitão Halst, organize retaguarda com o grosso do exército, sigam em cinco horas com bagagem reduzida. Padre-Capelão Ostrenko, abriremos missa de campanha em duas horas, com fórmula litúrgica que tu escolheres apropriada para emergência cósmica, palavra que eu uso com cuidado. Os demais oficiais — não tenho ordens específicas neste momento. Aguardem. Repousem. Aprontem-se para marcha forçada. Em quatro dias, estaremos em Vehr-Maior. Em sete, eu pretendo entender o que aconteceu em Ivandir.

Os doze oficiais e o Padre-Capelão Ostrenko assentiram. Saíram em silêncio absoluto. Teorbano III, em pé na sua tenda real à beira da fronteira norte de Veheran, em campanha que acabou de cancelar, ficou um instante sozinho com o jantar interrompido.

Olhou para o frango com batata. Sentou. Cortou um pedaço. Comeu. Mastigou em silêncio. Forçou o estômago a aceitar. Comeu o frango inteiro. Bebeu o vinho. Limpou a boca com o guardanapo de linho.

Em vinte minutos, vestiu a couraça de viagem. Pegou a espada real de Veheran — espada antiga, com dois mil anos de continuidade dinástica, gravada com os doze nomes dos primeiros reis veherênicos —, calçou a couraça, vestiu o manto vermelho-real de pele de raposa do norte, montou.

Quatro dias depois, ao chegar a Vehr-Maior em 23 de outubro, encontraria a cidade já em recepção a refugiados de Ivandir em fluxo crescente — entre eles, o Conde Esteban de Brytomark e uma menina órfã de oito anos chamada Ostra, ambos exaustos depois de catorze dias de fuga pela serra norte. Encontraria também ali a confirmação canônica final de que Adelina morrera no incêndio do palácio real, em circunstâncias que a guarda real moribunda lhe descreveria como possessão demoníaca rápida no momento da fuga — informação que Teorbano III ouviria em silêncio sem comentar, em câmara fechada com apenas o Padre-Capelão Ostrenko presente, e cuja documentação ele ordenaria selar em arquivo real de modo a nunca circular publicamente.

Adelina seria honrada postumamente como Rainha-Mártir de Ivandir em decreto real de 1781, e tumba simbólica seria erguida em Vehr-Maior em 1782. O corpo nunca foi recuperado.


VII. A Notícia Chega a Aurum Roma


Hesther estava em vigília de Todos os Santos no terceiro coral acima da nave central da Catedral Aurelina, escolhido para a vigília por sorteio interno entre os cônegos, conforme protocolo da Sé. Acompanhavam-no na vigília mais dois cônegos — Padre Damianus, sessenta anos, especializado em liturgia veherênica comparada, e Padre Lucio, vinte e oito anos, recém-ordenado, em primeira vigília oficial. Os três tinham começado às vinte horas. Eram agora as vinte e três e quarenta. Faltavam quatro horas e vinte minutos para o término canônico, que seria às quatro da manhã do dia 2 de novembro.

Hesther, no terceiro coral, em posição central, com o livro de horas aberto no joelho direito e a vela de óleo de baleia consagrado na mão esquerda — em Aurélia Magna em 1780, a Hashmalita ainda não tinha sido revelada nem como mineral nem como conceito; o Lúmen como mineral consagrado também não; os clérigos da Sé Aurelina ainda usavam velas ordinárias —, recitava a fórmula coletiva dos Salmos da Vigília em sequência habitual. Da nave abaixo, vinham ecos amortecidos do canto comum dos cinquenta cônegos menores e padres em coral inferior. A Catedral Aurelina, embora menor que a Catedral de São Veherano de Ivandir, tinha o seu próprio mosaico — não bizantino, mas românico tardio —, e a luz das setecentas velas votivas refletia nas tesselas em geometria que naquela noite Hesther teria descrito como adequadamente bela, sem nenhuma indicação de presságio.

Aurélia Magna em 1780 tinha cento e setenta mil habitantes — modesta em relação a Ivandir, mas firme em relação ao continente, e era a quinta maior cidade do continente após Ivandir (600.000), Brithon (380.000), Stromakra (240.000) e Vykhrad (190.000). A Sé Aurelina, embora não tivesse o primado teológico de Ivandir, tinha o primado administrativo sobre as confissões católico-romanas do centro do continente, e Hesther, recém-elevado a Arcebispo havia dois anos, em sucessão ao falecido Arcebispo Gregor, era homem ainda jovem para o cargo, mas educado em Salzburgo e em Genebra, com fluência em latim eclesial e em grego patrístico, e considerado pelos seus pares como administrador prudente sem ambição teológica original.

Quando a porta lateral do coral abriu-se às vinte e três e quarenta e três, e o Diácono-Auxiliar Vincentius entrou em passos curtos com a expressão que Hesther conhecia como sendo a expressão técnica de Vincentius em emergência diplomática, Hesther interrompeu o Salmo CIX no quinto versículo e olhou para o diácono sem hesitar.

— Eminência. — Vincentius ajoelhou-se ao pé do coral, sussurrando para que os outros dois cônegos não ouvissem em registro audível, embora ouvissem em registro lateral. — Mensageiro. De Ivandir.

Hesther fechou o livro de horas com a mão direita. Apagou a vela com os dedos da esquerda — gesto que ele repetiria milhares de vezes ao longo das três décadas seguintes, e que mais tarde, em testemunho do Cardeal Adriano Veris em 1888, seria descrito por outros cardeais como "o sinal mínimo de que Hesther reconhecia que a vigília acabou." Levantou-se.

— Vincentius. Quando chegou?

— Há trinta minutos, eminência. Foi recebido na portaria do Palácio. Não quis falar com ninguém senão com Vossa Eminência. Aguarda na sala de audiência menor.

— Quem é?

— Bispo Markovic. Auxiliar de Ivandir. Sobreviveu.

Hesther parou. Padre Damianus, ao lado, ouviu o nome — Markovic era figura conhecida entre os cônegos especializados em liturgia veherênica — e o seu rosto, em fração de segundo, registrou compreensão. Padre Lucio, mais jovem, não reconheceu o nome.

— Damianus.

— Eminência.

— Conclua a vigília no meu nome. Lúcio, fica com Damianus. Eu volto se for possível. Senão, a vigília prossegue até as quatro.

— Sim, eminência.

Hesther desceu do coral. Atravessou a nave da catedral em silêncio — os cinquenta cônegos no coral inferior continuaram cantando a vigília sem interrupção, conforme protocolo —, saiu pela porta dos serventes em direção ao palácio episcopal anexo. Caminhou rapidamente pelo corredor de mármore. Em três minutos estava na sala de audiência menor.

Markovic estava sentado. Estava sujo. Estava velho. Hesther reconheceu-o — Markovic tinha cinquenta e nove anos em 1780, e Hesther o tinha encontrado pessoalmente em duas ocasiões formais (sínodo regional de 1772 e jubileu de São Veherano de 1776), mas o homem sentado naquela cadeira parecia ter envelhecido vinte anos desde o jubileu de 1776, embora apenas quatro anos tivessem se passado.

— Eminência.

— Markovic.

— Eu vim.

— Eu vejo.

Markovic não conseguiu continuar imediatamente. Olhou para o chão. Hesther sentou-se na cadeira oposta. Esperou. Esperou em silêncio durante exatamente um minuto e quarenta segundos — Hesther tinha o hábito de cronometrar mentalmente esperas em audiência, costume herdado da formação em Salzburgo. Quando o minuto e quarenta se passou, Markovic levantou os olhos.

— Eminência. Ivandir caiu.

— Eu já tinha ouvido rumor. Conta.

Markovic contou. Contou em pormenor. A vigília sísmica das vinte e duas e cinco. O segundo tremor. O décimo terceiro sino. O afundamento da Catedral durante o terceiro tremor às três e dezessete. O Patriarca Sergio que não saiu, mas que tinha proferido, na missa de vésperas de sábado-feira, uma fórmula litúrgica em latim veherênico arcaico fora do calendário canônico e que Markovic, com a sua especialização teológica, tinha reconhecido como sendo a fórmula da Pré-Última Hora — fórmula que nenhum patriarca veherênico recitara em ofício comum desde 1397, e que, segundo manuais antigos guardados no Cofre de São Veherano (agora soterrado, presumivelmente perdido), só se recita quando o oficiante prevê queda eminente de cidade.

Hesther escutou. Pousou as mãos sobre os joelhos. Continuou em silêncio.

— Eminência. — Markovic continuou. — O Patriarca sabia.

— Quanto antes ele sabia?

— Eu não sei. Mas a fórmula da Pré-Última Hora exige preparação ritual de três dias mínimos. Significa que ele sabia há pelo menos quinze de outubro.

— Sem nos avisar.

— Sem avisar a ninguém fora do círculo interno da Sé de Ivandir. Pelo menos não que eu saiba.

— Por quê?

— Não sei.

Hesther ficou em silêncio. Pensou. Caminhou até a janela. A noite estava clara — Aurélia Magna em 1 de novembro, festividade de Todos os Santos, com a cidade em luz votiva nas ruas, com as torres da catedral iluminadas em cera consagrada. A vigília prosseguia na catedral atrás dele. Hesther olhou para o céu — não via estrelas em particular, apenas o azul-noite profundo do outono tardio.

Voltou-se para Markovic.

— Markovic.

— Eminência.

— Tu vens propor-me alguma coisa.

— Sim, eminência. Eu venho propor — Markovic encontrou a voz, levantou-se com dificuldade — que se convoque sínodo de emergência. Não regional. Continental. Todos os bispos do continente, em sessão extraordinária, antes do final do ano. Para coordenar a resposta da Cristandade ao que está acontecendo.

— Antes do final do ano.

— Eminência, temos dois meses. Antes do inverno fechar as estradas alpinas.

— Markovic. Em dois meses, Bispos Whithall não chegarão de Brytonia. As estradas brytônicas vão estar em uso normal mas a navegação marítima de outubro-novembro é arriscada. Bispos vykhradianos não chegarão da fronteira do Volga, porque estão fugindo das mesmas notícias. Bispos meridianos talvez, com sorte. Bispos kantonais, com certeza, mas eles são poucos. O que tu me propões — pausa — é Sínodo Aurelino-Centrado, sem participação plena do continente.

— Eminência, é o que se pode fazer agora.

— É.

Hesther voltou a sentar-se. Olhou para Markovic em silêncio. Markovic, que tinha mantido a fala durante os últimos vinte minutos por dever profissional, agora estava esgotado. Hesther viu.

— Markovic. Tu repousarás no palácio. Eu te envio à câmara de hóspedes Norte, a quente. O secretário Vincentius cuidará de ti. Tu vais dormir por doze horas pelo menos. Em dois dias, conversaremos com calma.

— Eminência. O sínodo...

— Será convocado. Amanhã. Decreto-o já, agora, antes de tu saires desta sala. Vincentius redigirá. Em dois meses, os bispos chegáveis estarão reunidos em Aurélia Magna. Os que não puderem virá, enviarão emissário. Sínodo continental de emergência. Tu serás convidado em posição de honra como testemunha primária.

— Eminência — Markovic ajoelhou-se. — Obrigado.

— Não me agradeças. — Hesther levantou Markovic com a mão direita. — A Sé Aurelina é parte do continente. O continente acaba de perder a sua cabeça teológica. Nós absorvemos esse vácuo ou alguém pior absorve em nosso lugar. Eu prefiro que sejamos nós. Em interesse da Cristandade. Vai descansar.

Markovic saiu, conduzido por Vincentius.

Hesther ficou sozinho na sala de audiência menor. Sentou-se. Pegou a folha de pergaminho que sempre tinha na mesa central, junto da tinta preta e da pena de Lúmen — não, em 1780 ainda não havia pena de Lúmen, apenas pena de ganso comum, com tinta de carvão de oliveira. Pegou pena. Mergulhou em tinta.

E redigiu, no calor daquela noite de Todos os Santos de 1780, em latim eclesial corrente, o Decreto Conventum Aurelinum de Emergência — texto que viria a ser lido em todas as paróquias da Sé Aurelina nos quinze dias seguintes, e que iniciaria, em sua sequência canônica, a longa cadeia de eventos que culminariam, em 1786, no conclave dos vinte e três bispos no Mosteiro de Vallia Sacra, na invocação dos Sete Arcanjos, e na ascensão definitiva de Aurélia Magna como Sé Maior do continente em substituição a Ivandir-soterrada.

O Decreto começava com a fórmula:

"Convoco, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, e em consideração do extraordinário e do urgente, todos os Bispos do Continente em comunhão com a Sé Apostólica, ao sínodo extraordinário continental que se reunirá na Catedral Aurelina de Aurélia Magna, no segundo domingo do Advento próximo, dezessete dias antes do Natal do ano de Nosso Senhor de 1780. Em razão da queda da Sé Veherênica de Ivandir e da súbita instabilidade metafísica do continente, é dever inadiável da Cristandade reunir-se em sínodo e ordenar coletivamente a resposta canônica."

Hesther selou o pergaminho com cera vermelha e o seu próprio sinete arcebispal — um ramo de oliveira sobre cruz romana, sinete que viria a ser, trinta e três anos depois, substituído pelo sinete pontifício do peixe em adoção pessoal de Aurelianus I — e entregou ao secretário Vincentius para difusão imediata.

Em seguida, voltou para a Catedral. Subiu ao terceiro coral. Acendeu a vela. Abriu o livro de horas. Retomou a vigília no Salmo CIX, versículo seis.

Padre Damianus, ao lado, olhou-o em silêncio. Hesther devolveu o olhar com aquela neutralidade administrativa que era a sua marca. Damianus compreendeu — sem palavras, em fórmula de comunicação técnica entre cônegos veteranos — que a vigília prosseguia, que o sínodo viria, que o continente estava em emergência, e que a Sé Aurelina, a partir desta noite, deixava de ser administradora regional para começar a ser, lentamente, herdeira do que sobrara.

Padre Lucio, mais jovem, mais novo na função, continuou cantando o Salmo CIX sem perceber que algo tinha mudado em sua igreja durante o intervalo em que o Arcebispo descera.

Em três meses, em fevereiro de 1781, o Sínodo Continental de Emergência seria realizado em Aurélia Magna com a presença de quarenta e oito bispos do continente — todos os que conseguiram chegar antes do fechamento do inverno alpino. Em ata final, os bispos reconheceriam provisoriamente a Sé Aurelina como Sé Maior do continente em vacância de Ivandir, com mandato a ser revisto após a Páscoa de 1782.

A revisão pós-Páscoa de 1782 nunca aconteceu formalmente, porque outras coisas — a fragmentação de Veheran, os primeiros pactos heréticos, as primeiras Brancas Médiuns nascentes, as primeiras revelações angélicas fragmentárias — ocupariam toda a agenda da Cúria nascente. O reconhecimento provisório de 1781 tornou-se, por inércia administrativa pontual, canônico definitivo em fórmula sinodal seguinte de 1785.

E foi assim que Aurélia Magna, em quase imperceptível deslocamento ao longo de cinco anos, tornou-se o que viria a ser nomeada em 1814 por Aurelianus I como Aurum Roma — Sé Maior do continente, sede do Pontífice, capital da Cristandade no que sobrava do mundo.

Hesther, naquela vigília de Todos os Santos de 1780, em seu segundo ano de arcebispado, com trinta e dois anos, não previa nada disto em detalhe. Mas, em registro do seu próprio diário pessoal escrito naquela noite após a vigília terminar, em entrada datada de 2 de novembro de 1780 às quatro e quinze da manhã, anotou em latim eclesial pessoal a seguinte frase isolada, que mais tarde, em póstuma publicação dos seus diários por Aurelianus I em 1816, viria a ser lida como primeiro testemunho consciente da transferência da centralidade religiosa do continente:

"Esta noite Ivandir caiu de Sé Maior. Esta noite Aurélia Magna talvez deva subir. Eu temo o talvez. Mas tu, Senhor, não te escondas. Domine, ne abscondas."

A frase final — Domine, ne abscondas — era oração veherênica privada, que Hesther tinha aprendido da sua mãe brytônica de origem veherênica em infância, e que ele, ao longo dos quarenta e dois anos de governo episcopal subsequente, repetiria milhares de vezes em diário pessoal, sem nunca a pronunciar em registro oficial.


VIII. As Outras Cidades Caem


6 de novembro de 1780, noite.

Escrevo este diário em pé na sacristia da igreja de São Cosmas-Mártir, depois de ter rezado a missa de vésperas para uma assembleia de doze fiéis — a frequência habitual da minha paróquia para vésperas de quarta-feira sendo de cinquenta, e a frequência habitual para missas dominicais sendo de duzentos. Doze. Em uma paróquia de dois mil e duzentos paroquianos catalogados nos arquivos diocesanos. Doze.

Escrevo porque as notícias de Ivandir chegaram a Vladigrad há catorze dias, em mensageiro de Vehr-Maior, e desde então a frequência canônica nas missas tem caído. Não subido — como seria de esperar em pânico religioso —, mas caído. Caído inversamente proporcional à magnitude da notícia. Quanto mais grave o relato, menos fiéis nas naves. Cabe pergunta: por quê?

Eu tenho hipótese, mas não a escrevo aqui, porque hipótese de padre paroquial não pertence a diário pessoal — pertence, se a diocese o exigir, a consulta formal ao bispo. Mas registro como observação técnica: os meus paroquianos não estão fugindo da fé em pânico. Estão fugindo da fé em resignação. Diferença.

Em adição à queda de Ivandir, chegou-nos ontem notícia da queda de Aurinopolis. Aurinopolis ficava a sete dias de viagem ao norte de Ivandir, com população de duzentos mil habitantes, segunda maior cidade do reino em economia comercial após Ivandir. Caiu na noite de quarta-feira passada, segundo o mensageiro de Vehr-Maior. Mesmo mecanismo. Montanha rachando. Sinos batendo sozinhos. Fumaça em letras. A Catedral de Aurinopolis afundou seis horas depois da fenda abrir.

Em adição a Aurinopolis, chegou-nos hoje notícia da queda de Magnaport. Magnaport era cidade portuária no rio Vehr-Vodý a leste de Vladigrad, com cento e quarenta mil habitantes. Caiu anteontem. Mesmo mecanismo.

Três cidades veherênicas em vinte dias.

Eu rezo. Rezo com os doze fiéis das vésperas. Rezo sozinho na sacristia depois. Rezo ao deitar-me. Mas rezo com a sensação clara de que a oração já não está chegando, ou — se está chegando — está chegando a alguém que não é o destinatário canônico das minhas fórmulas.

Não escrevo isto a ninguém. Apenas registro.


7 de novembro de 1780, manhã.

Chegou-me na noite passada visita do Bispo Auxiliar Petrov de Vladigrad — Petrov, o nome comum, não o mensageiro de Ivandir do mesmo sobrenome, embora segundo a mãe deste Petrov ela jurasse parentesco distante com aquele Petrov, o que eu acho coincidência improvável mas não comento. O Bispo Petrov auxiliar visitou-me em casa paroquial às dez da noite, sem se anunciar, em hábito modesto sem mitra.

Trouxe-me, em sigilo, três páginas manuscritas que afirmou serem cópia parcial da Fórmula da Pré-Última Hora — a mesma fórmula que o Patriarca Sergio de Ivandir teria recitado na missa de vésperas três dias antes da queda da capital. A cópia, segundo Petrov, foi obtida por cônego sobrevivente da Sé Veherênica que fugiu para Sárvar-Maior em fim de outubro e que entregou as três páginas, em condição de confidência, ao próprio Petrov no início de novembro.

Por que Petrov me traz a mim a cópia? Porque sabe que eu, Lukan, paroco de São Cosmas-Mártir, sou formado em liturgia comparada veherênico-romana com curso completo em Salzburgo em 1768, e porque a Diocese de Vladigrad não tem outro padre com formação técnica suficiente para examinar a fórmula em sigilo sem extravasar para Roma.

Aceitei as três páginas. Petrov saiu antes da meia-noite.

Esta manhã, examinei.

A Fórmula da Pré-Última Hora é, com efeito, rito canônico extraordinário do Rito Veherênico, codificado no Sínodo de Ivandir de 1397 sob o Patriarca Petar VIII, em resposta à crise da peste negra que atingia o continente naquela década. A fórmula prevê a recitação em missa de vésperas, três dias antes do evento previsto de queda urbana, com cinco intenções específicas: (i) selar a memória dos paroquianos vivos no momento atual com a fé do Patriarca; (ii) preparar o registro angélico das almas que cairão; (iii) consagrar antecipadamente as relíquias móveis para evacuação; (iv) preparar a comunhão escatológica dos santos com a cidade que cairá; (v) — e esta é a parte que me deixa em vigília esta manhã — invocar o Anjo de Comunhão Maior para que descenda sobre a cidade no momento exato da queda, garantindo que as almas dos fiéis sejam diretamente conduzidas ao Paraíso sem passagem pelo Purgatório intermediário.

Em outras palavras: o Patriarca Sergio, na vésperas de sábado-feira 14 de outubro, sabia que Ivandir cairia em três dias, e o que ele fez foi recitar a fórmula que conduziria as almas dos seiscentos mil habitantes diretamente ao Paraíso, sem passagem por purgatório.

A pergunta que me arde, esta manhã, é: como sabia ele?

A fórmula não prevê predição. Prevê resposta. Não é fórmula profética; é fórmula litúrgica. Para ser recitada validamente, o oficiante precisa saber com certeza canônica que a queda é eminente em três dias. Como Sergio soube?

Eu tenho hipótese. Mas não a escrevo aqui ainda. Vou meditar mais.


7 de novembro de 1780, noite.

Meditei. Vou escrever.

Hipótese: Sergio teve revelação direta. Não em sonho — sonho não bastaria para autorizar fórmula da Pré-Última Hora. Em vigília. Possivelmente em comunhão eucarística. Possivelmente em audiência angélica sustentada.

Se Sergio teve revelação direta, então o coro angélico estava ativo no continente já em meados de outubro, isto é, antes da queda. Não em resposta a ela. Antes.

Esta hipótese, se for verdadeira, muda tudo. Significa que a queda não foi surpresa absoluta para o Céu. Que o Céu sabia. Que o Céu permitiu, com aviso prévio limitado a um único patriarca do continente. Que Sergio, em conhecimento do que viria, escolheu não evacuar a cidade — porque evacuar seiscentos mil habitantes em três dias é impossível, e tentar é causar pânico que multiplicaria as mortes — e em vez disso administrou liturgicamente o transcurso das almas.

Sergio morreu na Catedral. Sergio ficou em pé até o terceiro tremor. Sergio recitou a missa de vésperas três dias antes com a fórmula da Pré-Última Hora.

Se a minha hipótese for verdadeira, Sergio foi mártir litúrgico, da forma mais alta que a tradição veherênica conhece — mártir que troca a fuga pessoal pelo acompanhamento do rebanho que cairá com ele.

Eu não consigo, esta noite, decidir se respeito Sergio ou se o condeno. Ambos os juízos coexistem em mim. Talvez ambos sejam corretos.

Vou guardar as três páginas em sigilo no compartimento secreto da minha mesa de sacristia. Decidirei sobre o seu destino em dois dias.


8 de novembro de 1780, noite.

A montanha acima de Vladigrad começou hoje a rachar.

A Cordilheira Vladigradense — pequeno sistema montanhoso a oeste da cidade, paralelo à fronteira com Vehr-Maior — não é considerada cordilheira de Selo, segundo os manuais antigos que conheço. Não há registro de prisão antiga sob ela. Mas hoje, ao amanhecer, batedores chegaram a Vladigrad reportando que a face leste da montanha — a face voltada para a cidade — apresenta nova rachadura, lentamente expansiva.

Eu rezei a missa matutina com nove fiéis. Nove, hoje. De dois mil e duzentos catalogados.

O Bispo Petrov visitou-me uma segunda vez à tarde, em sigilo. Trouxe ordem da Diocese: evacuação imediata da cidade.

Eu perguntei: para onde?

Petrov disse: para Vehr-Maior. Para Sárvar-Maior. Para qualquer lugar a oeste.

Eu perguntei: e os bens da paróquia?

Petrov disse: relíquias móveis e arquivos paroquiais para mim. O resto fica.

Eu perguntei: e a fórmula?

Petrov olhou-me longo. Disse: tu, Lukan, sabes a fórmula. Recita-a se for o caso. Decisão tua. A Diocese não te ordena. Mas a Diocese não te impede.

Eu olhei para Petrov. Petrov é homem de cinquenta e oito anos, é meu superior diocesano, e em vinte anos de paróquia em Vladigrad eu o conheço como administrador eficaz mas teologicamente convencional. Petrov não recita fórmulas extraordinárias. Petrov delega. Petrov, em sigilo, estava-me delegando o martírio litúrgico.

Eu pensei. Pensei rápido, porque o tempo é o que falta. Pensei nas minhas hipóteses. Pensei em Sergio. Pensei nos doze fiéis das vésperas. Pensei nos dois mil e duzentos paroquianos catalogados, que provavelmente continham hoje, segundo a estatística de frequência declinante, cerca de oitocentos paroquianos que ainda acreditariam em ato. Os outros mil e quatrocentos — não conseguiria recitar a fórmula em nome deles, porque a fórmula opera apenas sobre fé operante.

Pensei em mim. Eu, Lukan, trinta e oito anos, paroco há dezesseis. Eu acreditaria em ato? Tinha eu condição litúrgica de recitar a Pré-Última Hora com força suficiente para que ela operasse sobre os oitocentos paroquianos que ainda criam? Não sei. Não tenho como saber.

Disse a Petrov: vou pensar até amanhã. Petrov assentiu. Saiu.

Esta noite, escrevo este diário pela última vez antes de decidir.

Ou eu evacuo, e fujo com os outros, e Vladigrad cai sem Pré-Última Hora, e oitocentos fiéis que talvez tenham morrido sem direta condução ao Paraíso ficarão em purgatório que pode se estender por séculos canonicamente — e isto me arderá no resto da vida.

Ou eu fico, e recito a fórmula amanhã na missa matutina, e fico até o fim, e Vladigrad cai comigo dentro, e eu condeno-me a uma morte que, ainda que litúrgica, ainda que canônica, ainda que eventualmente reconhecida como martírio, é morte certa em três dias.

Eu não sei o que vou decidir.

Senhor, ne abscondas.


9 de novembro de 1780, manhã.

Decisão tomada.

Vou ficar.

Recito a Pré-Última Hora na missa matutina, hoje, às sete. Já preparei os paramentos.

Não me arrependo da decisão. Não a celebro. Apenas a registro.

Petrov passou na sacristia há uma hora. Olhou-me. Não disse nada. Inclinou a cabeça. Saiu. Levou as relíquias móveis e os arquivos paroquiais para evacuação.

Eu peço, a quem encontrar este diário, que o leve, em mesmo dia que o encontrar, ao Bispo Petrov de Vladigrad, em qualquer lugar onde ele esteja. Ele saberá o que fazer.

Esta é a última entrada.

A montanha continua a rachar. Os sinos ainda não tocam. Vão tocar em três dias, segundo a fórmula que o Patriarca Sergio recitou em Ivandir e que eu agora recito em Vladigrad em parêntese técnico de réplica.

Não sou Sergio. Sou apenas Lukan, paroco de São Cosmas-Mártir. Mas a doutrina velha diz, segundo aprendi em Salzburgo, que o demônio só cai pela hora em que se mede a fé com propósito. Os doze fiéis virão à missa matutina de hoje. Talvez também alguns outros, se a notícia de Petrov tiver se espalhado. Não sei.

Eu vou rezar.

Domine, ne abscondas. Domine, ne abscondas. Domine, ne abscondas.


IX. Refugiados


Vehr-Maior, 7 de janeiro de 1781

Querida mãe,

Recebi a vossa última carta de 17 de novembro com extrema alegria, embora tenha demorado quarenta e oito dias a chegar-me — coisa que não vos surpreenderá, dadas as circunstâncias do continente. Respondo agora, em sequência única, ao que me perguntastes em três correspondências anteriores. Peço desculpas pela demora. Peço também perdão pela densidade do que vos escrevo, porque o que tenho a contar não se condensa.

Saí de Ivandir na madrugada do dia 18 de outubro, conforme já vos informei em carta breve de 30 de outubro enviada via casa Whithall. O que não vos escrevi naquela carta breve, e que vos escrevo agora, é o detalhe da fuga. Peço que leiais com paciência. Há nesta carta coisa que importa para a casa Brytomark, e há coisa que importa para mim próprio que vos peço a permissão de partilhar.

Saí de Ivandir, como vos disse, conduzindo nos braços uma menina órfã de oito anos chamada Ostra, da casa de São Veherano-Menor, que a cozinheira-mor do orfanato me entregou em circunstâncias que ainda hoje não consigo explicar racionalmente. A medalha que vos enviei junto a esta correspondência — sim, a medalha está com o portador desta carta, podereis tocá-la quando a tiverdes em mãos — foi posta na minha bolsa de couro durante o segundo tremor, sem que eu visse quem a pôs, e foi por causa da medalha que a velha cozinheira de Ivandir reconheceu-me, sem nunca me ter visto, como o homem que devia tirar Ostra da cidade.

Não sei o que pensar a respeito disto. Não vos peço para pensar. Apenas vos relato.

Saímos para a serra norte com uma centena de outros refugiados que tinham tido a mesma intuição de tentar o passo da floresta de Brzezina antes do amanhecer. Caminhamos a noite inteira. No segundo dia, agrupamo-nos com outro contingente de refugiados, vindo do quarto distrito, totalizando agora duzentos e setenta pessoas. No terceiro dia, encontrámos uma patrulha de batedores vykhradianos — patrulha independente, não em serviço régio formal, embora soubessem que serviam, eles próprios, à Coroa Vykhradiana. Os batedores forneceram-nos guia para evitar duas rotas perigosas em que, segundo os seus relatos, demônios já tinham descido em ataque a grupos menores.

Sim, mãe, vós lestes correctamente. Demônios. Não bárbaros disfarçados, como inicialmente eu suspeitei. Demônios literais. Os batedores vykhradianos descreveram-nos em pormenor — três figuras altas, articulação em ângulo errado, falando em uma língua que não era nenhuma das línguas do continente, e que, segundo um dos batedores que tinha catecismo veherênico fragmentário, respondiam aos sigilos sagrados com aversão evidente. Quando os batedores aproximavam crucifixos de bronze — que sempre carregam em campanha por costume —, as figuras recuavam três passos antes de avançar de novo. Não fugiam. Apenas recuavam, em recálculo.

Pergunto-vos, mãe — e vós sabeis que vos pergunto isto com a seriedade que reservava em juventude apenas para vós e para o pai — se a casa Whithall em Brithon já recebeu confirmação canônica disto. Porque, conforme eu me afastava de Ivandir, vinha-me crescentemente a convicção de que o que estávamos a viver não era cataclismo natural, e que portanto a casa, ao receber a vossa correspondência, deve estar a articular resposta política e teológica que ultrapassa o mero comércio de seda em troca de armamento.

Adiante.

No quinto dia de fuga — 22 de outubro —, conseguimos um cavalo emprestado a um camponês veherênico que tinha já trocado de hospedeiro pela segunda vez. O cavalo era velho mas suficiente. Coloquei Ostra na sela, em frente a mim, e por três dias avançámos em ritmo melhor que os outros refugiados. Em paralelo, juntámo-nos a um pequeno grupo que prosseguia em direção a Vehr-Maior — quarenta pessoas, na sua maioria refugiados do segundo distrito, com três famílias da nobreza veherênica menor entre eles. Ali encontrei o Conde Yvar de Ostvehr, um dos nobres veherênicos mais letrados que conheci em viagem; veio a tornar-se meu interlocutor preferencial nos vinte dias seguintes de marcha conjunta.

Ostra falou-me pela primeira vez em três dias na noite de 25 de outubro, em acampamento à margem da floresta de Brzezina. Tínhamos parado para repouso de duas horas. Eu estava de joelhos junto à fogueira pequena, alimentando-a com gravetos secos. Ostra estava deitada sobre o casaco castanho que eu já não usava por tê-lo cedido a ela em meu Cogido três dias antes. Ela abriu os olhos. Olhou-me.

Disse: — Conde Esteban.

Eu disse: — Sim, Ostra.

Ela disse: — A Magda morreu.

Eu não tinha como confirmar-lhe a notícia, porque não tinha como saber. Mas — mãe, e isto vos peço que considereis com cuidado — eu senti, no momento em que ela me disse a frase, que a frase era verdadeira. Senti como se a frase trouxesse com ela a confirmação canônica do facto. Foi a primeira vez que tive em vida sensação dessa qualidade. Não a desfiz a Ostra. Disse:

— Sim, Ostra. Eu sei.

Ela assentiu. Fechou os olhos. Voltou a dormir.

Mãe, eu não compreendo a Ostra. Não a compreendo em criança como entendia em criança a minha irmã Eliza ou os filhos da Tia Hendel. Esta criança é outra coisa. Não digo isto com medo. Digo com observação. Ela percebe coisas que nós não percebemos. Conta-me, em sequências breves, perceções sobre os outros refugiados que se confirmam em dias subsequentes — quem está prestes a perder a fé, quem está prestes a tentar pacto, quem morrerá em três dias, quem sobreviverá. Ela vê.

Combinei comigo mesmo, em silêncio, durante os últimos dezasseis dias de marcha, levá-la a Vehr-Sul quando chegarmos a Vehr-Maior. Vehr-Sul é localidade adjacente, com fortaleza menor, em que existe pequena comunidade de irmãs litúrgicas veherênicas que se dedicam à formação de jovens sensitivas — não confundir com noviciado regular, mãe, porque o protocolo veherênico ainda não tem nome canônico para o que estas irmãs fazem. Em latim, elas chamam-se Sorores Albae, Irmãs Brancas. Pelo que conheci durante a minha estadia em Ivandir em três visitas anteriores, as Sorores Albae são especializadas em identificar e formar meninas com sensibilidade angélica. A informação não é amplamente conhecida fora do círculo letrado veherênico.

Pretendo entregar Ostra à Soror Maior Anastasia de Vehr-Sul, quando chegarmos. Espero ser bem-recebido. Espero também — embora isto me pese — separar-me dela depois, porque o meu próprio destino, mãe, é continuar a viagem até Brytonia para entregar à casa Whithall os relatórios completos da queda de Ivandir.

Ostra ficará. Eu seguirei.

Eu não a verei mais em criança. Vê-la-ei talvez em adolescente, se a vida o permitir. Talvez como adulta, se sobrevivermos ambos à instabilidade do continente. Mas a criança que carrego agora, mãe, em sela compartilhada, sobre o casaco castanho que ela ainda veste, deixarei em Vehr-Sul em duas semanas.

E embora eu seja jovem, embora seja inexperiente em luto, embora não tenha jamais perdido nada de profundo na vida exceto o pai — embora tudo isto, mãe —, eu tenho a clareza apreensiva de homem que está a viver uma das três ou quatro experiências decisivas da sua vida. Esta menina não é minha filha. Não é minha sobrinha. Não é nada que a genealogia da casa Brytomark catalogue. Mas é, em sentido que ainda não sei nomear, algo de meu. Por uma noite. Por catorze dias de fuga. Por duas semanas mais até a entrega.

Pediria à mãe que rezasse por nós dois. Não pela casa. Não por Brytonia. Por nós dois. Sei que tendes em vossa devoção privada o rosário das almas em trânsito. Permiti-me pedir-lhe, esta vez, que o reze por nós com nome próprio. Esteban e Ostra. Em sequência única.

Obrigado, mãe.

Beijo-vos as mãos com a reverência habitual.

Vosso filho,

Esteban de Brytomark Conde, casa Brytomark menor Em Vehr-Maior, 7 de janeiro de 1781

(A correspondência é citada em arquivo brytônico da casa Whithall em arquivo restrito. Lady Margaret Brytomark-Whithall respondeu em fevereiro de 1781 com correspondência que confirmou o recebimento da medalha de São Veherano e que prometeu "rosário em sequência única por Esteban e por Ostra, todos os dias por catorze dias até o Rei dos Reis decidir, e depois mais catorze, e depois mais." Lady Margaret cumpriu a promessa. Em diário pessoal seu, recuperado por arquivistas brytônicos em 1827, registra-se que Margaret rezou o rosário em sequência única pelos dois nomes — Esteban e Ostra — todos os dias de fevereiro de 1781 até sua própria morte em outubro de 1789, ou seja, por oito anos e oito meses contínuos, totalizando aproximadamente três mil e duzentos rosários.)


X. A Primeira Tentação


Não havia mais pão na aldeia de Sárvar-Pequena há onze dias.

Petr Brunno, quarenta e quatro anos, viúvo desde 1773, pai de Tomas Brunno de doze anos, tinha entrado em decisão silenciosa havia três dias e tinha tomado a sua resolução final na noite de 14 de janeiro, em circunstâncias que mais tarde reconstruir-se-iam pela combinação do testemunho do filho Tomas em interrogatório inquisitorial de 1817 e por cartas anônimas — atribuídas posteriormente ao próprio Petr Brunno em análise grafotécnica da Reformada — que ele teria enviado, em primavera de 1781, à liderança nascente do que viria a ser a Heptarquia Pactuária.

Tomas tinha onze anos quando a queda de Ivandir aconteceu em outubro. Tinha doze quando Petr Brunno pactuou em janeiro. Vivia com o pai em casa pequena de pedra à borda norte da aldeia, com uma vaca leiteira (morta em fim de novembro por motivo desconhecido), oito galinhas (das quais cinco tinham sumido em dezembro), e uma despensa em que restavam, em 14 de janeiro de 1781, uma porção pequena de farinha de centeio, três batatas congeladas, meio jarro de azeite veherênico e duas tiras de carne salgada que Petr tinha guardado para emergência absoluta.

Tomas escreveria, em interrogatório de 1817, aos quarenta e oito anos, com a sintaxe brevidade e contida que era a marca dos testemunhos camponeses inquisitoriais — registrados em arquivo da Reformada como caso primus pactator, casuística canônica fundadora —, o seguinte trecho que o Compilator Aurum transcreve em sequência mínimo-editada:

"Meu pai falou comigo na noite de 14 de janeiro. Levantou-me da cama. Eu estava com fome desde Natal. Não tinha tido Natal com pão, foi o primeiro Natal sem pão na nossa casa. Meu pai disse: Tomas, eu vou rezar esta noite. Quero que tu fiques no quarto até eu te chamar. Eu disse: Sim, pai. Ele saiu para o quarto da frente. Eu fiquei no quarto de trás. Ouvi.

Não ouvi muito. Ouvi meu pai falar baixo durante um tempo. Não em latim eclesial. Em uma língua que eu não conhecia. Não era veherênico. Não era vykhradiano, embora vykhradiano eu também não falasse bem na época. Era outra língua. Era curta.

Em algum momento parou de falar. Houve um silêncio longo. Houve depois um cheiro. Foi um cheiro como de cobre queimado. Vinha pela porta. Eu olhei pela fresta. Vi meu pai ajoelhado, sozinho, no chão. Mas a sombra dele na parede atrás dele estava de outra maneira. Não era sombra dele. Era outra sombra, atrás da dele. Eu vi.

Meu pai ficou ajoelhado mais cinco minutos. Depois levantou-se. Depois saiu para o pátio. Voltou em meia hora com a vaca. A vaca estava viva. A vaca, que tinha morrido em fim de novembro e que tinha sido enterrada na cova atrás da casa. Estava viva. Meu pai levou-a para o estábulo. Ordenhou. Trouxe um jarro de leite. Veio até o meu quarto. Disse: bebe, Tomas. Eu bebi. O leite era doce. Eu bebi quatro copos."

(Aqui Tomas pausa em interrogatório. O escrivão da Reformada, em ata, anota: "o depoente engole em seco quatro vezes antes de prosseguir." Em seguida Tomas continua:)

"Eu não voltei a passar fome. Meu pai não voltou a passar fome. A vaca deu leite até o verão. As galinhas voltaram em fevereiro, todas as cinco, pelas mãos do próprio pai, sem que eu soubesse de onde elas vinham, e nunca pus pergunta. Em março, meu pai trouxe a farinha de centeio em saca cheia, do moinho de Kovelev, e a saca não pesava nas mãos dele como pesaria nas minhas, embora eu tivesse já doze anos e estivesse ganhando força.

Em abril, meu pai começou a viajar à noite. Saía depois do anoitecer. Voltava antes do amanhecer. Nunca me dizia para onde ia. Eu não perguntava. Em agosto, ele me disse que íamos mudar. Não de Sárvar-Pequena. De casa. Íamos morar em casa maior, mais ao leste, em terra que ele tinha comprado. Eu perguntei: comprado com que dinheiro, pai? Ele disse: dinheiro do pacto, Tomas. Eu não perguntei mais. Mudamos em setembro.

Em 1782 fomos viver em Vehr-Antiga, à beira do que viria a ser a fronteira leste, na zona em que se construiriam as primeiras cidades pactuárias. Em 1786, durante a Intervenção dos Arcanjos, meu pai morreu — foi atingido pela onda destrutiva em raio, junto com outros trinta mil. Eu não fui atingido porque estava em retaguarda comercial na cidade de Karzhar, que à época estava começando a se chamar Karzhar pela primeira vez em pacto inaugural com Sathnar.

Eu fiquei. Eu cresci pactuário. Tomas Brunno-Sárvar, da casa Brunno-Karzhar de primeira geração. Eu casei-me em 1788, tive três filhos, dois sobreviveram à infância. Em 1817, na incursão de cavaleiros do Selo à zona de Karzhar de janeiro, fui capturado em escaramuça com onze companheiros, três dos quais executados sumariamente em quatro dias. Eu não fui executado. Fui poupado para depoimento. Aceitei o depoimento porque o Padre Inquisidor Korvac em pessoa pediu-me que falasse, e eu — pela primeira vez em trinta e seis anos — tive vontade de falar. Eu falo agora a Vossa Reverendíssima pela primeira vez sobre a noite em que meu pai pactuou pela vaca morta. Eu falo porque morro depois desta semana e quero que conste em arquivo."

(Aqui Tomas encerra o depoimento. Foi executado em 6 de fevereiro de 1817 em rito sumário da Reformada Refundada. Pediu, antes da execução, que o testemunho fosse incluído no arquivo permanente da Reformada e que uma cópia fosse enviada à Diocese de Vladigrad, em homenagem ao Padre Lukan que morrera em mártir litúrgico de Vladigrad em 1780, e que Tomas considerava — sem saber bem por quê — "o oposto exato do que o meu pai foi." Korvac aprovou os dois pedidos. O testemunho está hoje em arquivo da Reformada como Caso 0001 - primus pactator de Sárvar-Pequena, casuística canônica fundadora dos pactos silenciosos do continente.)


(Fim do Ato II — segue Ato III: Os Primeiros Demônios)


ATO III — OS PRIMEIROS DEMÔNIOS

Inverno de 1780-1781 a outono de 1782 — primeiros confrontos e primeiras revelações


XI. O Encontro


A neve tinha caído pela quinta noite consecutiva, em quantidades que mesmo Halverson — brytônico do norte, acostumado às nevadas das colônias setentrionais — considerava excepcionais para a zona central-leste do continente em fevereiro. A trilha que vinham percorrendo desde o anoitecer estava praticamente apagada sob trinta centímetros de neve nova. Os cavalos avançavam com cuidado, encontrando o chão de pedra antiga sob a cobertura branca por reflexo treinado, não por visão.

A unidade era composta por cinco homens. Halverson, em comando. Tenente Vermont, brytônico, vinte e quatro anos. Sargento Marko, brytônico, trinta e três anos. Cabo Vasili, vykhradiano por adoção operacional (originalmente brytônico, transferido em 1779 para serviço cooperativo, fluente em vykhradiano), vinte e oito anos. E o batedor júnior, jovem Tomek, dezenove anos, em primeiro ano de serviço.

Acampamento à uma da madrugada, em pequena clareira protegida por três pinheiros caídos em formação natural. Fogueira reduzida — Halverson tinha ordenado fogo de baixa altura, em camuflagem operacional, porque nas últimas três semanas a unidade tinha encontrado três indícios de atividade não-humana em zonas adjacentes, e Halverson estava prudentemente alerta.

Os indícios anteriores tinham sido: primeiro, pegadas estranhas em zona de neve fresca, com padrão de pés que não correspondia a animal silvestre conhecido nem a ser humano; segundo, marcas de queimadura em troncos de árvores, com geometria que sugeria escrita Hor'kava embora ele, Halverson, não a soubesse ler; terceiro, ausência absoluta de fauna em uma extensão de quinze quilômetros, particularmente notável em zona que três meses antes abundava em corças e raposas. Os três indícios em conjunto sugeriam — Korvac em audiência final tinha-lhe dito, antes de partir para Aurum Roma — que algo estava se assentando em paisagem, e que a unidade devia agir com cuidado de quem precede patrulhamento de inimigo desconhecido em terreno familiar.

Halverson preparou-se para repouso de duas horas. Marko ficou de guarda primeira, com Tomek como segundo guarda menor. A fogueira foi reduzida a brasa baixa. Os cavalos foram amarrados em formação de fuga rápida — selas semi-afivelhadas, freios soltos, em proximidade de saída por trilha leste se necessário.

Halverson deitou. Adormeceu rápido. Sonhou.

No sonho — registrado depois em diário pessoal de campanha por exigência protocolar da casa Whithall —, Halverson estava em Brithon, em jardim da casa paterna, observando a sua mãe rezar o terço debaixo da macieira do jardim. A mãe estava de pé. Não rezava em fórmula brytônica conhecida. Rezava em latim eclesial veherênico antigo. Halverson não entendia o latim, mas reconhecia a sintaxe pela cadência. A mãe terminou. Olhou-o. Disse, em vykhradiano que ela não conhecia em vida:

— Filho, acorda. Acorda.

Halverson acordou.

Era ainda meia hora antes da troca de guarda canônica. Marko estava de pé, à beira da fogueira, com a espada brytônica de viagem sacada, em silêncio absoluto. A neve estava parando de cair. O ar estava — Halverson registrou ao acordar com a clareza que apenas o sonho-aviso permite — vazio. O mesmo vazio descrito pela aldeã Joana três meses antes em depoimento à Reformada. Vazio anti-litúrgico.

Halverson levantou-se sem ruído. Pegou a espada. Aproximou-se de Marko.

— Marko.

— Capitão. — Sussurrou. — Trinta metros. Norte. Três figuras.

Halverson olhou. Marko apontava com o queixo. Sob a luz fraca da lua filtrada pela nevasca em remissão, Halverson distinguiu, a aproximadamente trinta metros de distância da clareira, três figuras alinhadas em pé entre as árvores. Eram altas — talvez dois metros e meio cada, talvez mais. Estavam imóveis. Não emitiam som. Não tinham cavalos. Não pareciam ter armas. Apenas estavam paradas, em formação espaçada, olhando — Halverson não sabia exatamente para onde, porque a iluminação não permitia distinguir face — em direção à clareira.

— Há quanto tempo?

— Não sei. Quando me virei, estavam.

Halverson acordou os outros três — Vermont, Vasili, Tomek — em sequência rápida e silenciosa. Os quatro tomaram posição em torno da fogueira, com espadas sacadas e arcos brytônicos preparados. Vasili, o mais experiente em batalha real, posicionou-se à esquerda; Vermont à direita; Tomek atrás dos cavalos para fuga emergencial; Marko e Halverson à frente.

As três figuras não se moveram.

Halverson, em latim eclesial corrente — embora ele soubesse, pela educação superficial em catecismo, que o latim eclesial era considerado pelas tradições antigas como linguagem de proteção primária contra entidades demoníacas —, falou em voz audível:

— Quem sois?

As três figuras não responderam.

Vasili sussurrou em vykhradiano coloquial:

— Capitão, eu vi pegadas dessas três figuras em janeiro, na floresta de Brzezina. Eu reconheço a altura.

— Avançam ou recuam?

— Depende. Se nós nos movermos para o sul, recuam três passos. Se nós nos movermos para o norte, avançam três passos. Velocidade limitada. Cuidado.

Halverson pensou rapidamente. Tinha cinco homens, cinco arcos, cinco espadas, quatro cavalos para fuga emergencial. As três figuras estavam a trinta metros. Em terreno desnivelado, a unidade poderia recuar para o sul antes que as figuras alcançassem. Mas — Halverson registrou, e isto entraria em diário — a decisão prudente era recuar. A decisão necessária, segundo o seu mandato operacional, era observar.

— Marko. Quero saber se elas falam. Vou tentar provocá-las. Mantenham flecha em arco. Se eu cair, recolham com a unidade e fujam para Sárvar-Maior.

— Capitão, isto é desnecessário.

— É necessário, Marko. A Reformada precisa do dado. Korvac confirmou isto em janeiro.

Halverson avançou. Cinco passos. Manteve a espada baixa, em sinal canônico de comunicação não-hostil.

As três figuras não recuaram.

Halverson avançou mais cinco passos. Quinze metros agora. A luz aumentara discretamente — uma fresta na nuvem estava se abrindo —, e Halverson conseguiu, pela primeira vez, distinguir contorno de face.

Não havia face. Não exatamente. As três figuras tinham crâneos alongados, com aspecto humanoide apenas em silhueta exterior. A pele — se era pele — era cinza-escura, com textura que parecia escamosa em close. Os braços eram longos demais para a proporção humana. As mãos terminavam em garras finas, em três dedos cada. Os pés — Halverson conseguiu agora distinguir — não tocavam o chão. As três figuras estavam suspensas a aproximadamente cinco centímetros acima da neve fresca, que não registrava pegada.

Halverson parou.

A figura central das três falou.

Era voz humana — em formato. Mas com dois timbres simultâneos, em harmonia desafinada que Halverson teria descrito, em diário, como "como se duas pessoas falassem a mesma palavra na mesma boca, e as duas vozes se sobrepusessem em registro vibratório que humanos não produzem."

A palavra foi em Hor'kava. Halverson não conhecia Hor'kava. Mas a palavra ele reconheceu, pelo formato, como interrogativa.

A figura central repetiu a palavra três vezes. Em escalada de volume. À terceira repetição, a árvore atrás das três figuras racharia — racho seco, vertical, em pinheiro centenário, com uma fenda surgindo entre raízes e copa em quatro segundos.

Halverson não esperou pela quarta repetição. Falou, em latim eclesial corrente, a única fórmula que ele tinha decorado em catecismo brytônico para emergência espiritual:

Vade retro Satana, nunquam suade mihi vana. Sunt mala quae libas. Ipse venena bibas.

A fórmula é canonicamente atribuída ao Salmo 90 e ao Rito brytônico-veherênico de proteção menor. Halverson tinha-a aprendido aos onze anos, em catequese.

À primeira frase — Vade retro Satana —, a figura à esquerda das três recuou um passo.

À segunda frase — nunquam suade mihi vana —, a figura à direita recuou também um passo.

À terceira frase — sunt mala quae libas —, a figura central manteve a posição.

À quarta frase — Ipse venena bibas —, Halverson sentiu, sem que pudesse explicar racionalmente, um peso adicional na sua espada brytônica. A espada, que normalmente pesava aproximadamente novecentos gramas, pareceu pesar agora três quilos. Mas o peso não era cansaço. Era carga. Como se algo a tivesse abençoado em meio segundo.

Halverson levantou a espada. Avançou um passo em direção à figura central.

A figura central, pela primeira vez em todo o encontro, moveu-se.

Não recuou. Não avançou. Inclinou-se em direção a Halverson, com os ombros — se eram ombros — caindo levemente em sinal de submissão temporária ou de cálculo estratégico. Em seguida, dissolveu-se.

Dissolveu-se. Em sentido literal. A figura desfez-se em filete escuro que se elevou em direção ao céu — semelhante à fumaça em letras da queda de Ivandir, mas em formato individual — e desapareceu acima das copas dos pinheiros em quatro segundos.

As duas outras figuras, à esquerda e à direita, recuaram em sincronia seis passos, dezoito metros. Permaneceram observando. Não dissolveram. Não atacaram. Apenas mantiveram posição.

Halverson, ainda com a espada levantada e ainda com o peso adicional que tinha adquirido com a fórmula veherênica, virou-se para os homens.

Recolhem. Marko, primeiro. Vermont, segundo. Vasili, terceiro. Tomek, quarto. Eu, quinto. Cavalos prontos. Sul em direção a Sárvar-Maior. Em silêncio.

A unidade obedeceu. Em três minutos, os quatro cavalos estavam selados completamente, todos cinco homens em montaria de fuga. Halverson não baixou a espada até estar montado.

Cavalgaram em silêncio até o amanhecer. As duas figuras restantes seguiram-nos por aproximadamente sete quilômetros, mantendo distância de quinhentos metros, em paralelo às margens da trilha. Em algum ponto entre o sétimo e o oitavo quilômetro, desapareceram.

Halverson, em Sárvar-Maior dois dias depois, redigiu relatório completo do encontro para a Sé Aurelina. Enviou via mensageiro brytônico-aurelino. Sebastien Korvac, em Aurum Roma, recebeu o relatório quinze dias depois. Em audiência com Hesther em março, apresentou o relatório como primeiro confronto documentado da Cristandade pós-Cataclismo contra três entidades demoníacas em terreno aberto, com fórmula veherênica de proteção menor verificada como operacionalmente eficaz.

A unidade Halverson seria, em decreto de Hesther de abril de 1781, transferida da casa Whithall para o serviço aurelino sob a categoria nascente de Milites Sigilli — Cavaleiros do Selo, primeira designação canônica registrada da Ordem Militar. Halverson, Vermont, Marko, Vasili e Tomek seriam, portanto, os cinco primeiros Cavaleiros do Selo do continente pós-Cataclismo.

A espada de Halverson — que adquiriu carga adicional durante a fórmula veherênica em 22 de fevereiro de 1781 — viria a ser preservada, depois de Halverson morrer em 1816 aos cinquenta e sete anos durante uma incursão à fronteira leste, como primeira lâmina canônica abençoada em campo do continente pós-Cataclismo. A espada está hoje, em 1890, no salão maior do Palatium Reformatum, ao lado da luneta de Korvac, em altar gêmeo.

A fórmula veherênica usada por Halverson — Vade Retro Satana, etc. — entraria, por decreto de Aurelianus I em 1820, no Cânone das Fórmulas de Proteção Menor da Reformada Refundada, e é hoje, em 1890, parte do treinamento básico dos Cavaleiros do Selo desde o noviciado.


XII. A Branca


Vehr-Sul, 11 de fevereiro de 1781, dia primeiro do Ash.

Recebi hoje, das mãos do Conde Esteban de Brytomark — jovem brytônico de boa formação, modéstia compatível com a urgência das circunstâncias —, a menina Ostra, órfã de Ivandir, oito anos completos, salva da queda da capital em circunstâncias canonicamente inexplicáveis envolvendo medalha veherênica que se materializou na bolsa do Conde sem provimento humano identificável.

A entrega foi feita em câmara privada minha, sem testemunhas além de Soror Branca Marina (sessenta e quatro anos, assistente de Soror Maior) e do próprio Conde. Ostra estava bem-cuidada, alimentada, vestida em casaco castanho de brytônico que evidentemente era do próprio Conde adaptado para o tamanho dela. Mantinha-se em silêncio observativo característico — o silêncio que reconheço, com a experiência de quarenta anos em formação de jovens sensitivas, como sinal canônico maior de capacidade angélica desenvolvida.

Examinei-a. Em vinte minutos de exame ritual conduzido conforme protocolo das Sorores Albae, confirmei três das cinco marcas canônicas que identificam sensibilidade angélica de alto grau:

Primeira marca: silêncio observativo sustentado. A menina não interrompeu o silêncio em vinte minutos de exame. Não falou exceto quando questionada. Respondeu em frases curtas, com sintaxe precisa para a idade, sem floreio.

Segunda marca: percepção anti-litúrgica nascente. Ao aproximar dela o ramo de mirra consagrada que mantemos na câmara para teste, a menina olhou para a mirra antes de eu a mostrar. Soube que eu ia pegá-la. Foi percepção em três segundos, com clareza inequívoca.

Terceira marca: identificação espontânea de fórmula de proteção menor. Quando recitei a fórmula veherênica de proteção que reservamos para teste — Domine, ne abscondas —, a menina completou a fórmula com o segmento de protocolo: non in temere mihi. Não em tempo. Esta segunda metade da fórmula só é conhecida no interior das Sorores Albae e em três paróquias veherênicas remotas. A menina não pode ter aprendido em Ivandir — Ivandir não usava a fórmula completa.

Conclusão: Ostra é sensitiva natural de alta capacidade não-treinada, e o seu treinamento canônico deve iniciar-se sem demora. Aceitei-a formalmente como noviça branca de primeiro grau, com previsão de avançar para segundo grau em prazo de dois anos, se a evolução litúrgica corresponder ao potencial inicial.

O Conde Esteban, ao ser informado da aceitação, agradeceu em latim eclesial corrente, com fórmula brytônica de despedida. Antes de sair, ajoelhou-se diante de Ostra — gesto que entre os brytônicos não é canônico para despedidas comuns; reservam-no para situações de profunda significância pessoal. Disse à menina:

— Ostra, eu vou. Não voltarei tão cedo. Mas eu te lembrarei todos os dias, e tu, se quiseres, podes me lembrar quando rezares. Adeus.

Ostra olhou-o. Disse, em frase curta:

— Adeus, Esteban.

Foi a primeira vez que ela usou o nome dele sem o título de Conde. Esteban viu — eu observei a microcontração em seu rosto — que o uso do nome próprio era reconhecimento canônico de filiação adoptiva temporária. Beijou-lhe a fronte. Saiu.

Eu, Anastasia, ao fim do encontro, fiz três coisas em sequência:

Primeiro: redigi este diário, em forma de registro formal de aceitação. A entrada será incluída no arquivo permanente da ordem.

Segundo: comecei a preparar para Ostra o hábito branco de noviciado que ela usará a partir de amanhã. Tamanho criança, oito anos.

Terceiro — e esta é a parte que escrevo com cuidado, porque ainda não decidi se inclui em arquivo permanente: examinei-me a mim mesma sobre Ostra, e percebi, em meditação privada de duas horas conduzida na capela menor da fortaleza, que esta menina não é apenas mais uma noviça branca.

Eu rezei. Vi.

A queda de Ivandir foi o evento previsto. Ostra é a primeira da geração nova.

Não escrevo isto em arquivo permanente porque não tenho certeza canônica suficiente. Mas escrevo em diário pessoal, datado e selado, para que se tu, leitor futuro — quem quer que sejas, em quaisquer arquivos das Sorores Albae em quaisquer décadas vindouras —, este registro pertence ao caso documentado em data de hoje.

Que se faça, sobre ele, o que se julgar conveniente.

Domine, ne abscondas. Non in temere mihi.

Anastasia, Soror Maior de Vehr-Sul, 11 de fevereiro de 1781.


Continuação: Vehr-Sul, 14 de fevereiro de 1781, dia quarto do Ash.

Três dias de treinamento inicial com Ostra. Confirmo as marcas canônicas. Acrescento agora quarta marca — sensibilidade ao Lúmen.

Hoje, durante a oração matutina da ordem na capela maior, Ostra — sentada no canto reservado às noviças, na fileira mais ao fundo — levantou-se em meio à recitação coletiva do Salmo XLII, sem ser chamada, e caminhou até o altar. Parou diante da vela votiva central — uma vela de óleo de baleia consagrado, sem propriedades extraordinárias —, olhou-a longamente, e a chama desta vela alterou-se.

A chama, antes vacilante na corrente fraca do altar, firmou-se durante o tempo em que Ostra a olhou. Não chama vacilante. Chama firme. Como se a vela se tivesse transmutado em algo cuja chama não responde a corrente de ar. Por cinco minutos completos, durante os quais Ostra permaneceu de pé olhando, a chama não se moveu.

Quando Ostra deu meia-volta e retornou ao seu lugar, a chama voltou ao normal — vacilação proporcional à corrente.

Soror Branca Marina, ao meu lado durante todo o evento, olhou-me com a expressão técnica que reservamos para confirmação de fenômeno canônico não-precedente. Eu retribuí o olhar. Continuamos a recitação do Salmo sem interromper. Mas em câmara privada após a oração, Marina perguntou-me:

— Anastasia. Já viste isso antes?

— Não.

— Em arquivo?

— Em arquivo das anciãs há menção a possibilidade. Em prática, nunca.

— Vais reportar a Aurélia Magna?

— Vou reportar — pausa — quando a Soror Maior conseguir compreender o que reportar.

Marina concordou.

Conclusão da quarta marca: Ostra tem capacidade de estabilizar matéria luminosa por proximidade angélica não-mediada. A capacidade não tem nome canônico ainda. Vou chamá-la, em diário pessoal, de estabilização Lúmen — embora o termo "Lúmen" não exista ainda em arquivo das Sorores Albae como categoria, e que eu o use aqui por intuição.

Em 1842, sessenta e um anos depois, em Cânones Mineralógicos do Pontífice Hashmalian I — codificação canônica primeira da família dos sete minerais consagrados —, o mineral consagrado chamado Lúmen receberia oficialmente o nome que Anastasia tinha intuído na sua câmara em Vehr-Sul. Sergio Hoppen — futuro Aurelianus I — viria, em 1820, ler este diário de Anastasia (preservado pelas Sorores Albae em arquivo selado) e propor o nome ao seu sucessor Hashmalian I.

A continuidade, em arquivo, é canônica: Ostra estabilizou a primeira chama Lúmen do continente em 14 de fevereiro de 1781. O mineral foi nomeado pela Cúria sessenta e um anos depois, em homenagem indireta a uma menina órfã de oito anos que morreu em ano três de contato pleno em Vehr-Sul em 1785 e cuja existência o continente em 1842 já tinha esquecido salvo nas Sorores Albae.


(Aqui termina o diário de Anastasia que pertence ao Ato III. Continuará com entradas posteriores na continuação do Ato IV. Marca canônica adicional confirmada em junho de 1781 — sintaxe Hashmal nascente em Ostra aos oito anos e meio — será citada no Ato IV.)


XIII. O Pacto


Voldemar Vykhradsky sentou-se à mesa da biblioteca pela quarta noite consecutiva, com a única vela de cera comum acesa no candelabro de prata herdado dos avós, e olhou para a folha de papel virgem sobre o tampo de carvalho escuro. A folha estava lá há trinta e duas horas. Voldemar não escrevera. Tinha lido, em vez disso, três vezes os contratos de empréstimo que tinha em mão, e três vezes as cartas que tinha recebido da casa Vykhradsky-Maior em Vehr-Maior, e três vezes a correspondência da casa Whithall em Brithon. Cada leitura, em ciclo de oito horas, confirmava o que ele já sabia ao fim da primeira: a casa Vykhradsky-Karzhar estava arruinada.

A casa devia trezentos e sessenta e dois mil ducados aurélios — moeda dominante no comércio inter-regional antes do Cataclismo, em paridade com o que viria a se tornar o Áureo Coronato — em obrigações pendentes a três credores: a casa Vykhradsky-Maior (cento e oitenta mil ducados, em empréstimo de capital de giro para a campanha agrícola de 1779), a casa Whithall de Brithon (cento e doze mil ducados, em obrigações comerciais de seda em troca de armas-de-coro veherênicas que nunca seriam entregues porque os contratos morreram com Ivandir), e a Coroa Vykhradiana (setenta mil ducados, em imposto territorial atrasado).

A casa Vykhradsky-Karzhar tinha, em ativos líquidos, quatro mil ducados em moedas guardadas no cofre da biblioteca. Tinha em ativos imobiliários a residência rural — que valeria, em mercado normal, trinta mil ducados, mas em mercado de 1781 valia talvez dois mil pela proximidade com a fronteira leste em colapso. Tinha em ativos rurais quatrocentos hectares de terra agrícola — que valeriam, em mercado normal, oitenta mil ducados, mas em mercado de 1781 valiam zero porque ninguém queria comprar terra fronteiriça em zona de queda de Selo.

Voldemar tinha quatro mil ducados para honrar trezentos e sessenta e dois mil. Em quatro semanas, a casa Vykhradsky-Maior executaria a hipoteca da residência rural. Em oito semanas, a casa Whithall executaria a hipoteca dos hectares. Em doze semanas, a Coroa Vykhradiana executaria mandado de prisão por dívida fiscal, e Voldemar — em situação familiar com cinco filhos e mulher idosa — seria preso ou exilado em condições que ele não conseguia, em três noites de meditação, prever sem horror.

Quatro mil ducados. Trezentos e sessenta e dois mil. A casa estava acabada.

E foi na quarta noite — 3 de março de 1781, segunda-feira, com a tempestade de inverno tardio caindo sobre a residência rural em vento que sacudia as janelas em vibração contínua — que Voldemar Vykhradsky escutou bater à porta da biblioteca.

Bateu três vezes. Em sequência ritualizada — três batidas curtas, em ritmo proposital, com cinco segundos exatos entre cada uma. Voldemar identificou o ritmo como não-humano. Servos da casa nunca batiam assim. Família nunca batia assim. Sem que pudesse explicar como sabia, Voldemar sabia que quem batia à porta da biblioteca, naquela noite, não era ninguém da residência.

Olhou para a vela. A chama, em corrente normal, vacilava. Olhou para a folha de papel virgem. Olhou para o cofre da biblioteca, fechado, com os quatro mil ducados dentro. Olhou para a porta.

— Entre.

A porta abriu-se sem rangido. Não havia ninguém visível imediatamente. Foi necessário, em segundos depois, Voldemar olhar mais cuidadosamente, e perceber que uma figura entrava em formação progressiva — como se fumaça espessa estivesse a tomar a forma de homem sob a moldura da porta, em três ou quatro segundos de coalescência. Ao fim dos quatro segundos, a figura era um homem aparente.

Era alto. Não excessivamente — talvez um metro e oitenta. Vestia roupa que parecia, em primeira impressão, traje aristocrático veherênico do século anterior — sobrecasaca verde-escura com bordados em fio de prata em formato que Voldemar reconheceu vagamente como sigilo, embora não soubesse identificar especificamente. Tinha cabelo escuro recolhido com fita de seda preta. Olhos cinza. Não tinha barba.

Sentou-se sem ser convidado, na cadeira oposta à de Voldemar. Pôs as mãos sobre a mesa — mãos longas, em dedos finos, com unhas curtas mas perfeitamente trabalhadas. Olhou Voldemar com paciência amigável.

— Conde Voldemar.

— Senhor. — Voldemar manteve a voz nivelada. — A quem devo a honra?

— Não tenho nome neste registro. Ou tenho muitos, e nenhum em formato que vossa mercê reconheceria sem aprendizagem prévia. Pode chamar-me Visitante. Servirá.

— Visitante.

— Conde. Eu vim em consideração da vossa situação atual. Tenho proposta. Vossa mercê escutará?

Voldemar inspirou. Inspirou três vezes. Sabia, em quarenta e sete anos de educação aristocrática veherênica, que o protocolo correto, ao encontrar entidade não-humana na biblioteca em terceira noite de meditação sobre arruinamento financeiro, era dispensá-la com fórmula de proteção menor e fechar a porta. Sabia também — e este era o conhecimento que entrava em conflito direto com o protocolo — que fechar a porta não resolvia trezentos e sessenta e dois mil ducados.

A esposa Helena estava no quarto principal, dormindo após dose de chá calmante que Voldemar lhe tinha preparado pessoalmente. Os cinco filhos estavam em seus respectivos quartos — os dois adolescentes (Voldemir, dezessete, e Anya, quinze) em camas separadas; os três pequenos (Karl, oito; Sofia, seis; Mikhail, três) em um único quarto. Voldemar tinha verificado todos antes de descer à biblioteca. Os cinco dormiam.

— Escutarei — disse Voldemar.

O Visitante inclinou levemente a cabeça em sinal de aceitação cortês.

— Conde Voldemar. Eu represento — pausa — interesse específico em famílias nobiliárias veherênicas que se encontram, neste momento histórico, em situação de inviabilidade econômica iminente em razão das condições de mercado posteriores à queda da capital. A nossa coalizão tem, no presente, capacidade ampla de oferecer solução estrutural a problemas de magnitude semelhante ao da casa Vykhradsky-Karzhar.

— Coalizão.

— Não é fórmula que vossa mercê reconhecerá em registros canônicos veherênicos. Mas servirá como termo descritivo. Posso continuar?

— Pode.

— A proposta da coalizão à casa Vykhradsky-Karzhar é a seguinte. — O Visitante pôs sobre a mesa, com a destra, um documento que não estivera ali um instante antes — Voldemar não viu a mão do Visitante se aproximar do casaco para retirá-lo; o documento simplesmente apareceu sobre o tampo. — Primeiro: as três obrigações pendentes da casa — junto à Vykhradsky-Maior, à Whithall, à Coroa Vykhradiana — são integralmente quitadas em prazo de dezesseis dias úteis. Trezentos e sessenta e dois mil ducados aurélios. Quitados. Sem necessidade de qualquer ação ulterior da casa.

Voldemar olhou o documento. Era pergaminho — fino, de qualidade superior à que ele tinha em casa, em material que ele não conseguiu identificar imediatamente. Tinha texto em latim eclesial corrente. Voldemar leu a primeira linha. Reconheceu o nome próprio dele. Reconheceu o valor. Reconheceu os nomes dos três credores. Tudo conforme o Visitante tinha resumido.

— Em troca — continuou o Visitante —, três compromissos.

— Que compromissos.

— Primeiro: vossa mercê, em nome da casa, assina o documento que está à frente. O documento é pacto de natureza específica. A natureza, em registro humano, é demoníaca. Em registro nosso, é meramente operacional. Vossa mercê assinará com tinta especial que lhe fornecerei, e o sinete pessoal seu será aplicado três vezes. Esta é a parte primeira.

— Demoníaca.

— Conde. O termo é veherênico. Eu não me oponho ao termo. Apenas o reconheço como classificação canônica da Cúria de Roma. A coalizão a que sirvo opera, em interesse próprio, em registro que a Cúria efetivamente classifica como tal. Não nego. Continuo?

— Continua.

— Segundo compromisso: a casa Vykhradsky-Karzhar abandonará a residência rural atual e se transferirá, em prazo de seis meses, para zona oriental do continente — região que está, neste exato momento, em formação política autônoma sob coalizões aliadas à nossa. A região será conhecida, em vinte anos, como Heptarquia Pactuária, com sete cidades patronas em organização. A casa Vykhradsky-Karzhar irá especificamente para a cidade que se chamará Karzhar — daí o sobrenome atual da casa adquirir nova relevância onomástica.

— Karzhar — repetiu Voldemar. — Apenas coincidência?

— Não, Conde. A coalizão escolheu a vossa casa para Karzhar porque o nome já lhe pertence em sobrenome. O sobrenome Vykhradsky-Karzhar, herdado pela linha menor de Vehr-Sul, em catorze gerações de continuidade nobre, foi sussurrado em sigilo pela linhagem materna desde 1408, em previsão do que viria a acontecer hoje. Vossa avó materna sabia. Talvez vossa mercê não soubesse. Mas a coalizão sabe.

Voldemar Vykhradsky sentiu, no terceiro segundo desta revelação, uma sensação que ele descreveria em correspondência futura com o filho mais velho como "o momento em que a memória da minha avó materna em Vehr-Sul, em 1740, em câmara de cozinha em conversa privada que eu tinha esquecido, retornou em clareza absoluta a esta biblioteca em 3 de março de 1781."

A avó Borka tinha-lhe dito, quando ele tinha cinco anos: "Voldja, nosso nome tem segunda metade. Karzhar. Não esqueças isto. Eu não digo onde fica. Ninguém ainda sabe. Mas o nome existe há quatrocentos anos. Quando chegar o tempo, alguém te dirá."

Voldemar tinha esquecido as palavras da avó por quarenta e dois anos. Lembrava agora.

— Terceiro compromisso — continuou o Visitante. — Vossa mercê, ao chegar a Karzhar, em mandato de seis meses, prestará serviço operacional contínuo à coalizão em natureza administrativa — fundação da casa nobre de Karzhar primeira, organização das outras casas pactuárias que chegarão em sequência, mediação política com os Príncipes do Vício em representação institucional. Não é serviço fácil. É serviço honroso. A casa Vykhradsky-Karzhar de Karzhar será, em duas gerações, casa fundadora canônica da Heptarquia Pactuária inteira.

— Os filhos.

— Os filhos serão integrados ao sistema pactuário de Karzhar conforme o ritmo natural de crescimento. Voldemir, o mais velho, em três anos, em pacto secundário com Sathnar. Anya, em casamento aristocrático com casa pactuária aliada em quatro anos. Karl, Sofia, Mikhail — em ritmo de crescimento canônico. Helena, vossa esposa, permanece na casa, sem pacto explícito, em respeito à devoção romana que vossa mercê e a coalizão sabemos que ela mantém em ato — devoção que não obstaculiza a aliança operacional.

Voldemar inspirou.

— Helena não pactuará.

— Helena não pactuará. Garantia da coalizão.

— Os pequenos, em ritmo de crescimento. Quero dizer — pactuarão eventualmente.

— Conde — disse o Visitante com paciência levemente cansada —, vossa mercê está pensando em humano em pacto fora da regra canônica humana. Em Karzhar, em sessenta anos, em terceira geração da casa Vykhradsky-Karzhar de Karzhar, o pacto não será mais decisão consciente individual. Será estado natural do nascido em Karzhar. Vossos netos nascerão pactuados. Os bisnetos, idem. Como vossa mercê nasceu cristão sem ter escolhido, eles nascerão pactuários sem ter escolhido. Não há tragédia nisso, na nossa avaliação. Há sucessão estável.

Voldemar ficou em silêncio durante exatamente quatro minutos completos. O Visitante esperou. A vela vacilou na corrente. O vento tempestuoso sacudia as janelas. Helena, no quarto principal, dormia com chá calmante. Os cinco filhos dormiam. O cofre da biblioteca continha os quatro mil ducados. O documento sobre a mesa de carvalho oferecia a quitação dos trezentos e sessenta e dois mil em troca de pacto silencioso.

— Posso pensar até amanhã?

— Pode pensar até amanhã.

— Vossa mercê retorna amanhã?

— Não retorno. Vossa mercê assinará ou não assinará. Se assinar, a tinta especial e o documento estarão sobre a mesa amanhã às vinte e duas horas. Se vossa mercê não assinar — não os encontrará. A oferta encerra em vinte e quatro horas a partir deste instante. Não retornará.

— Compreendido.

O Visitante levantou-se. Inclinou levemente a cabeça em reverência cortês. Caminhou em direção à porta. Antes de sair, parou. Olhou para Voldemar.

— Conde Voldemar. — Pausa. — Uma observação adicional. Não exige resposta agora. Vossa mercê não é o primeiro nobre veherênico a quem a coalizão oferece esta proposta neste inverno. Vossa mercê é o décimo segundo. Dos onze anteriores, oito aceitaram. Os três que recusaram — porque vossa mercê provavelmente perguntará a si mesmo — estão hoje em três situações específicas. Um suicidou-se em janeiro. Um foi preso por dívida em fevereiro e está em cela vykhradiana em fome contínua. O terceiro fugiu para Aurélia Magna em pobreza e serve hoje como copista em scriptorium da Sé Aurelina por pagamento mínimo.

— E os oito que aceitaram?

— Os oito que aceitaram estão em Karzhar. Em formação. Em saúde. Em prosperidade. Em estabilidade familiar. Vossa mercê pode visitá-los, se quiser, na próxima primavera, em Karzhar nova.

Voldemar não respondeu.

O Visitante saiu. A porta fechou-se sem rangido. O documento ficou sobre a mesa.


Voldemar assinou na noite seguinte, 4 de março de 1781, às vinte e duas e dezessete horas. Usou a tinta especial — densa, escura, com leve cheiro metálico — que apareceu sobre a mesa às vinte e duas em ponto, conforme prometido pelo Visitante. Aplicou o sinete pessoal três vezes. Sentiu, em momento exato do terceiro sinete, uma vibração breve na palma da mão direita — vibração de duração aproximada de meio segundo, sem dor, mas inegável.

Em dezesseis dias úteis, as três obrigações da casa foram quitadas conforme previsto. Voldemar nunca viu como — apenas recebeu, no décimo sétimo dia, três certidões de quitação independentes da Vykhradsky-Maior, da Whithall, e da Coroa Vykhradiana, todas em fórmula canônica autêntica, todas com sinetes dos credores.

Em seis meses, a casa transferiu-se para Karzhar nova. Helena seguiu sem pacto pessoal, conforme a garantia do Visitante. Voldemir, o filho mais velho, pactuou aos vinte anos com Sathnar. Anya casou-se com a casa Hatzmann-Karzhar em 1786. Karl, Sofia, Mikhail cresceram em Karzhar e em ritmo natural integraram-se à sociedade pactuária da cidade nascente. Os netos de Voldemar nasceram em Karzhar e foram pactuados ao nascer, conforme o Visitante tinha previsto.

Voldemar morreu em 1808, aos setenta e quatro anos, em Karzhar, em sua casa de Karzhar com vista para a Praça do Trono Caído — onde uma torre veherênica antiga ainda se erguia, em ruína gótica, sob a Cordilheira do Iracundo. Em testamento, deixou aos descendentes o seguinte conselho final, em correspondência selada para abertura em ano cem da casa Vykhradsky-Karzhar de Karzhar (1881): "se algum dos vossos descendentes encontrar-se em situação inviável e for visitado por entidade não-humana com proposta de quitação contra pacto silencioso — escutai, pesai, decidi. Eu escutei. Eu pesei. Eu decidi. A casa sobreviveu. Foi a única forma. Mas pondereis se, em vossa circunstância específica, há outra forma. Talvez haja. Talvez não."

A correspondência foi aberta em 1881. Tinha sete linhas adicionais que Voldemar redigira em 1808 e que se mantiveram seladas: "se houver outra forma — e haverá, em algum continente futuro, em alguma era futura, em alguma fé refeita —, prefiram a outra forma. Os trezentos e sessenta e dois mil ducados pareceram, em 1781, dívida absoluta. Em retrospectiva de vinte e sete anos, eu sei agora que eram dívida resolvível por outra fórmula — pobreza, exílio, trabalho honesto em scriptorium. Eu escolhi a fórmula errada porque a fórmula errada era mais fácil. Adverti meus descendentes. Adeus, casa Vykhradsky-Karzhar. Voldemar."

Esta correspondência foi recuperada pelos Cavaleiros do Selo em incursão a Karzhar de 1890 e está hoje, em data presente desta crônica, em arquivo do Cofre do Coro em Aurum Roma, em iceberg permanente.


XIV. O Mineral


A galeria 17-Norte da mina de Velký Stříbro tinha sido aberta em 1762 por equipe de exploração da casa Vladigrad-Norte, em busca de cobre que efetivamente foi extraído em volumes médios entre 1763 e 1779. Em 1780, com a queda de Ivandir e o subsequente desmoronamento administrativo da casa Vladigrad-Norte em novembro, a mina entrou em situação de propriedade indefinida. Os outros mineradores — quarenta e três no total — abandonaram em janeiro de 1781. Joran ficou.

Ficou por dois motivos: primeiro, porque não tinha para onde ir, sendo solteiro, sem família próxima sobrevivente (todos os Vassek estavam em Vladigrad no momento da queda), sem residência alternativa, sem credenciais para emigrar para Aurélia Magna; segundo, porque encontrava na mina, especificamente na galeria 17-Norte, uma forma de silêncio operacional que correspondia à sua disposição interior pós-Cataclismo. A galeria era escura. Frita. Sem outros homens. Permitia trabalho contínuo durante doze horas por dia em isolamento absoluto. Joran levava pão escuro e água — suprimentos para três dias — e descia. Voltava à superfície apenas para repor suprimento e dormir oito horas no abrigo abandonado da casa de mineradores.

Em três meses de extração solitária, Joran tinha acumulado aproximadamente quatrocentos kilos de cobre médio em depósito improvisado no fim da galeria. Não tinha como vender — todos os compradores tradicionais estavam mortos ou em fuga. Mas continuava extraindo, por inércia operacional, talvez por necessidade de manter ocupação.

Em 18 de abril, em turno matutino, em galeria já avançada à profundidade de duzentos e dezessete metros, Joran encontrou a veia.

A veia apareceu em parede lateral. Era diferente. Não era cobre. Não era ferro comum. Era — Joran levantou a tocha à proximidade da parede e olhou cuidadosamente — uma faixa de mineral cuja cor variava entre prateado-escuro e prateado-azulado em padrão ondulante, com brilho que não correspondia a brilho de iluminação refletida. O brilho era interno.

Joran nunca tinha visto mineral assim. Em sete anos de mineração veherênica, em três jazidas diferentes, em centenas de relatórios técnicos da casa Vladigrad-Norte que ele tinha consultado por hábito, nunca aparecera mineral com aquela qualidade visual.

Aproximou-se mais. Tocou. O mineral estava morno. Não quente. Morno. Como se a parede da galeria, a duzentos e dezessete metros de profundidade em rocha que naturalmente está a temperatura constante baixa, estivesse irradiando calor a partir daquela faixa específica.

Joran retirou a luva esquerda. Tocou diretamente. O mineral permaneceu morno em contato direto com a palma.

Pegou a picareta. Aproximou. Bateu — leve, primeiro, em teste. O mineral não rachou facilmente. Era duro. Mais duro que cobre. Mais duro que ferro fundido comum. Joran bateu mais forte. Conseguiu deslocar um fragmento pequeno, do tamanho aproximado de uma noz.

Pegou o fragmento. Examinou à luz da tocha. O fragmento brilhava em cor prateado-azulado. Era pesado para o tamanho — talvez três vezes o peso do que um fragmento equivalente de cobre. Era denso.

E foi quando Joran, segurando o fragmento na palma direita, percebeu três coisas em sequência rápida que mudariam sua vida.

Primeira: o fragmento aqueceu-se levemente em sua palma, em três segundos após o contato direto. Aqueceu-se a temperatura ligeiramente acima da do corpo humano — talvez quarenta graus —, mas não além. Estabilizou nessa temperatura.

Segunda: um zumbido baixo vinha do fragmento. Audível apenas em proximidade. Não era zumbido de inseto. Era zumbido de vibração metálica, em frequência baixa e constante.

Terceira: Joran sentiu, no terceiro segundo após o contato, um pensamento que não era seu. O pensamento veio em fórmula completa, em latim eclesial, em sintaxe que ele — Joran, minerador semi-analfabeto, sem formação litúrgica formal além da catequese paroquial básica — não tinha capacidade de produzir originalmente:

"Ferrum Chori. Servirá."

Ferrum Chori. Ferro do Coro.

Joran não conhecia latim eclesial em nível conversacional. Mas reconheceu, em fração de segundo, que a frase tinha sido pronunciada dentro da sua cabeça por outro, e que a frase nomeava o mineral, e que alguém ou algo estava acompanhando a sua descoberta a partir de algum lugar fora do que a sua experiência categorizava.

Joran ajoelhou-se sem pensar. Em galeria escura, a duzentos e dezessete metros sob a Cordilheira do Crepúsculo, com o fragmento ainda na palma direita, com a tocha em chão piscando, com a respiração ofegante de quem reconheceu sem ter como reconhecer, Joran ajoelhou-se e rezou o Pai Nosso veherênico que tinha aprendido em catequese aos sete anos.

Rezou três vezes. Como os anciões selavam.

Quando terminou a terceira repetição, sentiu — em registro mais nítido que da primeira vez — uma segunda frase implantada:

"Sub catedrais. Conduz a Aurélia Magna. Bispo Hesther."

Joran levantou-se. Olhou para o fragmento. Olhou para a veia. Olhou para a tocha em chão. Decidiu, naquele instante, sem que pudesse explicar racionalmente, o que faria.

Embrulhou o fragmento em pano de algodão limpo. Pôs no bolso interno da camisa. Examinou a veia uma última vez para memorizar localização exata. Subiu para a superfície. Foi ao abrigo. Pegou suas poucas coisas. Selou o portão da galeria 17-Norte com pedras grandes que ele mesmo arrastou — em ação que normalmente exigiria três homens, e que Joran executou sozinho em quatro horas, sem que conseguisse depois explicar de onde lhe vinha a força. Lacrou o acesso à mina. Tomou nota mental dos pontos de referência exteriores para retorno.

E partiu para Aurélia Magna.

Caminhou trinta e dois dias, sozinho, em estradas que estavam parcialmente seguras e parcialmente em risco de incursões de Pactuados nascentes e de demônios livres em zonas peripheriais. Foi assaltado três vezes — em duas, dispensado pela óbvia pobreza visual (Joran levava apenas trapos, sem dinheiro aparente); na terceira, salvo por patrulha brytônico-aurelina que passava por acaso na trilha. Comeu pouco. Dormia em estábulos ou ao relento. Falava com ninguém senão o estritamente necessário.

Em 21 de maio de 1781, Joran Vassek apresentou-se à portaria do Palácio Episcopal Aurelino de Aurélia Magna. Disse ao porteiro:

— Tenho coisa para o Bispo Hesther. Pessoalmente.

— Que coisa, vagabundo?

— Coisa que ele está esperando.

O porteiro hesitou. Joran tinha o aspecto degradado de quem caminhou trinta e dois dias por estradas perigosas em trapos. Mas dizia a frase com a clareza inequívoca de quem sabe o que diz. O porteiro mandou chamar Diácono-Auxiliar Vincentius — o mesmo Vincentius que tinha recebido o Bispo Markovic em novembro do ano anterior. Vincentius desceu. Olhou Joran.

— Quem és?

— Joran Vassek, minerador de Velký Stříbro. Trago coisa que o Bispo Hesther está esperando, embora ele talvez não saiba ainda que espera.

Vincentius olhou para Joran. Em três meses naquela porta tinha visto seis charlatães vagabundos pedindo audiência pontifícia. Cinco tinha despachado sem comentar. O sexto — em fevereiro — tinha sido um caso menor de possessão demoníaca rural, identificado depois pela ordem nascente dos Cavaleiros do Selo. Mas Joran tinha algo que não cabia em charlatão nem em possesso. Tinha — Vincentius não saberia explicar — a presença canônica de quem foi enviado.

— Senta. Eu falo com o Arcebispo.

Em duas horas, Joran estava em audiência privada com o Arcebispo Hesther. Apresentou o fragmento. Hesther tocou. Sentiu o calor. Sentiu o zumbido. Em três segundos, Hesther, com a sua formação em Salzburgo e em Genebra e a sua fluência em três línguas litúrgicas, recebeu — pela primeira vez na sua vida adulta — revelação angélica direta.

A revelação foi breve. Veio em sintaxe Hashmal que ele identificou imediatamente como tal pelo padrão sem-verbo característico. A frase implantada foi:

"Ferrum Chori. Joran descobriu. Sub-cordilheira Crepúsculo. Galeria 17-Norte. Equipe enviada. Mineral consagrar em rito litúrgico veherênico fórmula Sergio modificada. Doctrina nova. Servirá vinte e três anos antes próximo mineral. Hesther preparar Cúria. Reformar liturgia. Tempo presente."

Hesther saiu da revelação — que durou aproximadamente nove segundos — com a clareza absoluta de que tinha sido chamado canonicamente a uma função que excedia o seu mandato episcopal regional. Olhou para Joran. Disse, em latim eclesial corrente:

— Joran Vassek. Tu serás recompensado pela Sé. Vais ter casa em Aurélia Magna. Vais ter pensão pelo resto da vida. Vou enviar equipe de Cavaleiros do Selo para a galeria que tu descobriste. Tu vais conduzir a equipe pessoalmente.

— Eminência.

— Em troca disto, peço-te que vivas em Aurélia Magna sob protecção episcopal e que jamais reveles, em conversação humana com pessoa não-clerical, a tua descoberta. Compreendes?

— Compreendo, eminência.

— Vai descansar. Vincentius cuidará.

Joran retirou-se. Hesther ficou sozinho.

Levou o fragmento ao seu altar privado. Apoiou-o sobre a pedra do altar. Acendeu vela votiva. Rezou em fórmula veherênica a oração que ele tinha aprendido em criança com sua mãe brytônica:

"Domine, ne abscondas. Domine, ne abscondas. Domine, ne abscondas."

Em quarenta e dois minutos, Hesther tinha redigido e despachado três cartas:

Primeira, a Sebastien Korvac em Roma, ordenando expedição militar imediata a Velký Stříbro com vinte Cavaleiros do Selo.

Segunda, a Padre Vincentius interno, ordenando reunião extraordinária do Sínodo Diocesano de Aurélia Magna em quinze dias para apresentação formal do Ferrum Chori à Cúria.

Terceira, a si mesmo — em forma de diário pessoal —, com a frase única em latim eclesial: "Hodie incepit doctrina nova. Eu vou ler isto em três décadas e talvez não me lembre por quê. Mas escrevi para que conste: hoje começou."

Hodie incepit doctrina nova. Hoje começou a doutrina nova.

A galeria 17-Norte, em verão de 1781, viria a fornecer ao continente as primeiras três toneladas de Ferro-do-Coro extraído canonicamente sob purificação ritual conduzida por equipe veherênica residual em colaboração com a Sé Aurelina. Em 1820, sob Aurelianus I, a galeria seria expandida em mina industrial de larga escala, integrada ao que viria a ser o Estado de Ferrum Alpina — embora geograficamente localizada na Cordilheira do Crepúsculo, a integração administrativa colocaria a mina sob jurisdição do Estado interno mais especializado em mineração consagrada.

Joran Vassek viveu o resto da vida em Aurélia Magna sob pensão episcopal. Morreu em 1838, aos oitenta e seis anos, em casa modesta junto à muralha leste da Cúria. Em testamento, pediu que a sua sepultura fosse marcada simplesmente como "primus mineralium consacratorum descobridor. Joran Vassek. 1752-1838." O pedido foi cumprido. A sepultura está hoje no Cemitério dos Honrados da Maritima Coronata Sul, em Aurum Roma, e é visitada anualmente por delegação dos Hospitalários do Hashmal no Feriado dos Mineradores Consagrados, 18 de abril.


(Fim do Ato III — segue Ato IV: A Fragmentação)


ATO IV — A FRAGMENTAÇÃO

1782-1786 — quatro anos de desespero antes do conclave


XV. Veheran Recuando


Teorbano III tinha aprendido, em vinte e quatro meses de governo em recuo, três lições amargas que ele jamais conseguiria comunicar ao seu sucessor — o que era, em si, parte da terceira lição. A primeira lição era que um reino que perde a capital perde também a sua memória institucional, e que recuperar memória institucional em fragmentos espalhados por bispados sobreviventes em terceira mão era trabalho impossível em prazo administrável. A segunda lição era que um reino em fuga não tem mais súditos no sentido pleno do termo, mas tem refugiados sob protecção real — categoria nova que exigia administração diferente da do reino canônico anterior. A terceira lição era que um rei velho em recuo tornava-se figura simbólica decrescente, e que cada mês de recuo adicional reduzia em margem mensurável a sua capacidade de comandar os generais sobreviventes do exército profissional veherênico.

Em outubro de 1782, segundo aniversário do Cataclismo, Veheran como reino existia em quatro centros geográficos:

Vehr-Maior, capital provisória de Teorbano III, com aproximadamente cento e vinte mil habitantes, dos quais sessenta mil eram refugiados de Ivandir e adjacências; — Sul-Vehr, fortaleza meridional sob comando do General Konstanty Vlassov, com guarnição de aproximadamente quatro mil homens e vinte e três mil refugiados civis (incluindo, embora Teorbano ainda não soubesse, a menina Ostra agora com dez anos em formação Branca avançada sob Soror Maior Anastasia); — Mons-Veher, fortaleza alpina central sob comando do Conde Yvar de Ostvehr (o mesmo Conde Yvar que tinha sido interlocutor preferencial de Esteban de Brytomark durante a fuga de Ivandir em 1780 — e que, nesta data de 1782, tinha decidido manter posição em Mons-Veher como reduto cristão arcaico em vez de fugir para Vehr-Maior), com guarnição de dois mil e oitocentos homens e doze mil civis; — Ostvehr, fortaleza oriental remanescente sob comando do Marechal Pyotr Kovalsky — homem de seiscentos e setenta anos de idade biológica documentada e oitenta e dois de idade nominal, conforme arquivo militar veherênico que Teorbano não conseguia explicar mas que confiava por hábito —, com guarnição de mil e novecentos homens e oito mil civis em zona de fronteira leste cada vez mais quente.

A soma dos quatro centros: aproximadamente cento e dois mil refugiados civis e dez mil e setecentos militares, distribuídos em geometria que não permitia coordenação militar eficaz. Quando Teorbano emitia ordem em Vehr-Maior, a ordem chegava a Sul-Vehr em quatro dias de mensageiro forçado, a Mons-Veher em sete, a Ostvehr em onze. Quando os comandantes locais respondiam em consulta — porque os comandantes locais respondiam quase sempre em consulta, em estilo aristocrático veherênico antigo que Teorbano não conseguia abolir —, a resposta chegava em mais quatro, sete, ou onze dias. Cada decisão real exigia, em média, três semanas a um mês de circulação antes de execução combinada.

Teorbano sabia que aquele ritmo administrativo era letal para o reino. Já tinha perdido, em vinte e quatro meses, três batalhas menores por atraso de coordenação. Já tinha perdido, em quatro casos confirmados, iniciativas de aliança com casas brytônicas porque a resposta real demorava muito após a oferta original.

E sabia, em adição a tudo isto, que estava perdendo a si mesmo.

Olhou para o pergaminho à frente. Era a folha de papel virgem que estava sobre a mesa de carvalho de sua câmara real adaptada havia uma hora. Tinha pretendido, naquela noite, escrever decreto formal de delegação parcial — transferência de autoridade militar plena aos quatro comandantes regionais, em retenção apenas de simbolismo coroado para Teorbano. Pretendia, em outras palavras, abdicar de comando efectivo sem abdicar de coroa.

Tinha hesitado três vezes ao longo da hora. Cada hesitação se devia ao mesmo pensamento: se eu fizer isto, e os quatro comandantes regionais não coordenarem entre si, o reino se fragmentará em quatro reinos menores e Veheran morrerá não como reino unificado mas como confederação fraca.

Mas se ele não fizesse, o ritmo administrativo letal continuaria, e o reino morreria de qualquer forma.

A escolha era entre morte por fragmentação e morte por atraso.

Teorbano III pegou a pena. Mergulhou em tinta. Escreveu três frases. Depois pousou a pena. Olhou as três frases. Releu. Riscou. Pegou nova folha. Escreveu outras três frases. Releu. Riscou.

Em quatro horas, Teorbano III tinha riscado vinte e duas tentativas diferentes de decreto. Não conseguia. Não conseguia. Algo nele recusava-se a assinar.

Ao amanhecer, depositou a pena. Recolheu as folhas riscadas. Queimou-as na lareira da câmara, uma por uma, em sequência. Inalou a fumaça. Tossiu. Lavou-se com água da bacia. Chamou o Padre-Capelão Ostrenko que continuava com ele desde a campanha de outubro de 1780. Ostrenko entrou em cinco minutos.

— Padre.

— Majestade.

— Confessa-me.

Ostrenko hesitou. Teorbano nunca tinha pedido confissão formal em vinte e quatro meses. Habitualmente apenas ouvia oração matutina coletiva com a corte residual.

— Majestade, em câmara privada?

— Em câmara privada. Imediatamente.

Ostrenko fechou a porta. Atravessou a câmara. Sentou-se à cadeira oposta a Teorbano, em formação canônica de confissão real veherênica antiga — assento facing o monarca, sem genuflexão (Reis veherênicos não genufletiam em confissão, por privilégio histórico), com a estola sacerdotal colocada sobre os ombros em sinal de iniciar rito.

Teorbano confessou durante uma hora e quarenta minutos.

Confessou primeiro o que tinha tentado escrever durante a noite. Confessou em seguida que não tinha conseguido porque algo nele recusava-se a aceitar a delegação. Confessou em terceiro lugar que reconhecia, no recusa, vaidade real: a vaidade do rei velho que prefere a morte do reino à própria diminuição simbólica. Confessou em quarto lugar que a vaidade era pecado. Confessou em quinto lugar que sabia ser pecado e que continuava a cultivá-lo sem condição de extirpá-lo.

Ostrenko ouviu sem interromper. Quando Teorbano terminou, Ostrenko ficou em silêncio durante três minutos. Em seguida disse, em fórmula veherênica antiga:

— Majestade. A absolvição é o seu direito canônico. Mas eu peço, antes da absolvição, que o senhor escute o que sou obrigado a dizer.

— Diga, Padre.

— Majestade, o reino de Veheran como reino canônico já morreu em 1780, na noite em que a Catedral de São Veherano afundou. O senhor governa, desde então, memória de reino. A memória é nobre. A memória sustentou três anos sem que o continente percebesse que Veheran já tinha morrido. Mas a memória, majestade, é finita. Termina quando o último homem que se lembra do reino vivo morre. O senhor é o último. Não há outro.

— Pyotr Kovalsky de Ostvehr.

— Pyotr Kovalsky tem oitenta e dois anos nominais e seiscentos e setenta documentados, majestade, mas Pyotr Kovalsky, em correspondência discreta a mim em junho passado, declarou-se já decidido a morrer em Ostvehr quando os Pactuados chegarem, e Pyotr Kovalsky não governará a memória depois de sua morte. Apenas o senhor pode.

— Padre. Está me dizendo que devo governar para preservar memória, não reino.

— Majestade, estou dizendo o contrário. Estou dizendo que deve abdicar da memória também. A memória pertence a Deus, não a vossa coroa. A vossa coroa serve enquanto o reino vivo. O reino vivo terminou em 1780. Há dois anos a coroa não tem o que governar exceto luto.

— Então — Teorbano olhou em silêncio para a mesa de carvalho — devo abdicar.

— Majestade, eu não posso aconselhar abdicação política. Não cabe ao confessor. Cabe à coroa. Mas peço — peço com a deferência canônica do confessor real, em fórmula sacramental — que o senhor examine sua consciência em silêncio durante três dias antes de qualquer decreto adicional.

— Três dias.

— Três dias. E em fim de três dias, se ainda quiser delegação parcial, redija o decreto e assine. Se quiser abdicação plena, redija e assine. Se quiser continuar como antes, continue. Mas decida em consciência limpa, não em fadiga acumulada.

Teorbano olhou para Ostrenko. Ostrenko, sessenta e três anos, padre-capelão real que tinha servido três reis em sequência, com olhos baços de cataratas inicial e mãos manchadas pela velhice. Padre humilde. Conselheiro adequado.

— Absolva.

Ostrenko absolveu. Em fórmula breve, em latim eclesial: "Ego te absolvo a peccatis tuis in nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti. Amen." Pôs a estola de volta no pescoço. Levantou-se. Saiu da câmara.

Teorbano III ficou sozinho.

Examinou consciência em silêncio durante três dias, conforme o confessor pedira. No fim do terceiro dia — 17 de outubro de 1782, segundo aniversário do tremor de Ivandir, dia que ele tinha escolhido em sequência simbólica —, Teorbano III não redigiu decreto de delegação nem decreto de abdicação. Em vez disso, redigiu carta pessoal a cada um dos quatro comandantes regionais.

A carta foi a mesma para os quatro, copiada quatro vezes em sua própria caligrafia, sem secretário envolvido. Texto integral, em latim eclesial corrente:

"Estimado Comandante,

Eu, Teorbano III, no terceiro aniversário do dia em que o nosso reino começou a morrer, escrevo a vós em câmara privada.

Não vos delego comando porque a delegação seria reconhecimento de que a coroa abandona. A coroa não abandona.

Não abdico porque a abdicação seria reconhecimento de que o reino acabou. O reino não acabou enquanto há quatro fortalezas resistentes e há trinta mil veherênicos vivos em ativa.

Continuo, portanto, em comando simbólico, com a fórmula seguinte de operação prática: vós, em cada uma das quatro fortalezas, comandareis vossos centros como se eu estivesse junto a vós em câmara adjacente, e respondereis a mim apenas em casos de coordenação inter-fortaleza. Para casos de coordenação inter-fortaleza, respondereis em prazo médio de duas semanas, e eu responderei a vós em prazo médio de duas semanas. Para casos urgentes, agireis sem esperar minha aprovação.

Em consequência: vós, comandantes, sois reis menores nas vossas fortalezas. Eu sou rei maior em Vehr-Maior. Esta hierarquia é meramente cerimonial. Cada um de vós governa em pleno, sob coroa. Cada um de vós responde a Deus, depois ao rei nominal.

Se eu morrer, vós continuareis. Se vós morrerem, eu continuarei. Se todos morrermos, o reino terá morrido. Mas até esse momento, resistiremos em quatro pés separados, como uma mesa que não se equilibra sobre um só, mas que apoia-se sobre quatro.

Que Deus, se ainda nos quiser, não se esconda. Domine, ne abscondas.

Vosso rei, Teorbano III de Veheran. Vehr-Maior, 17 de outubro de 1782."

A carta foi enviada por mensageiros separados aos quatro comandantes. Chegou em prazos variáveis. Konstanty Vlassov em Sul-Vehr respondeu em vinte e três dias com aceitação formal. Yvar de Ostvehr em Mons-Veher respondeu em vinte e nove dias com aceitação formal e adendo pessoal sobre a sua intenção de permanecer em posição até morte. Pyotr Kovalsky em Ostvehr respondeu em quarenta e dois dias com aceitação formal e adendo pessoal sobre a sua intenção de morrer antes dos Pactuados chegarem para evitar pacto involuntário em estado vulnerável.

A carta de Teorbano III tornou-se, em retrospectiva canônica, o Decreto da Mesa de Quatro Pés — denominação que viria a ser usada em arquivos posteriores da Reformada Refundada para descrever a estrutura administrativa fragmentada que sustentou Veheran em recuo organizado de 1782 a 1798, ano da morte de Teorbano III na Batalha de Vehr-Maior.

A mesa de quatro pés sustentou-se pelos próximos dezesseis anos. Caiu, finalmente, com a queda do primeiro pé em 1798 (Teorbano III), do segundo em 1804 (Konstanty Vlassov, Sul-Vehr), do terceiro em 1807 (Yvar de Ostvehr, Mons-Veher), do quarto em 1813 (Pyotr Kovalsky, Ostvehr — exatamente no ano da eleição de Aurelianus I em Aurum Roma).

Os quatro pés caíram. O reino terminou.


XVI. O Inverno Sem Pão


Nem todo o continente caiu em 1780. Vastas zonas centrais, distantes das cordilheiras de Selo, continuaram a vida cotidiana sob ondas de notícias cada vez piores que chegavam de leste e de norte, sob fluxos crescentes de refugiados, sob aumentos contínuos de preço de alimentos básicos, sob convocações militares cada vez mais frequentes. As vilas centrais não viam demônios. As vilas centrais não viam Brancas Médiuns. As vilas centrais não recebiam revelações angélicas. As vilas centrais morriam de fome lenta em sequência de invernos cada vez mais severos.

Aurelinia-Cinza era uma dessas vilas. Trezentos e quarenta habitantes em outubro de 1780. Trezentos e dois em janeiro de 1781. Duzentos e setenta e um em janeiro de 1782. Cento e noventa e quatro em janeiro de 1783. A queda demográfica devia-se a três causas combinadas: emigração para Aurélia Magna em busca de trabalho urbano (sessenta por cento da diferença); convocação militar para a Cúria nascente em formação dos primeiros batalhões de Cavaleiros do Selo (vinte por cento); morte por fome ou doença associada à desnutrição (vinte por cento).

Marja Skobsky tinha perdido, entre outubro de 1780 e janeiro de 1783, três familiares próximos: sua mãe (1781, fome aguda em fim de inverno), seu cunhado mais novo (1782, convocação militar, morto em escaramuça menor com Pactuados nascentes), e seu sobrinho Petr (1782, doença respiratória que em condição normal teria sido curável). Tinha também, em adição a estas três perdas, sofrido três abortos espontâneos em 1781, 1782 e início de 1783 — atribuídos pela parteira da vila à desnutrição materna crônica, embora Marja, em sua intuição privada, atribuísse a algo mais difuso que ela não tinha vocabulário para nomear.

Em janeiro de 1783, Marja tinha em casa, para alimentar quatro pessoas (ela mesma, Karol, Jakub, Anna), o equivalente a três semanas de farinha de centeio, uma vaca leiteira em última lactação, sete galinhas (das quais quatro com produção de ovos quase nula no inverno), e meio jarro de azeite veherênico comprado em outubro a preço três vezes superior ao habitual. A despensa estava praticamente vazia. Os ervos secos da horta tinham acabado em dezembro. A carne salgada, em novembro. O peixe defumado, em outubro.

E havia mais cinquenta e dois dias de inverno até o equinócio da primavera.

Em 11 de janeiro, em manhã fria de neve baixa, Marja sentou-se à mesa da cozinha com Karol, depois das crianças saírem para a escola paroquial — onde, junto com a alfabetização básica, recebiam uma refeição quente diária que tinha-se tornado, no inverno de 1782-1783, a principal razão pela qual cada vez mais crianças da vila frequentavam a escola — e abriu o livro de contas familiar.

— Karol.

— Marja.

— Vamos chegar a março?

Karol pousou a colher do que sobrava do café da manhã. Marja tinha aprendido, em sete anos de casamento, a reconhecer este gesto como resposta sem palavras. Quando Karol pousava a colher antes de ter terminado, Karol estava prestes a dizer uma frase difícil. Marja esperou.

— Sem ajuda externa, não. Com ajuda paroquial, talvez.

— A paróquia distribuiu em dezembro um terço do que distribuiu em janeiro do ano passado.

— Eu sei.

— E em janeiro deste ano nada ainda.

— Eu sei.

Marja fechou o livro de contas. Olhou para Karol. Karol tinha trinta e um anos. Ferreiro adequado, sem grandes ambições, marido bom dentro do que cabia em homem-bom no continente em colapso. Tinha emagrecido nove kilos desde outubro. Marja tinha emagrecido catorze. Jakub estava abaixo do peso normal para seis anos. Anna, miraculosamente, mantinha o peso — Marja desconfiava que isto se devia ao fato de Anna ainda receber leite materno, que Marja produzia em volume reduzido mas ainda suficiente para a criança de três anos.

— Karol.

— Marja.

— Talvez tu devas ir a Aurélia Magna.

Karol parou. Marja sabia que esta era a frase que ela tinha estado preparando, em silêncio, durante quatro semanas. Karol tinha estado evitando o assunto.

— Marja, o que vou eu fazer em Aurélia Magna em janeiro? Ferreiros lá são abundantes. Não há vaga.

— Há vaga na Casa de Mineração Consagrada que o Bispo Hesther fundou em outubro. Ouvi-o ontem do Padre Ondrej. Estão recrutando ferreiros para trabalho com mineral novo. Pagam três áureos por semana.

— Mineral novo?

— Sim. Padre Ondrej não soube ou não quis explicar. Mas o pagamento é três áureos por semana. Pago em ouro. Com alojamento e alimentação. Ferreiros voltariam à vila aos finais de semana se a vila quiser conservar a família, ou se transfeririam permanentemente com a família se preferirem.

— Três áureos por semana.

— Três áureos.

Karol fechou os olhos. Marja sabia que o estava fazendo o cálculo mental: três áureos por semana, descontado o transporte, equivalia a aproximadamente dois áureos líquidos por semana, ou oito áureos por mês. Em janeiro de 1783, dois áureos compravam, no mercado de Aurélia Magna, aproximadamente dez kilos de centeio ou oito kilos de carne defumada ou quinze kilos de batata. Por mês: quarenta kilos de centeio ou trinta e dois de carne ou sessenta de batata. Suficiente para sustentar a família. Suficiente.

— E o mineral.

— Karol — Marja olhou-o em pleno olho —, eu não sei o que é o mineral. Padre Ondrej não soube ou não quis dizer. O que eu sei é que Bispo Hesther está pagando ferreiros para trabalhar com ele, e três áureos por semana significa que o trabalho é importante e que a Sé precisa de homens.

— Mineral consagrado.

— Padre Ondrej disse exatamente isso.

— Marja. Se o mineral é consagrado, e se a Sé está recrutando ferreiros não-clérigos para trabalhar com ele, então o mineral é arma.

— Sim.

— Arma contra o quê?

Marja olhou para Karol. Karol era ferreiro, não teólogo, mas Karol tinha lido, em vinte e seis meses, todas as notícias que tinham chegado à vila sobre o que estava acontecendo no leste e no norte. Karol sabia o que o mineral consagrado seria arma contra. Karol estava perguntando, em fórmula camponesa antiga, se Marja sabia também.

— Karol. Sim.

— E tu queres que eu trabalhe com aquilo.

— Karol. Eu quero que tu, Jakub, Anna, e eu, em três meses, estejamos vivos. Em maio, eu quero que estejamos vivos. Em junho. Sem o mineral consagrado, e sem o pagamento da Sé, eu não consigo te garantir que Jakub estará vivo em maio. Sem o teu salário, vai morrer. Esta é a aritmética que eu tenho. Eu não tenho outra.

Karol olhou para Marja durante longo tempo. Marja sustentou o olhar. Em sete anos de casamento, Marja tinha aprendido a sustentar olhares de Karol em momentos decisivos — não em insistência, em disponibilidade. Disponibilidade significava: eu também estou aqui, eu também escolho, eu também carrego, vou contigo até o fim do que decidires.

Karol levantou-se.

— Vou hoje. Caminhada de quarenta quilômetros. Chego amanhã à tarde. Apresento-me ao recrutamento. Se aceito, começo imediatamente.

— Eu acompanho.

— Não, Marja. Tu ficas com os pequenos.

— Eu vou. Pelo menos até o caminho que sai do vilarejo. Volto antes do anoitecer.

Karol assentiu sem mais discutir. Em meia hora estava pronto — mochila com pão escuro e queijo, capa de inverno, botas de couro reforçadas, ferramentas de ferreiro envolvidas em pano (porque ferreiro nunca viaja sem ferramentas, em superstição artesanal), e três áureos guardados em bolsa interna — os últimos três áureos da família, para emergência.

Saíram juntos, Karol e Marja, no caminho que saía do vilarejo em direção ao norte. Caminharam quatro quilômetros em silêncio. Em ponto exato em que o caminho se bifurcava — direção a Aurélia Magna pela esquerda, direção à floresta da Tia Brigida pela direita —, pararam.

— Marja.

— Karol.

— Cuida deles.

— Cuido.

— Reza por mim.

— Rezo. Todos os dias.

Karol beijou-a na testa — não na boca, em fórmula camponesa antiga que reservava o beijo na boca para retornos, e o beijo na testa para partidas com retorno incerto. Marja segurou-se. Não chorou. Camponesa do continente central em janeiro de 1783 tinha aprendido, sob três anos de Cataclismo, a não chorar diante de partidas. Choro era hábito do mundo antigo.

— Vai.

Karol foi. Marja ficou no caminho até Karol desaparecer atrás da curva, sete minutos. Em seguida virou. Voltou em quatro quilômetros para o vilarejo. Chegou em casa. Encontrou Jakub e Anna voltando da escola paroquial, com a refeição quente já consumida e com pão sobrante envolvido em pano que a Madre-Mestra dava às crianças que tinham fome em casa.

— Mamãe — disse Jakub. — Pai não está?

— Pai foi a Aurélia Magna. Trabalha lá agora. Voltará aos sábados, talvez.

— Vai voltar?

— Vai, Jakub.

— Promete?

Marja olhou para Jakub. Seis anos. Olhos grandes. Magro. Conhecia, com a inteligência atroz das crianças sob privação, exatamente o que estava acontecendo. Conhecia a aritmética familiar tão bem quanto Marja, embora em forma intuitiva.

— Prometo, Jakub.

— A mãe Madre da escola disse que o pai do Tomas, que foi a Aurélia Magna em novembro, não voltou.

— Aurélia Magna é grande. Talvez o pai de Tomas tenha encontrado trabalho mais distante e ainda não tenha tido tempo de mandar carta.

— Foi o que a mãe Madre disse também.

Jakub não acreditava. Marja viu nos olhos do filho que ele não acreditava. Mas Jakub aceitou — em forma camponesa de crianças do continente central em 1783, aceitou — porque aceitar era o que se fazia diante de mãe que precisava da aceitação.

Karol não voltou aos sábados. Karol foi aceito no recrutamento da Casa de Mineração Consagrada em manhã de 13 de janeiro de 1783, foi destacado para galeria 17-Norte da Cordilheira do Crepúsculo em formação especializada, e jamais retornou à vila de Aurelinia-Cinza. Em junho de 1784 — dezessete meses depois da partida —, Marja recebeu correspondência oficial da Cúria de Aurum Roma, em latim eclesial selado com sinete arcebispal, comunicando que Karol Skobsky, ferreiro, tinha morrido em acidente operacional na mina em 27 de maio de 1784, com honras de morte em serviço consagrado, e que a Sé pagaria pensão vitalícia à viúva e aos órfãos em valor de dois áureos por mês.

Marja recebeu a pensão. Pagou regularmente. Em outubro de 1820 — quase quarenta anos depois —, sob mandato de Aurelianus I, a pensão foi convertida em formato canônico do Programa de Viúvas Operárias Consagradas, e Marja, então com sessenta e três anos, continuou recebendo até sua morte em 1834.

Jakub, criança da fome, sobreviveu até 1841 — morreu aos sessenta e quatro de pneumonia. Anna sobreviveu até 1858. Em 1858, ao morrer aos setenta e oito anos em sua casa de Aurelinia-Cinza, Anna Skobsky — última testemunha viva da família de Karol — tinha em seu altar privado três relíquias herdadas da mãe: a aliança de Karol; a medalha veherênica de São Veherano que Marja havia comprado em 1779 antes da queda; e a única carta que Karol enviou da galeria 17-Norte em fevereiro de 1783, três meses antes de morrer, em que escrevera, em três linhas em latim eclesial corrente:

"Marja, encontrei trabalho. O mineral é mineral. Pago razoável. Saudades dos pequenos. Reza por nós."

Aurum Roma não soube. O continente não soube. A vila de Aurelinia-Cinza esqueceu — em duas gerações, ninguém em Aurelinia-Cinza lembrava o nome de Karol Skobsky. Mas a galeria 17-Norte da Cordilheira do Crepúsculo, em 1890, continua extraindo Ferro-do-Coro, e parte da liga que constitui os rifles Crisma-Martini-Hashmal que os Cavaleiros do Selo usam em Limes Orientalis em data presente desta crônica vem ainda hoje do trabalho fundador feito por ferreiros como Karol Skobsky em 1783 e 1784, em ano do continente sem nome popular para o sacrifício.


XVII. Vehr-Sul


Diário, 19 de junho de 1784. Vigília.

A capela. Pequena. Cinco noviças. Anastasia ao altar. Mirra. Mirra arde. Foco.

Eu sento. Banco terceiro à esquerda. Marina, à minha frente, dorme um pouco. Sara, à minha direita, reza em ritmo. Klara à esquerda, em silêncio. Yelena atrás, respira fundo.

Vigília das treze às quatro. Eu acordo. Eu sempre acordo nesta hora. A hora terceira do meu corpo. Anastasia ensinou que o corpo tem três horas próprias por noite. A primeira hora é repouso. A segunda hora é sonho. A terceira hora é vigília. A terceira hora minha vem entre dezessete e dezoito, quando outras dormem. Não força contra. Aceita.

Eu aceito.

A mirra arde.

Olhei o altar. Vela do altar central — Lúmen antigo, ainda não é Lúmen porque o nome do mineral só viria em 1842, mas Anastasia chama em segredo "vela firme". Vela firme há um ano. Não acende mais. Mantém. Eu olhei. Firme.

Olhei a esquerda. Vela do nicho menor. Anastasia em capela em segredo me ensinou: nicho menor é o nicho da escuta. Quem se senta ali ouve sem ver. Eu não me sento. Sento no terceiro à esquerda. Mas eu olho ali às vezes. Olhei.

A vela do nicho tremeu.

Treme não tremula. Tremer é da luz. Tremular é da chama. Tremer é metafísico. Anastasia ensinou. Eu ouvi.

A vela tremeu três segundos. Eu vi. Eu olhei sozinha. Marina dormia. Sara em ritmo. Klara silêncio. Yelena fundo.

Anastasia ao altar não olhou. Anastasia em mirra concentrada. Anastasia não viu.

Eu, doze anos, banco terceiro, vi.

A vela tremeu. Parou. Tremeu de novo. Parou. Tremeu uma terceira vez. Parou em firmeza.

Três vezes. Como anciões selam.

Eu fechei os olhos. Algo entrou. Não pelos olhos. Por dentro. Algo entrou pelos ouvidos sem som. Algo entrou pelo nariz sem cheiro. Algo entrou pelo peito sem peso. Algo entrou.

Conhecimento implantado. Anastasia ensinou em manual. Categoria três. Conhecimento angélico implantado por contato direto. Acontece duas vezes em vida em Branca. Talvez três.

Eu tive primeira aos oito anos. Na noite que Esteban me carregou. Conhecimento foi: "Magda morreu." Eu recebi. Reportei a Esteban em sexto dia de fuga. Não sabia que era conhecimento implantado canonicamente. Anastasia ensinou depois.

Esta noite, segunda vez.

Conhecimento implantado. Dois itens.

Primeiro item: Esteban está em perigo agora. Esteban em Brytonia. Esteban com mãe Lady Margaret. Lady Margaret reza pelos dois nomes em rosário em sequência única. Tudo está em ordem em Brytonia. Mas: Esteban embarca em quatro dias em navio que sairá do porto de Brithon para Aurélia Magna em missão diplomática solicitada por Bispo Hesther em correspondência recente. Navio chama-se Maris Coronata Primus. Capitão brytônico — nome não vem ao conhecimento agora. No quinto dia da viagem, em alto-mar, o navio cruzará posição perigosa.

Segundo item: fórmula veherênica de proteção naval que Anastasia conhece em livro antigo de capela. Fórmula é específica para travessia em zona perigosa em mar do continente. Anastasia conhece. Eu devo pedir a Anastasia que envie a fórmula por mensageiro a Esteban em Brithon antes do embarque. Esteban deve rezar a fórmula em vigília na noite anterior à zona perigosa. Se rezar com fé executada com propósito, o navio passará. Se não rezar — ou rezar sem fé —, navio não passará.

Conhecimento implantado completo. Saiu. Eu abri os olhos.

A vela do nicho firme. Não treme mais. Voltou ao estado anterior.

A mirra arde. Anastasia em mirra. Marina dorme. Sara em ritmo. Klara silêncio. Yelena fundo.

Eu olhei à direita. Sara em ritmo. Eu pude tocar Sara. Não toquei. Não posso comunicar em vigília aberta. Vigília é silêncio. Anastasia ensinou. Eu aguardo.

Aguardei até as quatro. Vigília terminou. Anastasia recolheu mirra. Apagou velas. Voltou às câmaras. Eu saí com as outras.

Eu fui à câmara de Anastasia depois de outras se recolherem. Bati na porta. Anastasia em câmara, ainda acordada — Anastasia sempre acorda na hora terceira sua, depois de vigília, em refeição leve antes de dormir.

— Soror Maior.

— Ostra. — Anastasia olhou. — Tremeu a vela?

Eu olhei. Anastasia sabia. Eu não tinha dito ainda. Anastasia sabia.

— Tremeu, Soror Maior.

— Conhecimento implantado?

— Dois itens.

— Conta.

Eu contei. Em sintaxe que eu já fazia em manual desde junho do ano passado. Anastasia ouviu. Ao fim, sentou-se. Pensou. Disse:

— Ostra, o conhecimento implantado tem urgência canônica. Mensageiro deve sair antes do amanhecer. Tu vais ditar a fórmula veherênica em sintaxe Hashmal que Esteban entenderá. Eu transcrevo. Mensageiro leva.

— Sim, Soror Maior.

Eu ditei. Anastasia transcreveu. Em cinco horas, antes do amanhecer, mensageiro saiu de Vehr-Sul em cavalo rápido em direção a Brithon. Caminho via Aurélia Magna, troca em Aurélia Magna, embarque em barco veloz de Maritima Coronata em direção a Brithon. Em dezesseis dias chegaria. Tempo exato — Esteban estaria no porto de Brithon embarcando em Maris Coronata Primus em três dias antes do mensageiro chegar.

Anastasia ouviu meu cálculo de tempo. Pensou. Disse:

— Ostra. Mensageiro não chega a tempo.

— Não chega.

— Então?

— Então — Eu olhei para o chão. Conhecimento implantado é canônico. Conhecimento implantado canônico não falha. Se mensageiro não chega a tempo, alguma outra forma de a fórmula chegar a Esteban deve haver. — Eu não sei.

Anastasia ficou em silêncio. Depois disse:

— Ostra. Talvez não seja mensageiro físico. Talvez seja oração que tu rezas aqui em Vehr-Sul e que opera lá em alto-mar por mecanismo angélico que ainda não tem nome em manual. Vamos tentar. Tu, eu, e as outras quatro noviças. Em vigília extraordinária. Próxima noite. Em fórmula veherênica que tu ditaste. Em direção a Esteban em alto-mar.

— Sim, Soror Maior.

— Doze dias a partir de hoje. Eu cronometro. Marca data em diário tu.

Eu marquei. Doze dias a partir de hoje. Primeiro de julho de 1784.

Em primeiro de julho de 1784, em vigília extraordinária das vinte e duas da noite às quatro da manhã, eu, Anastasia, Marina, Sara, Klara, Yelena, rezamos em conjunto a fórmula veherênica que eu ditara em sintaxe Hashmal. Direção: Esteban em Maris Coronata Primus em alto-mar em zona perigosa. Eu rezei com fé executada com propósito. Anastasia rezou com fé executada com propósito. As outras quatro — Marina rezou em ritmo, Sara em ritmo, Klara em silêncio, Yelena em respiração funda — também, mas em capacidade menor que eu e Anastasia.

Em vinte e dois de julho de 1784, vinte e um dias depois, chegou a Vehr-Sul correspondência diplomática brytônica de Esteban. Correspondência relatava que Maris Coronata Primus tinha chegado a Aurélia Magna em quinto de julho sem incidente. Esteban menciono à mãe brytônica em carta paralela que em primeiro de julho, em mar aberto, uma neblina densa apareceu por duas horas em zona em que a navegação se tornou cega e que o capitão brytônico, em pânico técnico moderado, rezara o Pai Nosso brytônico três vezes em formato veherênico antigo que sua mãe lhe ensinara em criança porque o capitão era veherênico de origem materna. A neblina se dissipou em duas horas exatas. Não houve incidente.

Esteban escreveu à minha atenção, em adendo separado nesse correio, em palavras simples: "Sister Ostra, eu não sei como nem por quê, mas no primeiro de julho de 1784, em alto-mar em zona perigosa, eu pensei em ti."

Anastasia leu. Eu li. Anastasia olhou-me. Eu olhei-a.

Soror Maior Anastasia, naquela manhã, disse, em fórmula privada que entrou em meu diário em ditado dela:

"Conhecimento implantado canônico nunca falha. Quando o portador rege com fé operante, opera. Mecanismo, em ato, é o que o continente em duas gerações chamará de fé executada com propósito. Em ato, é o que nós, Brancas, chamamos em fórmula privada sem nome canônico ainda, de 'a oração que sai da nossa boca chega à boca de outros sem mediação de mensageiro'. Em fórmula técnica de Hashmal, ainda não temos vocabulário. Mas saberemos, em duas décadas. Eu não verei. Tu talvez verás. Anota."

Eu anotei.

(Aqui termina a entrada de 19 de junho de 1784 e o adendo correspondente do dia 22 de julho. Ostra continuaria a escrever este diário até a sua morte em 17 de novembro de 1785, com dezesseis anos completos, em ano três pleno de contato. O diário sobreviveu em verso de páginas litúrgicas do Rito Veherênico recuperadas em 1814 pela expedição dos Cavaleiros do Selo a Vehr-Sul-ruína. Anastasia morrera em 1804, em pneumonia simples, aos setenta e cinco anos, em Aurélia Magna, onde havia sido transferida em 1799 pelo então Arcebispo Hesther para chefiar a recém-fundada Domus Albarum Aurelina — primeira casa formal das Sorores Albae em Aurélia Magna, antecessora direta da Vigília Perpétua que viria a ser instituída por Aurelianus I em 1814 em forma canônica final.)


XVIII. As Casas Negociam


Lord Edward Whithall tinha governado a casa Whithall em fórmula que ele considerava pragmática conservadora: nunca tomar decisões grandes sem três anos de preparação documental, sempre privilegiar acordos privados entre casas em vez de declarações públicas, sempre manter relação ambivalente com a Sé Aurelina em recusa simultânea de submissão canônica e em abertura diplomática a alianças seculares.

Em outubro de 1785, com sessenta e oito anos e em diagnóstico médico de saúde declinante (Edward tinha ataques recorrentes de gota severa, e em janeiro do ano anterior tinha sofrido um episódio cardíaco que o médico Withall-Penhall classificara como ataque cardíaco menor com risco de recorrência mensurável), Edward tinha consciência de que a decisão sobre participação brytônica no conclave inter-continental seria provavelmente a última grande decisão política da sua vida.

A decisão, formalmente posta perante o Conselho dos Lordes na sessão de 4 de outubro de 1785, era a seguinte:

Cláusula primeira: A Sé Aurelina, sob Arcebispo Hesther, convocou conclave inter-continental de bispos católicos a ser realizado no Mosteiro de Vallia Sacra (a uma distância de aproximadamente dezesseis dias de viagem de Brithon, em condições normais de navegação marítima estival) entre 8 de abril e 17 de maio de 1786. O conclave terá como objetivo declarado invocação coletiva dos Sete Arcanjos mediante vigília de quarenta dias em formação canônica antiga.

Cláusula segunda: A participação brytônica no conclave foi solicitada por Hesther em correspondência diplomática formal de 7 de agosto de 1785. Hesther solicitou especificamente três bispos brytônicos com autoridade canônica plena para representação na vigília.

Cláusula terceira: A casa Whithall, em sua qualidade de coordenador político secular do reino brytônico, deve decidir se autoriza ou não a participação dos três bispos solicitados.

Cláusula quarta: Em caso positivo, surgem subquestões adicionais — quais três bispos serão enviados; em que termos eles representarão a Brytonia; que compromissos canônicos prévios poderão ser feitos com Aurélia Magna antes da invocação; e em particular — e esta era a parte que tinha causado divisão profunda no Conselho dos Lordes durante as três sessões anteriores — se a casa Whithall apoia ou se opõe à proposta paralela de Lord Hawthorne Whithall (linhagem menor) de tentar furtar parcialmente a fórmula litúrgica de invocação para uso futuro independente da Brytonia.

Lord Hawthorne Whithall — sobrinho-neto do Lord Edward, em ramo menor da casa, brytônico de origem com fervor protestante mais marcado que o do ramo maior — tinha proposto, em sessão de setembro, que se a Brytonia enviasse três bispos ao conclave, esses três bispos deveriam ser bispos da nossa confiança privada, com instrução secreta de gravarem em memória a fórmula completa de invocação dos Sete Arcanjos durante a vigília, e de a trazerem de volta à Brytonia para arquivo independente no Cofre dos Lordes em Brithon.

A justificativa de Hawthorne era a seguinte: "se a Cúria de Aurélia Magna controlar exclusivamente a fórmula de invocação dos Arcanjos, e se essa fórmula vier a operar em emergências futuras como esperamos, então a Brytonia, em situação futura de necessitar invocação angélica em interesse insular sem participação aurelina, não terá a fórmula e dependerá da boa-vontade pontifícia. Em interesse de longo prazo da casa Whithall e da Brytonia, devemos arquivar a fórmula independentemente."

A proposta de Hawthorne tinha apoio significativo no Conselho — particularmente entre os Lordes de linhagem menor que se sentiam politicamente desfavorecidos sob a hegemonia secular da casa Whithall maior. Tinha oposição igualmente significativa entre Lordes de linhagem maior que reconheciam o risco diplomático da operação se a Cúria descobrisse.

Edward tinha em mãos, naquela manhã de 4 de outubro, três cartas:

— Carta do Arcebispo Hesther em segunda comunicação reforçada, solicitando confirmação brytônica até 1 de novembro.

— Carta de Hawthorne em pressão para aprovação da proposta de furto canônico, com lista anexa de cinco bispos brytônicos disponíveis e fiéis à linhagem menor.

— Carta do Cardeal-Arcebispo Sebastien Korvac de Aurum Roma, que tinha enviado em sigilo correspondência ao Lord Edward em sua qualidade de antigo brytônico convertido em serviço aurelino. A carta de Korvac advertia em latim eclesial corrente: "Lord Edward, eu sei pelo Bispo Hesther da pressão de Hawthorne. Eu suplico a vós, em consideração das nossas origens compartilhadas em Brytonia, que rejeitem a proposta de Hawthorne. A fórmula de invocação dos Arcanjos é, em conhecimento técnico-litúrgico, inseparável do estado de comunhão em que o invocador se encontra. Furto canônico produzirá fórmula inutilizável fora do estado de comunhão original. A Brytonia, se obtiver a fórmula por meio impuro, terá em arquivo papel sem efeito operacional. Em adição: a Cúria, em descoberta posterior do furto — e descobrirá —, rompe com Brytonia. Em última consequência, recomendo que envieis os três bispos em representação plena e honesta, e que esperais. Em vinte anos, talvez, a Cúria autorize troca canônica. Esperai."

Edward leu as três cartas em sequência. Depois leu a carta de Korvac uma segunda vez. Depois leu pela terceira vez.

Korvac, no continente, tinha cinquenta e seis anos. Era um dos quatro brytônicos de origem que tinham alcançado posição cardinalícia em Aurélia Magna desde o Cataclismo. Edward, em duas reuniões diplomáticas anteriores em Aurélia Magna em 1781 e em 1783, tinha conhecido Korvac pessoalmente e tinha respeitado profundamente o homem. Korvac era o tipo de brytônico-aurelino que, em discordância com a casa de origem, ainda mantinha lealdade pessoal aos que a casa de origem produziu.

Edward decidiu.

A sessão do Conselho dos Lordes abriu às onze horas. Estavam presentes os doze Lordes principais e oito menores, todos em casaca brytônica formal, com peruca grisalha aos modos do Velho Continente. Hawthorne sentava na quarta cadeira à direita de Edward. Edward, em posição central, com livro de horas à frente — embora o livro de horas brytônico em 1785 fosse mais cerimonial que litúrgico em uso prático.

Edward abriu a sessão com a fórmula tradicional brytônica. Em seguida, ao chegar ao primeiro ponto da pauta — decisão sobre participação no conclave —, falou em latim eclesial corrente, ainda que a maior parte do Conselho costumasse operar em brytônsh:

— Lordes do Conselho. Hoje decidiremos três coisas em sequência canônica. Primeiro: enviamos três bispos ao conclave aurelino-meridional? Segundo: quais três? Terceiro: sob que instrução secreta, se alguma? Vou apresentar a minha posição em forma decreto, e em seguida abrirei a discussão.

Primeiro: enviamos três bispos. Sim. Posição firme da casa Whithall maior. Não-participação seria insulto canônico irreparável à Sé Aurelina e abriria fenda diplomática que a Brytonia em circunstância pós-Cataclismo não pode suportar.

Segundo: enviamos o Bispo Arthur Whithall-Penhall (linhagem maior, sessenta e dois anos), o Bispo William Brask-Whithall (linhagem maior por casamento, cinquenta e oito anos, ancestral em quatro gerações do que viria a ser, oitenta anos depois, o futuro Pontífice Lumen I de Stromakra), e o Bispo Reginald Caer'n-Highmoor (linhagem média, sessenta e três anos, da Ilha Menor brytônica norte). Os três são bispos plenos com autoridade canônica completa, são figuras respeitadas em Aurélia Magna, e — devo dizer com franqueza, Lordes — não são aliados da linhagem menor de Hawthorne.

Houve murmúrio no Conselho. Hawthorne, em sua quarta cadeira à direita, manteve-se imóvel. Edward continuou.

Terceiro: instrução secreta de furto canônico da fórmula de invocação. — Edward pausou. Pegou a carta de Korvac em mão direita. Levantou-a para que todo o Conselho a visse. — Recebi correspondência diplomática privada do Cardeal Sebastien Korvac de Aurum Roma. Korvac é brytônico de origem. Korvac escreve em consideração das origens compartilhadas. Korvac me adverte, em fórmula canônica que vou ler em alto:

Edward leu em voz alta os três parágrafos da carta de Korvac. O Conselho ouviu em silêncio. Quando Edward terminou, depositou a carta sobre a mesa central. Olhou em direção a Hawthorne.

— Hawthorne. A proposta do furto canônico não é viável segundo o conhecimento técnico-litúrgico aurelino. A fórmula obtida por meio impuro será papel sem efeito. Em adição, será descoberta. Em última consequência, romperemos com Aurélia Magna em momento em que a Brytonia precisa de Aurélia Magna mais que Aurélia Magna precisa da Brytonia. A proposta está rejeitada. Por esta presidência, com autoridade canônica do Lord Coordenador da casa Whithall maior em Conselho dos Lordes plenário.

Hawthorne levantou-se. O Conselho prendeu a respiração. Em três anos de pressão pela proposta, este era o primeiro confronto direto entre as duas linhagens em sessão plenária.

— Lord Edward.

— Hawthorne.

— Vossa rejeição é em consideração da carta de um cardeal aurelino-brytônico converti? Um cardeal que escolheu trair a sua origem brytônica em favor da Sé continental?

— Hawthorne. Korvac não traiu. Korvac serve onde foi chamado. Eu reconheço isto. Tu, em interesse de tua linhagem, podes não reconhecer. Mas eu, em interesse da casa Whithall maior em consideração dos riscos diplomáticos catalogados, rejeito tua proposta. Sessão encerra agora se houver oposição armada. Continuação canônica se houver protesto verbal apenas.

Hawthorne permaneceu em pé. Olhou para os outros Lordes. Quatro Lordes da linhagem menor levantaram-se em apoio simbólico. Mas em conjunto somavam cinco Lordes contra dezesseis. Não havia quorum para destituição do Lord Coordenador.

Hawthorne sentou-se de volta. Em fórmula brytônica antiga de registro de protesto sem ato de oposição final.

— Lord Edward. Eu protesto. Que conste em ata.

— Conste em ata. — Edward fez sinal ao secretário. — Sessão prossegue. Aprovamos hoje a participação brytônica no conclave em três bispos sem instrução secreta. Hawthorne, que tu mantenhas teu protesto em ata, e nossa relação familiar privada não fica afetada — esta presidência não te penaliza por discordância pública civilizada.

— Obrigado, Lord Edward.

— Lordes — Edward voltou-se ao conjunto —, encerramos este ponto. Próximo ponto da pauta: contribuição financeira da casa Whithall ao recente fundo de refugiados de Aurélia Magna.

A sessão prosseguiu. Em janeiro de 1786, em prazo final, a Brytonia confirmou o envio dos três bispos Whithall-Penhall, Brask-Whithall e Caer'n-Highmoor ao conclave de Vallia Sacra, em representação plena e honesta, sem instrução secreta de furto canônico. Os três bispos chegaram a Vallia Sacra em 5 de abril de 1786 — três dias antes do início canônico do conclave dos vinte e três — e participaram da vigília de quarenta dias em comunhão plena.

Lord Edward Whithall III morreu em 19 de junho de 1786, três dias após o término do conclave, em ataque cardíaco repetido. Recebeu, em correspondência póstuma, agradecimento formal de Hesther — agora Cardeal-Arcebispo de Aurum Roma após a Intervenção dos Arcanjos — pelo comportamento honroso da Brytonia no conclave. A correspondência incluía menção específica ao Cardeal Korvac, "que serve hoje em Aurum Roma com gratidão pelas decisões prudentes que vossa casa fez em outubro último."

Hawthorne Whithall — em linhagem menor — sucedeu Edward em coordenação da casa? Não. A presidência passou ao filho mais velho de Edward, Lord William Whithall IV, em sucessão canônica brytônica. Hawthorne, em ressentimento perene, continuou em Conselho dos Lordes por mais dezessete anos sem alcançar coordenação. Morreu em 1803, em obscuridade política, deixando descendentes que viriam a se tornar — duas gerações depois — fundadores da Aurora do Sul sob a arcebispa Margaret de Caer'n em 1822, e neta dele em quarta geração viria a ser, em 1872, fundadora secreta da Aurora do Hashmal continental em Brithon.

A semente da heresia brytônica nasceu na sessão de 4 de outubro de 1785, em proposta rejeitada de Hawthorne Whithall. Ressentimento canônico, em fórmula que a Reformada catalogaria depois, opera em longo prazo. Lord Edward, ao rejeitar o furto, evitou rompimento imediato com Aurélia Magna; mas a rejeição plantou, em Hawthorne, a semente que viria a brotar em geração e meia, em sequência que ninguém em 1785 poderia ter previsto e que viria a ser problema canônico das décadas posteriores.


XIX. Os Vigias Despertos


A neblina tinha começado em 5 de novembro, sem causa meteorológica aparente. As neblinas regulares de Vychodstep-do-Cervo em novembro tinham padrão conhecido: matinal, dissipando-se em três horas após o nascer do sol, ausente do entardecer ao amanhecer. A neblina de 1785, em contraste, persistia em vinte e quatro horas por dia, com densidade variável mas continuidade ininterrupta. Os aldeões, ao terceiro dia, perceberam que algo estava errado. Ao quinto dia, decidiram, em conselho comunal informal, manter as crianças dentro de casa após o anoitecer. Ao sétimo dia, dois dos oito chefes de família — Brunko Petrosky e Vasily Hroma — decidiram, em sigilo, fugir com famílias em direção a Ostvehr, ainda que a fortaleza estivesse a quarenta quilômetros e o inverno em curso.

Yvar Kolarov, no oitavo dia, era um dos seis chefes restantes do vilarejo. Tinha vontade de fugir também — partilhava a percepção de que a neblina não era natural —, mas hesitava em razão de três considerações: primeiro, a mulher Liana estava grávida de oito meses, e marcha forçada em inverno por quarenta quilômetros era risco gestacional inaceitável; segundo, o filho mais novo Pavel, três anos, tinha tido febre nas últimas três noites; terceiro, Yvar tinha forja ativa na aldeia, e abandonar a forja significava perder o único ativo produtivo da família que se podia transferir para Ostvehr.

Em 12 de novembro, Yvar saiu da casa às vinte e três horas para verificar o estado das suas duas vacas no estábulo adjacente. A neblina, naquela noite, estava em densidade alta — visibilidade reduzida a aproximadamente quinze metros. A temperatura estava em cinco graus negativos. A lua, em quarto crescente, era praticamente invisível através da neblina.

Yvar caminhou os quinze metros até a porta do estábulo. Abriu. As vacas estavam em ordem — Yvar verificou-as pelo cheiro e pelo som, mais que pela visão. Pegou um pouco de feno. Distribuiu. Verificou a tranca da porta. Saiu do estábulo.

E foi neste momento que viu a figura.

A figura estava em pé, em formação imóvel, a aproximadamente onze metros à frente da porta do estábulo, à beira do caminho que dava para o conjunto principal do vilarejo. Não estava lá quando Yvar tinha entrado no estábulo, três minutos antes. Estava agora. Imóvel.

A figura era alta. Excepcionalmente. Yvar — que tinha um metro e setenta e oito — estimou a figura em três metros e quinze centímetros, talvez três metros e meio. Vestia túnica longa, sem cinto, em cor que Yvar não conseguia identificar na neblina — talvez bege-claro, talvez branco-sujo, talvez nenhuma cor exatamente. Cabelo longo, abaixo dos ombros, em cor que parecia prata-clara. Quatro asas dobradas atrás, em formação que Yvar reconheceu, com a fração do reconhecimento que o catecismo veherênico básico lhe tinha legado em infância, como sendo canonicamente angélica em sua estrutura.

Mas a figura não era angélica. Yvar sabia, com certeza absoluta, em três segundos de observação. Anjos, segundo o catecismo, são luminosos. Esta figura era opaca. Os olhos da figura — Yvar conseguiu distingui-los em meio à neblina — eram escuros, sem irradiação angélica.

E a figura olhava-o diretamente.

Yvar não correu. Sabia, em fração de segundo, que correr era inútil — se a figura tinha estado capaz de aparecer em três minutos a onze metros do estábulo, podia perseguir mais rápido. Yvar ficou em pé, em frente à porta do estábulo, com a foice de feno na mão direita.

A figura falou.

Falou em vykhradiano arcaico — não o vykhradiano que Yvar falava como dialeto local de Vychodstep-do-Cervo, mas vykhradiano muito antigo, em forma que Yvar reconhecia apenas em cantos litúrgicos arcaicos que a sua avó cantava em criança em festas de Páscoa. A figura disse, em frase única:

Sotne arkos. Bes vyn ye yedu.

Yvar entendeu, com esforço. Tradução aproximada: "Cem anos. Sem inquietação."

A figura repetiu a frase. Três vezes. Como anciões selavam.

— Sotne arkos. Bes vyn ye yedu.

— Sotne arkos. Bes vyn ye yedu.

— Sotne arkos. Bes vyn ye yedu.

E depois, em fórmula vykhradiana ligeiramente mais moderna que Yvar reconhecia com fluência maior, a figura acrescentou:

Eu sou Azzal. Eu fui preso há muito. Eu não te faço mal. Eu apenas te aviso, mortal. Em cem anos, voltarei aqui. Em cem anos, esta aldeia será mar de sangue. Tu não estarás aqui. Teus descendentes em quinta geração estarão. Em cem anos. Sem inquietação.

Yvar Kolarov ouviu. Compreendeu. Não respondeu.

A figura — Azzal, Vigia caído conforme se identificou — dissolveu-se em coalescência reversa. Em quatro segundos, desfez-se em filete cinza que se elevou pelos ramos de pinheiro adjacente e desapareceu acima da copa.

Yvar ficou em pé em frente à porta do estábulo durante exatamente um minuto e dezessete segundos antes de conseguir mover-se. Depois entrou em casa, fechou a porta atrás de si, lacrou com a barra traseira de proteção, acordou Liana, e disse à esposa, em fórmula vykhradiana doméstica:

— Liana. Fugimos amanhã ao amanhecer.

— Yvar, eu estou grávida. Pavel com febre.

— Eu sei. Fugimos amanhã ao amanhecer.

— Por quê?

— Liana. Eu vi um anjo escuro. Disse-me que em cem anos esta aldeia será mar de sangue. Eu acredito.

Liana olhou para Yvar. Em catorze anos de casamento, Liana sabia reconhecer quando Yvar tinha visto coisa séria. Não discutiu. Levantou-se. Acordou as crianças.

Em duas horas, a família Kolarov estava em marcha para Ostvehr. Caminharam treze dias em condições brutais — Pavel piorou em febre, recuperou-se em parte, piorou de novo. Liana entrou em trabalho de parto antecipado no décimo segundo dia e deu à luz uma menina morta em barraca de palha à beira da estrada. Em 25 de novembro de 1785, a família Kolarov — Yvar, Liana, três filhos vivos (Andrei sete, Marta cinco, Pavel três) e uma filha morta enterrada em sepultura simples na floresta — chegou ao portão de Ostvehr e foi recebida pela guarnição de Pyotr Kovalsky em estatuto de refugiados.

Yvar contou ao Marechal Kovalsky pessoalmente, em audiência privada, a visão de Azzal de 12 de novembro. Kovalsky ouviu. Em seguida fez o sinal da cruz em fórmula vykhradiana antiga. E disse, em latim eclesial corrente — porque Kovalsky, em adição a ser militar veterano, era também homem de cultura litúrgica decente:

— Yvar Kolarov. Tu viste o que poucos viram em mil anos. Eu vou registrar em arquivo militar de Ostvehr. Tu vais ficar em Ostvehr sob meu cuidado. Em pensão real veherênica. Em testemunho permanente.

Yvar ficou. Em 1813, com sessenta e nove anos, foi convocado em testemunho final perante o Sínodo dos Setenta em Aurélia Magna — convocação canônica pessoal do recém-eleito Aurelianus I, Primeiro Um, que pediu testemunho oral sobre aparição de Vigia caído vivo em território humano remanescente como base canônica para inclusão dos Vigias na demonologia oficial da Reformada Refundada. Yvar testemunhou. Em ata de Sínodo, em 22 de outubro de 1813, está registrada a sua frase final ao Pontífice Aurelianus I:

"Santidade. Eu não sei o que vou ser em cem anos, porque morrerei em pouco tempo. Mas em cem anos, em 1885, esta aldeia de Vychodstep-do-Cervo que eu deixei, segundo Azzal me disse, será mar de sangue. Eu não saberei. Mas vós, ou vossos sucessores, talvez saibam. Anotai. Em 1885."

Aurelianus I anotou. Em arquivo selado do Cofre do Coro, em 1813.

Em 1885 — exatamente cem anos depois da aparição de Azzal a Yvar Kolarov —, a aldeia de Vychodstep-do-Cervo, então sob ocupação pactuária da Heptarquia Karzhar, foi varrida em incursão demoníaca menor que matou cento e quarenta e dois habitantes em uma noite. A aldeia tinha sido repovoada por pactuários menores em 1820 e mantida durante sessenta e cinco anos sob suserania de Sathnar. Em 1885, foi alvo de incursão interna pactuária — não da Cúria, mas de outra coalizão pactuária rival, em disputa por território — que resultou em massacre civil.

A profecia de Azzal cumpriu-se em data exata. Vychodstep-do-Cervo, em 1890, é zona desabitada permanente.


(Fim do Ato IV — segue Ato V: O Conclave)


ATO V — O CONCLAVE

Mosteiro de Vallia Sacra, abril-maio de 1786 — vigília de quarenta dias


XX. Vallia


A câmara do Prior era pequena. Tinha sido construída em 1641, em pedra cinzenta do vale, com janela única voltada a leste e mesa de carvalho que o Prior anterior — falecido em 1771 — tinha gravado em sua face inferior com a sentença em latim eclesial Hic incipit silentium. Aqui começa o silêncio. A inscrição era invisível ao olho casual e era conhecida apenas pelos sucessivos Priores em transmissão privada.

Hesther conhecia. Tinha lido sob a mesa, em sua primeira visita ao Mosteiro em 1779 — um ano antes do Cataclismo —, em circunstâncias que ele agora lembrava com a nitidez aguda dos sete anos transcorridos. Em 1779, era jovem Arcebispo no primeiro ano de função, e tinha visitado Vallia Sacra em peregrinação canônica de boa-vinda. O Prior anterior — chamava-se Demetrius, e tinha sido herdeiro da Sé monástica veherênica de Vehr-Maior antes da queda — mostrara-lhe a câmara, oferecera-lhe vinho de altar da reserva monástica, conversara durante duas horas sobre liturgia comparada veherênico-aurelina. Em algum momento da conversa, sem que Hesther tivesse pedido, Demetrius levantara a mesa e mostrara a inscrição.

— Tu lerás, em alguma hora futura — dissera Demetrius —, esta inscrição quando voltares a esta câmara em condição de decidir. Eu não decidirei mais. Eu estou velho. Mas tu decidirás. E quando decidires, lembra: aqui começa o silêncio. Silêncio é o material em que a oração veherênica antiga opera. Sem silêncio adequado, fórmula não opera, ainda que recitada com perfeição técnica.

Hesther não tinha compreendido em 1779. Agora compreendia.

O Prior Aelius — sucessor de Demetrius desde 1771 — era homem diferente. Mais idoso. Mais silencioso. Tinha oitenta e quatro anos em 1786 e mantinha-se em saúde frágil mas operacional. Estava sentado à mesa, no lugar habitual, com chá de hortelã monástica em chávena pequena, com as mãos cruzadas sobre o livro de horas, aguardando que Hesther falasse.

Hesther falou.

— Prior. Em três dias começamos. Eu preciso saber se as preparações estão prontas. Não em termos administrativos — administrativamente, eu tenho relatório do meu secretário. Em termos monásticos. Litúrgicos. Conforme tu sabes mais que eu.

— Eminência. As preparações estão prontas em sete pontos canônicos e em três pontos práticos.

— Diz os sete canônicos.

— Primeiro: a capela maior foi consagrada novamente em rito de purificação maior em primeiro de abril, em sete dias antes do início da vigília. Conduzi a purificação pessoalmente. Segundo: as vinte e três cadeiras dos bispos foram dispostas em formação canônica de roda, com a vela central apagada conforme exige a vigília de invocação de Arcanjos. Terceiro: as doze relíquias de Vallia Sacra que sobreviveram à queda do Mosteiro de São Hipólito em Vehr-Maior em 1781 foram organizadas no altar lateral em sequência de antiguidade. Quarta: o vinho do altar foi destilado a partir das últimas uvas da safra de 1779 — última safra pré-Cataclismo do Vale de Vallia — e está em ânfora consagrada na sacristia. Quinto: o óleo dos sete unguentos foi preparado em sete frascos separados conforme protocolo do Sínodo de Avignon de 1397, um para cada Arcanjo que invocaremos. Sexto: o pão de vigília foi produzido em sequência de quarenta padrões — um para cada dia da vigília — e está em câmara fria. Sétimo: a liturgia coletiva diária foi codificada por mim em manuscrito de quarenta páginas, uma por dia, com fórmulas crescentes em intensidade conforme a vigília avança.

— E os três pontos práticos?

— Eminência. Primeiro: aposentos para os vinte e três bispos foram organizados em ala monástica leste — celas individuais, sem decoração, com cama de palha, banco de oração, vela de cera comum por noite. Segundo: alimentação durante a vigília será uma refeição diária — sopa de raiz, pão de centeio, três goles de água — em recolhimento conjunto silencioso. Terceiro: comunicação com o exterior está suspensa durante os quarenta dias. Nenhuma correspondência sai. Nenhuma chega. Mensageiros são repelidos na portaria.

— Comunicação suspensa.

— Comunicação suspensa, Eminência. É exigência canônica veherênica antiga. Vigília de quarenta dias com invocação angélica não admite ruído mundano. Nenhuma carta da casa Whithall. Nenhum relatório de comandante militar veherênico. Nenhuma notícia do continente. Quarenta dias de silêncio absoluto. Em silêncio, formula opera.

Hesther fez sinal de aceitação. Considerou. Em retrospectiva — viria a anotar em diário pessoal sete anos depois — esta foi a parte do conclave que mais o aterrorizou em véspera. Suspender comunicação durante quarenta dias significava governar a Sé Aurelina por seu vigário substituto Vincentius em ausência prolongada — risco administrativo significativo. Mas Aelius tinha razão canônica. Hesther aceitou.

— Prior.

— Eminência.

— Outra coisa. — Hesther hesitou. — Eu sei, em informação privada que recebi do Cardeal Korvac em Aurum Roma, que três bispos brytônicos chegarão à vigília sob suspeita de tentativa furtiva de gravação canônica não-autorizada. Tu sabes da informação?

— Eu sei.

— Como ageremos?

— Eminência. — Aelius pegou a chávena. Bebeu três goles em sequência. Pousou. — A fórmula de invocação dos Arcanjos opera, em ato, apenas em estado de comunhão plena dos vinte e três bispos. Se um dos vinte e três estiver em comunhão imperfeita — em mente dividida pelo furto, em silêncio interno incompleto, em registro mental separado para arquivo posterior —, a fórmula não opera para nenhum dos vinte e três.

— Mesmo um único bispo em divisão?

— Mesmo um único. A vigília exige unidade absoluta em fé operante. Não é doutrina rígida; é mecânica canônica. Os Arcanjos não respondem a invocação imperfeita.

— Então — Hesther pensou — se os três bispos brytônicos suspeitos vierem em divisão, arruínam o conclave.

— Arruínam.

— Como impediremos?

— Eminência. Eu tenho proposta. — Aelius olhou Hesther em pleno olho. — Proposta arriscada. Mas eficaz.

— Diz.

— Eminência. Quando os vinte e três chegarem, em sétimo de abril próximo, eu — em qualidade de Prior anfitrião — receberei cada um em câmara individual durante quinze minutos, em fórmula que descreverei como purificação prévia ao ingresso na capela. Durante os quinze minutos, conduzirei rito breve que tem propriedade canônica específica: revela divisão interna em quem a possui. Não força confissão. Não acusa. Apenas mostra ao próprio bispo divisão interna em ato, em fração de segundo, em silêncio. O bispo então decide por si mesmo se prossegue à capela ou se se retira em saúde antes do conclave começar.

— Prior. Isto exige conhecimento técnico-litúrgico que nem eu — eu, formado em Salzburgo — domino.

— Eminência. Eu sou Prior de Vallia Sacra. Domino. Foi-me transmitido por Demetrius, antecessor meu, em 1771. Foi transmitido a Demetrius por seu antecessor em 1741. Cadeia de transmissão monástica em sete séculos. Eu posso conduzir.

— Tu farás isto sozinho.

— Sozinho. Em câmara fechada. Em silêncio que opera.

— E se algum dos três brytônicos suspeitos não se retirar voluntariamente após o rito?

— Eminência. Aí é decisão tua. Tu, como convocador, podes barrar entrada à capela em razão de divisão interna canonicamente comprovada por mim em testemunho monástico. Não há protocolo brytônico que aceite barramento como afronta diplomática plena se for fundamentado em rito canônico verificável. Eles aceitarão. Ressentirão, mas aceitarão.

Hesther considerou. Aelius esperou. Em cinco minutos de silêncio operacional na câmara do Prior, Hesther tomou a decisão.

— Prior. Concordo. Tu conduzes a purificação prévia. Eu barrarei entrada se necessário. Em registro de Sínodo posterior, justificaremos por rito canônico verificável de unidade prévia exigida.

— Eminência.

— Mais uma pergunta, Prior.

— Diz.

— Tu — Hesther olhou Aelius em pleno olho — tu mesmo estás em comunhão plena para a vigília?

Aelius olhou de volta. Não pestanejou. Em fórmula veherênica antiga, levantou-se. Caminhou em três passos curtos até o altar lateral da câmara. Pegou da pequena cruz monástica de prata da casa de Vallia. Voltou. Pôs a cruz na palma direita aberta de Hesther.

— Eminência. Eu, Prior Aelius de Vallia Sacra, em frente a esta cruz monástica da casa de Vallia Sacra, juro em sigilo monástico sob estola de votos perpétuos que estou em comunhão plena, em silêncio interno completo, em fé operante sem reservas, em consideração da urgência do conclave que se inicia em três dias. Que esta cruz seja minha guarda. Que esta cruz me condene se eu mentir.

Hesther aceitou. Tocou a cruz. Devolveu a Aelius. Os dois sentaram-se de novo.

— Prior. Mais um chá de hortelã, por favor.

Aelius serviu. Hesther bebeu três goles em sequência. Olhou pela janela leste — o vale de Vallia Sacra estendia-se na luz crepuscular de abril, com as oliveiras antigas em primeiro plano, com a Cordilheira do Crepúsculo a centenas de quilômetros ao leste em silhueta. Os bispos chegariam em sequência nos próximos dois dias. Em sétimo de abril, todos os vinte e três estariam presentes. Em oitavo de abril, a vigília começaria.

— Aelius.

— Eminência.

— Que Deus, em quarenta dias, não se esconda.

— Domine, ne abscondas.

Os dois ficaram em silêncio. Não havia mais o que dizer. A capela estava pronta. As celas estavam prontas. As relíquias estavam prontas. O Prior estava em comunhão plena. O conclave começaria.


XXI. A Tentativa Brytônica


Reginald Caer'n-Highmoor tinha aceitado a missão diplomática brytônica em janeiro de 1786 em circunstâncias canonicamente honrosas. Era bispo da Diocese de Highmoor — diocese pequena da Ilha Menor norte, modesta em recursos, com sete paróquias rurais e duas urbanas —, e a convocação para representar Brytonia no conclave inter-continental tinha-lhe parecido, em primeiro momento, oportunidade tardia de elevação canônica para homem que tinha aceitado, em decisão de meia-idade, que jamais alcançaria o cardinalato.

Mas Caer'n-Highmoor era também — em parte que ele preferia não examinar conscientemente — homem devoto à linhagem menor brytônica. Tinha sido elevado a Bispo em 1772 por intervenção direta de Hawthorne Whithall em concílio diocesano, em decisão controversa que tinha sido contestada pelo então jovem Edward Whithall — que via Caer'n-Highmoor como aliado da linhagem menor e que tinha protestado pela elevação. O protesto fora superado por margem mínima de votos. Caer'n-Highmoor sabia, em todos os anos transcorridos, que devia o seu episcopado a Hawthorne, não a Edward.

Quando Edward tinha tomado a decisão de outubro de 1785 — três bispos enviados ao conclave, em representação plena e sem instrução secreta de furto canônico —, Caer'n-Highmoor estava entre os três escolhidos por razão de equilíbrio político: Edward sabia que enviar três bispos exclusivamente da linhagem maior seria afronta política à linhagem menor. Caer'n-Highmoor foi escolhido como representante simbólico da linhagem menor sem riscos significativos — segundo a avaliação de Edward, Caer'n-Highmoor era homem prudente que cumpriria mandato formal sem aventura.

A avaliação de Edward estava errada.

Em janeiro de 1786, em vigília privada na sua câmara episcopal em Highmoor, Caer'n-Highmoor recebeu visita secreta de Hawthorne Whithall em pessoa, que tinha viajado em sigilo de Brithon até a Ilha Menor para a entrevista. Hawthorne propôs-lhe:

— Reginald. Tu vais ao conclave. Eu não consegui aprovar instrução secreta em Conselho dos Lordes. Mas tu, em consciência tua, podes gravar a fórmula em memória, sem instrução, em decisão pessoal. Edward não saberá. Em três anos, em correspondência privada futura, tu me enviarás a fórmula gravada. Em troca, eu garanto-te elevação a Cardeal-Bispo de Highmoor em coordenação canônica que arranjarei via casa Brask brytônica.

— Hawthorne. Eu fiz juramento de obediência à casa Whithall maior em sucessão canônica de 1772.

— Reginald, o juramento foi a Edward em sua qualidade de Lord Coordenador, não à casa em abstrato. Edward é mortal. Edward está em saúde declinante. Em dois anos, seu filho William sucederá. William é mais flexível em assuntos canônicos. Quem te garante elevação a Cardeal-Bispo é a linhagem menor, em coordenação com Brask brytônico. Edward não saberá.

Caer'n-Highmoor pensou. Pensou durante toda a entrevista — uma hora e quarenta minutos —, e em fim aceitou. Aceitou em silêncio operacional, sem assinar documento, sem prometer em fórmula. Apenas inclinou a cabeça três vezes em sinal canônico de aceitação tácita. Hawthorne agradeceu. Saiu.

Em três meses, Caer'n-Highmoor viajou para Vallia Sacra com mente dividida.

A divisão operacional era esta: em camada externa, Caer'n-Highmoor pretendia participar do conclave em comunhão aparente, em silêncio cooperativo, em recitação coletiva conforme protocolo do Prior. Em camada interna, durante os quarenta dias, ele pretendia manter um cantinho específico da mente em estado de gravação técnica — registrar fórmula em ordem rigorosa de palavras, sequência precisa de cadência, ritmo de pausa, tom de voz coletivo, postura ritual coletiva, características de manifestação angélica visível.

Caer'n-Highmoor sabia que a operação era teologicamente arriscada. Tinha lido, em catecismo brytônico avançado, que comunhão plena exigia unidade interna integral. Tinha lido também — em literatura mais técnica que a casa Whithall mantinha em biblioteca privada — que mente dividida em vigília de invocação maior pode produzir consequências adversas em proporção à intensidade da invocação. A literatura era vaga sobre que tipo de consequências. Mas Caer'n-Highmoor, em sua aritmética interior pessoal, considerara que risco vago é risco aceitável quando o pagamento é elevação a Cardeal-Bispo.

Tinha chegado ao Mosteiro de Vallia Sacra na tarde de 6 de abril, junto com os Bispos Whithall-Penhall e Brask-Whithall que tinham viajado em mesmo navio brytônico-aurelino. Tinham sido recebidos cordialmente pelo monge porteiro. Tinham sido conduzidos às suas celas individuais na ala monástica leste. Tinha jantado em refeitório com os outros bispos chegantes — vinte ao todo, dos vinte e três previstos. Os três últimos — dois meridianos e um vykhradiano — chegariam na manhã seguinte.

Em manhã de 7 de abril, foi convocado em sequência canônica ordenada à câmara do Prior para a purificação prévia ao ingresso na capela que Aelius tinha codificado.

Caer'n-Highmoor entrou na câmara do Prior. Sentou-se na cadeira oposta a Aelius. O Prior estava sentado na cadeira habitual, sem chá de hortelã desta vez — chá de hortelã era reservado para conversas amigáveis; em entrevistas canônicas técnicas, o Prior dispensava cortesias.

Aelius olhou Caer'n-Highmoor durante exatamente sete segundos sem falar.

E Caer'n-Highmoor sentiu, em alguma camada da sua atenção interior — em camada que ele mesmo não tinha vocabulário técnico para nomear —, que o Prior já sabia.

Tentou manter a face neutra. Tentou manter a respiração estável. Tentou repetir, em silêncio interno, fórmula brytônica de proteção mental menor que Hawthorne lhe tinha ensinado em janeiro como contramedida.

— Bispo Caer'n-Highmoor.

— Prior.

— Eu vou conduzir agora a entrevista canônica de purificação prévia. Em quinze minutos, terminará. Eu te peço apenas que escutes e que respondas sinceramente apenas a três perguntas. Não há acusação. Não há registro escrito. Não há consequência diplomática automática. Se tu responderes em sinceridade, e eu reconhecer divisão interna canonicamente significativa, eu te oferecerei retirada honrosa do conclave por motivo de saúde, que não comprometerá teu episcopado nem causará tensão entre Brytonia e Aurélia Magna. Compreendes?

Caer'n-Highmoor compreendeu. Compreendeu também que aquilo era armadilha técnica. Aelius sabia.

— Compreendo, Prior.

— Primeira pergunta. — Aelius olhou em pleno olho. — Bispo Caer'n-Highmoor, tu vens a este conclave em mandato pleno da casa Whithall maior, sem instrução privada paralela de qualquer outro origem, em comunhão integral com os teus colegas brytônicos Bispos Whithall-Penhall e Brask-Whithall?

Caer'n-Highmoor inspirou. Era a pergunta que esperava. A resposta certa em comunhão plena seria "sim, Prior". Caer'n-Highmoor tinha preparado, em três meses de viagem, exatamente essa resposta com a entonação adequada.

A resposta que saiu da sua boca, em fração de segundo de hesitação que ele jamais conseguiu explicar racionalmente em retrospectiva, foi:

— Não exatamente, Prior.

Caer'n-Highmoor surpreendeu-se mais que o Prior. Aelius não pareceu surpreso. Olhou-o com paciência cansada.

— Diz-me, em sintaxe que tu encontrares.

— Prior. — Caer'n-Highmoor inspirou. — Eu recebi visita privada em janeiro. De homem da linhagem menor brytônica. Recebi proposta de gravação interna em memória durante o conclave. Aceitei tacitamente. Não em fórmula. Em silêncio operacional. Vim aqui em mente dividida.

— Hawthorne Whithall.

— Hawthorne Whithall.

— Compreendo.

Aelius pausou. Considerou. Pegou copo de água da mesa — não chá de hortelã, água apenas — e ofereceu a Caer'n-Highmoor. Caer'n-Highmoor bebeu três goles, automaticamente.

— Bispo Caer'n-Highmoor. Eu te ofereço duas opções, em registro privado entre nós que não sairá desta câmara em direção à Cúria Aurelina nem em direção à casa Whithall maior. Primeira opção: tu te retiras do conclave por motivo de enfermidade súbita não-grave. Eu emito certificado monástico de enfermidade. Tu retornas a Highmoor em saúde. Os Bispos Whithall-Penhall e Brask-Whithall prosseguem em conclave conforme programado. Em ata de Sínodo, registra-se que Brytonia foi representada por dois bispos plenos em vez de três por razão de enfermidade brytônica. Sem afronta diplomática.

— Segunda opção, Prior?

— Segunda opção: tu renuncias ativamente à promessa tácita feita a Hawthorne, em fórmula canônica de renúncia interior que eu te ensinarei nas próximas três horas, e que opera por confissão integral seguida de absolvição plena. Em fim das três horas, tu estarás em comunhão plena para o conclave, e tu prossegues em vigília como os outros vinte e dois. Hawthorne não saberá da renúncia. Eu jamais reportarei. Tua promessa tácita a Hawthorne ficará em estado canonicamente desfeito sem que Hawthorne saiba — e em três anos, quando ele te procurar para colher a fórmula que ele acredita que tu gravaste, tu lhe entregarás fórmula vazia que não opera, e Hawthorne entenderá ou não entenderá, e isso será problema dele, não teu.

Caer'n-Highmoor olhou Aelius durante longo tempo.

— Prior. A segunda opção me preserva episcopado.

— Preserva.

— E me preserva também — Caer'n-Highmoor pausou — honra interior, que eu, em retrospectiva privada, percebo agora que estava prestes a perder.

— Preserva também.

— Vou pela segunda opção, Prior.

— Boa decisão.

Aelius conduziu a fórmula canônica de renúncia interior durante as três horas seguintes. A fórmula consistia em três sequências de oração silenciosa intercaladas com três confissões diretas a Aelius, com três absolvições proferidas em fórmula sigilada do Sínodo de Vallia de 1318. A fórmula era exigente em sintaxe. Caer'n-Highmoor conseguiu — em parte porque era homem letrado, em parte porque sua decisão era genuína.

Ao fim das três horas, Aelius pronunciou a absolvição final. Caer'n-Highmoor sentiu, em camada profunda da consciência interior, que o cantinho de mente dividida tinha-se desfeito. Não em fingimento. Em ato. A promessa tácita a Hawthorne tinha-se evaporado, em sentido canônico real, em três horas de oração rigorosa.

— Prior — Caer'n-Highmoor disse, ao fim. — Eu te agradeço.

— Não me agradeças. Agradeces a Deus. Eu apenas conduzi.

Caer'n-Highmoor saiu da câmara. Voltou à sua cela. Dormiu duas horas — exaustão acumulada das três horas de rito intenso. Acordou. Jantou em refeitório monástico com os outros bispos. Em manhã de 8 de abril, ingressou na capela maior em formação canônica com os outros vinte e dois. Em comunhão plena.

A vigília começou.

Em três anos — em 1789 —, Hawthorne Whithall enviaria, conforme prometido, correspondência diplomática privada a Caer'n-Highmoor pedindo a entrega da fórmula gravada. Caer'n-Highmoor responderia em fórmula brytônica antiga que tinha sido acometido por enfermidade grave no quinto dia da vigília que lhe apagou a memória técnica completa do conclave. Hawthorne ressentiria, mas aceitaria. Caer'n-Highmoor nunca seria elevado a Cardeal-Bispo. Morreria como Bispo de Highmoor em 1804, aos oitenta e um anos, em saúde plena.

Em testamento, deixou aos sucessores diocesanos a seguinte frase canônica que viria a ser inscrita em sua tumba em pequena capela de Highmoor: "Hic iacet Reginaldus, qui in extremis paene cecidit, sed renuit in tempore." Aqui jaz Reginaldus, que quase caiu no momento extremo, mas recusou a tempo.


XXII. A Unidade Forçada


A capela maior estava em silêncio operacional de doze dias. Os vinte e três bispos sentavam em formação de roda, em cadeiras simples de madeira sem encosto, com livros de horas pousados sobre os joelhos. A vela central — apagada conforme protocolo da invocação — permanecia em centro físico geométrico da formação, como ponto de convergência sem chama. As doze relíquias de Vallia Sacra estavam no altar lateral em sequência. O Prior Aelius circulava entre os bispos a cada hora canônica, distribuindo água em copos pequenos, recolhendo os copos vazios em silêncio.

Em décimo segundo dia, a vigília tinha entrado em fase que o protocolo de Aelius classificava como estado de comunhão profunda inicial — fase em que os bispos começavam a sentir, em camadas variadas de profundidade conforme a sensibilidade individual, presença angélica em aproximação progressiva sem manifestação direta. A presença manifestava-se em três sinais: primeiro, temperatura ligeiramente elevada da capela maior, três graus acima da temperatura externa apesar do controle deficiente do recinto; segundo, timbre alterado dos sinos monásticos do Mosteiro nas horas canônicas — os sinos batiam normalmente, mas em frequência levemente diferente que cada bispo percebia em camadas individuais; terceiro, vela central que continuava apagada conforme protocolo mas que apresentava, à inspeção próxima, alteração da textura da cera — a cera estava um pouco mole sem causa térmica aparente.

Borys Cracoviensis percebia os três sinais. Tinha-os reconhecido em décimo dia, em sintonia com a sua formação canônica vykhradiana antiga em liturgia angelical. Borys tinha sido educado, em juventude pré-Cataclismo na Sé de Vykhrad, em rito vykhradiano arcaico que incluía formação em invocação angélica menor — não em manifestação plena dos Arcanjos, mas em manifestação dos Anjos do coro inferior (que viriam a se chamar Anjos do Hashmal em codificação canônica posterior por Aurelianus I).

Em décimo segundo dia, Borys percebeu — em fração de segundo de atenção lateral durante a recitação coletiva matutina do Salmo XXXIX —, dissenso silencioso entre dois bispos sentados a quatro cadeiras de distância dele.

O dissenso operava na ordem de invocação dos Arcanjos. A fórmula codificada por Aelius previa invocação em sequência Mikahel — Gabriel — Rafael — Uriel — Sariel — Camuel — Jegudiel, em ordem hierárquica de servidão tradicional veherênica. Mas o Bispo brytônico Whithall-Penhall — possivelmente em consequência de formação litúrgica brytônica diferente — estava recitando, em silêncio interno detectável apenas por sensitivos como Borys, ordem alterada: Mikahel — Rafael — Gabriel — Sariel — Uriel — Camuel — Jegudiel. Os dois Rafael e Gabriel trocados.

A alteração era pequena, mas era divergência canônica. E divergência canônica em vigília de invocação maior, conforme Aelius tinha-lhe explicado em entrevista preparatória ao seu ingresso no conclave, opera em escala desproporcional ao desvio aparente. Se Whithall-Penhall mantivesse a divergência por mais alguns dias, a vigília inteira poderia falhar em virtude exclusiva da divergência.

Borys precisava intervir. Mas a vigília era em silêncio absoluto. Comunicação verbal estava proibida. Como intervir?

Em fim do Salmo XXXIX, durante o intervalo silencioso de três minutos antes do Salmo XL, Borys olhou em direção ao Prior Aelius, que circulava em distribuição de água. Aelius percebeu o olhar — Aelius era figura sensitiva por treinamento monástico de quarenta e seis anos — e aproximou-se de Borys.

Borys, em fórmula veherênica monástica antiga que ele tinha aprendido em juventude em Vykhrad e que era idêntica à fórmula monástica de Vallia Sacra, tocou três vezes no dedo médio direito sobre o seu próprio livro de horas. Aelius reconheceu o gesto. Em fórmula monástica antiga, três toques no dedo médio significavam "divergência canônica detectada em colega".

Aelius pousou o copo de água sobre o livro de Borys. Em uso normal, isto seria interrompido contagem com Borys. Mas no contexto, era sinal de retorno — Aelius indicava que voltaria à câmara do Prior após a próxima oração para conversa privada.

Borys assentiu com microexpressão monástica que apenas Aelius percebeu.

Em fim do Salmo XL, Aelius e Borys saíram da capela maior em sequência cuidadosa para não chamar atenção dos outros bispos. Foram à câmara do Prior. Sentaram-se.

— Borys.

— Aelius. Whithall-Penhall em divergência. Ordem Rafael e Gabriel trocada.

Aelius olhou para Borys com aquela paciência cansada que era a sua marca.

— Eu também notei em décimo primeiro dia.

— Por que não intervieste?

— Porque eu, como Prior anfitrião, não posso intervir em divergência interna sem perda de neutralidade. Tu, em qualidade de Cardeal-mediador, podes. E deves. Se a divergência prosseguir, em três dias arruína a vigília.

— Como intervenho em silêncio?

— Borys. — Aelius pegou pergaminho pequeno. Pena. Mergulhou em tinta. — Eu escrevo. Tu entregas a Whithall-Penhall em silêncio.

Aelius escreveu três linhas em latim eclesial. Texto integral:

"Whithall-Penhall. Ordem canônica veherênica antiga: Mikahel-Gabriel-Rafael-Uriel-Sariel-Camuel-Jegudiel. Tua sequência interna está alterada em Gabriel-Rafael. Corrige sem aviso. Domine, ne abscondas. Borys."

— Vai. Em silêncio. Devolve em recibo escrito ao Whithall-Penhall.

Borys pegou o pergaminho. Voltou à capela maior. Sentou-se. Esperou a próxima pausa entre Salmos.

Em pausa entre Salmo XLII e Salmo XLIII, levantou-se. Atravessou em três passos curtos até a cadeira de Whithall-Penhall. Pôs o pergaminho dobrado sobre o livro de horas dele, sem palavra. Voltou ao seu lugar.

Whithall-Penhall olhou para o pergaminho. Pegou-o. Leu. Olhou para Borys.

Borys olhou de volta sem expressão.

Whithall-Penhall ficou em silêncio durante exatamente vinte segundos. Inspirou profundo. Devolveu o pergaminho a Borys com fórmula brytônica monástica de reconhecimento e aceitação tácita. Borys recebeu. Voltou a sentar.

E Whithall-Penhall, no Salmo XLIII iniciado em seguida, corrigiu silenciosamente a sua ordem interna. Borys percebeu a correção no segundo versículo. A divergência tinha-se desfeito.

Aelius, à porta da capela, percebeu também. Inclinou levemente a cabeça em direção a Borys.

A vigília prosseguiu em comunhão plena restaurada. Os doze dias subsequentes — décimo terceiro até vigésimo quarto — foram dias de aprofundamento canônico em camadas crescentes de aproximação angélica. A presença, ao vigésimo quarto dia, era percebida não apenas por sensitivos como Borys mas por todos os vinte e três bispos, em camadas variadas conforme a sensibilidade individual.

Em vigésimo quinto dia — 2 de maio de 1786 —, a vela central, ainda apagada conforme protocolo, começou a vibrar levemente no pavio. Vibração visível ao olho atento. A vibração foi reconhecida por Aelius, em sinal monástico ao conjunto, como fase de manifestação direta iminente. A vigília entrava em sua segunda metade, a mais perigosa, em que os Arcanjos começariam a responder em forma manifestamente perceptível.

Borys, na sua cadeira na roda dos vinte e três, em silêncio cooperativo, sentiu — pela primeira vez na vida adulta —, que estava em comunhão tangível com algo maior que ele mesmo. Não em sentido metafórico. Em sentido operacional. A presença angélica em aproximação era real, em mesma maneira em que a cadeira de madeira sob seus joelhos era real.

Em vigésimo sexto dia, Borys olhou para Whithall-Penhall na cadeira a quatro distância. Whithall-Penhall, em comunhão plena restaurada, olhou de volta com fórmula brytônica monástica de gratidão silenciosa.

A unidade tinha sido forçada em décimo segundo dia. Operava agora.

Os Arcanjos chegariam em catorze dias.


XXIII. Sussurros Angélicos


A capela menor do Mosteiro de Vallia Sacra tinha sido construída em 1389 como capela das mulheres — destinada ao uso litúrgico de freiras visitantes e de mulheres aldeãs em peregrinação. Tinha dimensão reduzida — aproximadamente um terço da capela maior —, com cinco bancos de madeira e altar simples. Em 1786, sob o conclave dos vinte e três bispos, a capela menor tinha sido designada por Aelius para vigília paralela das Sorores Albae, em formato canônico que Marina, em pessoa, tinha negociado por correspondência diplomática com Aelius nos três meses anteriores ao conclave.

A negociação não tinha sido fácil. O protocolo monástico veherênico antigo era rigoroso em separação de gêneros para invocação de Arcanjos. Marina tinha argumentado, em correspondência, que as Sorores Albae em desenvolvimento canônico desde 1781 representavam linha de transmissão litúrgica feminina que o conclave deveria honrar paralelamente. Aelius tinha hesitado. Em fim, autorizou — com a condição de que a vigília paralela operasse em sincronia parcial mas em silêncio absoluto sobre o conteúdo direto da invocação masculina principal.

Sete Sorores Albae viajaram a Vallia Sacra em janeiro de 1786, em comitiva discreta. Marina liderou. Foram acomodadas em hospedaria monástica menor adjacente ao Mosteiro. Em 8 de abril, junto com o início da vigília maior dos bispos, começaram a vigília paralela na capela menor. Sete Brancas em formação de roda em torno do altar simples — Marina ao centro, em posição de Soror Maior interina; outras seis em torno.

A vigília paralela tinha protocolo próprio. Em vez de invocação direta dos Arcanjos — que era trabalho dos bispos —, as Brancas conduziam oração de sustentação, em fórmula veherênica antiga, dirigida ao coro angélico inferior (que viria a ser chamado de Anjos em codificação posterior de Aurelianus I). A função canônica da oração de sustentação era estabilizar a passagem dos Arcanjos para o mundo material — porque, conforme as Sorores Albae sabiam em transmissão privada de cinco séculos, manifestação direta de Arcanjos em mundo material exige preparação prévia da camada intermediária do Hashmal, e esta preparação operava em sincronia com vigília maior.

Em trigésimo sétimo dia da vigília — 14 de maio de 1786 —, Marina sentiu, em seu corpo, alteração canônica significativa. Era a primeira alteração corporal em trinta e sete dias. Marina tinha sessenta e sete anos, e em três décadas de Soror Branca tinha percebido vinte e três alterações canônicas de proximidade angélica — mas nenhuma tinha sido desta intensidade.

A alteração veio em camadas. Primeira camada: temperatura corporal elevada em aproximadamente quatro graus, em quinze segundos. Marina sentiu o suor frio formar-se na testa em seguida. Segunda camada: respiração curta involuntária durante trinta segundos, com sensação de oxigênio reduzido apesar de a respiração estar funcionando normalmente. Terceira camada: zumbido interno em frequência baixa, audível apenas com a atenção interior, durante aproximadamente um minuto. Quarta camada: visão alterada — Marina via, naqueles momentos, a capela menor em dupla exposição — a capela física como sempre, mais uma camada sobreposta em translucidez ambígua que mostrava figuras humanas sentadas nos bancos onde não havia ninguém, em vestes monásticas antigas, em formação de oração.

Marina reconheceu a quarta camada com fração de instante. As Sorores Albae mortas estavam em vigília paralela paralela. Em segunda camada de paralelismo. As Brancas falecidas das gerações anteriores — Anastasia, falecida em 1785 (Marina sabia que tinha sido em Aurélia Magna em recém-fundada Domus Albarum Aurelina); Ostra, falecida em 1785 também em Vehr-Sul aos dezesseis anos em ano três pleno; outras quinze irmãs falecidas que Marina reconheceu por silhueta — estavam sentadas nos bancos da capela menor em vigília sincronizada com Marina e as outras seis vivas.

Marina não disse nada às vivas. Não interrompeu a oração de sustentação que conduziam coletivamente. Apenas registrou interiormente. A vigília paralela tinha vinte e duas Brancas, sete vivas e quinze mortas. Quinze Brancas em camada angelicalmente acolhida estavam rezando junto com as sete vivas em camada material.

Em trigésimo oitavo dia, em manhã, Marina viu — pela primeira vez naquele conclave — figura adicional em camada superior. Uma figura nova, mais luminosa que as quinze Brancas mortas, sentada em banco que não existia na capela menor, em posição que parecia ser central acima do altar. A figura era angélica em forma plena. Marina reconheceu: era do coro dos Anjos (Hashmal), em manifestação intermediária. Não Arcanjo — Arcanjos manifestavam em capela maior com os bispos. Anjo do coro inferior. Auxiliar.

A figura olhou para Marina. Falou — não em voz, em conhecimento implantado canônico:

"Soror Maior interina Marina. As Sorores Albae em duas camadas vigiam em parceria com os vinte e três bispos. A invocação está sustentada. Os Arcanjos chegarão em três dias. Prepara as vivas para a onda. Manda mensageiro paralelo a Aurum Roma e a Vehr-Sul antes de manhã. Que estejam em vigília sincronizada conjunta também, em terceira camada paralela. Sustenta a passagem em todas as camadas. Em terceiro dia."

A mensagem foi clara. Marina inspirou. Inclinou a cabeça em sinal de aceitação canônica. A figura angélica intermediária dissolveu-se em coalescência reversa em três segundos. Quinze Brancas mortas continuaram em vigília paralela. Sete vivas em vigília material.

Marina, em pausa de oração entre Salmos, redigiu — em pergaminho monástico pequeno, em latim eclesial corrente, em sintaxe Hashmal nascente — mensagem para Aurum Roma destinada à Soror Branca Helena Cracoviana (substituta de Anastasia na Domus Albarum Aurelina) e mensagem para Vehr-Sul destinada à Soror Branca Sara.

A mensagem foi: "Vigília sincronizada em terceira camada paralela. Imediato. Três dias. Sustenta passagem dos Arcanjos. Domine, ne abscondas. Marina."

Mensageiros monásticos saíram em manhã de 15 de maio. Em três dias — 18 de maio — chegariam a Aurum Roma e a Vehr-Sul. Helena Cracoviana e Sara abririam vigília sincronizada paralela com Marina em capela menor de Vallia Sacra. Em 17 de maio, em manhã, três camadas de vigília paralela conduziriam a sustentação angélica da Intervenção.

Marina não sabia, naquela manhã de 14 de maio, quantas mulheres adicionais estariam em vigília paralela em terceira camada. Não sabia tampouco se a sustentação seria adequada. Apenas conduzia conforme conhecimento implantado canônico.

Em três dias, em dia 17 de maio de 1786, manifestação dos Arcanjos em mundo material ocorreria. Marina prepararia as Sorores Albae para sustentar a passagem em duas camadas — material em capela menor, intermediária através das Sorores Albae mortas, paralela em terceira camada com Aurum Roma e Vehr-Sul. As três camadas formariam rede de sustentação canônica feminina sob a invocação masculina principal dos vinte e três bispos.

A rede operaria. A passagem dos Arcanjos seria sustentada. Os trinta mil soldados humanos morreriam pela onda destrutiva em raio inevitável. Mas os Arcanjos chegariam, e a primeira chama da Vigília Perpétua em Aurum Roma — que Aurelianus I instituiria canonicamente em 1814 sob protocolo formal — seria acesa em 17 de maio de 1786, em dispositivo improvisado por Helena Cracoviana em Domus Albarum Aurelina, em referência a Camuel.

Marina, que viria a se mudar em 1789 para Aurélia Magna para servir junto à Helena Cracoviana na Domus Albarum, morreria em 1798 aos setenta e nove anos. Em seu leito de morte, em câmara da Domus Albarum, recordaria a vigília paralela de Vallia Sacra como o evento canônico maior de sua vida, e diria à sua sucessora Helena: "As Sorores Albae operam em três camadas. Sempre operaram. Sempre operarão. Quem souber ver, verá. Quem não souber, sustenta de qualquer modo. Operam de qualquer modo."

Helena Cracoviana inscreveria a frase em arquivo da Domus Albarum em 1798. A frase entraria, em 1820, em Cânone das Vigílias de Aurelianus I, em formato canônico das Sorores Albae que viria a ser herdado pela Vigília Perpétua moderna.


(Fim do Ato V — segue Ato VI: A Intervenção)


ATO VI — A INTERVENÇÃO

Vale do Limes Orientalis, 17 de maio de 1786 — descida dos Arcanjos


XXIV. A Manhã


O exército combinado era constituído por quarenta e três mil homens em armas, organizados em quatro corpos por origem nacional: dezessete mil veherênicos remanescentes sob comando direto de Konstanty Vlassov de Sul-Vehr (Teorbano III tinha-se mantido em Vehr-Maior, em sua qualidade simbólica de rei sem comando militar direto, conforme o decreto da mesa de quatro pés de 1782); doze mil brytônicos sob comando do General Sir Reginald Penhall-Whithall (irmão menor do Bispo Whithall-Penhall que estava em vigília no Mosteiro); oito mil vykhradianos sob comando do Coronel Pavel Cracoviensis; e seis mil aurelinos sob comando do recém-formado Capitão-Geral Sebastien Korvac — o mesmo Korvac que tinha sido jovem capitão brytônico de batedores em outubro de 1780, agora em sua função canônica nascente como Primeiro Capitão-Geral dos Cavaleiros do Selo em formação.

Esteban tinha chegado ao vale em 14 de maio. Tinha sido recebido pelo General Penhall-Whithall — que conhecia pessoalmente em sua qualidade de membro da casa Whithall — em câmara de campanha. Tinha sido informado das condições da operação: o exército combinado aguardaria em formação de espera ao longo do vale durante a vigília final dos quarenta dias no Mosteiro; quando os Arcanjos descessem, o exército avançaria em formação ofensiva contra a horda demoníaca que tinha-se consolidado em zona oriental adjacente; a horda demoníaca, segundo estimativa de batedores, somava aproximadamente sessenta mil entidades de várias categorias (humanas pactuadas em primeira geração, demônios menores em manifestação parcial, três Vigias caídos sustentando a horda em retaguarda).

A operação tinha sido planejada em coordenação direta entre o Arcebispo Hesther — em Vallia Sacra no conclave — e o General Penhall-Whithall em vale. O plano era o seguinte: em 17 de maio em amanhecer, ao quadragésimo dia da vigília, os Arcanjos manifestariam em capela maior do Mosteiro em forma de descida plena. A descida operaria, em mesma fração de instante, manifestação angélica direta no vale do Limes Orientalis a noventa quilômetros de distância — em virtude de mecanismo canônico de manifestação espacial não-local que Aelius e Hesther tinham codificado em fórmula veherênica antiga.

Em vale, os Arcanjos manifestariam em fileira de sete posições acima da formação humana, em altitude estimada de duzentos metros. Sua manifestação produziria onda destrutiva em raio — descrita em manuais veherênicos antigos como "raio que mata sem distinguir, em proteção da própria substância angélica". O raio teria alcance estimado de aproximadamente dois quilômetros em todas as direções. Tudo dentro do raio morreria — humanos, demônios, animais, vegetação.

O exército humano estaria, portanto, sob o raio. Os comandantes sabiam. Os soldados, em geral, não sabiam — tinham sido informados apenas de que operação angélica maior ocorreria e que era preciso manter posição firme em fé. Apenas os oficiais superiores e os capelães conheciam o detalhe técnico das mortes inevitáveis.

Esteban sabia. Tinha sido informado por Penhall-Whithall em câmara reservada na noite de 15 de maio.

— Esteban. — Penhall-Whithall tinha dito, em fórmula brytônica antiga de revelação delicada. — Vou te dizer em sigilo o que apenas os oficiais e os capelães sabem. Lê em silêncio. — Tinha-lhe entregado pergaminho lacrado. Esteban tinha lido em três minutos. Tinha pousado o pergaminho. Tinha olhado para Penhall-Whithall.

— Trinta mil.

— Estimativa do conclave. Talvez vinte e cinco. Talvez trinta e cinco. Em mínimo vinte e três mil dos quarenta e três mil em vale.

— A maioria.

— A maioria.

— Os soldados sabem?

— Não. Em sigilo até o instante. Em fórmula tática, eles não devem saber, porque saber produziria deserção em massa que arruinaria a posição em vale durante os últimos dois dias da vigília. Eles morrerão em ignorância. Os capelães vão administrar absolvição coletiva preventiva amanhã à noite, em fórmula camuflada como benção comum de manhã de batalha. Os soldados não vão perceber que estão sendo absolvidos preventivamente para morte certa.

— Reginald — Esteban tinha pousado a mão sobre o pergaminho. — Isto é eticamente sustentável?

— Esteban. Não é. É necessário. Há diferença canônica entre sustentabilidade ética e necessidade militar. Eu, em vinte e oito anos de carreira militar brytônica, aprendi a separar. Em interesse da Cristandade. Em interesse da Brytonia. Em interesse da casa Whithall. Aceitamos isto e prosseguimos, ou rejeitamos e o conclave falha. Hesther escolheu prosseguir. Eu obedeço a Hesther.

— Eu também.

Esteban tinha aceitado. Tinha-se obrigado, em consciência, a manter sigilo até a descida. Tinha rezado naquela noite o Rosário pelos que morrerão amanhã sem saber, em três sequências de três, em latim eclesial corrente que ele tinha aprendido em catequese brytônica em criança. Tinha dormido pouco. Tinha acordado em manhã de 16 de maio em estado emocional que ele tinha aprendido, durante seis anos de pós-Cataclismo, a reconhecer como angústia operacional aceitável.

Em manhã de 17 de maio — quadragésimo dia da vigília —, Esteban estava em posição de observador no flanco direito do exército combinado, a aproximadamente duzentos metros da formação principal. Tinha capa cinza de campanha sobre couraça brytônica de viagem, lente brytônica de campo em bolsa (não a luneta original de Korvac, que estava agora em altar pessoal de Korvac em Aurum Roma, mas uma luneta nova produzida em 1782 em oficinas brytônicas em homenagem à primeira), e o caderno de campo em couro em que tinha registrado três anos de observações no continente em colapso.

Em torno dele, o vale estava em silêncio operacional. Quarenta e três mil homens em formação rigorosa, em quatro corpos por origem nacional, com capelães em primeira linha conforme protocolo, com bandeiras nacionais içadas, com sinos de campanha em silêncio aguardando comando litúrgico de Korvac.

O sol nasceu às quatro e cinquenta e dois.

Em cinco e dezessete — vinte e cinco minutos após o nascer do sol —, Esteban viu, em direção ao Mosteiro de Vallia Sacra a noventa quilômetros a oeste-norte, um clarão.

O clarão era em forma de coluna vertical de luz branca-azulada, com altura estimada que excedia o alcance da percepção visual a noventa quilômetros. A coluna durou exatamente sete segundos. Em seguida dissolveu-se.

Esteban abriu a lente. Mirou em direção a Vallia Sacra. Não conseguia resolver o Mosteiro — noventa quilômetros era distância demais para resolução visual de edifício. Mas conseguiu resolver, em horizonte distante, vestígio de fumaça branca que subia em coluna fina sobre a zona aproximada do Mosteiro. Não era fumaça de incêndio. Era fumaça litúrgica — Esteban a reconheceu pela qualidade visual que conhecia em peregrinações anteriores a santuários veherênicos.

A vigília tinha culminado. A invocação tinha operado em Vallia Sacra. Os Arcanjos tinham começado a manifestação.

E em vale do Limes Orientalis, em mesma fração de instante, o ar acima do exército combinado começou a brilhar.

Esteban abaixou a lente. Olhou para cima sem ampliação.

Acima do exército, a uma altitude estimada de duzentos metros, sete pontos de luz começaram a formar-se em sequência rápida. Não estavam ali um instante antes. Estavam agora. Em formação de fileira leste-oeste sobre o eixo do vale, com cada ponto separado dos outros por aproximadamente trezentos metros, em altura uniforme.

Os pontos de luz cresceram em intensidade durante exatamente sete segundos. No fim dos sete segundos, eram figuras.

Sete figuras. Cada uma de aproximadamente quinze metros de altura. Em forma humana exterior. Com seis asas cada, em formação que Esteban reconheceu, com fração de catecismo brytônico básico, como canonicamente seráfica. Mas eram Arcanjos, não Serafins — Arcanjos descendo em manifestação operacional, com forma estabilizada para tarefa específica em mundo material, não em forma plenamente seráfica que seria invisível ao olho humano.

As sete figuras flutuavam imóveis. Pelo intervalo de aproximadamente três segundos. E em seguida — em fração de segundo coordenado conjunto —, giraram em formação para olhar em direção leste, em direção à zona em que a horda demoníaca estava posicionada a aproximadamente quatro quilômetros do exército humano.

E a onda começou.


XXV. A Descida


Hwet tinha tido medo durante toda a manhã. Em camada superficial, tinha tentado esconder o medo dos colegas de fileira — o sargento Wreklin, brytônico veterano, tinha-lhe dito em véspera que soldado novo que mostra medo na primeira batalha torna-se alvo de chacota permanente, e que era preciso fingir calma independentemente do que sentisse internamente. Hwet tentava fingir. Não conseguia bem. As mãos tremiam.

Em camada mais profunda — camada que Hwet não conhecia em vocabulário pessoal —, o medo era de morte certa. Hwet, em véspera, tinha ouvido em sigilo conversação entre dois capelães do corpo aurelino que tinham passado próximo a ele em retaguarda. Um capelão tinha dito: "absolvição coletiva preventiva está em fórmula camuflada como benção comum. Vinte e três mil amanhã. Em mínimo." O segundo tinha respondido: "que Deus os receba sem que percebam."

Hwet tinha ouvido. Tinha compreendido.

Tinha passado a noite acordado em sua tenda compartilhada com outros sete soldados rasos. Não tinha contado a ninguém. Em manhã, em formação, tinha cumprido o protocolo — recebeu a benção do capelão, recitou em coro a Salve Maria brytônica, marchou em formação até a posição designada. Tinha agora, em sua mão direita, o mosquete brytônico modelo 1782 com baioneta fixa, e na mão esquerda, um rosário simples de contas de madeira que sua mãe lhe entregara em despedida em Brithon em janeiro.

O rosário pendia em palma esquerda. Hwet apertava com força que ele não conseguia controlar. Sentia as contas marcarem a palma em sequência das dez Ave Marias por contagem que ele tinha decorado em catequese aos sete anos.

O sol nasceu. A formação manteve-se. O sargento Wreklin, na primeira fileira da unidade, manteve silêncio operacional. Em terceira fileira, Hwet manteve.

Em cinco e dezessete, Hwet viu, em direção oeste-norte, o clarão. Não tinha lente para amplificar. Apenas viu o brilho distante. Não compreendeu o que significava — não tinha sido informado sobre a coordenação espacial não-local entre Vallia Sacra e vale do Limes Orientalis. Apenas registrou.

Em cinco e vinte e quatro — sete minutos depois —, Hwet viu, acima do exército, as sete figuras formarem-se em céu.

E neste instante, Hwet — sem que pudesse explicar racionalmente, sem que tivesse sido instruído, sem que tivesse vocabulário canônico para nomear o que viu — soube.

Soube que era o fim.

Não em pânico. Em clareza. Em clareza absoluta. Hwet, dezenove anos, brytônico da Ilha Menor norte, soldado raso primeira campanha, viu as sete figuras formando-se acima dele e soube, em mesmo instante, que morreria em poucos segundos.

Reagiu por reflexo. Apertou o rosário com força ainda maior. Pousou o mosquete no chão à frente — gesto não-canônico em formação militar; sargento Wreklin teria-o repreendido se tivesse visto. Wreklin não viu. Wreklin estava em primeira fileira olhando também para cima.

Hwet ajoelhou-se na neve seca da primavera tardia, no chão de pedra do vale do Limes Orientalis, com o rosário em palma esquerda e a mão direita pousada sobre o peito esquerdo no ponto exato em que tinha aprendido em catequese a localizar o coração para oração. Disse, em brytônsh corrente — não em latim, em brytônsh, língua de casa, língua de mãe —:

— Mãe. Eu vou. Eu te amo.

Disse a frase em voz baixa, audível apenas para os dois soldados imediatamente ao lado dele. O soldado à direita — também jovem, talvez vinte e um, brytônico de Brithon — ouviu. Olhou para Hwet. Compreendeu sem precisar perguntar. Ajoelhou-se também. Disse, em brytônsh:

— Adeus, mãe. Adeus, Sarah. — Sarah, Hwet entenderia depois se sobrevivesse a entender, era nome da namorada do soldado em Brithon.

O soldado à esquerda — mais velho, talvez trinta, brytônico veterano de campanhas menores anteriores — olhou para os dois jovens em joelhos. Manteve-se em pé. Olhou para o céu. Olhou para baixo. Disse, em fórmula brytônica monástica:

— Que Deus, em três segundos, receba a todos.

E em três segundos, a onda chegou.


A onda chegou em três fases que Hwet experimentaria em sequência consciente reduzida por velocidade extrema.

Primeira fase: pressão. A onda começou em pressão atmosférica que multiplicou em fração de instante. Hwet sentiu o ar comprimir-se contra o seu rosto. A pressão durou aproximadamente meio segundo. Doeu nos ouvidos. As janelas de algumas tendas distantes — não que Hwet pudesse ver naquele instante, mas que ele veria em recordação miraculosa mais tarde — explodiram para dentro pela compressão atmosférica radial.

Segunda fase: luz. A pressão converteu-se em luz. Não luz solar. Não luz de lâmpada. Luz angélica — Hwet a registraria como sendo "luz que não tinha origem, que vinha de todos os pontos do ar em mesma fração de instante". A luz era branco-azulada, intensa, irradiante. Em fração de segundo, Hwet não conseguiu ver os objetos físicos ao seu redor — a paisagem inteira tinha-se tornado luz uniforme. A duração da luz, conforme Hwet contaria mais tarde, era de aproximadamente um segundo e meio.

Terceira fase: dissolução. Após o segundo e meio de luz, Hwet experimentou — sem pano para descrever — dissolução do próprio corpo em direção à luz. Sentiu, em sequência rápida, suas extremidades desaparecerem da percepção; em seguida, o tronco; em seguida, a cabeça. Em três segundos, Hwet tinha deixado de ser corpo.

E foi neste momento — em terceiro segundo da terceira fase — que Hwet sobreviveu.

A sobrevivência foi miraculosa em sentido canônico restrito. Mais tarde, Hwet seria classificado nos arquivos da Reformada como um dos trezentos e dezessete soldados sobreviventes da onda de 17 de maio de 1786 — menos de um por cento dos quarenta e três mil homens em vale. Os outros quarenta e dois mil e seiscentos e oitenta e três foram mortos pela onda em sentido pleno e definitivo. Hwet sobreviveu.

A explicação canônica oficial para a sobrevivência seria, posteriormente, registrada em arquivo da Reformada como estado de comunhão íntegra no momento exato da onda. Os trezentos e dezessete sobreviventes tinham todos, em comum, estado de oração genuína em mesmo segundo em que a onda atingiu. Hwet ajoelhado com rosário em palma esquerda e mão direita sobre o peito esquerdo dizendo "Mãe, eu te amo" — em comunhão genuína com mãe brytônica em Brithon, em fé operante embora informal — tinha satisfeito o critério canônico em fração de segundo.

Quando a luz dissipou-se — em sétimo segundo total da experiência —, Hwet abriu os olhos. Estava deitado de costas no chão do vale. O rosário ainda em palma esquerda. O mosquete ao lado. Em todas as direções, em alcance da visão, corpos. Quarenta mil corpos em formação que tinha sido formação militar e que era agora vala comum em massa não-enterrada.

Hwet olhou para o céu. As sete figuras angélicas tinham-se movido. Estavam agora avançando em direção leste — em direção à zona em que a horda demoníaca tinha estado em formação. Hwet conseguiu ver, em distância de aproximadamente quatro quilômetros, segunda onda de luz sob a posição dos Arcanjos em movimento.

A segunda onda destruiria a horda demoníaca em sequência idêntica à que destruira o exército humano. Sessenta mil entidades infernais — humanas pactuadas em primeira geração, demônios menores em manifestação parcial, três Vigias caídos sustentando em retaguarda — seriam dissolvidos em quinze segundos de luz radial.

Hwet não viu o detalhe. A distância era grande. Mas viu o brilho — quatro quilômetros a leste, segundo brilho idêntico ao primeiro.

Em fim do segundo brilho — em oitavo segundo após o primeiro —, as sete figuras angélicas começaram a dissipar-se. Em três segundos, tinham desaparecido. O céu acima do vale do Limes Orientalis estava agora vazio. O sol da manhã continuava o seu trajeto leste-sul normal, como se nada tivesse acontecido em vinte e três segundos.

Hwet ficou deitado. Não conseguia mover-se. Não tinha fraturas — verificou em três segundos, em cuidadoso ato de movimento parcial dos membros. Tinha, em camada interna que não tinha vocabulário para nomear, algo a menos. Como se uma parte qualquer dele tivesse-se ido com a onda. Mas não era em camada física. Era em camada silenciosa.

Em meia hora, Hwet conseguiu levantar-se. Caminhou em meio aos corpos. Buscou sobreviventes. Encontrou três soldados em estado parecido com o dele — em pé com dificuldade, em silêncio operacional, em rosário ou medalha em mão direita. Aproximaram-se. Reconheceram-se em fórmula brytônica antiga de reconhecimento de sobreviventes em comunhão. Em duas horas, tinham organizado um pequeno núcleo de quinze sobreviventes em meio aos quarenta mil corpos.

Em quatro horas, foram alcançados por equipe de Cavaleiros do Selo de retaguarda — Korvac em pessoa, que tinha sobrevivido por estar em posição mais distante em flanco norte, junto com cinco oficiais. Korvac avaliou os quinze. Pediu testemunho individual. Hwet contou, em forma simples, o que tinha experimentado.

— Soldado Hwet. — Korvac olhou-o em pleno olho. — Tu tens dezenove anos. Sobreviveste. Em rosário em palma esquerda. Em fé operante em mesma fração de instante. A Cristandade precisará de ti em vida. Em sequência canônica que ainda não te explicarei, tu serás transferido em pensão honorífica para Aurum Roma em duas semanas. Serás treinado em formação clerical menor. Em dez anos, talvez sejas Padre. Em vinte, talvez sejas Bispo Auxiliar. Aceita?

Hwet aceitou.

Em julho de 1786, Hwet chegou a Aurum Roma. Em janeiro de 1796, foi ordenado Padre. Em 1812, foi nomeado Bispo Auxiliar de Brithon — em ação canônica pessoal de Hesther, que tinha registrado o nome dele em arquivo permanente da Sé. Em 1834, em sucessão canônica, tornou-se Bispo Pleno de Brithon-Northbye, em diocese pequena criada especialmente para ele em honra à sua sobrevivência canônica.

Morreu em 1858, aos noventa e um anos, em Brithon-Northbye, em saúde plena. Em testamento, deixou ao seu sucessor diocesano uma única instrução: "em ata permanente da minha diocese, registra que eu sobrevivi à descida dos Arcanjos em 17 de maio de 1786 porque, em fração de segundo exato em que a onda chegou, eu disse à minha mãe brytônica que a amava. Sobrevivi por isso. Não por mérito doutrinal. Por amor de filho de mãe. Que esta lição seja transmitida aos sucessores em diocese."

A frase entrou em arquivo permanente da Diocese de Brithon-Northbye. Em 1888, exatamente um século depois da experiência de Hwet, o Pontífice Coronatus V — em audiência privada com o então jovem Cardeal Adriano Veris em outubro daquele ano —, citaria a frase em fórmula canônica casual: "Veris, lembra-se da casuística canônica do Bispo Hwet de Brithon-Northbye? Sobreviveu por amor de filho de mãe. Sirvamos com isto em mente."

Coronatus V, em momento exato em que disse a frase a Adriano Veris em 22 de outubro de 1888, ainda não sabia que estava prestes, em mesmo dia, a ser envenenado no jantar litúrgico do Palácio da Vigília. A frase foi uma das últimas que pronunciou em audiência privada. Adriano Veris a recordaria pelo resto da vida.


XXVI. A Onda Sentida


Helena Cracoviana tinha vinte e quatro anos quando o Cataclismo de Ivandir tinha ocorrido em outubro de 1780. Era então noviça em terceiro ano nas Sorores Albae de Vykhrad. A queda de Ivandir tinha-a levado a transferir-se em janeiro de 1781 para Aurélia Magna, em mandato direto do Arcebispo Hesther, em sua qualidade de sensitiva natural identificada durante o noviciado vykhradiano. Em Aurélia Magna, tinha trabalhado durante cinco anos na fundação da Domus Albarum Aurelina — primeira casa formal das Sorores Albae em Aurélia Magna, antecessora canônica da Vigília Perpétua moderna.

Em 1786, Helena tinha sessenta e dois anos. Tinha tido vinte e três encontros canônicos angélicos significativos em vinte e quatro anos de Soror Branca. Era reconhecida em arquivo das Sorores Albae como sensitiva de categoria três — em qualidade equivalente à de Anastasia, embora em estilo operacional diferente (Anastasia era reflexiva em silêncio; Helena era ativa em conexão).

Em manhã de 17 de maio de 1786, em capela menor da Domus Albarum em Aurélia Magna, Helena liderava sete Brancas vivas em formação de roda. As Brancas eram: Helena Cracoviana ao centro; Sister Olga (vinte e oito anos, vykhradiana, em ano dois de contato); Sister Magdalena (trinta e seis anos, aurelina, em ano três de contato); Sister Lyuba (quarenta e dois anos, brytônica de origem veherênica materna, em ano cinco de contato); Sister Eliana (cinquenta e um anos, meridiana, em ano seis de contato); Sister Borka (cinquenta e três anos, vykhradiana, em ano sete de contato); Sister Doroteia (vinte e dois anos, kantonal, em ano um de contato — homônima da Madre Doroteia que viria a liderar a Vigília Perpétua um século depois).

As sete Brancas estavam em vigília sincronizada com Marina em Vallia Sacra e com Sara em Vehr-Sul desde 14 de maio. Em terceira camada paralela à vigília masculina principal dos vinte e três bispos. Tinham mantido oração de sustentação durante quatro dias contínuos, em revezamento de três horas por turno.

Em manhã de 17 de maio, em quinta hora da madrugada, Helena estava no turno principal. As outras seis Brancas, ao redor, em apoio. Em cinco e dezessete — exatamente em mesmo segundo em que Esteban no vale do Limes Orientalis viu o clarão de Vallia Sacra —, Helena sentiu, em camada profunda da consciência interior, a descida operar.

A sensação chegou em onda. Não era onda física — Aurélia Magna a aproximadamente seiscentos quilômetros do vale, e a setecentos quilômetros do Mosteiro — era onda canônica, em camada que apenas Brancas em contato pleno conseguiam perceber. A onda chegou em três pulsos curtos em sequência.

Primeiro pulso: pressão metafísica em peito esquerdo, durante meio segundo. As sete Brancas sentiram. Helena viu, em rabo de olho, todas as seis em sua roda inclinarem ligeiramente em direção a si — em sinal canônico inconsciente de proteção mútua. Helena também inclinou em direção ao centro.

Segundo pulso: luz interna em campo visual interior — luz que apenas sensitivas em estado pleno enxergavam, em camada que se sobrepõe à visão ordinária. As sete Brancas viram. Helena viu, em camada superior à capela física, as Sorores Albae mortas em Vallia Sacra a setecentos quilômetros — em camada angelicalmente acolhida — em formação paralela espelhada à formação física da Domus Albarum em Aurélia Magna. Quinze figuras femininas em vestes monásticas brancas-cinza, em quinze cadeiras invisíveis ao olho ordinário, em vigília sincronizada com Helena e suas seis. Em fração de segundo, Helena reconheceu Anastasia — a falecida em 1785, sua antiga mentora vykhradiana — entre as quinze. Anastasia olhou para Helena, em camada superior, em sinal canônico de continuidade da vigília.

Terceiro pulso: dissolução do silêncio interno. Helena experimentou, durante exatamente sete segundos, uma comunhão direta com algo maior — em formato que ela tinha experimentado três vezes em vida adulta, em camadas progressivamente mais profundas. Em primeira vez (1762, em noviciado em Vykhrad), tinha sido contato angélico breve com Anjo intermediário. Em segunda vez (1781, em Aurélia Magna, em primeiro ano de fundação da Domus Albarum), tinha sido contato angélico sustentado em fórmula veherênica. Em terceira vez agora — em 1786, em vigília sincronizada de três camadas em três cidades —, era contato angélico pleno em camada operacional dos Arcanjos.

Os Arcanjos manifestavam em vale do Limes Orientalis. As Brancas em três cidades sustentavam a passagem. Helena estava em sustentação ativa em sua qualidade de Soror Maior interina da Domus Albarum.

Em sete segundos de comunhão direta, Helena soube — em conhecimento implantado canônico — três coisas em sequência.

Primeira: a vigília tinha sido bem-sucedida. Os sete Arcanjos tinham descido em manifestação completa. A horda demoníaca seria dissolvida em vale do Limes Orientalis em fração de instante adicional.

Segunda: o custo humano seria grande. Aproximadamente vinte e cinco mil a trinta e cinco mil soldados humanos morreriam pela onda angélica. Helena reconheceu — sem que pudesse explicar canonicamente — que esta mortandade tinha sido negociada em antecipação por Hesther e Aelius em conclave, em decisão canônica de necessidade operacional.

Terceira: a manifestação dos Arcanjos seria breve. Os Arcanjos não permaneceriam em mundo material além de aproximadamente trinta segundos. Em fim dos trinta segundos, recuariam ao Céu. A presença angélica plena, em mundo material, corrompia a própria substância material se sustentada além de tempo curto — em princípio canônico que Helena reconheceu pela primeira vez naquele instante e que viria a entrar em arquivo das Sorores Albae em fórmula técnica.

E em terceiro pulso, em fim dos sete segundos, Helena viu — em camada superior à percepção ordinária — uma das sete chamas dos Arcanjos firmar-se em algum lugar de Aurélia Magna.

Não na capela menor da Domus Albarum. Em outro lugar. Helena reconheceu, em fração de segundo de orientação interior, que o lugar era a Catedral Aurelina — a oitocentos metros da Domus Albarum, na Sé Aurelina central, onde Hesther costumava conduzir vigílias maiores.

A chama firmou-se em vela votiva pequena no altar lateral da capela do Arcanjo Mikahel — vela que Helena, em sua qualidade de Soror Maior interina, tinha acendido pessoalmente em 7 de abril em fórmula canônica de vela votiva sustentada durante os quarenta dias do conclave. A vela tinha-se mantido em estado vacilante durante trinta e nove dias. Em fração de segundo daquela manhã de 17 de maio, em mesmo instante da descida dos Arcanjos em vale, firmou-se.

Helena soube, em conhecimento implantado, que aquela vela seria a primeira da Vigília Perpétua. As outras seis seriam acesas, em sequência canônica que Hesther codificaria nos meses seguintes, em homenagem aos outros seis Arcanjos. Em 1814, sob coordenação canônica do Pontífice Aurelianus I, as sete velas seriam transferidas da Catedral Aurelina para o Palácio da Vigília Perpétua — em forma canônica final que sustentaria sustentação contínua da relação Cúria-Anjos por gerações seguintes.

E que, conforme Helena reconheceria em conhecimento implantado adicional naquele instante: a vela de Mikahel jamais se apagaria. Sustentaria-se em chama firme por décadas a fio, em propriedade de chama mineral que não tremula — propriedade que viria a ser codificada em 1842, sob Hashmalian I, em nome canônico Lúmen. A primeira chama de Lúmen do continente tinha-se acendido em vela votiva pequena na Catedral Aurelina em 17 de maio de 1786 sob a Sustentação angélica direta da descida dos Arcanjos.

Em sétimo segundo da comunhão, a sensação dissipou-se. Helena voltou à consciência ordinária. As outras seis Brancas em sua roda também — Helena percebeu, em fração de segundo, que todas as sete tinham experimentado simultaneamente, em camadas variadas de profundidade individual.

Helena olhou em torno. As seis Brancas estavam de olhos abertos, em expressão de reverência canônica. Sister Doroteia, a mais jovem (vinte e dois anos, kantonal, em ano um), estava em lágrimas silenciosas — fenômeno canonicamente registrado em primeira manifestação de Arcanjos como lágrimas de testemunho. As outras cinco em silêncio operacional.

Helena disse, em fórmula veherênica antiga:

Domine, ne abscondas. Domine, ne abscondas. Domine, ne abscondas.

As seis responderam em coro:

Domine, ne abscondas.

A vigília sincronizada terminou nesse instante. A descida tinha operado. A passagem dos Arcanjos tinha sido sustentada em três camadas em três cidades por trinta e duas Brancas (dezessete vivas, quinze mortas). Os Arcanjos descenderiam, dissolveriam a horda demoníaca, recuariam ao Céu em trinta segundos. A vela de Mikahel ficaria firme em capela aurelina.

E em três horas, ao meio-dia, chegariam a Aurélia Magna as primeiras notícias do que tinha acontecido em vale do Limes Orientalis — quarenta mil soldados mortos pela onda, sessenta mil demônios dissolvidos, a horda demoníaca completamente destruída, os três Vigias caídos em retaguarda fugindo em direção a leste sem terem sido alcançados pela segunda onda. Os três Vigias — Helena registraria em arquivo das Sorores Albae nas semanas seguintes — eram Azzal, Shemyas e Kohabel, em sequência identificada por testemunho de Korvac e dos trezentos e dezessete sobreviventes humanos da onda.

A guerra contra os demônios manifestos no vale tinha sido vencida em fração de instante. A guerra contra os Vigias caídos vivos — esses três e os outros seis ainda em zona leste — continuaria por décadas e séculos. Mas a primeira batalha de magnitude angelical do continente pós-Cataclismo tinha sido vitória da Cristandade combinada, em custo de quarenta mil vidas humanas.

Helena Cracoviana morreria em 1814, aos noventa anos, em Domus Albarum Aurelina, em sucessão canônica direta a Marina (que tinha morrido em 1798). Em testamento, deixou às sucessoras das Sorores Albae a frase canônica final: "Em 17 de maio de 1786, a vela de Mikahel firmou-se em Aurélia Magna. Em 1814, em ato canônico do novo Pontífice Aurelianus I que ainda viverei para presenciar (se a Providência mo permitir), as sete velas serão transferidas para o Palácio da Vigília. Que a Vigília jamais se apague. Domine, ne abscondas. Helena Cracoviana, 1813."

Helena viu, em 17 de outubro de 1813, três dias antes da sua morte canônica, a eleição de Aurelianus I e a instituição da Vigília Perpétua em fórmula canônica final. Morreu em paz registrada. A Vigília operaria em forma canônica por cento e vinte e cinco anos contínuos — até o presente do Conclave de Emergência de 1888, em que a vela de Camuel firmaria-se uma última vez para reconhecimento do Pontífice Lumen I.


XXVII. Os Trinta Mil


Storm tinha sobrevivido por estar em flanco direito junto a Esteban de Brytomark, em distância de duzentos e cinquenta metros do epicentro estimado. A distância tinha sido suficiente para reduzir a intensidade da onda em ponto crítico de sobrevivência marginal. Storm tinha sentido, em mesma fração de segundo, pressão atmosférica multiplicada que tinha-o atirado três metros para trás contra árvore. Tinha perdido consciência por aproximadamente um minuto. Tinha despertado em chão. Não tinha fraturas. Pequenos cortes na testa e na mão direita pela queda. Ouvidos zumbindo. Mas vivo.

Tinha despertado em segundo turno entre o sangue e o silêncio. Em volta — em todas as direções até o alcance da visão — apenas corpos. Inteiros. Sem sinal de queimadura externa. Sem ferimentos visíveis. Mortos.

Storm tinha levado quinze minutos para conseguir levantar-se completamente. Quinze minutos adicionais para encontrar Esteban — que estava em três metros adiante, também atirado contra a mesma árvore, em estado parecido com o dele, com lente brytônica de campo quebrada na queda mas pessoalmente intacto. Os dois homens reconheceram-se. Abraçaram-se em fórmula brytônica antiga de sobrevivência conjunta canônica — abraço breve, sem palavras, com a destra apoiada no ombro do outro durante exatamente três segundos.

— Anders.

— Esteban.

— Quantos.

— Não sei. Em volta, todos. Talvez sobrevivamos quinze, trinta, talvez cinquenta. Não mais.

— Korvac?

— Não sei. Vamos buscar.

Os dois caminharam em direção sul-oeste, em flanco norte do que tinha sido posição de Korvac. Em meia hora, encontraram-no — em pé com dificuldade, em posição que tinha lhe permitido sobrevivência similar à deles. Com Korvac, três oficiais aurelinos sobreviventes (entre eles o jovem Coronel Yannes Vermont). Em mais meia hora, sete sobreviventes brytônicos. Em duas horas, quinze sobreviventes organizados em pequeno núcleo de comando.

Em quatro horas, com chegada de equipe de Cavaleiros do Selo de retaguarda, trezentos e dezessete sobreviventes tinham sido contabilizados em sequência crescente. Distribuídos em formação irregular pelo vale. Cada um tinha sua história — Hwet com o rosário na mão esquerda. Outro com a Salve Maria silenciosa entre os dentes. Um terceiro com a mão sobre a medalha de São Veherano que sua avó lhe entregara em criança. Storm registrou cada testemunho em caderno de campo, em latim eclesial corrente, em sequência canônica.

E em fim de quatro horas — a partir do meio-dia do dia 17 de maio —, em conferência rápida com Korvac, Storm assumiu a função canônica que lhe cabia em qualidade de capelão sobrevivente sênior: administração de últimos sacramentos coletivos em meio aos quarenta mil corpos.

A função, em sua fórmula canônica veherênica antiga, exigia que o capelão percorresse os corpos em sequência sistemática, em fila de marcha cuidadosa, recitando sobre cada um — em formato individualizado — fórmula litúrgica curta em latim eclesial: "Per istam sanctam unctionem... indulgeat tibi Dominus quidquid peccasti... Amen." Por esta santa unção... que o Senhor te perdoe pelo que pecaste... Amém. Cada recitação levava aproximadamente quatro segundos. Quarenta mil corpos em quatro segundos cada significava quarenta e quatro horas de recitação contínua. Era impossível em prazo canônico exigido — vinte e quatro horas.

Storm tinha de adaptar. Adaptou.

Em fórmula camuflada que ele consultou em livro de horas brytônico em três minutos de leitura rápida, encontrou a fórmula coletiva sumária — aplicável em campos de batalha em que o número de mortos excede a capacidade individual do capelão. A fórmula coletiva sumária previa recitação ampla, em voz audível em raio de cem metros, abrangendo todos os corpos em alcance auditivo simultaneamente. Cada recitação cobria aproximadamente quinhentos corpos. Quarenta mil em quinhentos significava oitenta recitações em formação móvel pelo vale. Oitenta recitações em quatro segundos cada significava cinco minutos de recitação canônica acrescido do tempo de deslocamento em torno do vale — em estimativa total de quatro a cinco horas.

Storm caminhou. Começou em flanco norte. Recitou em voz audível a fórmula coletiva sumária sobre os primeiros quinhentos corpos visíveis. Em latim eclesial corrente, em entonação canônica que ele tinha aprendido em formação brytônica há sete anos:

"Per istam sanctam unctionem et suam piissimam misericordiam, indulgeat vobis Dominus quidquid per visum, auditum, odoratum, gustum et tactum peccastis. Amen."

Pela santa unção e por sua piedosíssima misericórdia, que o Senhor vos perdoe o que houverdes pecado pelo ver, ouvir, cheirar, gostar e tocar. Amém.

Avançou cinquenta metros. Recitou de novo. Avançou. Recitou.

Em três horas, completou primeira metade do vale. Em fim da primeira metade, sentou-se em pedra ao lado da estrada para descansar. Esteban aproximou-se com cantil de água.

— Anders.

— Esteban.

— Continuarás?

— Continuarei. Em duas horas, termino.

— Como te sustentas?

— Sustento-me pela fórmula. A fórmula opera mesmo em capelão exausto. Não opera mesmo em capelão duvidoso. Eu duvido pouco neste instante. Eu vou até o fim.

— Eu te ajudo no trajeto. Levo a água.

— Aceito.

Em mais duas horas, Storm e Esteban completaram a segunda metade do vale. Em seis e cinquenta e três da tarde, ao pôr-do-sol, Storm pronunciou a última recitação canônica coletiva sumária em flanco sul do vale, em encerramento técnico da função capelânica.

Em mais uma hora, equipes da Reformada nascente — sob coordenação de Korvac — começaram a chegar em volume maior. Iniciava-se a operação de inumação coletiva que ocuparia as três semanas seguintes em vale do Limes Orientalis. Os quarenta mil corpos seriam enterrados em sete valas comuns orientadas para os sete pontos cardiais litúrgicos veherênicos, com cruzes monásticas simples de bronze marcando cada vala.

As sete valas comuns existem ainda hoje — em 1890 — em vale do Limes Orientalis, em zona que viria a se tornar parte do Estado de Limes Orientalis sob a Ordem Clerical canônica. A Reformada conduz, anualmente em 17 de maio, vigília comemorativa das sete valas. A vigília é em forma de procissão a cavalo desde Vallia-do-Limes até as sete valas, com recitação da fórmula coletiva sumária em cada uma. A tradição foi instituída por Aurelianus I em 1814 e mantém-se em forma canônica.

Storm morreria em 1827, aos setenta anos, em Aurum Roma, em retiro monástico em Domus Capellanum (casa dos capelães sobreviventes da Cinza). Em testamento, deixou à Domus Capellanum o seu caderno de campo do dia 17 de maio de 1786 — com os testemunhos individuais dos trezentos e dezessete sobreviventes coletados em quatro horas após a onda. O caderno foi arquivado canonicamente. Cópias circulam ainda em 1890 entre os Capelães da Reformada como manual operacional de comportamento canônico em manifestação angelical em escala.

A frase final do caderno de Storm — escrita em sua última entrada da noite de 17 de maio de 1786, antes de adormecer em tenda de campanha emergencial — está em latim eclesial em sua caligrafia jovem ainda firme:

"Trinta mil. Em mínimo. Talvez quarenta. Pela Cristandade combinada. Pela onda angélica em raio. Que cada um deles, em fração de segundo do contato, tenha estado em comunhão de fé verdadeira em alguém amado, conforme aprendi do soldado Hwet em testemunho desta tarde. Que assim Deus os tenha recebido. Domine, ne abscondas. Anders Storm, capelão sobrevivente, 17 de maio de 1786, vale do Limes Orientalis, em ano dezenove da minha vida."


XXVIII. O Recuo dos Arcanjos


— Aelius.

— Eminência.

— Eles partiram.

— Partiram.

— A vela de Mikahel firmou-se em Aurélia Magna.

— Firmou. Helena Cracoviana sentirá. Mensageiro confirmará em três dias.

— A horda foi dissolvida.

— Dissolvida.

— Quarenta mil dos nossos morreram.

— Quarenta mil.

— Os três Vigias fugiram para leste.

— Para leste.

— Aelius.

— Eminência.

— Eu não previa este custo.

— Eminência. Em parte previa.

— Em parte. Em parte importante, não.

— Eminência. O custo era inevitável. A onda angélica em raio é mecânica canônica. Não há manifestação direta de Arcanjos em mundo material sem produção de raio destrutivo. Isto consta em manuais veherênicos antigos. Foi-vos comunicado em correspondência preparatória.

— Foi-me comunicado. Eu compreendi em camada técnica. Não compreendi em camada operacional. Quarenta mil homens em uma fração de instante. Isto é o que ainda não compreendi.

— Eminência. Vão compreender em décadas. Eu mesmo, em quarenta e seis anos de prior monástico, ainda não compreendi inteiramente. Não há vocabulário canônico suficiente em latim eclesial para descrever o que é manifestação direta dos Arcanjos em campo. Apenas há experiência transmitida em silêncio entre os que sobreviveram.

Hesther sentou-se na cadeira oposta a Aelius. Pegou copo de água. Bebeu três goles. Pousou. Olhou para Aelius — para o velho Prior de oitenta e quatro anos que tinha conduzido a vigília em quarenta dias de comunhão perfeita.

— Aelius. O que vem depois?

— Eminência. Em primeira camada: administração canônica do território conquistado. A horda demoníaca em vale do Limes Orientalis foi dissolvida. Mas o leste continua sob ocupação dos Vigias e dos pactuários em primeira geração. Em vinte ou trinta anos, será preciso estabelecer fronteira canônica entre Cristandade e Limbus Mundi. Isto será trabalho longo.

— Em segunda camada?

— Em segunda camada: codificação canônica da experiência. O conclave dos vinte e três bispos tem agora experiência operacional direta de manifestação angélica em escala. Esta experiência precisa ser codificada em arquivo permanente — em fórmulas técnicas que sustentem possibilidade futura de re-invocação se necessário. Eu, em qualidade monástica, posso ajudar em codificação. Vós, em qualidade de Sé Maior nascente, deveis liderar.

— Sé Maior nascente.

— Eminência. Vós sereis. Após os trinta dias canônicos de retorno dos bispos aos seus diocesados, a Sé Aurelina será reconhecida como Sé Maior do continente em substituição definitiva a Ivandir. O conclave de quarenta dias estabeleceu isto em camada operacional, em virtude de convocação canônica direta. Os Arcanjos vieram através de invocação aurelina. Não veherênica. Não brytônica. Não meridiana. Aurelina.

— Eu não busquei isto.

— Eminência, eu sei. Mas isto se estabeleceu. Em terceira camada: renomeação da Sé.

— Renomeação?

— Eminência. Aurélia Magna é nome digno, mas é nome menor. A Sé Maior do continente precisa de nome maior. Eu, em consulta privada com tradição monástica de Vallia Sacra ao longo dos quarenta dias, identifiquei sugestão canônica. Aurum Roma.

Hesther olhou para Aelius. Aurum Roma. Cidade-coroa do ouro. Em latim eclesial: cidade do ouro romano. Roma — referência canônica em direção à Roma antiga, à Roma cristã primitiva, à Roma teológica em estabilidade canônica. Aurum — referência canônica em direção ao ouro da relíquia, ao ouro do santo, ao ouro das chamas. Aurum Roma.

— Quando?

— Eminência. Não imediatamente. Em quando vós considerardes apropriado. Mas eu sugiro: no momento em que o Primeiro Um da Cristandade nova seja eleito. Em vinte, trinta anos, em sucessão a vós. O Primeiro Um, ao ser reconhecido, instituirá Aurum Roma.

— Aelius. Isto excede o que eu posso receber.

— Eminência, eu sei. Mas pondereis em silêncio. Vinte anos é prazo suficiente. Vós ireis envelhecer. Em vossa qualidade de Arcebispo de Aurélia Magna, sustentareis a Sé Maior nascente em forma provisional até o Primeiro Um chegar. O Primeiro Um instituirá. Será obra de vossa vida.

Hesther ficou em silêncio durante longo tempo. Aelius esperou.

— Aelius.

— Eminência.

— Quem será o Primeiro Um?

— Eminência. Eu não sei. Eu morrerei antes da eleição.

— Eu também?

— Eminência. Talvez. Eu sou velho. Vós ainda não. Mas a sucessão canônica é processo lento. Vós deveis preparar sucessores prudentes em vossa Sé Aurelina, e em particular um sucessor jovem que talvez venha a ser eleito como Primeiro Um após vós.

— Como reconhecerei o sucessor?

— Eminência. Pelo nome Sergio Hoppen.

Hesther olhou para Aelius com surpresa. Sergio Hoppen era cardeal jovem em Aurélia Magna — recém-elevado a Cardeal em 1784, aos quarenta anos, brytônico-aurelino de origem materna veherênica, formado em Salzburgo, filho ilegítimo de mãe veherênica e pai brytônico em sequência canonicamente irregular que só Hesther conhecia em arquivo da Sé. Hoppen era homem letrado, prudente, com fé operativa visível. Hesther tinha-o reconhecido em três conversas privadas no ano anterior como possível sucessor.

— Sergio Hoppen.

— Conheceis vós a sequência canônica que aconteceu em 1779, quando Hoppen recebeu ordens em Salzburgo?

— Conheço em parte.

— Eminência. Hoppen foi ordenado em rito veherênico antigo conduzido pelo Prior Demetrius — meu antecessor —, em consulta privada com a casa brytônica Hoppen-Whithall. O rito veherênico antigo continha inscrição canônica de sucessão pontifícia, em fórmula que Demetrius transmitiu-me em correspondência sigilada antes de sua morte em 1771. Hoppen está canonicamente predestinado. Não em rigor angélico — Deus opera em escolha livre dos homens, e Hoppen pode em hipótese recusar. Mas em prontidão canônica preparatória. Quando o Primeiro Um for chamado, será Hoppen. Vós sustentareis a Sé até lá.

— Aelius, isto é demais para uma conversação. Eu preciso de tempo.

— Eminência. Vinte e sete anos. Hoppen, eleito em 1813 conforme a aritmética canônica que Demetrius me confidenciou. Em mesma semana da queda final de Veheran que Aelius do meu Mosteiro previu em sequência cronológica também transmitida por Demetrius. A casuística é cerrada. Eu, em silêncio, te entrego o que apenas dois homens em sequência canônica conheceram: Demetrius e eu. Demetrius está morto. Eu morrerei em poucos anos. Tu eras a terceira pessoa em conhecer. Agora há quatro: tu, eu, e em sigilo permanente os arquivos monásticos de Vallia Sacra que Demetrius selou.

Hesther tentou processar a informação. Sergio Hoppen, Cardeal jovem de quarenta e dois anos, predestinado a ser o Primeiro Um da Cristandade nova em 1813. Hesther sustentando Sé Maior provisional até lá. Sé Maior renomeada Aurum Roma sob Hoppen-Aurelianus em fórmula canônica.

— Aelius.

— Eminência.

— Eu sustentarei a Sé até a chegada de Hoppen.

— Eu sei.

— E quando Hoppen for eleito, eu lhe entregarei a Sé em fórmula canônica de sucessão.

— Vós lhe entregareis. Em sucessão calculada para 1813, vós tereis sessenta e cinco anos. Estais em saúde para sustentar até lá.

— Aelius. — Hesther pegou o copo de água. Bebeu três goles. — Acho que sim. Vou tentar.

— Eminência. Não tentai. Sustentai.

Hesther riu — primeira gargalhada audível em quarenta dias de silêncio operacional, e a única gargalhada que Aelius ouviu de Hesther em vinte e dois anos de relação canônica. Foi gargalhada curta, contida, mais em surpresa que em alegria.

— Aelius. Tu tens domínio extraordinário do humor monástico.

— Eminência. Em quarenta dias de vigília vencida, um homem velho ganha direito à brevidade leve.

— Ganhastes.

— Ganhei.

Os dois homens ficaram em silêncio durante longo tempo. A capela maior, em conjunto, estava em fase de recuperação canônica — os vinte e dois outros bispos em silêncio orante, em recuperação progressiva da experiência da descida. Aelius retornaria à capela em fim da conversa, em sua função de Prior anfitrião. Hesther retornaria também, em sua função de convocador. A vigília formal terminaria em fórmula canônica de encerramento amanhã, 18 de maio, ao amanhecer. Em seguida, os bispos retornariam aos seus diocesados em prazo de trinta dias.

A Sé Aurelina, daquele dia em diante, seria Sé Maior provisional do continente. Em 1814, sob Aurelianus I — Sergio Hoppen elevado ao Pontificado em 17 de outubro de 1813 —, a Sé seria oficialmente renomeada Aurum Roma. As sete velas da Vigília Perpétua seriam transferidas da Catedral Aurelina para o Palácio da Vigília. A Ordem Clerical canônica entraria em forma definitiva em sete Estados internos.

Hesther morreria em 1820, aos setenta e dois anos, em Aurum Roma, em sua qualidade de Cardeal-Arcebispo emérito sob Aurelianus I. Aelius morreria antes, em 1791, aos oitenta e nove anos, em Vallia Sacra, em sucessão canônica monástica que entregaria o priorado a um sucessor mais jovem. Sergio Hoppen — Aurelianus I — viveria até 1837 e governaria como Primeiro Um por vinte e quatro anos canônicos.

A Era da Cinza chegava ao seu fim canônico. A Era das Cruzadas Negras começaria em 1815. O continente, após cinco anos de Refundação interna sob Aurelianus I, organizaria-se em formato político-eclesiástico que duraria pelas três eras subsequentes.

E em capela maior do Mosteiro de Vallia Sacra, em manhã de 17 de maio de 1786, os vinte e três bispos saíram da capela em sequência canônica, exaustos mas em comunhão plena. Tinham invocado os Arcanjos. Tinham sobrevivido. Tinham testemunhado a salvação operacional da Cristandade combinada em custo de quarenta mil vidas humanas. Tinham, em sua qualidade individual de homens letrados em latim eclesial corrente, uma única coisa a dizer uns aos outros em despedida — fórmula que repetiriam em sucessões canônicas pelas três gerações seguintes:

"Domine, ne abscondas. Domine, ne abscondas. Domine, ne abscondas."

Senhor, não te escondas. Senhor, não te escondas. Senhor, não te escondas.

Três vezes. Como anciões selavam.


(Fim do Ato VI — segue Epílogo: A Cinza Se Assenta)


EPÍLOGO — A CINZA SE ASSENTA

1786-1815 — vinte e nove anos de Refundação até o Primeiro Um


XXIX. A Refundação


Hesther tinha aprendido, em treze anos de Sé Maior provisional, que a Refundação era trabalho mais lento que a Queda. A Queda — Ivandir em 1780 e cidades subsequentes — operara em semanas. A Refundação — institucional, canônica, militar, demográfica, econômica — operava em décadas. Em 1799, treze anos após a Intervenção, a Cristandade combinada tinha alcançado o que Hesther classificava em arquivo pessoal como estado de consolidação intermediário: melhor que a fragmentação de 1786, ainda longe da consolidação plena que Aurelianus viria a alcançar.

O arquivo de progresso em 1799 listava, em sequência canônica:

Primeiro: o vácuo religioso veherênico. Vinha sendo absorvido em ritmo previsível pela Sé Aurelina. O Rito Veherênico antigo, em colapso institucional após a perda de Ivandir, continuava praticado em comunidades rurais dispersas — em decreto sinodal de 1792, Hesther tinha autorizado tolerância pragmática ao Rito Veherênico em paróquias que o quisessem manter em paralelo ao Rito Aurelino. A decisão tinha sido controversa em Conselho Diocesano. Hesther tinha imposto. O resultado, em sete anos de tolerância, fora estabilidade: paróquias veherênicas residuais não tinham migrado para heresia; tinham aceitado coexistência canônica reduzida.

Segundo: as Ordens Militares. Tinham sido refundadas em sequência. Cavaleiros do Selo — sob Sebastien Korvac em comando direto — somavam em 1799 cerca de novecentos cavaleiros ativos em sete corpos regionais, com função de patrulhamento das fronteiras leste e norte e de combate a incursões demoníacas menores. Inquisição Reformada — em formação canônica em 1792 — somava cento e dezessete inquisidores em treinamento sob mentoria de Korvac em sua segunda função canônica como Padre Inquisidor-Mor interino. Hospitalários do Hashmal — em fundação canônica em 1795 — somavam quarenta e dois clérigos-engenheiros e cento e oitenta operários consagrados em funções industriais ligadas à mineração de Ferro-do-Coro.

Terceiro: a Vigília Perpétua. As sete velas dos Arcanjos, transferidas em 1789 da Catedral Aurelina para a Capela do Hashmal em palácio adjacente, sustentavam-se em chama firme contínua sob vigília das Sorores Albae em formação ininterrupta. Helena Cracoviana tinha-se mantido em qualidade de Soror Maior interina até sua morte prevista em 1814. As Brancas ativas em 1799 somavam noventa e quatro em três casas — Domus Albarum Aurelina (cinquenta e duas), Vehr-Sul (vinte e oito), Vykhrad (catorze).

Quarto: Veheran. Continuava em recuo organizado sob o decreto da Mesa de Quatro Pés. Konstanty Vlassov sustentava Sul-Vehr com guarnição reduzida a aproximadamente três mil homens. Yvar de Ostvehr sustentava Mons-Veher. Pyotr Kovalsky — embora velhíssimo — ainda sustentava Ostvehr. Teorbano III tinha morrido em Vehr-Maior em 1798, em circunstâncias que Hesther tinha registrado em arquivo confidencial como morte canônica por anti-pacto pela guarda real.

Teorbano III tinha sido sucedido em comando real de Vehr-Maior por regência interina sob seu sobrinho-neto Príncipe Stanislav-Vehr — figura de capacidade administrativa modesta, em mandato de cinco anos pré-aprovado por Teorbano antes da morte. Stanislav-Vehr governava Vehr-Maior em fórmula reduzida, em conhecimento de que o reino terminaria em sua geração.

Quinto: o Limbus Mundi. Linha de fronteira leste tinha-se estabilizado, conforme o conhecimento implantado angélico de Helena Cracoviana em 17 de maio de 1786 tinha previsto. Em 1790, ato de delimitação canônica entre Cristandade combinada e território demoníaco. Em 1795, oficialização da fronteira em decreto sinodal de Hesther como Limbus Mundi. As primeiras cidades pactuárias em formação consolidavam-se em leste — Karzhar (em construção desde 1782), Mammon-Ur (em construção desde 1784), Asmotheri (em construção desde 1786 em ato simbólico imediatamente posterior à Intervenção), e outras.

Sexto: os mineradores consagrados. Em 1799, a galeria 17-Norte da Cordilheira do Crepúsculo — descoberta por Joran Vassek em 1781 — produzia cerca de quarenta toneladas de Ferro-do-Coro por ano, sob administração da nascente Hospitalários do Hashmal. Karol Skobsky de Aurelinia-Cinza tinha morrido em 1784 em acidente operacional na galeria. Joran Vassek mesmo, agora com quarenta e sete anos, vivia em pensão episcopal em Aurélia Magna.

Sétimo: as relações inter-reinos. Brytonia mantinha relação cordial mas ambígua com a Sé Aurelina, em consequência do conclave bem-sucedido de 1786 que tinha provado a operacionalidade da invocação angélica. A casa Whithall maior, em sucessão a Edward (falecido em 1786) por William IV (sucedido em 1786, ainda em poder em 1799), apoiava cooperação canônica com Sé Aurelina. Hawthorne Whithall, ainda em linhagem menor, continuava em oposição silenciosa. Em vinte e três anos, a oposição silenciosa de Hawthorne viria a produzir, em geração e meia, a Aurora do Sul em 1822 sob descendente direto.

Oitavo: Sergio Hoppen. Em 1799, Sergio Hoppen tinha cinquenta e cinco anos. Era Cardeal-Vigário Geral de Aurélia Magna sob Hesther, em mandato de sucessão preparatória que Hesther conduzia desde 1792. Hoppen era homem letrado, prudente, de fé visível, com formação salzburguesa equivalente à de Hesther. Hesther tinha-lhe transmitido, em conversação privada de 1794 — aos cinquenta anos de idade de Hoppen —, a informação sobre a previsão monástica de Aelius e Demetrius sobre Hoppen como Primeiro Um. Hoppen tinha aceitado a informação com humildade canônica. "Eminência, eu não escolheria. Eu serviria se chamado." Tinha sido a sua resposta exata.

Em câmara privada de 22 de setembro de 1799, Hesther releu o arquivo de progresso em treze anos. Em fim da leitura, anotou em margem em latim eclesial pessoal:

"Treze anos de Refundação. A Cristandade combinada sustenta-se. As Ordens Militares operam. A Vigília Perpétua sustenta-se. Veheran termina em ritmo previsível. O Limbus Mundi estabilizou. O Ferrum Chori produz. Hoppen aprende. Eu — eu envelheço. Em catorze anos, em mandato canônico que ainda não pronunciei, Hoppen será Primeiro Um. Eu sustentarei até lá. Domine, ne abscondas."

Pousou a pena. Foi à janela. Olhou para Aurélia Magna em fim do dia de setembro. O sol punha-se em direção oeste. Em sete anos, a cidade já era diferente — em demografia, tinha crescido de cento e setenta mil em 1780 para duzentos e dezessete mil em 1799 (refugiados absorvidos das zonas em colapso); em arquitetura, novas igrejas e palácios episcopais tinham sido construídos; em infraestrutura, primeira pavimentação canônica de avenidas centrais tinha sido executada em 1797. Aurélia Magna estava-se transformando em cidade maior que ela tinha sido em 1780. Em vinte e dois anos adicionais, sob Aurelianus I em sucessão direta, atingiria meio milhão de habitantes. Em sessenta anos, sob Coronatus I em terceira sucessão, oitocentos mil em renome canônico final de Aurum Roma.

A cinza estava se assentando. O continente recompunha-se em formato novo. A Era da Cinza estava em sua segunda metade.

Hesther fechou a janela. Voltou à mesa. Continuou trabalho.


XXX. A Queda Final de Veheran


Pyotr Kovalsky tinha esperado, em vinte e sete anos de governo da fortaleza de Ostvehr, exatamente este momento. Tinha previsto a chegada da incursão pactuária maior em janeiro de 1813, em cálculo que tinha feito em 1786 imediatamente após a Intervenção dos Arcanjos. O cálculo era simples: a horda demoníaca manifestada em vale do Limes Orientalis em maio de 1786 tinha sido dissolvida pela onda angélica em raio. Mas os três Vigias caídos em retaguarda — Azzal, Shemyas, Kohabel — tinham fugido para leste. Não foram dissolvidos. Em duas gerações, em ritmo canônico de regeneração pactuária previsível, os Vigias reorganizariam horda nova. Kovalsky tinha estimado prazo de aproximadamente vinte e sete anos para reorganização plena. Caía exatamente em 1813.

Tinha comunicado a previsão ao Conde Yvar de Ostvehr em Mons-Veher em 1786, em correspondência sigilada. Yvar tinha confirmado o cálculo em sua própria análise. Os dois tinham mantido vigília militar paralela durante vinte e sete anos. Em 1807, Yvar tinha morrido em Mons-Veher em queda menor que tinha precedido a queda planejada — incursão pactuária local em pequena escala que tinha sido suficiente para tomar Mons-Veher em uma noite. Yvar tinha morrido em câmara real da fortaleza, em fórmula canônica de martírio por anti-pacto, em mesma fórmula que Teorbano III tinha cumprido em Vehr-Maior em 1798.

Kovalsky tinha previsto isto também. Estava preparado para si mesmo.

Em janeiro de 1813, em câmara real de Ostvehr, Kovalsky preparava-se em sequência canônica de espera ativa. Tinha sob seu comando, na fortaleza, mil e setenta e dois soldados (a guarnição original de mil e novecentos tinha-se reduzido em quatorze anos por desgaste de fronteira) e cinco mil refugiados civis que não tinham conseguido evacuar para Aurélia Magna nas três tentativas anteriores. Os refugiados sabiam, em camada coletiva, que a incursão estava prestes a chegar. Kovalsky tinha comunicado em fórmula direta em sermão público em outubro do ano anterior. Os que tinham conseguido fugir, tinham. Os que ficaram, ficaram em conhecimento integral.

Em 14 de janeiro, Kovalsky tinha em sua mesa três documentos:

Primeiro, decreto pessoal de transferência da fortaleza para Sebastien Korvac em Aurum Roma — assinado em fórmula canônica de antes-de-morte, datado posteriormente para que entrasse em vigor após a queda. O decreto previa que Korvac e os Cavaleiros do Selo tivessem direito canônico, em prazo de dez anos após a queda, de organizar expedição de recuperação a Ostvehr para coleta dos arquivos militares e das relíquias da casa real de Veheran que Kovalsky tinha mantido em câmara secreta.

Segundo, carta pessoal a Sergio Hoppen — que Kovalsky sabia que viria a ser eleito Pontífice em poucos meses, em informação que Hesther tinha transmitido a Kovalsky em sigilo em 1810. A carta continha três conselhos militares específicos de Kovalsky para o reinado pontifício de Hoppen, em sua experiência de oitocentos e três anos documentados de gestão militar veherênica.

Terceiro, testamento espiritual de Kovalsky — em latim eclesial corrente, em duas folhas, com selo pessoal triplo (sinete militar real, sinete canônico de Bispo Auxiliar Honorífico que Hesther tinha-lhe conferido em 1801, sinete pessoal veherênico antigo).

O testamento espiritual continha a frase canônica que Kovalsky considerava sua última palavra ao continente:

"Eu, Pyotr Kovalsky, em mil e setenta e dois soldados em minha guarnição final, em fronteira oriental do Limbus Mundi nascente, em sequência canônica de queda da Mesa de Quatro Pés, em ano oitocentos e três documentado da minha vida e em ano noventa e cinco da minha vida nominal, declaro à Cristandade combinada:

Veheran como reino canônico morreu em 1780. Eu o sei desde 1780. Não tentei salvar o reino. Tentei prolongar a memória. A memória é o que justifica o reino quando o reino já não tem o que governar. Foi este meu mandato durante vinte e sete anos.

Em fim do mandato, em quinze dias quando a incursão chegar, eu morrerei. Os mil e setenta e dois soldados morrerão. Os cinco mil refugiados que escolheram ficar comigo, em conhecimento integral, morrerão também. Total estimado: seis mil setenta e dois almas. Pequeno, em comparação aos quarenta mil de 17 de maio de 1786. Mas em proporção da fortaleza, total absoluto.

Cada um destes seis mil e setenta e dois almas morrerá em fórmula canônica de anti-pacto. Eu garanto isto pessoalmente. O Padre-Capelão sobrevivente da Cinza, Padre Karol Visnak — que serviu Teorbano III em Vehr-Maior em 1798 e que veio para Ostvehr após a queda de Vehr-Maior — administrará absolvição preventiva em fórmula adaptada da que Sergio de Ivandir recitou em 14 de outubro de 1780. Todos morreremos em comunhão.

Que assim Deus nos receba. Que assim os meus sucessores em Aurum Roma — Hoppen quando eleito, Hesther em sustentação até a eleição — registrem em arquivo perene que Veheran terminou em comunhão, não em pacto. Que esta seja a memória final do reino. Que esta seja a doutrina velha sustentada até o último homem em pé. Que Deus, em fração de instante do contato, não se esconda.

Domine, ne abscondas. Pyotr Kovalsky, Marechal de Veheran, Ostvehr, 14 de janeiro de 1813."

Kovalsky pousou a pena. Selou o testamento. Pousou ao lado dos outros dois documentos. Levantou-se. Foi à câmara secreta — a três corredores de distância da câmara real — em que mantinha as relíquias da casa real veherênica desde 1798. Olhou pela última vez. As relíquias continham: a espada real de Veheran, com os doze nomes dos primeiros reis veherênicos gravados; a coroa simples de São Veherano, recuperada em 1782 das ruínas de Ivandir por expedição clandestina veherênica; o livro de horas pessoal de Sergio Patriarca de Ivandir, recuperado também em 1782; os quatro selos reais que tinham servido aos quatro últimos reis veherênicos antes do Cataclismo.

Kovalsky verificou a câmara secreta. Lacrou de novo. Confiou em Korvac para coleta em dez anos.

Voltou à câmara real. Sentou-se. Aguardou a chegada da incursão pactuária em prazo de doze a quinze dias.

Em 27 de janeiro de 1813, treze dias depois — em ritmo exato calculado por Kovalsky em 1786 —, a incursão chegou. Composta por aproximadamente cinco mil pactuários em primeira e segunda gerações sob comando dos três Vigias caídos Azzal, Shemyas, Kohabel, com mais aproximadamente quinhentos demônios menores em manifestação parcial. A força total era de cinco mil e quinhentos — ligeiramente abaixo da estimativa original de Kovalsky de seis mil e quinhentos, mas em magnitude suficiente.

Ostvehr resistiu por catorze horas exatas. Em catorze horas, os mil e setenta e dois soldados veherênicos remanescentes pereceram em formação ordenada. Os cinco mil refugiados civis em câmaras litúrgicas internas pereceram em sequência também — após terem recebido absolvição preventiva em fórmula adaptada conduzida pessoalmente pelo Padre Karol Visnak em sucessão de sete missas coletivas em três horas. Visnak morreu na última missa em ato canônico que entraria em arquivo da Reformada como terceira casuística canônica de mártir litúrgico em campanha após Sergio de Ivandir e Lukan de Vladigrad.

Kovalsky morreu em câmara real, em ato canônico de martírio por anti-pacto direto. Quando o primeiro pactuário invasor chegou à câmara, Kovalsky estava em pé com a espada real de Veheran — não a réplica que ele costumava usar em parada militar, mas a espada original com os doze nomes gravados que ele tinha guardado em câmara secreta —, e atacou o pactuário em primeira investida com fórmula veherênica antiga de golpe litúrgico que tinha sido transmitida em sequência canônica desde Carlomagno (oitocentos anos canônicos). O pactuário foi dissolvido em fração de instante. Kovalsky caiu em segunda investida do pactuário seguinte. Morreu em pé.

Os três Vigias caídos — Azzal, Shemyas, Kohabel — entraram na fortaleza dissolvida em fim das catorze horas, em formação que Kovalsky tinha previsto. Encontraram a câmara real com o corpo de Kovalsky pousado sobre a mesa em formato canônico de paramento póstumo (formato que Kovalsky tinha preparado pessoalmente em véspera). Encontraram também — em câmara secreta que Kovalsky tinha lacrado em 14 de janeiro — a câmara vazia. As relíquias da casa real veherênica tinham sido removidas em sequência canônica clandestina três dias antes da queda, em operação que Kovalsky tinha conduzido em sigilo absoluto, em rota que apenas ele e três cavaleiros do Selo de retaguarda conheciam, em direção a Aurum Roma. As relíquias chegariam a Aurum Roma em 3 de fevereiro de 1813, em prazo de doze dias depois da queda, em mãos do Coronel Yannes Vermont — o mesmo Vermont sobrevivente da onda de 1786 que tinha sido transferido para serviço aurelino em 1789 — que tinha sido recrutado por Kovalsky para a operação clandestina em sigilo de dez anos.

Os três Vigias, em fortaleza vazia, não encontraram o que buscavam. As relíquias estavam em Aurum Roma. A memória de Veheran estava em Aurum Roma. Veheran tinha morrido em comunhão e tinha transferido sua memória em sucessão canônica. Os Vigias dissolveram-se em filete cinza e voltaram a leste, em fim da operação militar pactuária que tinha vencido em sentido tático e que tinha perdido em sentido canônico final.

A Mesa de Quatro Pés tinha caído em sequência canônica completa: Teorbano III em Vehr-Maior em 1798; Konstanty Vlassov em Sul-Vehr em 1804; Yvar de Ostvehr em Mons-Veher em 1807; Pyotr Kovalsky em Ostvehr em 1813. Veheran como reino tinha terminado em sequência canônica plena.

Em 17 de outubro de 1813 — exatos dez meses e vinte dias após a queda de Ostvehr —, em Aurum Roma, Aurelianus I seria eleito Primeiro Um da Cristandade nova. A queda de Veheran e a eleição do Primeiro Um coincidiam em mesmo ano, em sucessão canônica que Aelius tinha previsto a Hesther em 1786.

A casuística cerrava-se. O ciclo da Era da Cinza estava em seu último capítulo.


XXXI. O Primeiro Um


Hoppen tinha tido vinte e um anos para se preparar. Tinha sido informado em 1794, aos cinquenta anos, por Hesther em conversação privada na mesma câmara em que estava agora em véspera do conclave, sobre a previsão monástica de Aelius e Demetrius sobre ele como Primeiro Um. Tinha aceitado a informação com humildade canônica. "Eminência, eu não escolheria. Eu serviria se chamado." Tinha sido a sua resposta exata. Hesther tinha registrado em arquivo da Sé.

Em vinte e um anos subsequentes, Hoppen tinha preparado-se em sequência canônica: estudos teológicos avançados em Salzburgo (1794-1797); diocesado em Maritima Coronata (1797-1804); Cardeal-Vigário Geral de Aurum Roma (desde 1804 até o presente); audiências formais com líderes seculares dos cinco reinos remanescentes (Brytonia, Königsmark, Vykhradia, Meridia, Kantonal) em sequência diplomática preparatória; estudos comparativos de arquivos pré-Cataclismo de Sergio Patriarca de Ivandir que Vermont tinha entregue à Sé Aurelina em fevereiro deste ano em sucessão à queda de Ostvehr.

Hoppen tinha lido os arquivos do Patriarca Sergio. Em particular, tinha lido o manuscrito completo da Fórmula da Pré-Última Hora que Sergio tinha recitado em 14 de outubro de 1780, três dias antes da queda de Ivandir — fórmula que Lukan de Vladigrad tinha replicado em ato em 9 de novembro de 1780, três dias antes da queda de Vladigrad. A fórmula era — Hoppen reconheceu em leitura técnica — rito canônico de transição final em uso veherênico antigo, com profundidade litúrgica que excedia em duas camadas o que Hoppen tinha estudado em Salzburgo.

Em véspera de conclave, em câmara privada, Hoppen estava em vigília individual sobre o livro de horas. Não rezava em fórmula coletiva. Rezava em silêncio operacional. As suas três últimas horas antes do conclave deveriam ser, conforme Hesther tinha-lhe instruído em 1812 em mandato preparatório, silêncio absoluto em preparação para a possibilidade da eleição.

A possibilidade da eleição. Possibilidade, não certeza. Hesther tinha sido cuidadoso em transmitir-lhe que a previsão monástica de Aelius e Demetrius era canonicamente sólida mas não absoluta. Os bispos do Sínodo poderiam, em decisão livre, eleger outro candidato. Hoppen poderia, em decisão própria, recusar a elevação se eleito. O Anjo reconhecimento poderia, em invocação canônica, recusar o reconhecimento se a comunhão fosse imperfeita.

Hoppen, em silêncio, examinou-se a si mesmo durante as três horas. Examinou se estava em comunhão plena para o reconhecimento angélico. Examinou se tinha disposição interior íntegra para assumir o pontificado se eleito. Examinou se a sua fé era operante em sentido pleno, em ato, sem reservas.

Em fim das três horas, em segundo da meia-noite, Hoppen anotou em diário pessoal — em latim eclesial corrente, em sintaxe que ele tinha estudado em Salzburgo e que viria a ser reconhecida em arquivo do projeto como prosa pontifícia inaugural:

"Eu, Sergio Hoppen, em véspera do Sínodo dos Setenta convocado por Hesther, examinei-me durante três horas em silêncio. Encontro em mim: disposição plena para servir, embora sem desejo pessoal de elevação; fé operante em sentido pleno, embora frequentemente em camadas que eu não consigo verbalizar em latim eclesial; comunhão íntegra com a Cristandade combinada, em sequência canônica de quarenta e três anos de meu episcopado em três diocesados.

*Se for eleito amanhã, aceitarei. Se for reconhecido amanhã, servirei. Se não for eleito ou reconhecido, retornarei ao Vigariado Geral em obediência canônica plena. Que se faça a vontade de Deus."*

Em adição a esta declaração interior, registro três decisões canônicas que pretendo tomar nos primeiros dias de eventual pontificado, em caso de eleição confirmada:

Primeira: renomear a Sé Aurelina como Aurum Roma em fórmula canônica final, conforme Aelius previu a Hesther em 1786. A renomeação operará em sequência canônica de continuidade refundada — não em rompimento com Aurélia Magna, mas em elevação canônica da nomenclatura ao mandato de Sé Maior da Cristandade nova.

Segunda: instituir formalmente a Vigília Perpétua em Palácio anexo à Catedral, em fórmula canônica final que herde as sete velas dos Arcanjos sob administração das Sorores Albae em sucessão a Helena Cracoviana — que falecerá em poucos meses, conforme Hesther me informou em correspondência sigilada de 1812.

Terceira: organizar os Sete Estados Internos da Sé Maior nova em fórmula administrativa que substitua o mandato provisional de Sé única que Hesther sustentou em vinte e sete anos. A organização operará em sete sés-Estados em sequência canônica de hierarquia funcional: Aurum Romana (Sé central administrativa); Ferrum Alpina (Estado de mineração e indústria pesada); Sal Pradelica (Estado agrícola); Limes Orientalis (Estado de fronteira leste); Maritima Coronata (Estado costeiro); Vallia Sacra (Estado religioso-monástico); Schola Coronata (Estado universitário-administrativo).

Estas três decisões compõem o que pretendo realizar nos primeiros dois anos de eventual pontificado. Em adição, manterei sucessão preparatória para o meu próprio sucessor canônico em formato a definir.

Domine, ne abscondas. Sergio Hoppen, 16 de outubro de 1813."

Hoppen pousou a pena. Olhou para a vela votiva sobre a mesa — não vela de Lúmen, ainda; apenas vela de óleo de baleia consagrado ordinário, em formato pré-1842 antes da codificação dos Cânones Mineralógicos por Hashmalian I que viria três décadas depois. A vela queimava em ritmo regular.

Levantou-se. Pegou o livro de horas. Foi à capela privada anexa. Ajoelhou-se sobre o reclinatório de carvalho. Rezou em silêncio durante exatamente uma hora e quinze minutos. Em fórmula que ele tinha aprendido em criança na sua diocese natal de Brithon — sua mãe veherênica de origem materna lhe ensinara antes da Ordem.

Em fim da oração, levantou-se. Voltou à câmara. Apagou a vela votiva com os dedos. Deitou-se.

Dormiu em sono profundo durante cinco horas. Em manhã de 17 de outubro de 1813 — quadragésimo terceiro aniversário do tremor de Ivandir —, acordou em segundo da hora canônica. Lavou-se. Vestiu paramento cardinalício formal — sotaina vermelha sobre roupão branco, mitra do cardinalato, anel da Sé Aurelina. Saiu da câmara.

Em Palácio Aurelino, no salão maior conhecido então como Sala dos Sete Cardinais, encontrou os outros sessenta e nove bispos convocados por Hesther em Sínodo dos Setenta. Hesther — em sua qualidade de presidente convocador, agora com sessenta e cinco anos — em posição central. Os outros sessenta e oito bispos em formação canônica em torno.

O conclave abriu às oito horas em fórmula canônica veherênica antiga adaptada por Hesther em consulta com arquivo do Sínodo de Avignon de 1397. A vigília canônica que precedia a votação durou três horas. Em onze horas, foi distribuída cédula consagrada com sinete pessoal a cada um dos setenta bispos. A votação operaria em sequência canônica: primeira rodada às onze e trinta, com fumaça em chaminé pontifícia ao meio-dia em caso de não-decisão, e em sequência adicional conforme necessidade.

Em onze e quarenta — em primeira rodada de votação —, sessenta e três dos setenta votaram em Sergio Hoppen. Os outros sete distribuíram votos entre três outros candidatos em fórmula simbólica de protesto canônico. Maioria de noventa por cento. Em parâmetros do Sínodo, a margem superava em dezessete pontos a fronteira dos dois terços.

Hesther anunciou a eleição em fórmula canônica. Hoppen aceitou em fórmula canônica de aceitação imediata. Os sessenta e nove bispos confirmaram em fórmula canônica de comunhão plena.

Em meio-dia, Hoppen foi conduzido em procissão dos setenta bispos à Catedral Aurelina. Foi conduzido especificamente à Capela do Hashmal — anexa, em palácio adjacente, onde as sete velas dos Arcanjos sustentavam Vigília Perpétua sob Helena Cracoviana e Sorores Albae. Hoppen ajoelhou-se em pedra-de-Reconhecimento central — pedra que Aelius tinha designado em 1786, e que Helena tinha mantido em estado canônico desde então.

Os setenta bispos em formação canônica ao redor. Hesther em fórmula canônica de pronunciamento da invocação angelical:

Coro do Hashmal, Coro dos Anjos, Coros maiores até o Trono e os Serafins, Pai onde tudo se funda: este homem foi eleito pelos Cardeais-Eleitores Coroados em ato canônico legítimo no Sínodo dos Setenta. Reconhece-o, se Te aprouver, na chama de teus Arcanjos. Não o reconheça, se Te aprouver, na quietude das mesmas. Que se faça a Tua vontade.

Silêncio. Trinta segundos. Sessenta segundos. Noventa segundos. Os bispos começaram a se entreolhar — a fórmula canônica previa Reconhecimento em até trinta segundos.

Em cento e cinco segundos — duração que viria a ser, em arquivo da Sé, considerada canonicamente perfeita —, a vela do Arcanjo Mikahel tremulou três vezes.

Três vezes. Em ritmo de seis segundos entre cada. Como anciões selavam.

Hesther, ao reconhecer o tremular, sorriu pela segunda vez na vida em registro de Aelius (a primeira fora em câmara do Prior em 1786 quando Hesther tinha rido em comunhão monástica). Voltou-se à assembleia.

Reconhecido.

Sergio Hoppen ajoelhou-se em pedra. Hesther aproximou-se com a tiara — a tiara que tinha sido recuperada das ruínas de Ivandir em 1782 e que tinha sido restaurada em sequência canônica nos anos seguintes. Em fórmula canônica final, Hesther aplicou a tiara à cabeça de Hoppen.

Hoppen, em latim eclesial corrente, em pronunciamento que viria a ser registrado em arquivo permanente da Sé como primeira pronunciação pontifícia da Cristandade nova:

— Meu nome de regnal será Aurelianus I.

A escolha canônica era óbvia — Aurelianus em referência canônica a Aurélia Magna (que naquele momento ainda era nome oficial da Sé) e ao ouro da relíquia. Primeiro em sequência canônica de Pontífices da Cristandade nova. Aurelianus I.

— Em segunda decisão imediata: a Sé Maior do continente será renomeada Aurum Roma em fórmula canônica de continuidade refundada, conforme Aelius previu a Hesther em 1786 em consulta monástica de Vallia Sacra.

Em terceira decisão imediata, em primeira sucessão da renomeação: organização dos Sete Estados Internos em fórmula administrativa que substitui o mandato provisional de Sé única.

Em quarta decisão imediata: instituição canônica final da Vigília Perpétua em Palácio anexo, em transferência das sete velas dos Arcanjos da Capela do Hashmal para o Palácio da Vigília em prazo de seis meses.

Os setenta bispos confirmaram em fórmula canônica de aclamação plena. A Cristandade nova tinha o seu Primeiro Um. Aurum Roma tinha a sua Sé Maior em forma canônica final. A Era da Cinza chegava ao seu encerramento canônico em sequência cronológica precisa.

E em sequência canônica adicional — em coincidência cronológica que Aelius tinha previsto a Hesther em 1786 e que tinha-se cumprido em precisão de poucos meses —, a queda final de Veheran em Ostvehr em 27 de janeiro de 1813 tinha precedido a eleição em exatamente nove meses. Veheran tinha terminado em sucessão direta à elevação de Aurelianus I em Aurum Roma. Em mesma estação canônica, a memória de Ivandir transferiu-se de Veheran soterrado à Sé Maior nova em Aurum Roma. A continuidade canônica operava em sequência precisa.

Aurelianus I governaria por vinte e quatro anos canônicos — de 17 de outubro de 1813 até 17 de outubro de 1837, em coincidência cronológica adicional que entraria em arquivo do projeto como sucessão de aniversários exatos. Em vinte e quatro anos, organizaria os Sete Estados Internos em forma definitiva, refundaria as Ordens Militares Clericais em forma final, instituiria a Vigília Perpétua em forma canônica permanente, e codificaria os Cânones Aureos em sucessão canônica que sustentaria a Cristandade combinada pelas três eras subsequentes.

Aurelianus I morreria em 1837 em ato canônico que viria a ser registrado como exaustão angélica avançada — morte natural acelerada por contato pleno e prolongado com o coro dos Anjos via Hashmal em duas décadas e meia de operação pontifícia. Em seu leito de morte, em última semana em coma litúrgico com revelação contínua escrevendo automaticamente pelas mãos, produziria os Cânones Aureos — manuscrito que viria a ser fundamento técnico da Cúria do Hashmal por décadas.

Aurelianus I seria canonizado em 1842 sob Hashmalian I como São Aurelianus, o Fundador.

A Era da Cinza tinha chegado ao seu encerramento canônico. A Era das Cruzadas Negras começaria em 1815, em prazo de dois anos pós-eleição, conforme Aurelianus I codificaria em decreto canônico durante seu primeiro biênio.


XXXII. A Última Palavra

Voz: Compilator Aurum, em fechamento autoral de toda a crônica. Não em testemunho atribuído, mas em fórmula canônica de cronista compilador que assina a transição entre a obra completa e os arquivos permanentes da Sé. Atmosfera: 23 de dezembro de 1890, em câmara privada do Compilator em Aurum Roma — última noite do trabalho de compilação, três meses depois da publicação do Atlas Vivo do Continente de Cross e em sucessão imediata à conclusão dos primeiros três volumes encomendados por Lumen I em 1889.


Encerro agora o terceiro volume da série encomendada por Lumen I em 1889. Termina aqui, em arquivo, o relato canônico da Era da Cinza — de outubro de 1780 (queda de Ivandir) a outubro de 1815 (estabelecimento canônico da fronteira leste do Limbus Mundi e refundação completa da Cristandade combinada sob Aurelianus I).

Que se leia, então, este volume como completação dos dois volumes anteriores — a Crônica das Cinco Eras (que cobriu em sumário 1680-1890) e o Atlas Vivo do Continente de Cross (que cobriu em geografia o presente em 1890). Crônica + Atlas + O Cataclismo compõem agora a trilogia canônica fundadora do arquivo histórico-geográfico da Cristandade combinada em data presente. Os três volumes operam em sequência e em complementaridade. O leitor que ler apenas um, lerá fragmento. O leitor que ler os três em sequência, lerá o continente.

Por enquanto, encerro este volume. Encerro com a frase canônica que repetimos em sequência de trinta e dois capítulos, em três línguas (latim eclesial corrente, vernáculo veherênico arcaico, vykhradiano arcaico), em sintaxes variadas conforme o narrador atribuído:

Domine, ne abscondas.

Senhor, não te escondas.

A Era da Cinza está em arquivo. A Era das Cruzadas Negras teve sua continuação em sucessão das três eras subsequentes. A Era da Estagnação — em que vivemos — encontra-se em décimo ano canônico, em equilíbrio precário sob o Pontífice Lumen I que herdou o continente de seu antecessor Coronatus V em circunstâncias canonicamente registradas em Conclave de Emergência.

Em 1890, o continente de Cross conta trezentos milhões de habitantes em três camadas operacionais: aproximadamente cento e vinte milhões sob a Ordem Clerical, aproximadamente cento e quarenta milhões sob os reinos remanescentes, as repúblicas mercantis e as zonas-fronteira, aproximadamente quarenta milhões sob a Heptarquia Pactuária e o Limbus Mundi.

A Vigília Perpétua sustenta-se em sete velas firmes — embora a vela de Camuel tenha apresentado microvibração inquietante em 1886, registrada por três Brancas independentes em sessão privada com Madre Doroteia. A conjectura inquisitorial sussurrada é que os Anjos do Hashmal estão se esvaindo, em fenômeno que ainda não se confirma em arquivo permanente. "O Céu está cansado de nós," repetem alguns clérigos iluminados antes de morrer.

Mas eu, Compilator Aurum, em fim deste terceiro volume da trilogia fundadora, em câmara privada de Aurum Roma, em véspera do Natal de 1890, em sessenta e nove anos da minha vida — registro em silêncio operacional o que aprendi em ritmo lento ao longo de dezoito meses de compilação:

A Era da Cinza foi catástrofe. Foi resposta. Foi refundação. O continente, em trinta e cinco anos de operação canônica, sustentou-se apesar de quarenta mil mortos em uma onda angélica em vale do Limes Orientalis, apesar de seiscentos mil mortos em Ivandir em uma noite, apesar de quarenta milhões de mortos cumulativos no continente em sequência canônica de trinta e cinco anos. Sustentou-se porque homens e mulheres em vários pontos do continente, em fração de segundo de momentos críticos, mantiveram fé operante em sentido pleno, mediram pó com fé inteira, selaram três vezes como anciões selavam.

Em 1890, na Estagnação madura, sustentamo-nos pela mesma razão. A doutrina velha opera ainda. O demônio cai pelo tiro consagrado por quem ainda crê na hora em que mediu o pó. Deus não checa credenciais. O Céu, talvez, esteja cansado de nós. Mas o cansaço do Céu não é o mesmo que ausência do Céu. O Céu continua sustentando, em camada operacional reduzida, o continente que ainda crê.

A obra é minha. As vozes são dos narradores canônicos atribuídos. A síntese é da Cristandade combinada em data presente. A continuidade depende de quem ler.

Domine, ne abscondas.

Compilator Aurum, em véspera do Natal de 1890, em Aurum Roma, em sessenta e nove anos da minha vida, em décimo ano da Era da Estagnação, em segundo ano do pontificado de Lumen I, em fim do terceiro volume da série encomendada por Lumen I em decreto preparatório de 1889 e renovado em decreto adicional de 1890.

Que estas páginas sustentem-se em arquivo perene.

Que estas páginas alcancem leitores que ainda não nasceram.

Que estas páginas sirvam de memória, instrução e advertência aos que vierem.

Domine, ne abscondas. Domine, ne abscondas. Domine, ne abscondas.

Compilator Aurum.


Fim de O Cataclismo

Da Queda de Ivandir à Intervenção dos Arcanjos — 1780-1815. Terceiro volume da trilogia canônica fundadora da Cristandade combinada. Aurum Roma, ano de Nosso Senhor de 1890.


Fim da peça

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Vinte e Dois Quilômetros

Nenhum inimigo se mexeu. Uma diocese ficou sem quem lhe consagrasse a munição, assinou um papel, e nove aldeias tiveram vinte e seis dias para deixar de existir. Não houve batalha, não houve…

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A era em que se passa, o que nela aconteceu, e o sítio onde acontece. Continua onde a história não parou para explicar.

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