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Tales of Cross
História e eras
Grátis, inteiro 4 min

Por que se chama Cross

Três explicações canônicas que não se reconciliam. O que uma pessoa invoca revela quem ela é.


Camada I — a forma. A explicação do geógrafo.

O continente é uma pera oblonga (Mapa do Mundo) — mas o que está desenhado sobre ele é outra coisa.

O eixo montanhoso dos Selos corre norte-sul, do Maciço Setentrional à Cordilheira do Sul, atravessando o Solar no meio. O Mar do Coro corta leste-oeste, quatrocentos quilómetros no ponto mais estreito, novecentos no mais largo.

Pedra num sentido, água no outro. Visto de cima — e ninguém nunca viu de cima —, o continente traz uma cruz traçada em cordilheira e mar.

Quem sustenta esta versão sustenta também o que ela implica: os Selos foram gravados aqui porque a marca já cá estava. Os Serafins escolheram um lugar previamente assinalado.

É a explicação dos cartógrafos, dos engenheiros de mina e dos poucos naturalistas kantonais que ainda publicam. É também a mais perigosa das três, e por uma razão que ninguém escreve por extenso: se a marca é anterior aos Serafins, alguma coisa a fez antes deles.

Camada II — os quatro mortos. A explicação da Cúria. Oficial.

Canon fundador da A Teomaquia: os altos Serafins gravaram os sete Selos em Cross, e quatro deles morreram no ato, virando pedra-luz dentro das cordilheiras.

A doutrina romana sustenta que os quatro pontos onde caíram formam uma cruz, e que o continente traz a marca dos mortos que o seguram. O nome não descreve geografia: descreve um túmulo.

É a versão dos púlpitos, dos catecismos e das paredes da Catedral do Coro. É ensinada a crianças. Tem a vantagem de ser bonita, a vantagem maior de ser inverificável, e a vantagem decisiva de inverter a Camada I: aqui a forma não é anterior, é consequência. Não houve escolha de um lugar marcado; houve um lugar que ficou marcado pela escolha.

Qual dos sete Selos guarda qual dos quatro é matéria de disputa acadêmica dentro da própria Ordem há noventa anos, e a Cúria nunca arbitrou. Arbitrar exigiria explicar por que os quatro pontos, em qualquer combinação proposta, nunca formam uma cruz perfeita.

Camada III — o nome apagado. A que não se diz alto.

Cross é nome imposto. Foi plantado depois de 1815, na Entrega de Vehr, quando os últimos nobres veherênicos depositaram a coroa de Teorbano III aos pés do trono de Aurum Roma e Aurelianus I proclamou a linha diante deles.

O continente tinha outro nome antes: Vehrannon. Era veherênico, e o reino de Veheran tomava o nome dele, não o contrário.

Isto é a chave política inteira. Enquanto o continente se chamasse pelo nome antigo, o mapa dizia, em cada folha, que aquele mundo era veherênico antes de ser romano — e que a Ordem era a instituição mais nova numa terra que já tinha dono. Renomear não foi vaidade. Foi eliminar a precedência.

Consequências que ficam vivas em 1890:

  • O nome antigo consta em documento anterior a 1815 e não se imprime em documento oficial desde então. Não foi proibido por decreto — não há decreto. Deixou de estar disponível.
  • A diáspora veherênica é uma classe social inteira dentro da Ordem: doze milhões de pessoas absorvidas depois do Cataclismo (População). Um décimo da população da Ordem tem avós que sabiam o nome.
  • Há quem ainda o diga. Em casa, em velório, na terceira repetição do Rito. Dizê-lo não é heresia formal — é pior: é uma reivindicação de anterioridade, e a Inquisição Reformada trata-o como tal, discretamente, do modo como trata tudo.
  • O nome sobrevive em toponímia teimosa: rios, passos de montanha e três aldeias no Limes que nunca mudaram de nome porque ninguém em Aurum Roma sabia o que os nomes queriam dizer.

Por que as três não podem ser reconciliadas

I — a forma II — os quatro mortos III — o nome apagado
A marca é I — a formaanterior aos Serafins II — os quatro mortosconsequência dos Serafins III — o nome apagadoirrelevante — o nome é político
Quem sustenta I — a formacartógrafos, engenheiros, naturalistas kantonais II — os quatro mortosa Cúria, o catecismo, o púlpito III — o nome apagadoa diáspora, em voz baixa
Ameaça que carrega I — a formaalgo marcou a terra antes do Céu II — os quatro mortosnenhuma — é a doutrina III — o nome apagadoa Ordem chegou depois e sabe
Verificável I — a formanão II — os quatro mortosnão III — o nome apagadosim, e por isso é a mais perigosa

I e II são incompatíveis por inversão de causa. Aceitar I obriga a perguntar quem marcou primeiro; a Cúria não pode fazer essa pergunta em voz alta e por isso não a proíbe — trata-a como matéria de cartografia, sem interesse teológico. É o modo mais eficaz que existe de enterrar uma pergunta.

III é de outra ordem. Não disputa a origem da marca: disputa o direito de nomear. E, ao contrário das outras duas, tem provas — documento datado, toponímia sobrevivente, e um décimo da população da Ordem com memória de família. É por isso que é a única das três de que ninguém escreve um tratado.


A leitura seguinte

De antes do Cataclismo a 1890. Cinco eras, e a ferida que cada bloco carrega desde então.

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