I. Como se lê Cross
Um continente único, em forma de pera oblonga, mais largo a norte, estreitado ao meio por um mar interior, afilando a sul numa península vulcânica. Dois mil e quinhentos quilómetros do extremo norte ao extremo sul; mil e quinhentos de leste a oeste na parte continental. A oeste, separado por cento e cinquenta quilómetros de água, um arquipélago.
Três traços o organizam, e quem os tiver na cabeça sabe o continente inteiro:
1. A espinha — o eixo de cordilheiras
Corre norte-sul, de ponta a ponta. Do Maciço de Kal'arn, no gelo do extremo norte, desce pela Cordilheira Solar, atravessa o coração alpino e termina na Cordilheira do Sul, sob o vulcão.
Nela estão gravados os Sete Selos. A montanha não é cenário: é a prisão. Por isso as cordilheiras de Cross são fronteiras militares, e por isso mineração é ato de guerra.
2. O corte — o Mar do Coro
Corre leste-oeste, no meio do continente. Quatrocentos quilómetros no ponto mais estreito, novecentos no mais largo. Divide o mundo em metade norte e metade sul e é a estrada de todo o comércio.
A sua porção sudeste é o Mar Tenebrum, contaminado desde 1780. A mesma água, com trinta anos de diferença entre uma margem e a outra.
Pedra num sentido, água no outro. É daqui que sai o nome do continente — e as três explicações incompatíveis do porquê estão em Por que se chama Cross.
3. A linha — o Limbus Mundi
Corre norte-sul, no extremo leste. Não é geologia: é o rastro da onda dos Arcanjos, congelado onde foi parada em 1786.
Tudo a oeste dela é o mundo. Tudo a leste é o que não foi salvo.
II. Onde fica quem — o percurso do norte para o sul
Descendo a espinha, de gelo a lava:
| Onde | Quem | O que é |
|---|---|---|
| OndeExtremo norte, acima de 62° | QuemTerra Sem-Sino | O que étundra sem ninguém |
| OndeNorte profundo, fiordes e taiga | QuemKÖNIGSMARK — cap. Königsburg | O que éReino. Maciço de Kal'arn = Selo V |
| OndeCoração alpino, 800-1.800 m | QuemCONFEDERAÇÃO KANTONAL — Bernkanton | O que éRepública. 17 cantões. Todos os passos |
| OndeCentro-norte, pré-alpino | QuemFerrum Alpina · Schola Coronata | O que éOrdem — a forja e a universidade |
| OndeCentro, planície e colina | QuemAURUM ROMA · Vallia Sacra | O que éOrdem — a sede do mundo |
| OndeCentro-mar, ilhas na laguna | QuemVELINIA SERENÍSSIMA | O que éRepública. No meio do Mar do Coro |
| OndeCentro-sul, costa | QuemMaritima Coronata — cap. Coronata | O que éOrdem — a frota e o Crisma |
| OndeSul, península vulcânica | QuemMERIDIA — cap. Stromakra | O que éReino. Volkar = Selo III |
III. O percurso de oeste para leste
Atravessando o continente na largura, do oceano ao Inferno:
| Onde | Quem | O que é |
|---|---|---|
| OndeArquipélago ocidental | QuemBRYTONIA — cap. Brithon | O que éReino. Highlands de Caer'n = Selo VI |
| OndeCanal Insular, 150 km | Quem— | O que éa água que nenhum exército atravessou |
| OndeCosta oeste continental | Quemmargens da Ordem | O que érocha e névoa |
| OndeCentro | Quema Ordem Clerical | O que ésete Estados |
| OndeLeste-central, planalto | QuemVYKHRADIA — cap. Vykhrad | O que éReino. Cordilheira do Crepúsculo = Selo II |
| OndeLeste, cordilheira e vale | QuemSal Pradelica · Limes Orientalis | O que éOrdem — a frente |
| OndeA LINHA | QuemLimbus Mundi | O que éo rastro da onda |
| OndeLeste profundo, estepe | QuemHEPTARQUIA PACTUÁRIA — Karzhar | O que ésete cidades, sete Príncipes. Cordilheira do Iracundo = Selo VII |
| OndeFim do mapa | QuemPandæmonium | O que ésem coordenada, e assim fica |
IV. Os sete Selos, situados
| Selo | Onde | De quem é o território |
|---|---|---|
| SeloI — Cordilheira Solar | Ondecentro-norte | De quem é o territórioOrdem (fronteira com Kantonal) |
| SeloII — Cordilheira do Crepúsculo | Ondeleste-central | De quem é o territórioVykhradia |
| SeloIII — Cordilheira do Sul | Ondesul | De quem é o territórioMeridia — o Volkar |
| SeloIV — Mar Aberto | Ondesob o Mar do Coro | De quem é o territóriosubmarino. Ninguém |
| SeloV — Maciço Setentrional | Ondenorte profundo | De quem é o territórioKönigsmark — cismático |
| SeloVI — Arquipélago Insular | OndeHighlands de Caer'n | De quem é o territórioBrytonia — cismática |
| SeloVII — Leste Profundo | Ondeleste profundo | De quem é o territórioperdido. Heptarquia |
Quatro dos sete estão em território clerical ou aliado. Dois estão em território cismático — e é por isso que as Casas do Frio e Insular são ficções políticas. Um está perdido, e é o epicentro.
V. O mapa, era a era
1780, véspera — o mundo que havia
O mapa que ninguém desenhou porque ninguém achou que precisasse.
- O leste é o centro do mundo. Vehrannon — o continente inteiro chama-se assim — tem no seu extremo oriental o reino de Veheran, a principal potência do mundo, e a sua capital Ivandir, com seiscentos mil habitantes: a maior cidade que já existiu.
- Vladigrad, Aurinopolis e Magnaport são cidades prósperas do leste, não ruínas.
- Não há Limbus Mundi. Não há fronteira leste, porque a leste há mais mundo.
- Aurum Roma é uma capital religiosa importante e não é o centro de nada.
- 220 milhões de pessoas. O leste tem 48 milhões, quase um quarto.
1780-1786 — a cascata
Os Selos rompem um por ano, de leste para oeste, e o mapa desfaz-se na mesma direção.
VII (1780) sob Ivandir → II (1781) → V (1782) → III (1783) → I (1784) → IV (1785) → VI (1786).
- Leste: zero aviso. Ivandir morre numa noite. Vladigrad, Aurinopolis e Magnaport caem em três semanas — não por Selos próprios, mas pela expansão do surto do VII.
- Centro: quatro anos de aviso. A Ordem evacua os vales alpinos antes da fenda abrir. O coração da Ordem nunca é ocupado.
- Oeste: seis anos de aviso e menos de doze meses de exposição. Brytonia nunca sofre invasão terrestre.
A geopolítica de 1890 inteira está nestes seis anos. Quem teve aviso é quem manda hoje.
1786 — a Intervenção. Os Arcanjos descem, a onda mata tudo no raio, e onde a onda para fica a linha. Vladigrad, Aurinopolis e Magnaport ficam do lado errado, com quem lá estava.
1815, fim da Era da Cinza — o mapa novo
O primeiro mapa que teve de ser desenhado de raiz.
| Mudou | Como |
|---|---|
| MudouO nome | Comoo continente passa a chamar-se Cross. Vehrannon deixa de estar disponível |
| MudouO centro | Comodesloca-se do leste para Aurum Roma |
| MudouO leste | ComoVeheran extingue-se por etapas: Vehr Maior em 1798, Sul-Vehr em 1813, e a coroa entregue em 1815 |
| MudouA fronteira | Comonasce o Limbus Mundi, e com ele a doutrina de que há território além da linha por onde não se combate |
| MudouOs sete Estados | ComoAurelianus I define a Ordem como a conhecemos |
| MudouO céu | Comoa Cinza Alta arrefece o continente inteiro. -1,5 a -2 °C de verão. Crepúsculos vermelhos durante uma década |
| MudouA população | Como220 → 180 milhões. O leste cai de 48 para 17 |
Onde antes havia reino, há agora Heptarquia. Sete cidades pactuárias sobre ruínas veherênicas.
1837, fim das Cruzadas Negras — o mapa fortificado
O desenho é o mesmo. O que muda é o que se construiu por cima dele.
- Igrejas-fortaleza erguem-se em todas as frentes de cordilheira. A linha deixa de ser uma ideia e passa a ser alvenaria.
- A Confederação Kantonal formaliza-se — Pacto Federal de 1817, dezassete cantões.
- A primeira ferrovia do continente é insular, não continental: o Ramal de Caer'n, 1825.
- Königsmark afasta-se sem romper: o Concílio de Kronmünster de 1836 abandona a obediência por desuso.
- O clima normaliza. Vinte e dois anos de safras cheias, e é isso que torna a refundação possível.
- 180 → 210 milhões.
1860, fim da Era da Forja — o mapa em movimento
A única era em que a linha se mexe.
- Cherniwicz, 1859: o primeiro exército plenamente industrial chega por trilho em nove dias e empurra a linha duzentos quilómetros a leste. Único ganho territorial permanente de todo o canon.
- O trilho santificado cobre o continente — mas não Vykhradia, que recusa a passagem por escrito no mesmo ano.
- Os Cabos da Cúria ligam Roma a cada frente em horas. O mapa passa a ser lido em tempo real de um só sítio.
- A fuligem entra no mapa. Manchaster, Brithon, Ferrumkar e Ferrum Alpina ganham um céu próprio.
- 210 → 250 milhões.
1880, fim da Era do Império — o mapa completo
O mundo atinge a maior extensão que alguma vez terá.
- O Mar Tenebrum inverte-se: 63% pactuário em 1860, 82% clerical em 1878, depois da Frota dos Sete Faróis e das Velas Vermelhas.
- Missões armadas nas margens e arquipélagos — colónias-cliente de Brytonia a oeste, ilhas vulcânicas a sul, estepe a leste. 48.000 mortos cristãos entre 1862 e 1880, e um número não contado do outro lado.
- Brytonia formaliza o Cisma em 1864 e Roma não responde, porque depende do transporte insular.
- 250 → 296 milhões, e é o pico.
1890, a Estagnação — o mapa que não se mexe
O mapa de 1859 é o mapa de 1890. Trinta e um anos sem um metro de alteração em nenhuma direção. É o facto isolado que melhor descreve a era — mais do que qualquer batalha, mais do que qualquer conclave.
E, contra isso, duas alterações minúsculas e terríveis:
- 1887, o Recuo de Pradel: a linha recua vinte e dois quilómetros e nove aldeias são evacuadas — não por combate, mas porque a diocese já não consegue guarnecer o setor com purificadores. A primeira perda de território por atrito de fé.
- 1878, a última rua nova de Aurum Roma. A capital do mundo tem, em 1890, a planta de 1878.
As cidades param todas ao mesmo tempo: Aurum Roma em 800 mil, Manchaster em 180 mil, Karzhar em 200 mil. 296 → 300 milhões, e para.
VI. O que nunca muda em cento e dez anos
- A espinha e o corte. Cordilheiras norte-sul, Mar do Coro leste-oeste. A cruz de pedra e água está lá desde antes de haver quem a visse.
- Os sete Selos. Nenhum foi fechado. Nenhum será.
- O coração da Ordem nunca é ocupado — teve quatro anos de aviso e usou-os.
- Brytonia nunca sofre invasão terrestre. Cento e cinquenta quilómetros de água.
- A Confederação nunca é invadida. Os passos custam mais do que valem.
- O leste é o único bloco com menos gente em 1890 do que em 1780. 48 → 40 milhões, com fundo de 17.
- Pandæmonium não tem coordenada. Três expedições, três mapas incompatíveis, e um cartógrafo da Cúria encarregado desde 1857 de os conciliar.
VII. As sete frases que descrevem o mapa a quem nunca o viu
- Uma pera oblonga com uma cruz desenhada por cima: montanha de norte a sul, mar de leste a oeste.
- As montanhas são prisões, e por isso as fronteiras deste mundo são geológicas.
- O Inferno sobe, não desce — logo a mineração é ato de guerra e o subsolo é frente.
- A leste há uma linha que não é geologia: é onde uma salvação parou.
- O centro do mundo mudou de sítio em 1815, e o nome do continente mudou com ele.
- Em 1859 a linha andou duzentos quilómetros, e nunca mais andou.
- Tudo a oeste da linha é o mundo. Tudo a leste é o que não foi salvo.