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Tales of Cross
Livro Grátis, inteiro 186 min

Os Anos de Papel

Aurum Roma e a fundação do Império Clerical — 1815 a 1837

Ano
1815
Era
Cruzadas Negras
Onde
Aurum Roma
Leitura
186 min
páginas
150
Os Anos de Papel 1 de 150

Aurum Roma — 1815 a 1837 — Era das Cruzadas Negras

Contexto histórico

1815. O mundo velho acabou de abdicar. Em Aurum Roma, os últimos nobres veherênicos sobreviventes depositam a coroa de Teorbano III aos pés do trono, e Aurelianus I — o Primeiro Um, eleito dois anos antes sobre a notícia de que uma guarnição de fronteira aguentara cinco meses de inverno sem anjo em campo — proclama a linha. A Era da Cinza fecha aqui. Trinta e cinco anos de queda, quarenta milhões de mortos, e um continente que já não se parece com nenhum mapa anterior a 1780.

O que Aurelianus I funda a seguir é, no papel, a coisa mais ambiciosa que alguém tentou desde o Cataclismo: sete Estados internos sob autoridade pontifícia única; a fronteira do Limbus Mundi fixada como limite definitivo do mundo humano; a Vigília Perpétua instituída na sua forma canônica; e a refundação das Ordens Militares Clericais, decretada entre os atos fundacionais de 1815.

No papel.

Na prática, em 1815, as Ordens não têm orçamento, não têm carta de recrutamento e não têm uma única linha de doutrina escrita. As coroas seculares continuam a fazer a sua própria guerra e a comprar o seu próprio mineral purificado no mercado aberto, como quem compra chumbo. A Cúria decreta e não consegue impor; declara um monopólio de revelação que não tem meios de exercer; e governa um continente que lhe obedece na missa e a ignora no abastecimento.

Entre esse decreto e a sua realidade há seis anos de nada, e um desastre.

No verão de 1821, nove casas seculares reúnem nove mil homens e entram no Limbus Mundi por conta própria, para provar que a salvação não tem fornecedor único. É a Cruzada dos Nove Estandartes. A munição dura onze dias. Nenhum estandarte volta.

A Cúria não precisa de argumentar mais nada. Nos três anos seguintes as Ordens recebem orçamento, recrutamento e doutrina — porque agora há vaga institucional para elas — e o monopólio que não se conseguira legislar em seis anos é entregue a Aurum Roma por nove mil homens que Roma não matou.

Este livro não vai ao Limbo. Fica em Aurum Roma, e olha para fora a partir de uma secretária, de uma muralha e de uma mesa de transcrição. É a história de como um decreto se transformou num império em vinte e dois anos, contada por três pessoas que o construíram sem alguma vez o terem decidido: o homem que fazia as contas, o homem que entregou o nome e o homem que escrevia o que os Anjos diziam.

O Céu respondeu a um clero sem cabeça, e foi por ter respondido que o clero ganhou uma.


"Decretar é barato. Foi por isso que decretámos tanto, e tão depressa, e com tão pouca vergonha. Um decreto custa tinta e um homem a escrevê-lo. O que custa é a segunda linha: quem paga, quem vai, e com que autoridade se lhe manda ir.

Escrevemos a primeira linha durante seis anos.

A segunda foi escrita por outros, numa planície, e não em tinta."

— Cardeal Amandus Krell, Memorial sobre os Meios, 1831, prefácio (não publicado)


ATO I — O DECRETO

I. A Sala dos Meios

O Decreto de Refundação das Ordens Militares Clericais tinha catorze artigos, ocupava duas folhas e meia, e Amandus Krell leu-o pela primeira vez a 3 de novembro de 1815, de pé, à janela do segundo pátio, com a luz da tarde a entrar de lado.

Leu-o devagar, como lia tudo, e quando chegou ao fim voltou ao princípio e leu-o outra vez, e à segunda leitura fez o que fazia sempre e que era a única coisa que o distinguia de trezentos outros homens da Cúria igualmente competentes e igualmente devotos: leu-o à procura dos números.

Não havia nenhum.

Não é figura de retórica. Krell percorreu os catorze artigos com o polegar e não encontrou um único algarismo que não fosse a numeração dos próprios artigos. Havia três Ordens, escrito por extenso. Havia jurisdição transversal sobre os sete Estados. Havia resposta direta e imediata ao Um, sem intermediação de Cardeal-Estado. Havia, no artigo nono, uma frase que o fez parar e voltar atrás e ler três vezes, porque era bonita e porque era, do ponto de vista dele, catastrófica:

As Ordens serão dotadas dos meios necessários ao seu fim.

Serão dotadas. Voz passiva, tempo futuro, agente indeterminado.

Amandus Krell tinha quarenta e sete anos, tinha sido durante nove deles o homem que fechava as contas da Sé de Aurum Roma, e sabia — sabia-o do modo específico e um pouco humilhante com que um contabilista sabe coisas que os teólogos não sabem — que serão dotadas é a maneira que um homem tem de escrever não sei sem escrever não sei.

Dobrou as duas folhas e meia. Foi trabalhar.


A Congregação dos Meios ocupava, nesse ano, três salas do terceiro pátio, e o nome dela era uma piada que ninguém dizia em voz alta, porque a Congregação dos Meios era precisamente o organismo da Cúria que não tinha nenhum.

Fora criada em 1814, no segundo ano do pontificado, para uma tarefa que Aurelianus I descrevera numa audiência de onze minutos como saber o que temos.

Onze minutos. Krell contara-os, porque havia relógio na sala.

E a tarefa tinha-lhe parecido, na altura, modesta e até um pouco vexatória — um homem de quarenta e seis anos a quem se pede que faça o inventário — e levou-lhe dezoito meses a perceber que era a tarefa mais difícil que existia no continente, porque a resposta honesta à pergunta o que temos era, no ano de 1815, ninguém sabe.

Ninguém. Não por incúria; por destruição.

A Cinza tinha queimado os arquivos diocesanos de onze das dezanove províncias eclesiásticas do leste. Tinha matado, em trinta e cinco anos, quarenta milhões de pessoas — e uma população que perde quarenta milhões não perde só gente, perde registo: perde os párocos que sabiam quantas almas havia na freguesia, perde os escrivães que sabiam quanto rendia o dízimo, perde os velhos que sabiam onde é que ficava o marco da herdade. Krell recebia, todas as semanas, cartas de bispos a informá-lo de que a diocese tinha sido reconstituída e de que os livros anteriores a 1783 se haviam perdido, e a fórmula variava e o facto não.

Aurum Roma governava um continente cuja dimensão exata desconhecia.

E era por isso — e Krell só formulou isto por escrito muitos anos depois, no Memorial, e mesmo aí com cuidado — que o pontificado de Aurelianus I decretava tanto e tão depressa. Um decreto é uma coisa que se pode escrever numa manhã, num edifício que não ardeu, por um homem que está vivo. Um decreto não precisa de saber quantas almas há na freguesia.

Havia, em novembro de 1815, vinte e nove decretos fundacionais publicados em trinta e um meses.

Krell tinha-os todos numa pasta, e a pasta tinha um nome que ele escrevera a lápis na capa e que não mostrava a ninguém:

A Fazer.


O primeiro exercício sério que fez sobre as Ordens Militares levou-lhe catorze semanas e ocupou nove folhas, e a conclusão estava na primeira linha da nona, porque Krell escrevia os relatórios com a conclusão no fim como manda o ofício mas escrevia-os sabendo a conclusão desde a terceira semana.

A conclusão era esta:

Para dotar as três Ordens ao efetivo previsto no Decreto, a Sé teria de dispor, por ano, de quarenta e um por cento da receita total conhecida do território sob obediência.

Quarenta e um por cento.

A Sé dispunha, nesse ano, de tudo somado — dízimo, renda de bens, direitos de selo, donativo das coroas, e a parte que lhe cabia na purificação mineral — de qualquer coisa entre onze e treze por cento daquilo, e o intervalo era de dois pontos porque Krell não conseguia fechar o número, e não conseguia fechar o número porque três dos sete Estados internos ainda não tinham entregue as contas de 1814.

Onze a treze. Precisava de quarenta e um.

Levou o relatório à audiência de fevereiro de 1816 e leu-o em voz alta, inteiro, as nove folhas, e Aurelianus I ouviu-o sem o interromper uma única vez.

O Um tinha, nesse ano, sessenta e um anos e três de pontificado. Era um homem seco, de rosto comprido, que fora Cardeal Sergio Hoppen e refundara a Sé de Aurum Roma com quarenta homens e um edifício sem telhado, e que a partir de 17 de outubro de 1813 deixara de ter nome batismal. Recebia de pé. Toda a gente na Cúria sabia que ele recebia de pé e ninguém sabia porquê, e a explicação — Krell só a teve em 1830, por uma frase solta de um camareiro — era que sentado lhe doía a coluna e que ele considerava indecoroso que se soubesse.

Quando Krell acabou, houve um silêncio de talvez dez segundos.

Depois o Um disse:

— O senhor cardeal está a dizer-me que o decreto é impossível.

— Estou a dizer a Vossa Santidade que o decreto é impossível com a receita conhecida. Não estou a dizer que é impossível.

— É a mesma coisa.

— Não é, Santíssimo Padre. — E Krell, que ensaiara aquela parte durante quatro dias, passou à segunda folha. — Há três maneiras de cobrir quarenta e um por cento. A primeira é aumentar a receita, e não há como: o continente perdeu quarenta milhões de contribuintes e não os recupera nesta geração. A segunda é reduzir o efetivo previsto, e Vossa Santidade não o vai querer fazer, porque o efetivo previsto está publicado e reduzi-lo é admitir em público que se decretou por cima do possível.

— E a terceira.

— A terceira é cobrar a quem hoje não paga.

Aurelianus I olhou para ele.

— Quem é que hoje não paga?

— Toda a gente que compra mineral purificado e não o compra a nós — disse Krell. — Ou seja, Santíssimo Padre: toda a gente.


Aqui é preciso dizer o que era, em 1815, o mercado do mineral consagrado, e é preciso dizê-lo do modo aborrecido e exato com que Krell o dizia, porque tudo o que aconteceu nos vinte e dois anos seguintes está contido nesta descrição e em mais nada.

A revelação do Hashmal abrira-se em 1787. Vinte e oito anos depois, o mundo sabia sete coisas: que havia uma família de minerais; que nenhum deles funcionava em bruto; que a purificação era um rito; que o rito só funcionava se o celebrante tivesse fé genuína; que a fé genuína não se podia verificar por instrumento nenhum; que um homem que purificava adoecia; e que ninguém sabia porquê.

E o mundo fazia com isso o que os mundos fazem: comércio.

Escavava-se em Ferrum Alpina, em Kal'arn, em Pradel, nas ilhas, nos vulcões do sul. Vendia-se o minério bruto a quem o quisesse — e o minério bruto era legalmente livre em todo o continente, porque era, materialmente, pedra. Levava-se a pedra a um clérigo. O clérigo rezava sobre ela. Vendia-se a pedra acordada ao dobro, ao triplo, ao sêxtuplo, conforme a guerra.

E o clérigo que rezava sobre ela podia ser um cónego da Ordem de Aurum Roma; ou um pastor do Cisma do Norte, que respondia ao Rei de Königsmark e não reconhecia o Um; ou um ministro da Igreja Solar de Brytonia, que respondia ao Parlamento e ao monarca e achava a Cúria romana uma superstição continental; ou um padre dos Riti Meridionali, que rezava em latim mais antigo do que o de Roma e que Roma tolerava porque precisava da frota meridiana; ou um pároco de aldeia dos Cantões, sem licença nenhuma, a quem os vizinhos levavam o que tinham porque não havia mais ninguém e porque funcionava.

Porque funcionava.

Krell escreveu esta frase no relatório de 1816 e depois riscou-a, e depois voltou a escrevê-la, e depois riscou-a outra vez, e no fim entregou o relatório sem ela, e passou o resto da vida a saber que a riscara.

Era o facto central do mundo e não cabia num relatório de meios.


— Cobrar a quem não paga — repetiu o Um. — Com que direito?

— Com nenhum, hoje.

— E amanhã?

— Amanhã, Santíssimo Padre, com o direito que decorrer de sermos os únicos capazes de fazer aquilo em quantidade.

Foi a primeira vez que a proposição foi dita em voz alta dentro daquele palácio, e Krell nunca teve a certeza de que o Um a tivesse percebido no sentido em que ele a dissera, porque a resposta de Aurelianus I foi teológica e a proposição de Krell era industrial.

O Um disse:

— O dom é de Deus. Não é nosso.

— O dom é de Deus — concordou Krell. — A quantidade é nossa, ou pode vir a ser. Um pároco de aldeia benze quarenta cartuchos numa tarde e fica sem mãos até quinta-feira. Uma casa de purificação com sessenta cónegos em turno benze quarenta mil no mesmo mês e volta a fazê-lo no mês seguinte. Nenhuma das duas coisas é mais santa do que a outra. Uma delas arma um exército.

Silêncio outra vez.

— Quantas casas dessas temos?

E Krell — que sabia a resposta e que passara catorze semanas a fazer o número e que odiava dizê-lo porque era a pior linha das nove folhas — respondeu:

— Nenhuma, Santíssimo Padre. Temos duas em Ferrum Alpina com dezanove cónegos entre as duas, e uma em Sal Pradelica com onze, e isso é tudo o que existe no mundo. Os outros purificam onde calha, em sacristia, sozinhos, sem registo, e morrem sem que ninguém saiba que morreram a fazer aquilo.


A audiência durou cinquenta e um minutos. Krell cronometrou-a, porque havia relógio.

Saiu de lá com três coisas.

A segunda foi a autorização para redigir um projeto de imposição sobre o mineral purificado fora de obediência — um tributo que não se conseguiria cobrar durante seis anos e que em 1822 se cobrou sem resistência nenhuma, e a diferença entre uma coisa e a outra não foi jurídica.

E a terceira foi uma frase que o Um lhe disse à porta, já com a mão no fecho, sem se voltar, e que Krell não escreveu em lado nenhum durante quinze anos:

— Cardeal. O senhor fez-me uma conta e a conta está certa.

— Obrigado, Santíssimo Padre.

— Não é elogio. — Aurelianus I voltou-se então. Tinha os olhos muito claros, o que se notava mais porque o resto dele era escuro. — É o meu problema. O senhor faz contas certas e eu tenho de governar com elas, e as contas certas dizem-me todas a mesma coisa, que é que não posso. E eu decretei que podia, e o decreto está publicado, e há cristandade que dorme melhor por causa dele.

Ficou ali um instante.

— Continue a fazê-las — disse. — E não as leia em voz alta em mais nenhuma sala além desta.


II. O Homem Sem Apelido

O quartel da Casa Solar, no inverno de 1816, era um mosteiro cisterciense desafetado a onze quilómetros de Karentin, com telhado bom, sessenta e dois homens dentro, e nenhum papel que dissesse a quem pertencia.

Mattias tinha vinte e seis anos e era, desde outubro, o oficial mais graduado lá dentro, o que não significava nada porque não havia patente nenhuma legalmente constituída acima da dele nem abaixo dela. Os homens chamavam-lhe capitão por hábito herdado de outra guerra. Ele não corrigia porque corrigir levantava a pergunta seguinte.

A pergunta seguinte era: então o senhor é o quê?

E a resposta honesta, em 1816, era: sou um homem de vinte e seis anos que jurou três votos a uma instituição que existe num decreto e em mais lado nenhum, e que come aqui porque o abade de Vallia manda cevada duas vezes por ano por caridade pessoal e não por obrigação de nada.


Ele entregara o nome de família em 1809, aos dezanove anos, e a história disso é curta e não é edificante, e Mattias contou-a inteira três vezes na vida.

A casa dele era uma casa de vale, pequena, com brasão de 1640 e sete aldeias de renda, e a Cinza tinha-a atravessado do modo como atravessou mil outras: não com demónios — os vales altos de Ferrum Alpina nunca foram entrados, a evacuação de 1784 tinha funcionado, a Cordilheira Solar aguentou —, mas com fome, e com tifo, e com vinte e nove anos de mercado partido.

Em 1808 o pai dele vendeu duas das sete aldeias. Em 1809 quis vender uma terceira, e Mattias, que tinha dezanove anos e a insolência específica dos dezanove anos, disse-lhe à mesa que vender terra para manter a casa era manter a casa a comer-se a si própria, e o pai respondeu-lhe uma coisa que Mattias nunca repetiu a ninguém, e Mattias levantou-se da mesa e saiu, e foi a pé até ao mosteiro de altitude mais próximo, e chegou lá ao fim de dois dias, e pediu para entrar.

O monge que o recebeu perguntou-lhe o nome.

E Mattias — que ia dizer o nome, que tinha o nome na boca, e que teve naquele meio segundo uma clareza que lhe durou a vida inteira e que nunca conseguiu explicar como devoção porque não fora devoção nenhuma, fora cálculo: se eu disser o nome, daqui a três anos o meu pai escreve a este mosteiro, e eu volto —

Mattias disse:

— Não trago nenhum.

O monge escreveu Mattias no livro e não escreveu mais nada, e foi por isso, e apenas por isso, que existe hoje no canon da Ordem Clerical um voto chamado Voto de Nome.


Em 1816 ninguém sabia disto e ninguém tinha por que saber. Havia uma dúzia de homens nas Ordens sem apelido registado, por razões diversas e quase todas piores do que a dele — filhos de casa pactuada, filhos de enforcado, filhos de ninguém — e não era matéria de regra, era matéria de biografia.

O que era matéria de regra, em 1816, era a cevada.

Sessenta e dois homens comem, por ano, e Mattias fizera a conta porque era ele que a tinha de fazer: cento e quarenta e três quintais de cereal, mais sal, mais gordura, mais o que se cace. O abade de Vallia mandava noventa. Os restantes cinquenta e três saíam de três sítios: da lenha que os homens cortavam e vendiam no vale, do trabalho de ferraria que faziam para as aldeias, e — a partir do outono de 1815, e Mattias autorizou-o e levou onze anos a deixar de pensar naquilo — do aluguer.

Alugavam-se homens.

Não se chamava assim. Chamava-se escolta. Um comerciante que fosse levar carga de Karentin a Bernkanton contratava quatro Cavaleiros do Selo por doze ducados aurélios e uma semana de mantimento, e os quatro iam, e voltavam, e os doze ducados entravam no cofre do quartel, e com quarenta e uma escoltas por ano fechava-se o buraco da cevada.

Era, do ponto de vista de Mattias, a coisa mais próxima do inferno que ele fizera até então: homens que tinham jurado combater o demónio a acompanhar fardos de estanho por uma estrada onde não havia nada, pagos à semana, por um mercador que lhes chamava os senhores na frente e outra coisa nas costas.

Era também a razão pela qual eles estavam vivos em 1821 para serem uma Ordem.

Mattias entendeu isto muito tarde, e quando o entendeu já era Capitão-Geral e já não tinha a quem o dizer.


A pior foi em setembro de 1817 e é a que ele contava quando alguém lhe pedia uma história de antes.

Um negociante de estanho de Bernkanton contratou quatro homens para levar carga de Karentin ao vale, oito dias, doze ducados. Mattias mandou quatro dos melhores porque mandava sempre os melhores nas escoltas pagas — um capitão de sessenta e dois homens sem orçamento aprende depressa que a reputação é o inventário.

Ao terceiro dia o negociante quis que os quatro descarregassem.

Não foi maldade. Ele tinha pago por quatro homens durante oito dias e os quatro homens passavam o dia a andar ao lado da carroça sem fazer nada, e ele era um homem prático de uma república prática, e pediu.

O sargento recusou. Educadamente, e recusou.

E o negociante disse a coisa que Mattias ouviu do sargento oito dias depois e que lhe ficou vinte e sete anos:

Meu senhor, eu pago o senhor para estar aqui. Se isto é um serviço de Deus, faça-me o favor de mo dizer, que eu rezo e poupo doze ducados.


Os quatro voltaram com o dinheiro e sem a carga descarregada, e o sargento contou tudo, e Mattias ouviu de pé no pátio e depois disse-lhe que tinha feito bem e mandou-o descansar.

Nessa noite foi ao paiol e ficou lá.

O paiol tinha, em setembro de 1817, quatrocentos e onze cartuchos de Crisma-Argênteo mortos desde 1814, sessenta e um piques, dezanove espadas de Ferro-do-Coro em bom estado e quarenta e duas em mau, e três barris de pólvora comum.

Mattias sentou-se no chão entre as caixas e fez a conta de que se lembrava melhor do que de qualquer outra da vida.

Quarenta e uma escoltas por ano, a doze ducados, são quatrocentos e noventa e dois ducados. A cevada em falta custava quatrocentos e cinquenta e um. Sobravam quarenta e um ducados por ano para sessenta e dois homens — que é o que custa ferrar dois cavalos e comprar sal.

E as quarenta e uma escoltas consumiam, em dias de homem, o equivalente a sete semanas de trabalho de toda a casa.

Sete semanas por ano a andar ao lado de carroças de estanho, para pagar a cevada que permitia a sessenta e dois homens continuarem a jurar três votos a uma Ordem que existia num decreto de catorze artigos publicado em Aurum Roma a novecentos quilómetros dali.


Ele escreveu nessa noite, no caderno, as quatro linhas mais amargas que lá estão, e escreveu-as aos vinte e sete anos:

Ele tem razão e é isso que não presta.

Se isto é serviço de Deus, não se cobra. Se se cobra, é ofício, e um ofício defende-se por salário e não por voto, e nesse caso os meus três votos são um contrato mal redigido.

Não sei responder-lhe. Passei a noite a tentar.

A única coisa que tenho é que amanhã de manhã ainda cá estou, e que ele não ia estar.


Em fevereiro de 1822, quando chegou a dotação com as vinte e duas folhas e a verba anual escrita em algarismo e por extenso, Mattias leu o artigo do soldo e a primeira coisa que fez, antes de mandar tocar a formatura, foi ir ao paiol sozinho.

Ficou lá o mesmo tempo que ficara em 1817.

Não escreveu nada nessa noite. Escreveu quatro dias depois, e são duas linhas:

Acabaram-se as escoltas.

Levei cinco anos a perceber que a resposta ao homem do estanho não era teológica. Era orçamental, e chegou pelo correio.


O mosteiro tinha uma biblioteca de quarenta volumes e Mattias leu-os todos em três invernos, porque havia neve de novembro a abril e porque a alternativa era jogar às cartas com sessenta e dois homens durante cinco meses.

Um dos quarenta era a Regra de São Bento.

Outro era um tratado de fortificação de 1701, em latim mau, com gravuras.

E o terceiro que interessa era um livro fino, sem capa, que alguém deixara ali e que não tinha autor nem data e que era, pelas contas de Mattias, o diário de um cónego qualquer da década de 1790 — um homem que fora dos primeiros a purificar Ferro-do-Coro depois de a revelação abrir, e que escrevera cento e onze páginas sobre isso, e que morrera, presumivelmente, porque o diário acabava a meio de uma frase.

Mattias leu-o quatro vezes.

Na segunda leitura começou a tomar notas. Na terceira, começou a experimentar.


O que ele fez naquele inverno de 1817 era proibido, e ele sabia que era proibido, e o argumento que deu a si próprio para o fazer era de uma casuística tão frágil que teria envergonhado qualquer cónego de segunda: o rito de purificação está reservado ao clero ordenado; ele não era clero ordenado; mas o quartel não tinha clérigo nenhum desde 1814 e a doutrina — a doutrina que não existia ainda, que ele estava nesse momento a inventar sozinho num mosteiro de montanha aos vinte e sete anos — dizia-lhe que uma unidade sem purificador se retira, e retirar-se dali significava dissolver o único corpo armado que a Ordem tinha em campo.

Portanto experimentou.

Pegou num cartucho de Crisma-Argênteo morto, dos quatrocentos que tinham no paiol e que estavam mortos desde 1814 porque não havia quem os acordasse. Fez o que o diário do cónego descrevia, que eram sete passos e uma oração e um tempo.

E não aconteceu nada, e ele voltou a fazê-lo no dia seguinte, e não aconteceu nada, e no décimo primeiro dia aconteceu.

Não houve luz, não houve som, não houve calor. Um cartucho de latão não muda de aparência quando acorda; é isso que torna tudo aquilo tão difícil de ensinar e tão fácil de fingir. O que Mattias sentiu foi uma coisa na mão esquerda, com que ele segurava o cartucho, e que descreveu quarenta anos mais tarde a um escrivão da Casa Solar com as únicas palavras que alguma vez encontrou:

Como quando se está a levantar um peso e alguém pega na outra ponta.

Levou-lhe quatro horas.

Quatro horas para um cartucho. Fê-lo outra vez no dia seguinte e levou três horas e meia, e no fim do inverno estava nas três horas e um quarto, e aí parou de melhorar e nunca mais melhorou em vinte e sete anos de ofício.

Um cónego licenciado de Aurum Roma fazia aquilo em vinte segundos.

Mattias não sabia disso em 1817. Soube-o em 1823, de um oficial da Congregação dos Meios que lho disse num corredor, sem maldade nenhuma, a propósito de outra coisa — e Mattias, que era um homem de compostura notável e de quem não há registo de uma única palavra alta em toda a carreira, teve de sair para o pátio e ficar lá um bocado.

Vinte segundos.

Ele levara onze dias a conseguir o primeiro e quatro horas a fazê-lo, e um cónego de vinte e três anos numa casa de Ferrumkar fazia cento e oitenta por hora enquanto pensava noutra coisa.


E no entanto — e é aqui que está o Voto de Medida, e é por isto que ele existe, e é por isto que ele é o voto que define a Ordem e não os outros dois — no entanto Mattias continuou.

Continuou porque em fevereiro de 1818 um dos sessenta e dois, um rapaz de Bierkut chamado Halvard, saiu com três homens numa escolta de rotina para o vale e encontrou, a nove quilómetros do quartel, numa casa de pastor abandonada, uma coisa.

Não se sabe o que era. O relatório que Mattias escreveu — o primeiro relatório de combate da história da Casa Solar, quatro parágrafos, mal redigido, que está hoje emoldurado em Karentin-Alta — descreve uma forma de altura de homem, sem face constante, e não diz mais nada, e não diz mais nada porque os quatro homens não conseguiram concordar em mais nada.

Halvard disparou cinco tiros.

Quatro eram cartuchos mortos do paiol de 1814, e passaram através daquilo como pedras através de fumo.

O quinto era um dos onze que Mattias tinha acordado naquele inverno, à razão de quatro horas cada, e que ele distribuíra a contragosto e com instrução expressa de não os gastar.

O quinto matou-a.


Mattias foi ao local no dia seguinte. Levou dois homens e uma pá.

Não havia nada para enterrar — não fica nada, é uma das primeiras coisas que se aprende e uma das que mais custa aos homens que vêm da guerra secular, onde há sempre um corpo — e portanto o que ele fez foi entrar na casa de pastor, sentar-se no chão de terra batida, e ficar lá talvez uma hora.

E a coisa que ele pensou naquela hora, e que se tornou, por um percurso de vinte anos que ninguém planeou, a doutrina de uma Ordem de cento e dez mil homens, foi esta:

Eu levei quatro horas a fazer aquele tiro e ele é pior do que o de um cónego de vinte e três anos. E ele funcionou na mesma. E se ele funcionou na mesma, então a diferença entre mim e o cónego não é de espécie — é de velocidade. E se é de velocidade, então nunca, em circunstância nenhuma, e por pior que corra, um homem desta Ordem pode ficar num sítio sem ter quem lhe acorde a munição. Porque com quem acorde, mesmo mal, mesmo devagar, mesmo aos quatro por dia, ele mata. E sem ninguém, ele está a disparar pedras.

Escreveu-o nessa noite, em quatro linhas, num caderno.

As quatro linhas entraram, quase sem alteração, na doutrina escrita de 1824 como a terceira regra dos Cavaleiros do Selo, e são as que dizem que uma unidade sem purificador em condições se retira mesmo vencendo, e que é a única ordem de retirada que um capitão pode dar sem consulta.


Em maio de 1818 chegou ao quartel da Casa Solar um ofício de Aurum Roma, em papel bom, com selo, dirigido ao Comando da Casa Solar da Ordem dos Cavaleiros do Selo, o que fez rir três homens porque nenhuma daquelas quatro palavras correspondia a uma coisa existente.

O ofício pedia informação, para efeitos de censo, sobre os purificadores em serviço na unidade.

Havia um formulário. Tinha campos para nome, idade, casa de formação, ano de licença e produção mensal declarada.

Mattias olhou para o formulário durante um bocado.

Depois escreveu, no campo do nome, nenhum; e no campo da produção mensal, onze cartuchos, por oficial não ordenado, por método não licenciado; e assinou; e mandou-o.

E ficou a pensar, enquanto o cavaleiro descia com o correio, que aquilo ou lhe valia um processo ou não valia nada, e que das duas hipóteses a segunda era pior.


III. A Mão de Outro

Um escrivão de Vigília trabalha a três passos da cadeira, de lado, com a chama fora do campo de visão, e nunca olha.

É a primeira coisa que se ensina e é a única que se ensina com ameaça. Todo o resto do ofício — a letra, a velocidade, as abreviaturas, o modo de não fazer barulho ao virar a folha — se ensina por correção paciente. O não olhes ensina-se dizendo a um rapaz de dezassete anos, na primeira semana, que houve quatro escrivães antes dele que olharam e que não há registo de nenhum deles ter voltado a escrever coisa que se entendesse.

Aelius de Sárvar tinha entrado em 1790 e nunca olhara.

Vinte e seis anos, em 1816. Quatro Madres Vigilantes. Trinta e uma Brancas. Duas mil e quatrocentas transcrições.

E era, embora ninguém na Cúria tivesse ainda percebido isso, o homem vivo que mais sabia sobre a coisa que a Cúria inteira existia para administrar — não por mérito e não por estudo, mas por uma razão puramente mecânica: ele era o único que ouvia todas.

As Brancas não se falam umas às outras. É regra da Vigília desde antes de haver Vigília. Uma Branca serve o turno, é desligada, entra a seguinte, e o que uma disse na quarta-feira a outra não sabe na quinta. As Madres Vigilantes trocam de sete em sete anos. Os cónegos de assistência rodam de dois em dois. Os cardeais leem os extratos.

O escrivão fica.

O escrivão fica porque um escrivão não decide nada, e porque substituí-lo custa dois anos de treino, e porque a letra dele tem de ser comparável ao longo de décadas para que as transcrições antigas continuem legíveis pelos mesmos critérios.

Aelius ficou cinquenta e um anos.


Convém descrever a sala, porque quase ninguém a viu e porque quase tudo o que o continente acredita sobre ela está errado.

Não é uma capela. Não há altar, não há imagem, não há ouro. É uma sala retangular de pedra, com sete metros por onze, sem janelas, com uma porta que dá para um corredor e outra que dá para a casa das mulheres, e com o chão coberto de cortiça para não fazer som.

Ao fundo há catorze chamas.

Não são as Sete Velas da Vigília Perpétua, que ficam na Catedral do Coro e que toda a gente conhece pelas gravuras e que marcam o retorno teórico dos Arcanjos. Estas são outra coisa e é por isso que a confusão é permanente e que a Cúria nunca se deu ao trabalho de a desfazer: catorze lâmpadas de Lúmen, montadas em fila a um metro e meio do chão, alimentadas em contínuo desde 1791, e que não têm significado litúrgico nenhum.

Servem para ver.

Uma Branca em inscrição não fala alto. Fala com a voz normal ou abaixo dela, e fala depressa, e um escrivão precisa de luz suficiente para escrever e insuficiente para o resto — e alguém em 1791 descobriu, por tentativa, que catorze lâmpadas de Lúmen a um metro e meio dão exatamente isso e que quinze dão de mais.

É o número mais bem estabelecido de toda a liturgia da Ordem Clerical e a razão dele é que dezasseis encandeavam.


A cadeira está a três metros das chamas e voltada para elas.

A Branca senta-se às seis e um quarto, com o cíngulo de turno — uma faixa de linho branco atada à cintura, que não tem função ritual nenhuma e que serve para que a assistente perceba, de longe e de costas, se a postura mudou.

Fica lá duas horas.

Isto surpreende toda a gente que ouve falar da coisa pela primeira vez. Duas horas. Não é uma noite, não é uma vigília de quarenta dias, não é jejum nem cilício: são duas horas sentada numa cadeira numa sala de pedra com boa luz, quatro vezes por semana, e o resto do dia a mulher vive como qualquer outra mulher de uma casa religiosa — come, dorme, passeia no claustro, tem uma hora de leitura e outra de costura.

E morre aos vinte e quatro.

Aelius de Sárvar escreveu sobre isto uma única vez, numa carta, e escreveu a frase que resume o que quarenta anos naquela sala lhe ensinaram:

Não há nada de extraordinário a acontecer ali. É o que torna aquilo insuportável de ver.

Se houvesse tempestade, se ela gritasse, se caísse um raio — as pessoas compreenderiam. Uma pessoa entende que uma coisa violenta gaste um corpo.

Ela está sentada e diz nove palavras numa quarta-feira e vai jantar.

E passados cinco anos morre, e ninguém consegue apontar o dia em que aquilo lhe foi tirado, porque foi tirado às duas horas, quatro vezes por semana, em parcelas pequenas de mais para se notarem.


O turno tem três partes e a segunda é a que ninguém consegue explicar.

A primeira é a entrada: a Branca senta-se, a assistente ata o cíngulo, o escrivão põe a folha, e ficam os três em silêncio até ao quarto de hora.

A segunda é a espera. Quarenta minutos, uma hora, às vezes as duas horas inteiras. Nada acontece. A mulher está sentada a olhar para catorze lâmpadas e ninguém sabe o que é que ela está a fazer, e — este é o ponto e é o que a Cúria nunca quis ouvir — elas próprias não sabem.

Aelius perguntou, em cinquenta e um anos, a quatro Brancas diferentes, contra todo o protocolo, o que é que elas faziam durante a espera.

As quatro respostas estão num papel dele e são estas:

Não faço nada.

Espero. Como quem espera à porta de uma casa.

Estou a ouvir se vem. Não é ouvir com os ouvidos.

Não sei. Nunca soube. Ao princípio tentava alguma coisa e depois percebi que quando eu tentava não vinha.

A quarta é da Branca Décima Nona e foi dada em 1837, e Aelius pô-la ao lado das quatro páginas que Mattias da Casa Solar tinha escrito treze anos antes sobre onze homens num mosteiro alpino, e os dois documentos estão hoje em arquivos diferentes, em cidades diferentes, catalogados por instituições que não se falam.

Dizem a mesma coisa.


A terceira parte é a saída, e chama-se Desligamento, e é a única parte com rito.

A assistente desata o cíngulo. A Branca levanta-se e diz o nome — o nome dela, o de batismo, o que ela deixou de usar no dia em que entrou — em voz alta, uma vez.

É tudo. Não há fórmula, não há resposta, não há bênção.

Aelius ouviu aquilo quatro mil e seiscentas vezes de trinta e uma mulheres diferentes e escreveu, aos setenta e cinco anos, que era a única parte do ofício que nunca conseguiu ouvir com indiferença:

Elas dizem o nome para se lembrarem de que o têm.

Vinte e nove das trinta e uma que eu transcrevi estão mortas, e eu sei os nomes de todas, porque as ouvi dizê-los quatro mil e seiscentas vezes, e não os posso escrever em lado nenhum porque em serviço não têm nome e depois de mortas têm o de serviço na lápide.

Sou o único sítio do mundo onde aqueles nomes estão juntos e eu estou cego e tenho setenta e cinco anos.

Quando eu morrer, morrem outra vez, e da segunda vez é a sério.


A transcrição de 14 de abril de 1817 é a mais citada da carreira dele e é a razão pela qual existem as sete regras da Sintaxe Hashmal, embora as regras só tenham sido escritas nove anos depois e por outra pessoa.

Nesse dia estava em turno uma Branca de vinte e um anos, terceiro ano de serviço, que a Vigília registava como Branca Quarta porque as Brancas não usam apelido em serviço e porque nessa geração eram numeradas pela ordem de entrada na casa.

O turno correu como corriam os turnos: quarenta minutos de nada, depois inscrição.

E o que ela disse — e Aelius escreveu, como escrevia tudo, sem pontuar, porque pontuar é interpretar e um escrivão de Vigília não interpreta — foi uma sequência de quarenta e uma palavras das quais trinta e quatro eram termos técnicos de metalurgia que uma rapariga de vinte e um anos nascida numa aldeia de pastores não tinha maneira nenhuma de conhecer, e as outras sete eram uma instrução de proporção.

Era uma liga.

Não é a única coisa que as Brancas dizem, e nem sequer é a mais comum. A maior parte do que sai daquela cadeira é fragmento, imagem, nome de coisa, advertência sem sujeito. Mas de vez em quando — e a frequência caía, e caiu durante todo o século, e em 1887 já era o que era — de vez em quando sai uma receita.

Aelius escreveu as quarenta e uma palavras.

E depois, porque uma coisa lhe chamara a atenção, fez a coisa que nunca fazia: pediu à Madre Vigilante, findo o turno, autorização para consultar as suas próprias transcrições antigas.


Levou nove semanas. Tinha duas mil e quatrocentas para percorrer e só as podia ver em horas livres e não as podia tirar da sala.

E o que encontrou foi isto, e escreveu-o num papel de meia folha que entregou à Madre Vigilante em junho de 1817 e de que não guardou cópia:

Que aquelas quarenta e uma palavras já tinham sido ditas antes.

Duas vezes. Uma em 1804, por uma Branca que morrera em 1806. Outra em 1811, por outra, que morrera em 1813.

Não iguais. Parcialmente iguais — vinte e nove das quarenta e uma palavras coincidiam, na mesma ordem, e as doze que variavam eram todas do mesmo tipo: eram os números.

Em 1804 a proporção era uma. Em 1811 era outra. Em 1817 era uma terceira.

E as três proporções, postas em sequência, não eram aleatórias: iam num sentido. Iam a convergir.

Aelius de Sárvar, cinquenta e cinco anos, escrivão, sem instrução formal além do seminário menor e da letra, escreveu na meia folha a frase que é hoje a primeira das sete regras da Sintaxe Hashmal, e escreveu-a em linguagem de escrivão e não de teólogo, e é por isso que ela ainda hoje soa estranha nos manuais:

Não se recebe duas vezes a mesma coisa. Recebe-se a mesma coisa corrigida.


A Madre Vigilante daquele ano chamava-se Irmgard e tinha sessenta e sete anos e três meses de vida pela frente, e leu a meia folha duas vezes e depois fez a Aelius uma pergunta que ele não esperava:

— O senhor sabe o que é que isto significa para as raparigas?

Aelius não sabia.

— Significa — disse a Madre Irmgard — que aquilo que elas ouvem não é um recado. Um recado diz-se uma vez. Aquilo é uma correção, e uma correção pressupõe que alguém do outro lado está a acompanhar o que nós fizemos com a versão anterior. — Pousou o papel. — O que quer dizer que estão a olhar para nós o tempo todo, e não só quando falam.

Ficaram os dois calados.

— Escreva isso — disse ela.

— Já escrevi, Madre.

— Escreveu a regra. Escreva a consequência.

E Aelius pegou noutra meia folha e escreveu a consequência, e a consequência era muito pior do que a regra, e foi ela que a Cúria enterrou durante nove anos e que só foi desenterrada em 1826 por uma mulher de trinta e oito anos chamada Sofia Kranz que a encontrou ao arrumar um armário.

A consequência era:

Se corrigem, é porque viram falhar. E se viram falhar e continuam a corrigir, então não estamos a ser socorridos. Estamos a ser ensinados, e quem ensina espera que o aluno acabe por fazer sozinho.


Aelius teve, nesse verão, o único período de insónia documentado da vida dele, e está documentado porque a Vigília anotava o estado dos escrivães do mesmo modo que anotava tudo.

Onze semanas a dormir mal.

Depois passou.

O que ele fez a seguir, e que fez todos os dias durante mais vinte e quatro anos, foi ir para a sala às cinco e meia da manhã, sentar-se de lado a três passos da cadeira, com a chama fora do campo de visão, e escrever o que ouvia sem pontuar.

Porque era o que sabia fazer, e porque alguém tinha de o fazer, e porque — e isto ele disse uma vez, a um sobrinho-neto, em 1839, já cego dos dois olhos, com uma naturalidade que ao sobrinho-neto pareceu na altura quase decepcionante — não é preciso perceber uma coisa para a copiar bem, e copiar bem é mais raro do que perceber.


IV. O Que Roma Não Tinha

O censo dos purificadores fechou a 19 de dezembro de 1819, às nove da noite, e Amandus Krell esteve presente quando o último maço de comprovativos entrou na sala, porque tinha esperado quarenta e cinco meses por aquilo e queria ver.

Eram sete províncias, cento e onze dioceses, quatro cismas que não responderam e três que responderam mal.

O número era três mil e quarenta e um.

Três mil e quarenta e um homens e mulheres, em todo o território de obediência do Um, capazes de acordar mineral consagrado em quantidade aferível.

Krell tinha estimado, em 1816, qualquer coisa entre seis e oito mil.


Passou aquela noite inteira na sala, e a maior parte dela não a passou a lamentar-se, passou-a a fazer a outra conta — a conta que o número tornava possível pela primeira vez e que ninguém no mundo tinha podido fazer antes de 19 de dezembro de 1819, porque antes disso ninguém sabia o denominador.

A conta era a capacidade do continente.

Três mil e quarenta e um purificadores. Produção média declarada, descontando os que estavam em fim de carreira e os que declaravam de mais por vaidade e os que declaravam de menos por prudência fiscal: novecentos e dez cartuchos por purificador por mês.

Dois milhões, setecentos e sessenta e oito mil cartuchos consagrados por mês. Trinta e três milhões por ano.

Era uma quantidade enorme. Escrita assim, numa folha, era uma quantidade que dava vontade de a ler em voz alta a alguém.

Krell dividiu-a.

O exército de linha do território de obediência, somadas as sete milícias estaduais e as levas, andava por quatrocentos e oitenta mil homens. Trinta e três milhões a dividir por quatrocentos e oitenta mil dá sessenta e nove cartuchos por soldado por ano.

O Cânone de Campo diz cinco por dia em contacto.

Sessenta e nove por ano é catorze dias de contacto por soldado por ano.

Catorze dias. Um exército inteiro do continente podia combater, no total, catorze dias por ano, e no décimo quinto estava a disparar pedras.


Krell escreveu o relatório em quatro dias e não o mostrou a ninguém durante dois meses, e quando finalmente o levou à audiência levou-o com uma proposta anexa, porque tinha aprendido em 1816 que não se leva a Aurelianus I um número sem levar uma porta.

A proposta tinha três artigos e foi, no juízo posterior dele próprio, a coisa mais importante que fez na vida, e nenhum historiador da Ordem lhe atribuiu jamais a autoria porque saiu em nome do Um, como tudo:

Primeiro: que a formação de purificadores deixasse de ser feita por aprendizagem junto de cónego mais velho, à razão do que sempre fora, e passasse a ser feita em casas dedicadas, com programa, com exame e com licença — e que se criassem três, uma em Aurum Roma, uma em Ferrumkar e uma na Schola Maior.

Segundo: que se fixasse uma meta. Não um ideal: uma meta, com número e com data, revista de dez em dez anos.

Terceiro — e este é o artigo que Krell escreveu com a mão a tremer, e que ele sabia que era, em teologia estrita, quase indefensável: que a Cúria passasse a medir a produção de cada purificador licenciado e a registá-la, nominalmente, por mês, para toda a vida.

Porque, escreveu Krell na justificação, não podemos administrar o que não contamos; e se o dom é de Deus e a quantidade é nossa, então a quantidade é matéria de administração, e administrar sem medir é rezar.


A meta foi fixada em 1826, seis anos depois, e foi de onze mil.

O número saiu de um cálculo de necessidade que Krell fez em quatro folhas e que partia de uma pergunta simples e de uma resposta que ninguém queria: quantos purificadores são precisos para que o continente possa combater o ano inteiro?

A resposta era dezanove mil e quatrocentos.

Onze mil foi o que a Congregação dos Meios julgou possível formar em trinta anos, dada a mortalidade conhecida do ofício.

Ou seja: a meta nunca foi suficiente. Foi sempre, desde o dia em que foi escrita, cinquenta e sete por cento do necessário — e toda a gente que a escreveu sabia disso, e o número real nunca chegou aos onze mil em setenta anos, e em 1887 uma diocese de Sal Pradelica recuou vinte e dois quilómetros porque não conseguia guarnecer um setor.

Krell morreu em 1841 e nunca soube nada disso, e é bom que não tenha sabido.


Há uma coisa que ele soube e que o marcou mais do que o número, e é a última coisa que interessa deste capítulo.

No maço final do censo, entre os comprovativos da diocese de Solnica, veio um formulário preenchido por uma mão que não era de escrivão, com a caligrafia direita e pequena de quem escreve pouco e com cuidado.

No campo do nome dizia: nenhum.

No campo da produção mensal dizia: onze cartuchos, por oficial não ordenado, por método não licenciado.

Estava assinado Mattias, da Casa Solar.

Krell olhou para aquilo durante muito tempo.

Havia, em cima da mesa dele, uma pilha de trinta e um casos que a Congregação tinha de encaminhar à Inquisição — a Inquisição que ainda não fora reformada, que ainda era um tribunal lento e escrupuloso e público, e que teria levado dois anos a julgar aquilo e teria condenado, porque a lei era clara.

Purificação por não ordenado é matéria de heresia funcional. Está no Cânone desde 1791.

Amandus Krell pegou no formulário, leu-o uma terceira vez, e pô-lo na outra pilha.

Depois, porque era o homem que era, escreveu na margem, a lápis, para si próprio, uma nota de três palavras que ficou no papel e que está no papel ainda hoje, no Arquivo dos Meios, e que ninguém percebeu durante cento e vinte anos porque ninguém sabia o que ele tinha na cabeça naquele dezembro:

Onze. Não nenhum.


V. A Petição

A petição das nove casas entrou na Cúria a 11 de março de 1820, por via ordinária, protocolada como requerimento.

Era um documento excelente. Krell disse-o na altura e repetiu-o em 1831 no Memorial, e era excelente porque tinha sido escrito por um jurista de Reichshamn que sabia exatamente o que estava a fazer: não pedia licença para nada. Pedia provimento.

O texto, resumido às suas nove linhas úteis, dizia isto:

Que as casas signatárias se propunham a levar uma hoste ao Limbus Mundi, no verão de 1821, com nove mil homens, ao abrigo do direito próprio de cada coroa e casa de defender a cristandade.

Que, sendo o dom do Hashmal graça universal e não propriedade de nenhuma Sé, e sendo a Cúria a detentora de facto dos meios de purificação em escala, as casas signatárias requeriam o provimento de capelania de campo em número suficiente ao sustento da hoste.

Que, no caso de tal provimento ser recusado, as casas procederiam por meios próprios.

Nove mil homens. Provimento em número suficiente.

Não vinha número. O jurista de Reichshamn não pôs número na petição, e Krell percebeu porquê ao segundo parágrafo: porque eles não sabiam o número. Não estavam a ser astutos. Estavam a pedir o suficiente porque acreditavam que o suficiente era uma coisa que a Cúria saberia estimar do mesmo modo que um bispo estima quantos padres são precisos para uma procissão.

Krell fez a conta nessa tarde, à mesa, em nove minutos.

Nove mil homens, cinco tiros por dia, quarenta e cinco mil cartuchos por dia. Um purificador licenciado rende mil e quatrocentos num dia bom. Trinta e dois purificadores em marcha, e trinta e dois é o mínimo teórico, e o mínimo teórico pressupõe que nenhum adoece e que todos trabalham todos os dias, o que não acontece; na prática eram quarenta.

Quarenta purificadores.

O território de obediência tinha três mil e quarenta e um.


Aqui está o facto que este livro existe para estabelecer, e é preciso dizê-lo com toda a frieza porque o púlpito passou setenta anos a dizer outra coisa:

Roma podia ter dado os quarenta.

Quarenta em três mil e quarenta e um é um pouco mais de um por cento. Era muito? Era. Era uma sangria numa capacidade que já estava catorze dias abaixo do necessário, e retirar quarenta licenciados das casas de Ferrum Alpina durante uma campanha de verão significava, em números redondos, quatro milhões de cartuchos não feitos e sete guarnições de fronteira a racionar.

Mas era possível. Não era impossível. Krell escreveu, na quarta folha do parecer, a frase exata, e a folha existe:

A prestação é materialmente exequível a custo grave.


O parecer foi discutido a 2 de abril de 1820 numa sessão de onze cardeais, e Krell teve vinte minutos.

Usou-os a explicar a aritmética. Era a terceira vez em cinco anos que explicava aritmética àquela sala e já tinha percebido, pela segunda, que a sala não a ouvia como aritmética; ouvia-a como posição, isto é, ouvia um homem a defender uma coisa.

Ele não estava a defender coisa nenhuma. Estava a dizer que quarenta homens dava e que custava sete guarnições.


Vale a pena dizer quem estava naquela sala, porque a sala é a coisa que decidiu, e porque a maneira como se conta isto no púlpito — a Cúria recusou — atribui a uma instituição uma decisão que foi tomada por onze homens com onze histórias diferentes numa manhã de abril.

Presidia o Secretário de Estado, que tinha setenta e três anos e uma surdez do ouvido esquerdo que ninguém mencionava e que fazia com que metade da sessão lhe chegasse pela metade. Votou com a maioria, como votava sempre.

Estavam os sete Cardeais-Estado. Cinco deles tinham chegado a Aurum Roma na véspera, de sete províncias diferentes, e três não sabiam ao certo o que é que ia ser discutido porque o sumário da convocatória dizia petição de casas seculares, provimento.

Estava o Cardeal-Prefeito da Doutrina, que era um homem de quarenta e nove anos, rigorista, que tinha lido a petição quatro vezes e que era o único naquela sala além de Krell que tinha vindo com um papel escrito.

Estava o Cardeal-Camareiro, que não falou.

E estava Krell.


O Cardeal-Estado de Ferrum Alpina falou em segundo lugar, e Krell tinha razão a chamar-lhe político, mas há uma coisa que nunca disse em lado nenhum e que é preciso acrescentar para o retrato ser honesto: aquele homem também tinha um problema de meios e não podia dizê-lo.

Ferrum Alpina tinha, em 1820, mil e cento e nove dos três mil e quarenta e um purificadores licenciados do continente.

Todos os quarenta que a petição implicava sairiam de lá. Não havia outro sítio de onde saíssem. E o Cardeal-Estado de Ferrum Alpina tinha, na algibeira, uma carta de dois mestres de forja de Ferrumkar, datada de janeiro, a informá-lo de que a produção de Crisma-Argênteo do Estado já estava onze por cento abaixo do compromisso com a Sé por falta de mãos.

Ele não a leu à sala.

Não a leu porque lê-la seria admitir, diante de seis Cardeais-Estado seus pares e concorrentes, que o Estado mais poderoso da Ordem estava a falhar o compromisso; e porque, se a lesse, o argumento da recusa passaria a ser não podemos em vez de não devemos.

E não podemos é uma frase que se diz uma vez e depois se paga durante trinta anos, porque quem a ouve fica a saber onde está o limite.

Fez o discurso político em vez dele, e falou quarenta minutos, e falou muito bem.

O argumento foi este, e Krell reconheceu-o à terceira frase como o que ia ganhar: que ceder capelania a uma hoste secular que declarava por escrito ir ao abrigo do direito próprio de cada coroa era reconhecer esse direito próprio; que se Roma provia, Roma ficava fornecedora de uma guerra que não comandava; que no ano seguinte seriam onze casas, e no outro dezassete; e que a Cúria acabaria a ser uma casa de purificação com sede em Aurum Roma a servir clientes, e não a cabeça da cristandade.

Fê-lo brilhantemente. E fê-lo porque o outro discurso — o verdadeiro, o de meios, o que Krell teria feito por ele de olhos fechados — era impublicável.

Krell só soube da carta em 1827, sete anos depois, ao auditar o Estado por outro motivo. Escreveu no Memorial:

Fui o único homem naquela sala a votar a favor de dar os quarenta, e passei seis anos a achar-me o único que tinha visto direito.

A verdade é que o homem que me derrotou tinha à frente um número pior do que o meu e não o podia dizer, e foi buscar a teologia porque a teologia estava ali e era grátis.

É assim que se governa. Não se mente. Escolhe-se, de entre as coisas verdadeiras, aquela que se pode dizer em voz alta — e depois a história regista essa, porque é a única que ficou escrita.


Falaram os outros.

O Cardeal-Estado de Sal Pradelica foi a favor de dar, e o argumento dele foi de fronteira e foi bom: se as nove casas entrarem e forem destruídas, dizia, o Limbo fica com nove mil cadáveres, com quatrocentos e noventa e quatro mil cartuchos consagrados e com nove estandartes, e nada disso é indiferente. Foi o segundo voto com Krell.

O Cardeal-Estado de Limes Orientalis foi contra, e o argumento dele foi o mais simples de todos e o mais difícil de responder: eu tenho catorze guarnições e seis purificadores para elas, e se saírem quarenta homens do sistema este ano, saem de algum lado, e eu sei de que lado é que não saem.

O Cardeal-Estado da Schola Coronata fez um discurso de vinte e dois minutos sobre a natureza da graça que ninguém conseguiu resumir depois e que Krell descreveu como impecável e irrelevante.

E o Prefeito da Doutrina falou em último, com o papel escrito, e disse a coisa que fechou a sessão.


O papel dele tinha quatro parágrafos e o quarto é o que passou à história como a posição da Sé.

Mas os três primeiros não passaram, e Krell guardou cópia, e eles são muito piores e muito mais inteligentes do que a frase bonita que ficou.

O Prefeito da Doutrina começou por conceder tudo. Concedeu que a prestação era materialmente exequível — citou Krell pelo nome, o que era cortesia rara. Concedeu que as casas signatárias eram católicas, que a empresa era piedosa em intenção, e que recusá-la teria custo de escândalo.

E depois disse:

— Eminências, o que está diante de nós não é um pedido de padres. É um pedido de capacidade. E o requerimento tem o cuidado de o não dizer, porque o jurista que o escreveu sabe que se o dissesse tinha perdido.

Krell endireitou-se na cadeira. Foi a única vez em vinte e seis anos que alguém naquela casa disse aquilo antes dele.

— Se nós provermos — continuou o Prefeito —, estabelecemos que a capacidade de purificar em escala é uma coisa que se requer, que se atribui, e portanto que se reparte. E uma coisa que se reparte tem critério, e o critério vai ser discutido, e daqui a dez anos há uma tabela de repartição entre a Sé e as coroas, e a Sé é uma das partes dessa tabela em vez de ser quem a escreve.

Silêncio na sala.

— Se recusarmos, mantemos a proposição em que assenta tudo isto, que é que o dom não é capacidade: é ministério. Um ministério não se reparte. Exerce-se ou não se exerce.

Ele pousou o papel.

— Eminências, eu sei perfeitamente que isto é conveniente. Tenho consciência disso e peço a Deus que me desculpe a parte em que é só conveniente. Mas também é verdade, e o facto de nos convir não a torna falsa, e nós não podemos deixar de dizer o que é verdadeiro só porque nos beneficia.

E foi então que disse a frase, e disse-a sem ênfase nenhuma, quase de passagem, o que é a razão pela qual ela funcionou:

Se o dom é graça universal, como eles escrevem, então que o recebam universalmente; e se não o recebem, talvez o dom não seja tão universal quanto a petição supõe — e não nos compete a nós corrigir Deus por conveniência de nove casas.


Votou-se por ordem inversa de antiguidade, que é o costume, o que quer dizer que Krell votou primeiro.

Votou placet — a favor de prover — e ficou a ouvir os outros dez.

Nove contra dois.

E a coisa que ele registou sobre aquela manhã, e que registou no dia, em três linhas, num papel que não pôs em processo nenhum, foi:

Perdi por nove a dois e não fui derrotado por cinismo.

Fui derrotado por um homem que acredita no que disse, que disse uma coisa verdadeira, e que tinha razão em todos os passos do argumento exceto num que ninguém naquela sala conseguia ver, e que é este:

um ministério que só uma casa no mundo consegue exercer em quantidade é capacidade, chame-se-lhe o que se lhe chamar.

O nome não muda a coisa. Muda quem tem de responder por ela.

Krell foi um dos dois, e não foi por generosidade: foi porque achava que a recusa ia sair cara e porque o ofício dele era estimar custos.


A resposta da Cúria saiu a 19 de abril de 1820, em setenta e uma palavras, e é um dos documentos mais lidos da história do continente porque foi reproduzido em panfleto por toda a gente, dos dois lados, durante trinta anos.

Dizia:

A Sé Apostólica de Aurum Roma louva o zelo das casas signatárias e recomenda-o à oração dos fiéis.

A capelania de campo com faculdade e provisão de purificação em marcha é ministério, e não mercadoria; não se concede a requerimento, nem se reparte por hoste que não seja levantada sob autoridade do Um.

Recomenda-se às casas signatárias que difiram a empresa e que se ponham sob tal autoridade, em cujo caso serão providas.

Krell leu-a no dia em que saiu e a única coisa que pensou — e escreveu-a no Memorial onze anos depois, e é a coisa mais amarga que aquele livro contém — foi:

Estava tudo lá menos o número. Se tivéssemos escrito quarenta, eles teriam percebido. Escrevemos «ministério, e não mercadoria», que é verdade, que é belo, e que não ensina nada a ninguém.

Um homem que ouve «não se vende» procura outro vendedor. Um homem que ouve «são precisos quarenta e nós temos três mil e há sete fronteiras» faz contas.

Nós sabíamos fazer a conta e não a pusemos na carta, porque pôr a conta na carta era admitir que a graça se conta. E enquanto discutíamos se se contava, eles compraram.


O segundo movimento deste capítulo passa-se a seiscentos quilómetros de distância e sete semanas mais tarde, e Krell nunca soube que tinha acontecido.

Em junho de 1820 chegou ao quartel da Casa Solar, nos vales de Ferrum Alpina, um emissário das nove casas, com escolta de seis cavaleiros seculares e uma carta de crédito sacada sobre um banco cantonal.

Vinha comprar homens.

Não dizia assim, evidentemente. A proposta era de incorporação temporária de contingente aliado, por dezoito meses, com soldo, com mantimento, com armamento fornecido e com — e era este o artigo que interessava e que estava escrito em terceiro lugar para não parecer o primeiro — reconhecimento da Ordem dos Cavaleiros do Selo como corpo constituído, para todos os efeitos legais, pelas nove casas signatárias e pelas coroas a que se acham ligadas.

Mattias leu aquilo três vezes.

Era, do ponto de vista dele e do ponto de vista de qualquer homem que tivesse passado cinco invernos a alugar escoltas por doze ducados para pagar cevada, a única oferta séria que a Ordem recebera desde que existia em papel.

Soldo para sessenta e dois homens. Armamento. E existência jurídica.

Existência jurídica, oferecida por nove casas seculares, cinco anos depois de o Um ter decretado a Ordem e não ter conseguido dotá-la de coisa nenhuma.


Mattias pediu um dia. Deram-lhe um dia.

Passou-o sozinho, a subir até ao colo acima do mosteiro, que era uma coisa que fazia quando precisava de pensar e que continuou a fazer até aos sessenta anos.

E o que o decidiu não foi lealdade, e não foi teologia, e ele foi sempre honesto sobre isso com os dois ou três homens a quem contou a história.

Foi a terceira regra.

Uma unidade sem purificador em condições retira-se, mesmo vencendo.

Ele escrevera aquilo num caderno em 1818, depois de uma casa de pastor e de um cartucho que lhe custara quatro horas. E a proposta que estava em cima da mesa lá em baixo, nas dezanove cláusulas, não mencionava purificadores uma única vez.

Nem uma. Mattias contou.

Falava de armamento fornecido. Falava de munição em quantidade — dava até um número, e o número era generoso, e Mattias, que tinha passado a vida a contar cartuchos à unidade, olhou para aquele número e percebeu num segundo o que ele significava e o que ele não dizia.

Dizia quantas balas. Não dizia quem as ia voltar a acordar em setembro.

Desceu ao fim da tarde e recusou.

O emissário perguntou-lhe porquê, com uma irritação perfeitamente razoável, e Mattias deu-lhe a resposta que deu, que tem quinze palavras e que a Casa Solar mandou gravar em pedra em 1863 sem perceber lá muito bem porquê:

— Porque os senhores contaram as balas e não contaram quem as faz.


O emissário partiu na manhã seguinte. Foi a seguir a Königsmark, onde teve mais sorte, e depois ao leste, onde teve muito mais.

E em junho de 1821, nove mil homens formaram numa planície chamada Marnheim com quatrocentos e noventa e quatro mil cartuchos comprados a uma casa cantonal e um cónego de Vallia num cavalo branco, e os sessenta e dois homens da Casa Solar não estavam lá.

Mattias soube disso em setembro, por um mercador.

Ficou a pensar na conversa do colo durante o resto da vida, e a conclusão a que chegou, e que nunca disse a ninguém porque não havia como a dizer sem soar a uma coisa que ele não queria que soasse, foi que ele não os salvara por virtude nenhuma.

Salvara-os porque, dois anos antes, um rapaz de Bierkut chamado Halvard disparara cinco tiros numa casa de pastor e quatro não tinham servido para nada.

Sessenta e dois homens ficaram vivos porque um deles gastara quatro cartuchos mortos em fevereiro de 1818.

É assim que este universo distribui as coisas, e não há maneira de o dizer que não soe a blasfémia ou a sorte.


ATO II — MARNHEIM

VI. O Verão

O verão de 1821 foi, em Aurum Roma, o mais bonito de que havia memória, e toda a gente reparou nisso na altura e toda a gente o disse depois, e há qualquer coisa de obsceno na maneira como os anos se lembram de si próprios.

Krell trabalhou.

Trabalhou porque era junho e as contas de 1820 fechavam em julho e porque a Congregação dos Meios tinha então onze funcionários para um território de cento e onze dioceses, e trabalhou também porque a alternativa era pensar, e ele sabia o que ia pensar se se deixasse.

Sabia a data da partida. Toda a Cúria sabia a data da partida. Tinha vindo num despacho da nunciatura de Reichshamn em maio, com a informação de que a hoste se concentraria em Marnheim a partir de 8 de junho e cruzaria a linha por Vado Aureo na segunda semana de julho, e o despacho estava escrito naquele tom neutro dos diplomatas que é a única coisa que uma pessoa não suporta.

Krell leu-o e depois foi buscar o parecer de abril de 1820 e releu a quarta folha.

A prestação é materialmente exequível a custo grave.

Voltou a arrumar tudo. Foi fechar as contas de 1820.


A 4 de julho houve uma audiência de rotina sobre o dízimo das províncias do sul, e no fim dela, já com os papéis arrumados, Aurelianus I perguntou-lhe:

— Cardeal. Aquela conta que o senhor fez no ano passado. Quarenta.

— Quarenta, Santíssimo Padre.

— Ainda são quarenta?

— Hoje seriam quarenta e três, porque perdemos onze licenciados em Ferrum Alpina no inverno e a média de produção caiu. — Krell hesitou, e depois disse-o, porque tinha sessenta e oito anos de vida pela frente e não tinha nenhuma vontade de os passar a não ter dito: — Mas eles já não estão a pedir, Santíssimo Padre. Partiram a oito de junho.

O Um assentiu devagar.

— Eu sei — disse.

E depois, ao fim de um tempo:

— O senhor acha que eu devia ter dado.

— Acho que teria custado sete guarnições, e que eu não sei quanto custa o contrário, e que ninguém sabe, e que dentro de três meses vamos saber.

Aurelianus I ficou muito quieto, com as duas mãos no espaldar de uma cadeira em que não se sentava.

— Não vamos saber — disse. — Vamos saber o que aconteceu. Não é a mesma coisa que saber quanto custou o contrário, porque o contrário não aconteceu, e o que não acontece não se mede.

Krell não tinha resposta para aquilo, e a razão de não ter resposta era que era verdade e que era, além disso, exatamente a mesma coisa que ele próprio dizia aos bispos que lhe pediam verbas para obras que evitariam desastres futuros.

— O senhor é um homem de números e vai levar a vida inteira a fazer esta subtração — disse o Um, já a sair. — Faça-a bem. Alguém nesta casa tem de a fazer bem.


Houve, entre julho e setembro de 1821, um fenómeno em Aurum Roma que não tem nome e que Krell descreveu no Memorial com uma frase que os historiadores da Ordem citam sempre sem a fonte:

A cidade rezou por eles com uma generosidade que não teria tido se os tivéssemos socorrido.

Foi verdade. Foi ostensivamente verdade e toda a gente participou.

Houve procissão de rogação a 14 de julho, com trinta e um mil pessoas na Via do Coro, o que era mais gente do que aparecera na coroação de Aurelianus I. Houve missas diárias em vinte e duas paróquias pelos que atravessaram a linha. Houve, na Catedral do Hashmal — que era então quatro paredes e um andaime e um altar provisório de tábua — uma vigília de quarenta horas em agosto, com revezamento de cónegos, e Krell foi lá às três da manhã de um sábado e encontrou a nave cheia.

E ele ajoelhou-se com os outros, e rezou, e rezou a sério, porque era um homem de fé genuína e é preciso dizê-lo porque tudo o resto neste livro pode fazer parecer que não era.

E enquanto rezava, com os joelhos no chão de terra batida de uma catedral por acabar, pensou — e não conseguiu não pensar, e nunca se perdoou o pensamento, e confessou-o duas vezes a dois confessores diferentes e nenhum dos dois percebeu o que ele estava a confessar:

Se lhes tivéssemos dado quarenta homens, nenhuma destas trinta e uma mil pessoas estaria aqui, porque não haveria por que rezar. Nós recusámos, e a recusa produziu a maior demonstração de fé pública desta cidade em quarenta anos. E daqui a dois meses, se aquilo correr mal, a mesma recusa vai produzir a maior transferência de autoridade da história da Sé.

E eu não fiz isto acontecer. E vou beneficiar disto. E não há uma única linha no direito canónico que me acuse de coisa nenhuma.


VII. A Notícia

A primeira notícia chegou a 9 de setembro de 1821, por um correio de Vykhradia, e não era uma notícia: era uma ausência de notícia, transmitida com a precisão nervosa de um homem que percebe que está a dizer uma coisa grave.

Dizia que a hoste não tinha enviado despacho desde 22 de julho.

Quarenta e nove dias.

Krell levou o papel ao Secretário de Estado e o Secretário de Estado levou-o ao Um, e nessa tarde a Cúria fez a única coisa que podia fazer, que era mandar gente ver — dois cónegos e uma escolta de doze, a cavalo, por Vado Aureo, com instrução de não cruzar a linha.

Partiram a 11 de setembro. Voltaram a 3 de outubro.

Entre essas duas datas, Aurum Roma soube pelos comerciantes, como sempre, porque os comerciantes são mais rápidos do que as nunciaturas e não têm de escrever com cuidado.


A primeira versão que circulou na cidade foi que a hoste tinha sido destroçada numa batalha. Durou quatro dias e era falsa.

A segunda versão foi que tinha havido traição de uma das nove casas. Durou três semanas, e ainda hoje há quem a defenda, e o canon nunca a fechou.

A terceira versão foi a verdadeira e chegou a 26 de setembro, num relato de terceira mão que tinha vindo de um transitário de Solnica que o ouvira de um pastor da fronteira, e Krell ouviu-a na antecâmara, de pé, de um monsenhor que a contava a dois outros.

A hoste tinha entrado. Tinha combatido durante onze dias. Ao décimo segundo dia, a munição consagrada tinha acabado.

E depois disso — e é esta a parte que fez com que aquela versão fosse imediatamente reconhecida como verdadeira por toda a gente que sabia alguma coisa, porque é uma coisa que ninguém inventa — eles não recuaram.

Não recuaram porque estavam a quatro dias de marcha da linha, com feridos, em terreno que não conheciam, e porque recuar com metal morto é a mesma coisa que ficar com metal morto só que a andar.

Aguentaram mais dezanove dias.

Nove mil homens com espadas de Ferro-do-Coro que ainda serviam, porque o Ferro-do-Coro não se apaga do mesmo modo — uma lâmina benzida em 1819 corta em 1821 —, e com quatrocentos e noventa e quatro mil cartuchos que eram, a partir do décimo segundo dia, latão e prata sem nada dentro.

Dezanove dias a corpo.


Krell saiu da antecâmara e foi para o gabinete e fechou a porta e sentou-se.

E a coisa que lhe aconteceu ali, e que ele registou no Memorial de 1831 com uma precisão quase clínica porque era o único modo de a suportar, foi que a cabeça dele fez a conta sozinha.

Não quis fazê-la. Fê-la.

Onze dias de munição. Quarenta e três purificadores teriam sustentado quarenta e cinco mil por dia. Trinta dias de campanha exigiam um milhão trezentos e cinquenta mil cartuchos, e eles levavam quatrocentos e noventa e quatro.

Com quarenta e três homens de Ferrum Alpina em marcha, aquela hoste tinha munição para trinta dias.

Não tinha vitória. Krell não se iludia quanto a isso e ninguém competente se iludiu: nove mil homens no Limbus Mundi não tomam nada, com ou sem balas, porque não há nada para tomar e porque o problema do Limbo nunca foi de fogo, foi de terreno. Eles teriam entrado, andado trinta dias, percebido que não havia objetivo nenhum, e voltado.

Voltado.

Nove mil homens voltavam, humilhados, sem vitória, com perdas pesadas de doença e de escaramuça — e vivos. E as nove casas ficariam com a certeza de que se podia fazer sem Roma, e com a prova disso, e com nove mil veteranos.

Krell ficou sentado àquela mesa e percebeu, com uma clareza que lhe levantou o estômago, que a recusa de 19 de abril de 1820 tinha sido, do ponto de vista estrito da razão de Estado, a decisão mais eficaz tomada naquele palácio no século.

E que ninguém a tinha tomado por isso.

Nove cardeais tinham votado contra por uma razão teológica sincera, expressa numa frase bonita sobre ministério e mercadoria. Ele próprio votara a favor. O Um confirmara a maioria. Ninguém, em nenhum momento, em nenhuma sala, tinha dito se lhes recusarmos, eles morrem, e se morrerem ficamos com tudo.

Ninguém dissera. Ele teria sabido — ele lia todas as atas.

E no entanto ali estava: aconteceu exatamente aquilo, e a Sé de Aurum Roma ia receber, em novembro de 1821, uma autoridade sobre o continente que não conseguira construir em seis anos de decretos, e ia recebê-la por não ter feito nada, e ia recebê-la com as mãos limpas de qualquer intenção e sujas de toda a consequência.

Krell escreveu, nesse dia, numa folha solta que não pôs em processo nenhum e que se encontrou entre os papéis dele em 1841:

Não pecámos. Herdámos.

Que Deus me diga qual das duas é pior de carregar, porque eu não consigo decidir.


Os dois cónegos voltaram a 3 de outubro e o relatório deles tem quatro páginas e é seco.

Não tinham cruzado a linha. Tinham ficado onze dias em Vado Aureo a interrogar quem passava, que era pouca gente, e a terceira página contém a única informação nova que trouxeram e que a Cúria classificou durante trinta anos:

Que a 14 de setembro tinham sido avistados, do lado de cá, dois homens.

Dois, de nove mil. Vinham a pé, sem armas, e um deles não falava. O outro falou durante seis horas e depois morreu no dia seguinte, e o que ele disse está nas páginas três e quatro, e foi disso que saiu tudo o que o continente sabe sobre os trinta dias, e é pouco, e é contraditório, e um homem que andou trinta dias naquilo e seis horas a falar não é uma fonte que se possa tratar com severidade.

O homem chamava-se Anselm e era ajudante de ferrador da casa de Reichshamn e tinha vinte e dois anos, e a primeira coisa que perguntou quando o sentaram foi se havia pão.

Deram-lhe pão. Comeu-o todo e pediu mais e não conseguiu comer o segundo.

Depois falou seis horas.


Depoimento recolhido em Vado Aureo, 15 de setembro de 1821, pelo cónego Bertold, comissário da Sé. Registo integral, sem interrupção do depoente.

Perguntam-me quantos dias. Eu digo trinta e um e o outro diz vinte e nove e nenhum de nós tem razão porque a partir de certa altura não há dia.

Não é escuro. Isso é o que toda a gente pergunta primeiro e não é isso. Há luz, há uma coisa laranja em cima, e não se mexe. Não anda de um lado para o outro como o sol. Fica.

A primeira semana foi boa. Digo boa e os senhores vão escrever isso e vão achar que eu estou doido, mas foi boa. Marchámos quatro dias sem ver nada, e ao quinto houve contacto e ganhámos, e ao sexto houve outro e ganhámos, e ao sétimo os homens estavam a cantar. Eu vi nove mil homens a cantar dentro daquilo.

Ao sétimo dia o Conde mandou parar e fazer conselho, porque tínhamos entrado quatro dias e não havia nada. Ninguém tinha explicado aos homens o que é que íamos tomar. Eu sou ferrador, não sou ninguém, mas eu andava com os cavalos dos oficiais e ouvia, e ao sétimo dia ouvi um capitão de Velinia perguntar ao capitão dele qual era a cidade.

Não há cidade, senhores. É essa a coisa. Marcha-se e não há para onde ir.


Ao décimo dia o quartel-mestre veio ao Conde. Eu estava a dez passos com dois cavalos.

Ele disse que estávamos a gastar mais do que o previsto. O Conde perguntou quanto é que havia. Ele disse o número, e eu não sei o número, mas sei que o Conde repetiu-o em voz alta e a seguir ficou calado muito tempo.

E depois o Conde perguntou uma coisa que eu percebi que era a coisa errada de perguntar, e eu tinha vinte e dois anos e era ferrador e percebi, e portanto eles também perceberam.

Perguntou ao quartel-mestre se o cónego não podia fazer mais.


O cónego chamava-se Bonifácio e vinha de Vallia e tinha, sei lá, cinquenta anos. Andava a cavalo branco porque era o cavalo que lhe tinham dado e ele achava aquilo constrangedor e disse-o várias vezes.

Ele era boa pessoa. Digo-o porque vão perguntar.

Trouxeram-no e explicaram-lhe, e ele ouviu, e depois disse ao Conde uma coisa que eu não percebi na altura e que percebi depois, que foi:

«Senhor Conde, eu faço trezentos por dia se não fizer mais nada. Quantos é que se gastam num dia de contacto?»

E o quartel-mestre disse o número.

E o cónego Bonifácio sentou-se no chão. Um padre de cinquenta anos sentou-se no chão à frente de um conde e de quatro capitães e ficou lá sentado.

Ninguém o levantou.


A partir do décimo primeiro dia ele não fez mais nada além daquilo. Montaram-lhe uma tenda no centro do quadrado com dois homens à porta e ele ficou lá dentro desde o amanhecer até não conseguir.

Eu levei-lhe água quatro vezes porque me mandaram.

Na primeira vez ele estava a trabalhar e falou comigo. Perguntou-me como é que eu me chamava e de onde é que eu era e disse-me que tinha uma sobrinha em Reichshamn.

Na segunda vez não falou.

Na terceira vez ele agarrou-me no braço e perguntou-me se os homens estavam a disparar muito. Eu disse que sim porque era verdade. Ele disse: «Diz-lhes para não dispararem.» Eu disse que não era ninguém para dizer aquilo a ninguém. Ele disse: «Eu sei. Desculpa.»

Na quarta vez foi ao quinto dia e ele já não estava a falar e a mão dele já não fechava, e eu vi-o, senhores, eu vi-o pegar num cartucho com as duas mãos como quem pega numa taça, e rezar em cima dele, e pô-lo na caixa da direita.

E eu fiquei a olhar e ele viu-me a olhar.


Ele sabia.

É isto que eu vim dizer e depois podem escrever o que quiserem. O cónego Bonifácio sabia que aquilo que ele estava a fazer ao quinto dia já não servia. Eu vi-lho na cara. Não é uma coisa que se possa não perceber.

E continuou.

E eu saí da tenda e fui ter com o sargento e disse-lhe, e o sargento levou-me ao capitão, e o capitão ouviu-me até ao fim e depois disse-me que eu era ferrador.

Eu disse que sim, que era ferrador.

E ele disse: «Então não percebes de bênçãos.» E mandou-me embora.

E eu fiquei três dias a achar que ele tinha razão, senhores, três dias inteiros, porque eu tinha vinte e dois anos e era ferrador e quem é que eu sou para saber.

Só que ao terceiro dia houve contacto e eu estava no meio, e vi uma fila de doze homens a disparar sobre uma coisa a vinte passos, e vi a coisa chegar aos doze.


Depois disso é como eu disse. Não há dia.

Havia as espadas. As espadas serviam. Toda a gente pensa que aquilo se faz com armas de fogo e não se faz, senhores, aquilo faz-se com um homem a três passos de outra coisa com um ferro nas mãos, e os ferros serviam, e é por isso que aguentámos o que aguentámos.

Aguentámos dezanove dias com espadas.

Nove mil homens. Depois sete. Depois não sei.

O Conde de Reichshamn morreu ao vigésimo segundo ou vigésimo terceiro e morreu a pé porque já não havia cavalos, e morreu à frente e não atrás, e eu quero que isso fique escrito porque em Reichshamn vão dizer o contrário.

O cónego Bonifácio morreu antes, não sei quando. Alguém disse que tinha sido na tenda e que não o mataram, que ele simplesmente não acordou.

Espero que seja verdade.


Perguntam-me como é que eu saí.

Andei. Andei com o Kaspar, que é o outro, e o Kaspar não fala desde o décimo dia e eu acho que não vai voltar a falar.

Andámos sete dias ou nove. Comemos o que havia e não vou dizer o que havia.

Perguntam-me se sabíamos para onde íamos. Íamos para oeste, porque a luz laranja está sempre um pouco mais alta a leste e um pouco mais baixa a oeste, e foi o Kaspar que percebeu isso ao terceiro dia e foi a última coisa que ele me disse.


Uma coisa mais e depois já não tenho.

Ao décimo segundo dia, quando a munição acabou de vez, o Conde mandou formar quadrado e falou aos homens. Eu ouvi porque estava perto.

Ele disse-lhes a verdade. Disse que a munição tinha acabado e que íamos sair a ferro e que quem quisesse rezar rezasse.

E depois disse uma coisa que eu não esperava e que ninguém esperava, e houve um silêncio grande, e foi:

«E não digam mal de Roma. Roma disse-nos que não. Fomos nós que viemos.»

Nove mil homens, senhores. Ele podia ter dito o contrário e eles teriam acreditado e teriam morrido com raiva em vez de morrerem como morreram.

Não disse.


O cónego Bertold escreveu, no fim das treze folhas, uma nota de comissário:

O depoente faleceu às cinco da manhã de 16 de setembro, de causa que o médico declara ser esgotamento e desnutrição. Não recebeu os sacramentos por já não estar consciente quando se chamou o capelão, o que se lamenta e se regista.

O segundo sobrevivente, de nome Kaspar, não falou e continua a não falar. Segue para casa de misericórdia em Vallium.


Krell leu as treze folhas três vezes e foi à última que percebeu qual delas o ia acompanhar.

Não foi o cónego a rezar com as duas mãos. Não foi não há dia. Não foi sequer o Conde a dizer aos nove mil que a culpa não era de Roma, embora essa frase tenha corrido a Cúria inteira em quarenta e oito horas e tenha valido a Ottokar de Reichshamn, de um cardeal que nunca o conhecera, o epitáfio que hoje está na basílica de Reichshamn.

Foi o capitão.

Então não percebes de bênçãos.

Krell escreveu, na margem da folha nove:

Aquele capitão não estava a mentir e não estava a ser cruel. Era o que ele sabia. Era o que nós lhe tínhamos ensinado — nós, durante trinta anos, do púlpito: que aquilo é uma bênção, e que uma bênção não se mede, e que perguntar quantas é matéria de pouca fé.

Um ferrador de vinte e dois anos, que via o cónego às quintas-feiras, percebeu em cinco dias o que a nossa catequese passou trinta anos a tornar impensável para um capitão de cavalaria.

E quando ele o disse, o capitão respondeu-lhe com a nossa frase.

Nós armámos aquela frase. Ela estava carregada e nós pusemo-la na boca dele.


E foi o quinto dia do cónego Bonifácio.

Ninguém lhe disse. Deixaram-no fazer, e distribuíram o que ele fez, porque a alternativa era dizer a nove mil homens que já não havia.

Krell leu essa passagem quatro vezes.

Depois foi ao arquivo buscar o formulário de censo da Casa Solar, de dezembro de 1819, com a caligrafia direita e pequena no campo do nome onde dizia nenhum, e pô-lo em cima do relatório, e ficou a olhar para os dois papéis lado a lado.

Onze cartuchos, por oficial não ordenado, por método não licenciado.

Onze que funcionavam.

Contra quatro dias de um cónego licenciado a fazer prata morta porque já não tinha mãos e ninguém teve coragem de lhe dizer.


VIII. O Turno de Setembro

A Vigília não soube de nada, porque a Vigília nunca sabe de nada: é uma casa fechada com catorze chamas e uma cadeira, e as notícias do mundo entram lá com três semanas de atraso e em versão diminuída, porque a Madre Vigilante da altura entendia — e todas entenderam, antes e depois dela — que uma Branca que sabe o que está a acontecer lá fora escuta pior.

Aelius sabia. Aelius saía ao domingo e tinha um irmão na cidade.

E é por isso que a transcrição de 30 de setembro de 1821 é o documento mais difícil da carreira dele, e é o único sobre o qual ele mentiu.


Estava em turno a Branca Sétima, dezanove anos, segundo ano, uma rapariga de Coronata que tinha entrado com dezassete e que ia morrer em 1826, o que era mais ou menos o prazo.

O turno começou às seis e um quarto. Correu quarenta minutos de nada.

Depois houve inscrição, e a inscrição durou catorze segundos, e as palavras foram nove, e Aelius escreveu-as como escrevia tudo, sem pontuar, com a chama fora do campo de visão.

As nove palavras eram:

não foi recusa foi conta e a conta estava certa


Aelius pousou a pena.

Um escrivão de Vigília não pousa a pena durante um turno. Está na regra e está no treino e está na cabeça de um homem que faz aquilo há trinta e um anos do modo como está a respiração.

Ele pousou-a.

E ficou a olhar para as nove palavras na folha, com a caligrafia dele, pequena e direita, e a primeira coisa que pensou foi um pensamento de ofício e não de teologia, e foi:

Isto é português da cidade. Isto é uma frase que se ouve numa taberna da Via do Coro em setembro de 1821.

Porque era. Não tinha um único termo técnico. Não tinha metalurgia, não tinha proporção, não tinha nome de coisa que uma rapariga de dezanove anos de Coronata não pudesse ter ouvido na rua se tivesse estado na rua, o que ela não estivera havia dois anos.

E tinha — e era isto que estava a fazer a mão de Aelius de Sárvar não voltar à pena — a estrutura exata de uma acusação.


A Madre Vigilante daquele ano leu a folha e perguntou-lhe o que é que ele achava.

Um escrivão não acha. Perguntar a um escrivão o que ele acha é uma violação de protocolo tão grande que a Madre a cometeu de propósito, e Aelius percebeu que era de propósito.

Ele disse:

— Madre, isto pode ser contaminação.

— Explique.

E Aelius explicou, e explicou bem, porque tinha trinta e um anos de ofício e porque a contaminação era o problema técnico central da coisa toda e ninguém falava nele em voz alta: uma Branca não é um instrumento. É uma rapariga de dezanove anos dentro de uma casa onde entram cónegos, criadas, lavadeiras, o médico, a irmã que traz a comida. O que sai daquela cadeira sai pela boca dela, com a língua dela, com o vocabulário que ela tem. Se ela ouviu uma frase na cozinha na terça-feira, essa frase está na cabeça dela na quinta.

E se o que o Hashmal faz é usar o vocabulário que encontra, então não há maneira nenhuma, nenhuma, de distinguir uma inscrição verdadeira de uma frase de cozinha — exceto quando a inscrição diz uma coisa que a rapariga não podia saber.

Uma liga metalúrgica ela não podia saber. Era por isso que as ligas eram o padrão-ouro.

Não foi recusa foi conta e a conta estava certa — isso ela podia ter ouvido de uma lavadeira.

— Então o senhor acha que é falso — disse a Madre.

— Eu acho que não é verificável, Madre, e é uma coisa diferente, e é a pior das duas.


A Madre Vigilante tinha de decidir o que fazia com aquilo, e o que ela fez é o que qualquer pessoa naquele lugar teria feito e é a razão pela qual existe hoje um artigo específico sobre isto nas sete regras.

Mandou não transmitir.

A transcrição ficou na casa. Não subiu à Cúria. Não entrou no extrato semanal que ia aos Cardeais-Eleitores. Ficou no maço de setembro de 1821 da Vigília Branca, com a nota da Madre à margem — inscrição de vocábulo corrente, não verificável, retida — e é por isso que nenhum cardeal, nenhum Pontífice e nenhum inquisidor alguma vez soube que, treze dias depois de o relato dos dois sobreviventes chegar a Aurum Roma, uma rapariga de dezanove anos que não podia saber de nada disse nove palavras que descreviam exatamente o que Amandus Krell tinha escrito numa folha solta no gabinete, sozinho, com a porta fechada.

Aelius de Sárvar copiou a folha antes de a arquivar.

Foi a única vez em cinquenta e um anos que copiou uma transcrição para si próprio, e é matéria disciplinar grave, e ele fê-lo, e guardou a cópia numa bíblia, e ela esteve nessa bíblia mais vinte anos.


A razão por que a guardou não foi teológica e não foi curiosidade.

Foi esta, e ele escreveu-a atrás da folha, e a folha existe porque em 1841 o sobrinho-neto encontrou a bíblia:

Se isto é do Céu, então o Céu comentou uma decisão administrativa da Cúria e disse que ela estava certa, e nós retivemos o comentário porque não o pudemos verificar.

Se isto não é do Céu, então uma rapariga de dezanove anos, fechada há dois anos numa casa sem jornais, chegou sozinha à mesma conclusão que os nove cardeais mais bem informados do continente não conseguiram formular em voz alta numa sala.

Não sei qual das duas hipóteses me assusta mais, e trabalho nisto há trinta e um anos.


IX. O Que Se Faz Com Nove Mil

A Cúria não fez nada durante sete semanas, e foi a coisa mais inteligente que fez em todo o pontificado.

Krell viu-a acontecer de dentro e percebeu o mecanismo, e o mecanismo não foi astúcia: foi paralisia, e a paralisia pareceu-se, de fora, com tato.

Ninguém sabia o que dizer. Uma hoste de nove mil homens levantada por nove casas cristãs contra o Inferno tinha sido aniquilada, e Roma recusara-lhes capelania sete meses antes por escrito, e a carta da recusa estava em circulação no continente inteiro em cópia de panfleto. Qualquer declaração da Sé naquelas semanas seria lida como defesa.

Portanto a Sé não declarou.

Mandou dizer missas. Mandou tocar os sinos de Aurum Roma durante uma hora a 9 de outubro, o que foi decidido numa reunião de quarenta minutos em que se discutiu se uma hora era pouco ou muito e em que ninguém quis ser o primeiro a dizer muito.

E esperou.


A resposta veio das casas, e veio partida, e foi essa fratura que decidiu tudo.

Das nove casas signatárias, quatro estavam extintas em linha varonil direta em outubro de 1821. Uma quinta tinha um herdeiro de onze anos sob tutela. As outras quatro tinham chefes vivos porque os chefes não tinham ido — e é preciso dizer isto, porque o púlpito passou setenta anos a fazer dos Nove Estandartes um poema sobre nove condes heroicos, e a verdade documental é que seis dos nove signatários não estiveram em Marnheim. Mandaram filhos, mandaram irmãos, mandaram capitães.

Ottokar de Reichshamn foi. É a razão pela qual é ele o nome que ficou, e é uma razão suficiente, e há muito poucas coisas neste universo em que a fama e o mérito coincidam tão exatamente.

Os seis que ficaram passaram o inverno de 1821 a acusar-se uns aos outros.

Acusaram-se de tudo o que havia para acusar: de contingente prometido e não enviado, de dinheiro não entregue, de armamento desviado, e — a acusação mais repetida e a única que interessava — de abastecimento. Cada casa alegou que outra tinha ficado encarregada da segunda remessa. A segunda remessa não existia em contrato nenhum. Krell mandou verificar, porque a Congregação dos Meios foi, por um acaso administrativo, o organismo a quem coube reunir os documentos.

Não existia. Nunca tinha existido.

Nove casas tinham enviado nove mil homens ao Limbus Mundi com uma remessa única, e nenhuma delas tinha perguntado às outras oito o que acontecia no décimo segundo dia, porque cada uma assumiu que alguém teria pensado nisso.


Krell escreveu o parecer final sobre os abastecimentos de Marnheim em janeiro de 1823, e foi ele quem redigiu, com as próprias mãos, as duas linhas da página treze que o continente inteiro decorou:

A expedição partiu sem capelania de campo com faculdade e provisão de purificação em marcha, contra o costume e contra o conselho, e é nesta falta que a Comissão firma a causa próxima do desastre.

Ele sabia que era insuficiente quando o escreveu. Escreveu-o na mesma, e passou o resto da vida a olhar para aquela frase, e no Memorial de 1831 dedicou-lhe onze páginas.

O argumento dele, em 1831, era este:

Que ele tinha diante de si, em janeiro de 1823, três verdades, e que só duas cabiam num documento público.

A primeira verdade era que eles tinham partido sem capelania. Verdadeira, simples, publicável.

A segunda era que a capelania de que precisavam eram quarenta homens e não um, e que portanto o problema não era dogmático mas industrial, e que qualquer pessoa com esse número na cabeça perceberia imediatamente que o monopólio da Sé não era um privilégio, era uma fábrica.

A terceira era que Roma tinha recusado os quarenta e podia tê-los dado.

Publicar a segunda obrigava a publicar a terceira.

E publicar a terceira, em 1823, com o continente inteiro a ler panfletos, teria sido — Krell escreveu isto e depois sublinhou-o, e o sublinhado está no manuscrito — entregar às coroas seculares, por escrito e com o selo da Sé, a informação exata de quanto lhes faltava para prescindirem de nós.

Quarenta homens. É um número pequeno. Um rei consegue quarenta homens.

Não conseguiria formá-los — mas conseguiria comprá-los, e a Cúria não tinha nessa altura nenhum mecanismo para impedir que um licenciado de Ferrumkar aceitasse trezentos ducados por ano de um príncipe alpino, porque a exclusividade de serviço dos purificadores licenciados só foi instituída em 1824, e foi instituída por causa disto, e Krell redigiu-a.


Foi por isso, e não por crueldade nem por cinismo, que a página treze diz sem capelania no singular.

E foi por isso que em 1890, sessenta e sete anos depois, um bispo qualquer num púlpito de província ainda podia dizer compraram a bala e acharam que tinham comprado a graça e toda a congregação assentia — porque a frase é verdadeira, é bonita, e esconde exatamente a informação que a Sé decidiu, numa sala, em janeiro de 1823, que não devia circular.

Krell morreu convencido de que fizera bem e de que fizera uma coisa má, e não considerava as duas proposições incompatíveis, e escreveu-o assim:

Um homem de meios passa a vida a escolher entre dois males aritméticos. A minha desgraça não foi ter escolhido mal. Foi ter tido, das três verdades, a única que não cabia, e ter sido eu a decidir que não cabia, e ter tido razão.


O segundo movimento é de novembro de 1821 e dura quarenta minutos.

Aurelianus I convocou onze cardeais e não convocou Krell, o que foi observado, e mandou-o chamar a meio, o que foi observado ainda mais.

Quando Krell entrou, a sala estava em silêncio e havia um mapa em cima da mesa.

O Um disse-lhe:

— Cardeal. Quanto custa dotar as Ordens?

E Krell — que tinha aquele número na cabeça desde fevereiro de 1816, revisto quinze vezes, e que o dissera naquela casa duas vezes e fora educadamente ignorado nas duas — respondeu:

— Quarenta e um por cento da receita conhecida, Santíssimo Padre. Hoje, com o censo fechado e a receita de 1820 apurada: trinta e oito.

— E se se cobrasse imposto sobre mineral purificado fora de obediência?

— Vinte e nove.

— E se os purificadores licenciados ficassem proibidos de servir fora da Sé?

Krell parou.

Porque a segunda pergunta era a proposta dele de 1816 e a terceira não era: a terceira era nova, e era brutal, e não lhe tinha ocorrido, e ele percebeu num instante que tinha sido pensada por alguém naquela sala nos últimos trinta dias.

— Isso não baixa o custo, Santíssimo Padre — disse devagar. — Isso muda outra coisa. Se um licenciado não pode servir fora da Sé, então todo o mineral purificado do continente passa por nós, e o preço dele deixa de ser preço de mercado.

— E passa a ser o quê?

— Passa a ser o que nós dissermos.

Silêncio.

— Com esse, quanto custa? — disse o Um.

Krell fez a conta de cabeça, ali, diante de onze cardeais, e levou talvez dezoito segundos, e a resposta foi:

— Não custa, Santíssimo Padre. Rende.


O inverno de 1821 para 1822, no quartel da Casa Solar, foi o pior dos sete que Mattias lá passou, e não foi por falta de cevada.

A notícia de Marnheim chegou em setembro, pelo mercador, e chegou em versão curta e errada — a hoste foi destroçada — e a versão verdadeira só chegou em novembro, num panfleto impresso em Bernkanton que alguém trouxe do vale e que passou de mão em mão durante três semanas até se desfazer.

O panfleto tinha oito páginas e a quarta trazia, em caixa alta, o texto integral da recusa da Sé de 19 de abril de 1820.

As setenta e uma palavras.


Mattias leu-as no refeitório, numa noite, em voz alta, porque quatro homens lhe pediram que lesse e porque recusar teria sido pior.

A capelania de campo com faculdade e provisão de purificação em marcha é ministério, e não mercadoria; não se concede a requerimento, nem se reparte por hoste que não seja levantada sob autoridade do Um.

Acabou de ler. Pousou o panfleto.

E um homem ao fundo da mesa — não se sabe qual, e Mattias, que se lembrava de tudo, insistiu sempre que não se lembrava de qual, o que é a única mentira documentada da vida dele — disse:

— E nós somos o quê?


Era a pergunta.

Sessenta e dois homens num mosteiro desafetado, que tinham jurado três votos a uma Ordem que existia num decreto de catorze artigos, que se sustentavam a alugar escoltas a doze ducados, e a quem a mesma Sé que não dera quarenta purificadores a nove mil cristãos também não dera, em seis anos, um saco de trigo.

Hoste levantada sob autoridade do Um. Eles eram isso. Era exatamente isso que eles eram, no papel, e há seis anos.

E não tinham recebido nada.

Mattias tinha quarenta e dois homens de menos de trinta anos naquela sala, e percebeu naquela noite, com uma nitidez que o assustou, que estava a onze palavras de ter um motim de consciência — não de violência, coisa pior: de dissolução. Homens que se vão embora um a um durante o inverno porque perceberam que estão a guardar uma coisa que não existe.

Não fez discurso. Não era capaz e sabia que não era capaz.

Fez outra coisa, e foi a decisão que fundou a cultura interna dos Cavaleiros do Selo, e ele tomou-a em qualquer coisa como quatro segundos, de pé, com o panfleto na mão:

— Amanhã às seis começo a ensinar-vos a acordar munição.


Levou-lhes o inverno inteiro e ensinou-o a sessenta e um homens, um a um, pelo método do diário sem capa.

Foi ilegal do primeiro dia ao último. O parecer de 1823 que tornou aquilo tolerável não existia; o Voto de Medida não existia; a doutrina não existia. O que existia era o Cânone de 1791 e a palavra heresia funcional, e Mattias sabia-a e sabia que a sabia cada um dos sessenta e um.

Dos sessenta e um, onze conseguiram.

Onze em cinco meses. Os outros cinquenta não — e não porque tivessem menos fé, e é isto que faz daquele inverno a coisa mais interessante que alguma vez aconteceu na Ordem antes de 1836, e é a razão pela qual Mattias escreveu sobre ele quatro páginas em 1824 e as entregou aos canonistas e os canonistas as ignoraram.

Havia entre os cinquenta homens de fé evidente. Havia dois que jejuavam sem lhes ser pedido. Havia um que rezava quatro horas por dia e que Mattias considerava, sem hesitação, o melhor homem da casa.

Nenhum dos três conseguiu.

E dos onze que conseguiram, um era o Halvard de Bierkut, que blasfemava com uma inventividade que chegou a ser famosa em três vales, e outro era um antigo desertor de Vykhradia que se confessava duas vezes por ano por obrigação e nunca por vontade.


Mattias escreveu, nas quatro páginas de 1824:

Não encontro padrão.

Ordenei os sessenta e um por tudo o que me ocorreu ordenar: idade, anos de casa, frequência de sacramento, conduta, instrução, saúde, temperamento. Nenhuma das ordenações prevê nada.

A única coisa que me parece separar os onze dos cinquenta é que os onze, à terceira ou quarta tentativa, pararam de tentar convencer-se de que ia resultar.

Não sei escrever isto melhor. Os cinquenta estavam a fazer força. Os onze, a certa altura, deixaram de fazer força e passaram a estar simplesmente presentes, e foi aí.

Isto não é doutrina e eu não a proponho como doutrina. É observação de campo de um homem sem formação teológica e provavelmente está errada.

Mas se estiver certa, então o que nós chamamos fé, para este efeito, não é o esforço. É o que fica quando o esforço acaba.

Os canonistas não usaram aquelas quatro páginas, e escreveram o Voto de Medida sem elas, e as quatro páginas ficaram no processo e ninguém as leu durante trinta e um anos.

Em 1855, um cónego da Cúria do Hashmal encontrou-as ao investigar outra coisa, e a nota que ele escreveu por cima, a lápis, está lá:

Isto devia ter sido publicado em 1824. Quantas coisas destas é que estão neste arquivo.

Não publicou.


O terceiro movimento é de fevereiro de 1822 e passa-se num mosteiro desafetado a onze quilómetros de Karentin.

Chegou um ofício. Papel bom, selo, dirigido ao Comando da Casa Solar, como o de 1818 — mas este vinha com anexo, e o anexo tinha vinte e duas folhas.

Mattias leu-o na sala do capítulo, de pé, com quatro homens a olhar para ele e sem fazer ideia de porque é que ele estava a demorar tanto.

Era a dotação.

Soldo, à tabela, com escalões. Ração. Fardamento. Uma verba anual para armamento, com o valor escrito em algarismo e por extenso. Uma verba para forragem. Instrução de que a Casa Solar recebesse, até junho, quatro purificadores licenciados em serviço permanente, com as suas despesas a cargo da Congregação dos Meios.

E, na folha dezanove, uma coisa que Mattias leu três vezes e não percebeu à primeira porque não estava à espera:

Fica determinado que os membros das Ordens Militares Clericais entregam o nome de família e adotam o da Casa em que servem, não podendo legar posto nem transmitir preferência de entrada a descendente.

Havia uma nota de pé de página. A nota dizia:

Conforme uso já observado em alguns servidores desde 1809.


Mattias da Casa Solar ficou com aquela folha na mão durante um bocado.

Depois dobrou as vinte e duas folhas e mandou tocar a formatura, e leu a dotação em voz alta aos sessenta e dois homens no pátio, e leu-a inteira, incluindo os números, porque eram homens que tinham passado cinco invernos a saber exatamente quantos quintais de cevada havia.

Não houve aplauso. Aquela Casa não tinha esse hábito e nunca o ganhou.

Um dos homens, o mais velho, que se chamava Ruprecht e que tinha entrado em 1811 e que ia morrer em Karentin-Alta em 1836 aos sessenta e quatro anos, perguntou:

— Senhor capitão. Porque é que mandaram isto agora?

E Mattias — que sabia perfeitamente porquê, que tinha sabido desde setembro, e que ia carregar aquilo os trinta e um anos seguintes com uma espécie de náusea de fundo que nunca chegou a ser culpa porque não havia de que se culpar — disse a verdade, porque não sabia dizer outra coisa:

— Porque nove mil homens morreram no verão passado, Ruprecht, e nós não estávamos lá.

Ficou calado um momento.

— E porque eu recusei um contrato em junho de 1820 por uma razão que me pareceu pequena na altura.

Depois mandou-os desfazer a formatura, e foi para dentro, e assinou o recibo da dotação, e a Ordem dos Cavaleiros do Selo começou a existir no mundo material às onze e vinte de uma manhã de fevereiro de 1822, num mosteiro desafetado, com sessenta e dois homens e um homem sem apelido a assinar um papel.


ATO III — A VAGA

X. As Três Casas

Entre 1822 e 1824 a Cúria fez, em vinte e seis meses, mais do que tinha feito nos sete anos anteriores, e Krell — que estava no centro de quase tudo aquilo e que assinou uma parte considerável — nunca se enganou quanto à causa.

Não fora conversão nenhuma. Não houvera visão, não houvera decisão corajosa, não houvera um homem forte a impor a sua vontade a uma casa relutante.

Houvera vaga.

Nove casas seculares tinham ocupado, durante cento e cinquenta anos, o espaço político em que uma Ordem Militar poderia existir. Quatro estavam extintas. Duas estavam sob tutela. As três restantes passavam o inverno a processar-se mutuamente em três tribunais diferentes, e nenhuma delas tinha, em 1822, um único argumento público disponível contra a Sé, porque qualquer argumento que fizessem seria respondido com uma pergunta de nove mil sílabas.

O espaço abriu. A Cúria entrou.

Krell escreveu no Memorial: Não fomos nós que crescemos. Foi o buraco que veio ter connosco, e tivemos o mérito de o preencher depressa, que é um mérito real e é o único que reclamo.


A Casa de Purificação de Aurum Roma abriu a 1 de setembro de 1822 com quarenta e um alunos e três mestres, num edifício do quinto pátio que fora celeiro até ao ano anterior.

Krell esteve na abertura, o que não era obrigatório, e ficou ao fundo.

Era a coisa de que mais se orgulhava e é preciso dizê-lo com cuidado porque ele próprio nunca o disse a ninguém em voz alta: de tudo o que fez em vinte e seis anos de Congregação, o que ele achava que valia eram as três casas de purificação, e valiam por uma razão que não tinha nada que ver com produção.

Tinham programa.

Até 1822, um purificador aprendia com um purificador mais velho, da maneira como um ferreiro aprende com um ferreiro. Ia para a sacristia com o cónego da paróquia, via-o fazer, fazia, era corrigido, e ao fim de três ou sete ou onze anos fazia sozinho — e o que ele aprendia era exatamente o que aquele homem sabia, com os erros daquele homem, e quando aquele homem morria morria com ele tudo o que tinha descoberto e não ensinara.

Krell tinha feito, no censo de 1819, uma pergunta suplementar que ninguém lhe mandara fazer: com quem aprendeu?

E depois passou seis meses a desenhar a árvore.

Três mil e quarenta e um purificadores no continente desciam, em linha de ensino, de duzentos e onze homens vivos em 1800. Duzentos e onze mestres. E desses, catorze tinham formado mais de trinta alunos cada, e os alunos desses catorze rendiam, em média, dezanove por cento mais do que a média geral.

Dezanove por cento.

Não era dom. Não podia ser dom — o dom não se herda por linha de ensino, ou então não é dom. Era método. Havia catorze homens no continente que sabiam fazer aquilo melhor e que sabiam ensiná-lo, e ninguém tinha alguma vez perguntado o que é que eles faziam de diferente, porque a coisa toda estava classificada como graça e sobre graça não se fazem inquéritos de produtividade.

Krell perguntou.

Mandou dois cónegos entrevistar os catorze. Nove ainda estavam vivos. O relatório tem cento e noventa páginas e é a base dos programas das três casas, e a conclusão principal cabe em três linhas e é, do ponto de vista teológico, um escândalo que ninguém nunca quis discutir:

Os mestres mais produtivos não ensinam a rezar melhor. Ensinam a parar mais cedo.

O purificador médio trabalha até às mãos tremerem e produz pedra morta na última hora sem saber. Os discípulos dos catorze param antes, descansam, e produzem menos por dia e mais por ano, e vivem mais quatro anos.


Foi disto que saiu, em 1824, a contagem dos segundos — a prática, ridicularizada durante uma geração e hoje universal, de um purificador levantar a mão direita antes de cada turno e contar quantos segundos leva até o tremor aparecer, e de registar o número.

Não mede fé. Não mede nada de metafísico. Mede uma mão.

E é, em 1890, a única coisa em todo o sistema litúrgico da Ordem Clerical que produz uma série temporal comparável ao longo de setenta anos, e é por causa dela que os Hospitalários do Hashmal conseguiram estabelecer, em 1881, que a curva estava a cair.

Um homem que tinha sido rendeiro em Vallia Sacra pôs, em 1824, sete segundos entre a Igreja e a mentira que ela ia querer contar a si própria sessenta anos mais tarde.


Os Hospitalários do Hashmal foram formalizados a 4 de maio de 1823, e Krell não teve nisso quase nenhum papel, e é o capítulo de que gostava mais de falar.

Não foram fundados. Foi o contrário: existiam desde a década de 1790, em rede, sem autorização de ninguém, como casas de misericórdia montadas por quem calhava, e tinham atravessado a Cinza a tratar de catorze milhões de pessoas que morreram de fome e de tifo e de frio — mais do que o Cataclismo matou, mais do que o combate, mais do que tudo.

O que a Cúria fez em 1823 foi reconhecê-los, e Krell teve de negociar isso, e a negociação foi a mais desagradável da carreira dele porque do outro lado da mesa estava uma mulher de sessenta e seis anos chamada Irmã Ottilie que dirigia dezanove casas em três Estados e que não queria nada.

Não queria verba. Não queria hábito. Não queria estatuto.

— Nós já fazemos — disse ela. — O senhor cardeal vem oferecer-nos autorização para uma coisa que fazemos há trinta anos sem ela, e depois vai querer alguma coisa em troca, e eu estou a tentar perceber o quê antes de o senhor mo dizer.

Krell, que gostou dela imediatamente e que o disse no Memorial, respondeu com a verdade:

— Quero os livros.

— Que livros?

— Todos. — Krell abriu as mãos em cima da mesa. — A senhora anota. Sei que anota; vi três casas suas e nas três havia caderno. Anota quem entra, quando, com quê, e o que aconteceu. Anota há trinta anos. Irmã, não existe no continente inteiro nenhuma outra série de registos contínua sobre o que mata as pessoas, e a Sé precisa dela, e a Sé não a tem, e a senhora tem-na numa dúzia de armários em Coronata.

A Irmã Ottilie olhou para ele muito tempo.

— O senhor quer contar os mortos.

— Quero contar os mortos.

— Porquê?

E Krell deu a resposta que lhe saiu, que não tinha preparado, e que passou a ser — por caminhos que ninguém desenhou — o Voto de Registo dos Hospitalários do Hashmal:

— Porque enquanto não estiverem contados, Irmã, cada um deles morreu por vontade de Deus. Depois de contados, alguns morreram por nossa culpa. É a diferença entre uma religião e um governo, e nós somos as duas coisas e só fizemos uma delas até hoje.


Assinou-se em maio. A Ordem ficou com autonomia quase total, o que na altura pareceu a toda a gente uma concessão excessiva de Krell e que era, na verdade, o preço que ele pagou sem hesitar.

O artigo que ele quis estava no fim e tinha nove palavras:

Anota-se tudo. Também o que não convém. Sobretudo.

E o artigo que a Irmã Ottilie quis, e que Krell aceitou em quatro segundos, e que é hoje o Voto de Tratamento Indistinto e o escândalo permanente da Ordem, era ainda mais curto:

Trata-se quem chegar.


XI. A Doutrina

A doutrina escrita dos Cavaleiros do Selo foi redigida entre outubro de 1823 e março de 1824, numa sala de Aurum Roma, por sete homens, e Mattias foi um deles e foi o mais novo e foi o único que tinha estado em campo nos últimos cinco anos.

Isto é pior do que parece. Dos outros seis, três eram canonistas, dois eram oficiais seculares reformados de sessenta e tal anos que tinham feito a guerra de Veheran e dizia-se que percebiam de ordem de batalha, e um era um cónego da Congregação dos Meios que lá estava para garantir que nada do que se escrevesse custasse mais do que a dotação permitia.

Mattias levou o caderno.

Não o caderno inteiro — levou seis folhas copiadas à mão, sem o resto, porque o resto do caderno tinha cinco anos de contas de cevada e duas páginas sobre a morte de um rapaz de Bierkut e ele não ia pôr aquilo em cima de uma mesa de canonistas.

Nas seis folhas estavam quatro coisas.


A primeira aceitaram sem discussão em vinte minutos, porque era militarmente óbvia e porque os dois oficiais reformados a reconheceram logo: nunca operar em unidade maior que um regimento.

Mattias tinha-a escrito em 1821, ao saber de Marnheim, e o raciocínio dele era simples e não era sobre o Limbo: uma Ordem de quatro mil homens que perde um corpo inteiro perde a Ordem. Uma coroa que perde nove mil homens perde nove mil homens e no ano seguinte levanta outros. A Ordem não pode levantar outros porque leva onze anos a fazer um cavaleiro e porque não tem província de onde os tirar em massa.

A nossa força é a única que não se repõe. Portanto nunca a exponhamos inteira.

Passou por unanimidade e é hoje a primeira regra e toda a gente julga que veio do Massacre da Linha de Ferro de 1848, e não veio; em 1848 foi confirmada.


A segunda foi mais difícil e Mattias perdeu-a e ganhou-a duas vezes: nunca defender posição que não se escolheu.

Os dois oficiais reformados detestaram-na, e com razão, porque é uma regra insubordinada: significa que um capitão de Cavaleiros pode entregar uma posição a tropa de linha e reposicionar-se sem pedir licença a marechal nenhum, e nenhum exército do mundo funciona assim.

O argumento de Mattias, que ele repetiu quatro vezes e que acabou por ganhar não pela força mas por exaustão, era este:

— Um regimento de linha que fica onde não devia perde homens. Um regimento nosso que fica onde não devia perde homens e os purificadores. E os purificadores não são nossos, senhores. São da Sé, são quatro por Casa, e se eu perder os meus quatro numa posição que um marechal secular escolheu, a Casa Solar deixa de poder combater durante dois anos, e os quatro que eu perdi vinham de uma casa de formação onde estão quarenta e um alunos para todo o continente.

O cónego da Congregação dos Meios levantou a cabeça nessa altura e foi a única vez que falou em cinco meses.

Disse:

— Isso é verdade.

E foi por isso que passou.


A terceira era a que interessava e foi a que quase não passou.

Uma unidade sem purificador em condições retira-se, mesmo vencendo.

Os canonistas não tiveram problema nenhum. Os oficiais reformados tiveram um problema enorme, e o mais velho — um homem chamado Hedrich, setenta e um anos, que tinha comandado um flanco em 1798 e que era, pelo que Mattias conseguiu perceber em cinco meses, um bom homem e um bom soldado — disse a coisa que tinha de ser dita:

— O senhor está a escrever numa regra que os seus homens abandonam uma vitória.

— Estou.

— Vai matar a Ordem, capitão-general. Uma tropa que tem uma ordem de retirada legítima escrita no regulamento usa-a. Sempre. Em todos os exércitos de que eu tenho conhecimento e são muitos.

— Eu sei — disse Mattias.

— Então porque é que a escreve?

E Mattias contou-lhes a casa de pastor.

Contou-a inteira, o que era a segunda vez que a contava a alguém: o inverno, o diário sem capa, os onze dias, as quatro horas por cartucho, o rapaz de Bierkut, os cinco tiros, os quatro que passaram através daquilo como pedras através de fumo.

E depois disse a parte que eles não tinham percebido, e que é a razão pela qual a terceira regra existe e não é o que parece:

— Senhores, os senhores estão a ler aquilo como uma ordem de retirada. Não é. É uma ordem de manter o purificador vivo. Se eu escrever que uma unidade sem purificador se retira, então nenhum capitão meu vai deixar o purificador dele avançar, nem o vai pôr em ala, nem o vai mandar dormir mal, nem o vai gastar em duas semanas de escaramuça que não valem nada. O purificador passa a ser a coisa mais bem guardada do regimento, e é o que ele tem de ser, porque sem ele nós somos infantaria com lanças caras.

Silêncio.

— E há a outra metade — disse Mattias. — Se um capitão meu ficar sem purificador e não se retirar, os homens dele continuam a disparar. Não sabem que a munição está morta. Ninguém sabe: não muda de cor. Vão descobrir na terceira salva, a vinte passos.

O velho Hedrich ficou a olhar para a mesa.

— Em Marnheim — disse ele, ao fim de um bocado — deixaram o cónego fazer quatro dias sem dormir e distribuíram o que ele fez ao quinto.

— Deixaram.

— Porque não tiveram coragem de dizer aos homens que já não havia.

— Sim.

Hedrich assinou a terceira regra naquela tarde e não voltou a discutir nada em cinco meses.


A quarta coisa nas seis folhas não era uma regra e Mattias não a apresentou como regra, e é por isso que ela entrou.

Era um parágrafo sobre o que fazer quando não há purificador nenhum e não há retirada possível.

Estava escrito em linguagem de homem que não sabe escrever documentos, e os canonistas reescreveram-no três vezes, e a versão final ficou pior de ler e melhor de defender, e chama-se hoje Voto de Medida:

Todo o Cavaleiro do Selo aprenderá a acordar a sua própria munição, por método menor, ciente de que o faz mal, devagar e em quantidade que não sustenta unidade nenhuma; e não o fará senão em extremidade.

Os canonistas levaram seis semanas a passar aquilo, e o que os travava não era a doutrina: era o Cânone de 1791, que reserva o rito ao clero ordenado e que classifica a purificação por não ordenado como heresia funcional.

Foi preciso um parecer. O parecer levou onze semanas e é uma peça de casuística de que Krell dizia, com admiração sincera, que era a melhor coisa que a Cúria produzira naquela década — e o que ele fazia era distinguir, com quarenta páginas, purificação sacramental de acordamento de extremidade: a primeira reservada, pública, produtiva, que é a da Igreja; o segundo privado, ineficiente, não transmissível, não ensinável fora da Ordem, e válido apenas onde a alternativa fosse a morte de cristãos.

É sofisma. Krell escreveu-o no Memorial sem rodeios: é sofisma, e é o sofisma mais útil que esta casa alguma vez comprou, e eu paguei o jantar ao homem que o escreveu.

Porque o parecer estabelece, em letra miúda e para poder negá-lo em letra grande, a proposição que a Inquisição Reformada ia passar setenta anos a enterrar:

Que funciona sem padre.

Devagar. Mal. Em quantidade ridícula. Mas funciona, e está escrito, e está assinado, e está no Arquivo.


Mattias assinou a doutrina a 9 de março de 1824, e nessa noite, na hospedaria onde estava alojado, ficou acordado até tarde com uma folha à frente.

O que ele escreveu nessa folha não entrou em documento nenhum. Ficou no caderno, que está hoje em Karentin-Alta, e são quatro linhas, e são a melhor coisa que ele escreveu na vida:

Passei cinco meses numa sala com seis homens a transformar em regra as coisas que aprendi porque um rapaz de Bierkut morreu e eu não sabia purificar.

Eles vão dizer que isto é doutrina. Não é. É a lista das coisas que eu não soube a tempo.

Um regulamento é a memória dos mortos escrita de maneira a que o vivo não perceba que a está a ler.

Que Deus me perdoe estar orgulhoso disto.


XII. A Reforma

A primeira reforma da Inquisição saiu a 2 de outubro de 1824 e toda a gente a leu como sendo sobre heresia, e não era.

Era sobre contratos de trabalho.

Krell sabia-o porque foi ele quem pediu a reforma, numa nota de duas páginas de março daquele ano, e a nota está no Arquivo dos Meios e não menciona heresia uma única vez.

O problema era este:

Em 1823, a Congregação dos Meios detetou que quatro purificadores licenciados de Ferrum Alpina tinham deixado o serviço da Sé. Não tinham apostatado, não tinham sido acusados de nada, não tinham feito nada de errado. Tinham-se despedido.

Um estava a trabalhar para um príncipe alpino por trezentos e quarenta ducados aurélios por ano, que era onze vezes o que a Sé lhe pagava.

Outro estava em Brithon, numa companhia de seguros, a acordar o mineral de escolta das rotas da Companhia da Cruz-Insular, e tinha sido recebido pela Igreja Solar sem uma única pergunta sobre obediência.

Os outros dois estavam em Königsmark e tinham sido reordenados no Cisma do Norte em quinze dias.

Quatro homens. Krell viu a tendência antes de haver tendência, que era o que ele fazia melhor, e escreveu a nota, e a nota dizia:

Formámos, em 1822 e 1823, oitenta e nove purificadores a expensas da Sé, a um custo unitário de onze anos de formação e cento e noventa ducados por ano.

Não temos nenhum instrumento que os obrigue a servir-nos.

Uma coroa secular não precisa de nos vencer nem de nos comprar. Precisa de esperar que formemos, e de pagar onze vezes mais, e em doze anos tem quarenta, que é exatamente o número de que a hoste de Marnheim precisava.

Recomendo que se institua exclusividade de serviço.


Instituiu-se.

E aqui está a parte que interessa e que nenhum historiador da Ordem alguma vez escreveu com estas palavras: para instituir exclusividade de serviço era preciso um tribunal rápido.

Porque um licenciado que se despede não comete crime nenhum que o direito canónico de 1824 reconhecesse. Um tribunal lento, público e juridicamente escrupuloso — que era o que a Inquisição era desde sempre — levaria dois anos a julgar cada caso, produziria autos consultáveis, e os autos diriam, preto no branco, quanto é que um purificador vale no mercado livre.

Trezentos e quarenta ducados. Onze vezes.

Publicar isso era pôr um preço em cada cónego do continente.

Portanto a reforma de 1824 fez três coisas ao mesmo tempo, e as três estão no mesmo decreto e ninguém reparou na ligação porque estão em artigos separados por quarenta páginas:

Criou o tribunal sumário, com julgamento em dias e sem publicação de sentença.

Estendeu o conceito de heresia funcional para cobrir o serviço do dom sob autoridade não reconhecida, o que transformou um homem que muda de patrão num homem que abjura.

E reservou os autos, integralmente, a um depósito único sem catálogo público.

Krell redigiu os considerandos do primeiro artigo. Não redigiu os outros dois. E escreveu, no Memorial, a única frase em que se aproxima de uma acusação a si próprio sem rodeios:

Pedi um martelo para pregar uma tábua e entregaram-me um martelo. Não perguntei o que mais é que se prega com aquilo, e não perguntei porque sabia.


A Inquisição Reformada julgou, entre outubro de 1824 e dezembro de 1826, cento e nove casos de serviço não autorizado.

Nenhum foi publicado.

Dos cento e nove, noventa e um regressaram ao serviço da Sé com abjuração sumária e perda de licença por três anos. Onze não foram encontrados. Seis morreram em custódia, e a causa declarada em todos os seis é exaustão, e é possível que em três ou quatro dos casos seja verdade, porque o ofício mata.

Um foi executado, em 1826, e é o único caso do período de que sobrou nome — porque era um homem de sessenta e um anos, de Solnica, que não estava a trabalhar para coroa nenhuma e que não tinha licença nem nunca tivera, e que purificava sal e cartuchos para sete aldeias da fronteira havia dezanove anos, de graça, porque não havia mais ninguém.

Ele não percebeu a acusação. Está no auto. Perguntou três vezes ao tribunal o que é que tinha feito de errado, e a terceira vez que perguntou está registada assim:

Instado a confessar serviço do dom sob autoridade não reconhecida, o réu respondeu que não servia autoridade nenhuma, que servia as aldeias, e que se lhe dissessem qual era a autoridade certa ele obedecia-lhe de bom grado, mas que entretanto o inverno vinha aí.

Chamava-se Pankrác Jelen e o auto tem vinte e duas folhas, e é o documento mais lido do Arquivo Fechado depois de 1852, porque a Inquisição Reformada o adotou como peça de instrução interna — dá-se a ler aos inquisidores no primeiro ano, sem comentário, e pergunta-se-lhes no fim o que é que fariam.

Não há resposta certa. É esse o exercício.


O que ele fazia era isto, e está estabelecido nas folhas quatro a nove sem contestação de ninguém, porque ele confessou tudo à primeira pergunta e com evidente boa vontade:

Desde 1807, todas as quintas-feiras, Pankrác Jelen abençoava sal.

Fazia-o no adro da igreja de Solnica, que não tinha pároco residente desde 1804 e recebia um cónego de três em três meses. Usava um rito que aprendera com a mãe. Levavam-lho em saco e ele punha as mãos e dizia o que dizia, e as pessoas levavam-no de volta e punham-no à porta de casa.

Desde 1812 fazia também cartuchos, porque as sete aldeias da fronteira tinham sido armadas nesse ano pela milícia de Vykhradia e ninguém tinha pensado em quem os havia de acordar.

Fazia, pelas contas do próprio, entre quarenta e sessenta por semana.

Nunca cobrou nada. Este ponto foi verificado com uma minúcia extraordinária pela instrução, porque cobrar teria simplificado tudo — um homem que vende sacramento é simoníaco e tem-se pena dele e enforca-se —, e não se encontrou um único ducado.

Ele era caseiro de um moinho e vivia do moinho.


A instrução correu bem, no sentido técnico. Ele respondeu a tudo, não se contradisse, e não percebeu a acusação.

Está nas folhas onze a dezasseis e é a parte que a Reformada dá a ler.

Perguntado se sabia que o rito de purificação está reservado ao clero ordenado por Cânone de 1791, respondeu que não sabia que havia cânone e que se lhe tivessem dito ele tinha parado.

Perguntado se persistiria se lhe fosse mandado parar, respondeu que não, e que só o pedia era que mandassem outra pessoa, porque o inverno vinha aí.

Perguntado se alguma vez lhe ocorrera que o que fazia pudesse ser ofensa a Deus, respondeu que sim, no princípio, e que tinha andado dois anos com escrúpulo, e que depois tinha deixado de ter.

Instado a dizer por que deixara, respondeu:

«Porque funcionava, senhor. Eu pensei muito nisso. Se fosse ofensa não funcionava, e funcionava, e portanto fiquei descansado.»


O inquisidor que instruiu chamava-se Oswald e tinha trinta e um anos, e é dele a nota que está na folha dezassete, e a nota não devia estar ali, e é por causa dela que este auto existe como peça de ensino:

Nota do instrutor.

O réu não é herege. Não sustenta proposição contra a fé, não nega autoridade, não ensinou a ninguém, não recebeu dinheiro, e submete-se a tudo o que se lhe mandar.

O réu é competente. Na verificação a que se procedeu em 11 de março, das trinta peças por ele tratadas e entregues à instrução, vinte e oito estavam acordadas e duas não, o que é proporção melhor do que a de licenciado de terceiro ano.

O réu é, do ponto de vista da Congregação dos Meios, um ativo.

Requeiro instrução do Tribunal quanto ao fundamento da acusação, porquanto a norma de 1824 pune o serviço do dom sob autoridade não reconhecida e o réu não serve autoridade nenhuma, servindo aldeias.

Não vejo no processo a autoridade a que ele se subtraiu.


O Tribunal respondeu em quatro dias.

A resposta tem seis linhas e é a coisa mais importante que a Inquisição Reformada escreveu no século, e não é famosa porque nunca saiu do Arquivo:

Ao instrutor.

A autoridade a que o réu se subtrai é a que se constitui pelo facto de ele exercer.

Quem purifica fora da Sé estabelece, pelo simples exercício continuado e conhecido da povoação, uma autoridade paralela, ainda que sem intenção e ainda que sem doutrina; e é dessa que se trata.

O réu não tem de a querer. Basta que as aldeias a reconheçam, e sete aldeias reconheceram-na durante dezanove anos.

Proceda-se.


Krell leu este despacho duas vezes e depois ficou com ele na mão.

Porque era perfeito. Era, do ponto de vista jurídico, impecável — e ele percebeu, com uma clareza que lhe deu frio, que era exatamente o argumento que ele próprio usaria se lho pedissem, e que a única coisa que impedia aquele raciocínio de se aplicar a mais duzentas mil pessoas no continente era a decisão administrativa de não ir ver.

Sete aldeias reconhecem um moleiro. Isso é autoridade paralela.

Quantas aldeias no continente, em 1826, tinham alguém assim? Krell não sabia. Ninguém sabia. Ninguém tinha perguntado, e o censo de 1819 tinha perguntado quem tem licença, que é uma pergunta completamente diferente.

Ele fez uma estimativa nessa tarde, sozinho, em meia folha, com os métodos grosseiros que se usam quando não há dados: número de freguesias sem pároco residente; incidência conhecida de rito doméstico no folclore de Sal Pradelica e Vykhradia; taxa de sucesso plausível.

O número que lhe saiu foi entre quatro mil e onze mil.

Entre quatro mil e onze mil pessoas, no território de obediência, a fazer aquilo. Contra três mil e quarenta e um licenciados.

Queimou a meia folha. É a única coisa que Amandus Krell destruiu em vinte e seis anos de arquivo e confessou-o no Memorial sem se desculpar:

Queimei-a porque, se aquela folha existisse, alguém a leria; e quem a lesse teria de agir; e agir significava abrir instrução contra um número de cristãos que eu não consigo escrever aqui sem me levantar da cadeira.

Não a destruí para esconder de Roma. Destruí-a para não obrigar Roma a saber.

Há uma diferença e ela é a única coisa que me resta.


Pankrác Jelen foi executado a 4 de novembro de 1826, por eliminação do portador, sem rito longo e sem público, como manda a norma.

Tinha sessenta e um anos.

A povoação de Solnica foi informada de que o caseiro do moinho tinha falecido.

E em março de 1827 — e isto está na folha vinte e dois, acrescentada quatro meses depois pela mão do instrutor Oswald, e é a razão pela qual o auto tem vinte e duas folhas e não vinte e uma —

Acrescenta-se, para memória futura:

Em visita de rotina a Solnica em 2 de março último, verificou-se que o sal doméstico das sete povoações continua a ser tratado às quintas-feiras.

Trata-o agora a filha.

Não se procedeu.


Krell leu este auto em fevereiro de 1827, três anos depois de ter pedido a reforma, num maço de rotina que a Inquisição lhe mandou por causa de uma questão de despesa.

Leu-o duas vezes.

Depois fechou a pasta e foi trabalhar, porque tinha nessa manhã a revisão do orçamento das três casas de purificação, e porque as três casas de purificação tinham formado nesse ano cento e quarenta e um homens, e porque cento e quarenta e um homens acordam cento e cinquenta e três mil cartuchos por mês, e porque em algum lugar da fronteira leste havia guarnições que não iam morrer por causa disso.

Escreveu no Memorial, sete anos depois:

Contei os que salvámos. Contei-os bem, que era o meu ofício, e são muitos, e não são invenção nem consolo: existem, têm nome, e alguns deles ainda vivem.

A minha dificuldade é que sei contá-los e sei contar o homem de Solnica, e que o mesmo instrumento serve para as duas contas, e que o instrumento não tem nenhuma coluna onde a segunda entre com o peso que merece.

Fizemos um império com uma folha de razão. É a coisa mais eficaz que se pode fazer e não há absolvição escrita nessa folha.


XIII. O Preço da Rapariga

Em 1826 morreram três Brancas na casa de Aurum Roma.

Foi um ano mau e não foi um ano excecional; a média da década foi de duas vírgula um. Mas 1826 é o ano em que a Madre Sofia Kranz assumiu, com trinta e oito anos, e é o ano em que uma mulher olhou para aqueles três funerais e fez uma coisa que nenhuma das quatro Madres anteriores tinha feito, e que não era nobre nem era compassiva e era muito pior do que as duas coisas:

Contou.


Ela chegou em março. Era de Bernkanton, filha de relojoeiro, e tinha entrado na Vigília Branca aos vinte e um anos não como Branca mas como assistente — não tinha o dom, nunca o teve, e isso é canonicamente necessário para uma Madre e é a coisa mais cruel do arranjo: quem governa a casa é sempre alguém que não paga o preço.

Aelius conheceu-a na primeira semana, porque ela foi ter com ele.

Não foi ter com o cónego de assistência, nem com o médico, nem com a mais antiga das Brancas. Foi ter com o escrivão, e Aelius percebeu na primeira frase que ela tinha percebido a mesma coisa que ele percebera em 1817 e que nunca dissera a ninguém: que ele era o único que ouvia todas.

Ela disse:

— O senhor tem as transcrições desde 1790.

— Tenho, Madre. Três mil e oitocentas e tal.

— Quero-as todas.

Aelius hesitou, porque era irregular, e depois disse:

— Vai levar anos.

— Eu sei — disse Sofia Kranz. — Tenho sete.

Tinha sete porque uma Madre Vigilante serve sete anos. Serviu vinte e dois, porque a renovaram três vezes, e é a única do canon a quem isso aconteceu.


O que elas fizeram — e é elas, porque Aelius sempre insistiu nisso e porque a leitura foi feita por Sofia Kranz e por quatro assistentes e ele só forneceu e organizou — levou nove anos e produziu duas coisas.

A primeira são as sete regras da Sintaxe Hashmal, que estão em todos os manuais, que toda a gente cita, e que são, honestamente, uma gramática: o que é que sai daquela cadeira, em que formas, com que padrões de repetição, e como se distingue uma inscrição de uma frase.

A regra primeira é de Aelius e é de 1817 e é aquela: não se recebe duas vezes a mesma coisa; recebe-se a mesma coisa corrigida.

A regra quarta é a mais usada na prática e é puramente técnica: só é verificável a inscrição que contenha informação que a Branca não podia possuir, e toda a inscrição de vocábulo corrente é retida.

A regra sétima é a que ninguém gosta de citar: a ausência de inscrição não se regista como ausência, regista-se como turno. Ou seja: quando não vem nada, escreve-se que houve turno. Não se escreve que o Céu não falou.

Sofia Kranz escreveu-a em 1831 e escreveu-a com intenção, e a intenção era boa e o efeito foi catastrófico, e ela morreu em 1848 sem saber o efeito: ela escreveu aquilo para proteger as raparigas, porque uma Branca cujo turno é registado como nada sente-se culpada e escuta pior no turno seguinte.

O efeito, ao longo de sessenta anos, foi que os silêncios deixaram de ser contáveis.

Em 1887 a Inquisição pediu à Vigília a série dos silêncios por década e a Vigília não a tinha, porque desde 1831 não se registava. Existe uma nota inquisitorial de 1888 sobre isto, de dezasseis palavras, e é a coisa mais amarga que a Reformada escreveu no século:

A casa que ouve o Céu é a única do continente que não sabe dizer quando Ele se calou.


A segunda coisa que saiu daqueles nove anos é a que interessa a este livro e é a que não está nos manuais.

Sofia Kranz fez uma tabela.

Tinha cinco colunas: nome de serviço, ano de entrada, ano de morte ou desligamento, número de turnos servidos, número de inscrições verificáveis produzidas.

Aelius forneceu-lhe os dados de trinta e seis anos. As outras assistentes escavaram os registos anteriores até 1774, que é onde a casa começa.

A tabela está no arquivo da Vigília Branca e tem cento e dezanove linhas.

E o que ela diz, sem uma palavra de comentário, é:

Que uma Branca produz, em toda a carreira, uma média de onze inscrições verificáveis.

Que a carreira média, contada da entrada à morte, é de cinco anos e sete meses.

Que a idade média de entrada é dezanove e a de morte é vinte e quatro.

E que — e esta é a coluna que Sofia Kranz acrescentou no fim, a lápis, e que nunca passou a tinta — o número de inscrições por ano não cai com o desgaste. Uma Branca no quinto ano produz tanto como uma no segundo.

Não se esgotam. Morrem no mesmo ritmo a que produziam.


Aelius de Sárvar tinha sessenta e quatro anos quando viu a tabela acabada, numa tarde de 1835, e a reação dele foi de escrivão e não de teólogo, e Sofia Kranz nunca lhe perdoou inteiramente, embora tenha percebido.

Ele disse:

— Onze cada. Cento e dezanove mulheres. É mil trezentas e nove.

— Sim.

— Madre, mil trezentas e nove inscrições em sessenta e um anos é tudo o que existe. É isso que está por trás de toda a metalurgia consagrada do continente, de todo o Crisma, de toda a Ardentina, dos trilhos, das lâmpadas. Mil trezentas e nove frases.

— Sim.

— E cento e dezanove raparigas.

— Cento e dezanove — disse Sofia Kranz. — Das quais quatro estão vivas, e uma delas tem vinte e três anos e entra no quinto ano em novembro.


A que tinha vinte e três anos chamava-se, em serviço, Branca Décima Nona, e Aelius de Sárvar transcreveu-a quatrocentas e onze vezes.

Quatrocentas e onze. É o número de turnos, não de inscrições; as inscrições dela foram catorze, o que a punha bem acima da média e o que é, por si só, uma frase medonha.

Ele nunca lhe viu a cara.

Isto surpreende sempre quem não conhece a casa e é a coisa mais simples do mundo: o escrivão senta-se de lado, três passos atrás e à esquerda, com a chama fora do campo de visão — e a cadeira da Branca está voltada para a chama. Durante onze anos de serviço em comum, um escrivão vê a nuca, o ombro esquerdo e as mãos de uma mulher, e mais nada.

Em 1834 Aelius ficou cego e passou a não ver sequer isso.

E em 1835, quando ela entrou no quinto ano, ele conhecia-lhe a voz melhor do que conhecia a da própria irmã, e conhecia-lhe outra coisa que ninguém mais no mundo conhecia, que era o som que ela fazia antes.


Cada Branca tem um. É a coisa que não está em manual nenhum e que todos os escrivães sabem e que nenhum consegue explicar a um cónego sem soar a superstição.

A Décima Nona inspirava fundo e parava. Não era suspiro e não era espanto. Era a respiração de quem se prepara para levantar um peso, e vinha sempre entre um e três segundos antes, e em quatrocentas e onze vezes falhou duas.

Aelius aprendeu, a partir do ano de 1831, a pousar a pena no papel naquele som.

Ganhava meia sílaba. Ao longo de onze anos, meia sílaba por inscrição é a diferença entre uma transcrição com uma palavra em falta e uma transcrição inteira, e há pelo menos duas das catorze inscrições verificáveis dela que só estão completas porque um homem aprendeu a ouvir uma mulher inspirar.

Isso não está em documento nenhum da Cúria e é, do ponto de vista de Aelius, a coisa mais importante que ele fez em cinquenta e um anos.


Ela era de uma aldeia da costa de Coronata e tinha entrado com dezanove anos, em 1831, e tinha sido a irmã mais velha de seis.

Aelius soube disto ao fim de quatro anos, e soube-o por acidente, de uma assistente, e ficou incomodado durante uma semana — porque um escrivão não deve saber a biografia de quem transcreve, e a razão é boa: um homem que sabe que a mulher atrás dele tem cinco irmãos ouve com ternura, e a ternura interpreta, e a interpretação é a única coisa que um escrivão não pode fazer.

Ele pediu à assistente que não lhe dissesse mais nada nunca.

A assistente tinha dezanove anos e chamava-se Doroteia e cumpriu, e cumpriu tão bem que Aelius morreu em 1841 sem saber que a Décima Nona tinha morrido.

Voltaremos a isto.


As catorze inscrições dela estão no arquivo e nove são técnicas e cinco não são.

Das nove técnicas, sete são correções — regra primeira, recebe-se a mesma coisa corrigida — e duas são novas, e uma dessas duas é a razão pela qual a Ardentina mineral passou, a partir de 1833, a ser estabilizada com cal apagada em proporção de onze para duzentos, o que reduziu em qualquer coisa como dois terços os acidentes de refinaria em Stromakra e que salvou, ao longo de sessenta anos, um número de operários meridianos que ninguém calculou nunca e que é seguramente de milhares.

Ela tinha vinte e um anos. Era filha de pescador. Disse dezanove palavras numa quarta-feira de março e nunca soube o que é que elas tinham feito, porque não se diz às Brancas o que é que as inscrições delas produzem — regra da casa, para as proteger da vaidade e do desespero, e ambas as razões são reais.


Das cinco que não são técnicas, quatro foram retidas pela regra quarta e uma não.

A que não foi retida é de 7 de setembro de 1835, tem sete palavras, e é uma das inscrições mais discutidas da história da Vigília porque ninguém consegue classificá-la:

a mão que mede também é medida

Não é técnica. Não contém informação que ela não pudesse possuir. Devia ter sido retida pela regra quarta e Sofia Kranz decidiu, contra o parecer do cónego de assistência, que não fosse — e a justificação dela, em duas linhas na margem, é a única vez em vinte e dois anos de Madre que ela invocou autoridade pessoal sem argumento:

Retenho as que não posso verificar. Esta não a posso verificar e não a retenho. Responderei por isto.

Aelius, que a transcreveu, sempre disse que a Madre tinha razão, e sempre disse também que a razão dela não era teológica.

Era que a Décima Nona, ao dizer aquilo, não tinha feito o som.

Não inspirou. Não parou. Estava sentada há quarenta minutos sem nada, e disse sete palavras do meio de nenhum sítio, com a voz normal, e a seguir continuou o turno e houve uma inscrição técnica às quatro e vinte com o som e tudo.

Aelius escreveu as sete palavras e escreveu, ao lado, uma coisa que nunca antes escrevera em quarenta e cinco anos e que é matéria disciplinar: uma observação.

Sem preparação audível.


Em novembro de 1835 ela entrou no quinto ano.

A tabela dá cinco anos e sete meses de média, e toda a gente naquela casa sabia ler uma tabela, e a Décima Nona também, porque as Brancas não são crianças e porque a casa não lhes mente — e este é um ponto em que a Vigília sempre se recusou a ceder, contra a opinião de três gerações de cónegos de assistência: diz-se-lhes.

Diz-se-lhes ao entrar. Aos dezanove anos, na primeira semana, com a Madre presente.

Sofia Kranz dizia-o com sete frases que tinha fixado em 1827 e que nunca alterou, e a sexta era:

Não te posso dizer quantos anos. Posso dizer-te que serão poucos e que a casa não te vai gastar mais depressa do que precisa, e que no dia em que eu perceber que te estou a gastar de mais eu paro, e vais ter de acreditar em mim porque não há maneira de to provar.

Foi por causa desta frase — e Sofia Kranz disse-o em 1836 na audiência, e é a única vez em que ela usou um argumento sentimental diante de cardeais, e usou-o em último lugar depois de ter usado a tabela — que o limite de dois turnos semanais tinha de existir.

Eminências, eu digo aquilo a uma rapariga de dezanove anos todos os anos desde 1827. Disse-o quatro vezes. Se não instituírem o limite, eu tenho de deixar de o dizer, e a coisa que eu vou ter de dizer em vez disso não a consigo formular.


A Décima Nona serviu mais quatro anos depois do quinto, porque o limite entrou em vigor em 1836 e mudou a aritmética dela.

Morreu em março de 1840, com vinte e oito anos, o que é dois anos e meio acima da média da tabela, e Sofia Kranz registou isso na coluna com uma anotação de três palavras que não é uma anotação de estatística:

Limite. Dois anos.

Ela contou. Contou o que o limite tinha dado àquela mulher, em anos, e escreveu-o na tabela, e continuou a escrevê-lo para todas as que vieram depois — e a coluna existe, e soma, e ao fim de cinquenta e oito anos de vigência do limite de dois turnos a soma daquela coluna é de duzentos e onze anos de vida humana, e está num armário em Aurum Roma, e é o único sítio em todo o continente onde alguém alguma vez conseguiu escrever o número de uma coisa que não aconteceu.


E há o último facto, e é preciso contá-lo pela ordem em que se soube e não pela ordem em que se deu.

Aelius de Sárvar morreu a 9 de março de 1841.

A Décima Nona morreu a 22 de março de 1840, um ano antes.

E ninguém lhe disse.

Não foi crueldade e não foi esquecimento: foi Sofia Kranz a decidir, com Doroteia, que ao escrivão cego de setenta e oito anos que transcrevia havia cinquenta e um e que já não saía da casa não se ia dizer que morrera a mulher que ele transcrevera quatrocentas e onze vezes.

Puseram outra na cadeira. Aelius perguntou, à segunda semana, se a Décima Nona estava doente.

Doroteia disse que estava.

Ele perguntou mais duas vezes ao longo desse ano e nas duas ela disse que estava, e à terceira vez, que foi em novembro de 1840, ele não perguntou outra vez.

Doroteia teve sessenta e dois anos para pensar naquilo. Em 1888, Madre Vigilante, com setenta e três anos, contou-o uma vez, a uma Branca de vinte e quatro anos de Cracoviana que estava em ano quatro e a quem faltavam seis a oito meses, e contou-o porque a rapariga lhe tinha perguntado se a casa mentia.

E a resposta que ela deu, e que essa rapariga levou para o Conclave de 1888 e para o resto do pouco que lhe restava, foi:

— Uma vez. A um velho, sobre uma morte, para lhe poupar um ano. E se me perguntares se fiz bem eu digo-te que não sei, e tenho sessenta e dois anos de o não saber, e é a única coisa desta casa de que ainda me lembro todas as semanas.


Foi da conversa de 1835 — a da tabela acabada, e não a de Doroteia cinquenta e três anos depois — e não de comissão nenhuma, que saiu em 1836 o limite de dois turnos semanais — a norma que Sofia Kranz impôs contra a opinião de três cardeais e do próprio cónego de assistência da casa, e que reduziu a produção da Vigília em quase um terço no primeiro ano, e que ela defendeu numa audiência com um argumento que não era compassivo, porque ela sabia que o compassivo não ganhava:

— Uma Branca a dois turnos por semana vive oito anos em vez de cinco e produz dezasseis inscrições em vez de onze. Está na tabela. Eu não estou a pedir clemência, Eminências. Estou a dizer-vos que as estamos a gastar depressa de mais e a perder cinco frases por cada uma.

Ganhou com aquilo. Não teria ganho com a outra coisa.

O limite aguentou cinquenta e oito anos e caiu em 1884, num inverno, por necessidade de frente, e foi a primeira das travas da casa a partir-se.


E há um último facto, e é o que fecha este ato, e Aelius registou-o na margem do próprio exemplar da tabela, em 1835, com a letra já grande e trémula porque estava a perder a vista desde o ano anterior:

A Madre pôs cinco colunas. Faltava a sexta.

A sexta é quanto é que cada inscrição valeu — em munição, em trilho, em lâmpada, em cidade que não caiu.

Ninguém a pode calcular, porque não há maneira de contar o que não aconteceu, e o Cardeal Krell disse-me uma vez que passou a vida a tentar.

Mas a conta existe, e alguém a está a fazer, e não somos nós.

Onze frases por rapariga. Cinco anos e sete meses. Se isto for comércio, então é o mais desigual que alguma vez se fez, e nós estamos do lado que recebe.


ATO IV — O PREÇO

XIV. A Tabela

O primeiro preço tabelado do mineral consagrado saiu a 14 de janeiro de 1826, tinha nove linhas, e foi afixado nas praças de comércio de trinta e uma cidades ao mesmo tempo.

Krell escreveu-o.

Levou-lhe quatro meses e não foram quatro meses de cálculo — o cálculo era trivial, e ele fê-lo numa tarde. Foram quatro meses a decidir a quem doer.

Porque um preço tabelado não é um número: é um mapa de quem paga o quê, e uma tabela de nove linhas com os mesmos números para toda a gente é uma tabela que destrói meio continente em dois anos. Krell tinha à frente sete Estados internos, quatro reinos independentes, duas repúblicas, trinta e uma praças de comércio e uma frota, todos a comprar da mesma fábrica, e cada um deles com uma elasticidade diferente e uma utilidade diferente para a Sé.

Fez uma tabela com nove linhas e quatro colunas de desconto, e as quatro colunas não estavam afixadas na praça.

Estavam num anexo reservado, e o anexo tem catorze páginas, e é o documento fundador da política externa da Ordem Clerical, e nunca foi publicado em nenhuma língua.


As quatro colunas eram estas, e Krell chamou-lhes por nomes administrativos porque chamar-lhes pelo que eram teria sido impossível:

Coluna I — obediência plena. Preço base. Os sete Estados internos, as milícias estaduais, as Ordens Militares. Pagavam o custo mais doze por cento.

Coluna II — aliança com capelania. Mais vinte e nove por cento. Vykhradia e Meridia, que aceitavam capelães da Sé nas suas forças e que em troca compravam quase ao preço de casa.

Coluna III — soberania reconhecida sem capelania. Mais setenta e um por cento. A Confederação Kantonal, Velinia. Compravam caro e compravam livremente, e pagavam o que pagavam por uma razão que Krell escreveu em três palavras na margem: não têm alternativa.

Coluna IV — cisma. Mais duzentos e quarenta por cento, e com quota anual limitada.

Königsmark e Brytonia.


Krell defendeu a coluna IV numa sessão de fevereiro de 1826 e teve, dessa vez, a Cúria inteira do lado dele, o que o deixou desconfortável, porque tinham-no do lado dele pela razão errada.

Os cardeais queriam punir os cismáticos. Krell não queria punir ninguém; queria manter a margem.

O raciocínio dele — e está no anexo, na página nove, e é um raciocínio de uma frieza que ainda hoje faz a Ordem evitar citá-lo — era:

Königsmark e Brytonia purificam. Não tão bem, não tanto, mas purificam, e o Norte purifica Hashmalita do próprio Kal'arn desde 1819 sem nos pedir licença.

Portanto não temos monopólio real sobre eles, e não o teremos nunca, e a nossa vantagem é de escala e de preço unitário e não de dogma.

Uma coluna IV muito alta não os impede de comprar. Impede-os de comprar em quantidade suficiente para armar uma frente inteira, o que os obriga a produzir o resto em casa, o que os obriga a queimar os próprios purificadores a um ritmo que nós conhecemos e eles não, porque nós temos a tabela de Sofia Kranz e a série da Congregação e eles têm palpites.

Em vinte anos, os cismas estarão a formar homens mais depressa do que nós e a enterrá-los mais depressa ainda, e não saberão porquê.

Krell escreveu isto em 1826.

Em 1855, Königsmark descobriu em Kal'arn a maior jazida de Hashmalita do mundo conhecido, e o problema do Norte deixou de ser mineral e passou a ser exatamente o que Krell previra: gente. E ninguém em Königsburg tinha uma tabela de cento e dezanove linhas porque a tabela de cento e dezanove linhas estava num armário em Aurum Roma, não publicada, guardada por uma casa de mulheres.


A tabela não se cobrou sozinha, e a parte de que Krell menos gostava de falar é a de 1826 a 1829, que ele chamava, em privado, os três anos de andar a bater a portas.

A resistência não veio de fora. Veio de dentro, e veio dos sete Estados, e é a única vez em vinte e dois anos em que o Conselho dos Sete se uniu contra a Cúria em bloco.

O motivo é simples e é económico. Até 1826, cada Cardeal-Estado vendia o mineral purificado do seu Estado ao preço que conseguia. Ferrum Alpina vendia caro porque tinha o Ferro-do-Coro e a Hashmalita; Sal Pradelica vendia barato e em volume; Maritima Coronata cobrava frete por cima.

A tabela pôs preço único para todos e mandou a diferença para a Sé.

O que Krell fez, em termos que qualquer contabilista reconhece e que nenhum teólogo formularia, foi centralizar a margem. Tirou o lucro a sete cardeais e entregou-o a um cofre em Aurum Roma que ele próprio geria.

Os sete perceberam em três semanas.


A ofensiva deles foi excelente e foi feita em duas frentes, e Krell escreveu no Memorial que aprendeu mais sobre governo naqueles três anos do que nos onze anteriores.

A primeira frente foi jurídica. Os sete alegaram, num memorando conjunto de quarenta e uma páginas apresentado em maio de 1826, que o direito de dispor do produto do Estado era anterior à tabela e decorria da constituição de 1815 — o que era verdade, porque Aurelianus I, ao criar os sete Estados, lhes dera autonomia de fazenda em termos que ninguém revira desde então.

A segunda frente foi operacional e foi muito pior.

Não recusaram cumprir. Cumpriram — e atrasaram-se.

Atrasaram-se nas declarações mensais. Atrasaram-se nas remessas. Descobriram, coletivamente e sem se coordenarem por escrito, que uma Congregação dos Meios com cento e doze funcionários não consegue processar sete Estados a operar a metade da velocidade, e que a tabela, sem declarações mensais, é uma folha pregada numa porta.

No fim de 1826 a Sé tinha cobrado dezanove por cento do que a tabela previa.


Krell não foi ao Um.

Este ponto ele fez questão de registar e de explicar, porque é a decisão de que tinha mais orgulho e é a mais difícil de defender: ele podia ter levado aquilo a Aurelianus I em junho de 1826 e obtido um decreto, e o decreto teria resolvido a questão jurídica num parágrafo.

E teria sido o fim.

Um decreto contra os sete Estados obriga os sete Estados a escolher entre obedecer e desobedecer.

Enquanto não há decreto, eles estão a atrasar-se. Depois de haver decreto, estão a resistir.

A mesma conduta, o mesmo homem, o mesmo atraso de catorze dias numa declaração — e a partir do decreto passa a ser matéria de obediência, e um Cardeal-Estado que desobedece uma vez percebe que pode desobedecer, e nós descobrimos ao mesmo tempo que ele que não temos como o obrigar.

Aprendi isto tarde e aprendi-o com eles: a autoridade que não é testada é maior do que a que é. Não levei ao Santo Padre porque preferia uma tabela a dezanove por cento a um decreto a zero.


O que ele fez em vez disso levou três anos e não tem nada de heroico.

Primeiro, comprou Sal Pradelica.

Não com dinheiro: com purificadores. Sal Pradelica tinha a pior proporção de licenciados por tonelada dos sete Estados e um Cardeal-Estado que se queixava disso havia nove anos sem sucesso. Krell ofereceu-lhe trinta e um licenciados das casas de formação ao longo de quatro anos, com prioridade sobre os outros seis, em troca de declarações mensais pontuais.

Assinaram em outubro de 1826. Sal Pradelica saiu do bloco.

Seis.


Depois dividiu Maritima Coronata de Ferrum Alpina, o que foi mais barato do que devia ter sido porque os dois se detestavam desde 1819 por causa de um frete.

Depois esperou.

A Schola Coronata caiu sozinha em 1827, porque a Schola vive de subsídio e não de produção e não tinha, na prática, margem nenhuma para defender — o Cardeal-Estado da Schola tinha entrado no bloco por solidariedade e saiu dele por aritmética, e Krell escreveu ao lado do nome dele, na lista que mantinha, uma única palavra: previsível.

Vallia Sacra caiu em 1828 por um motivo que Krell nunca previu e que o divertiu o resto da vida: o Cardeal-Estado de Vallia era de uma família de rendeiros de perto da aldeia onde Krell nascera, e um primo dele escreveu-lhe uma carta.

Ficaram Ferrum Alpina e Limes Orientalis.


Limes Orientalis foi o único que Krell teve de pagar, e pagou caro, e foi o melhor negócio dos três anos.

O Cardeal-Estado do Limes não queria margem. Queria guarnições.

Tinha catorze e seis purificadores para elas, e estava, em 1828, a perder terreno de facto — não em batalha, mas do modo como aquela fronteira sempre perdeu terreno, que é por aldeias que se despovoam porque já não conseguem renovar o perímetro doméstico.

Krell deu-lhe uma coisa que não estava no orçamento e que teve de inventar: uma dotação permanente de purificadores licenciados ao Estado de fronteira, financiada pela Sé e não pelo Estado, revista de dez em dez anos, e indexada ao número de povoações e não à receita.

Chamou-lhe provisão de fronteira.

Foi instituída em janeiro de 1829 e existe ainda em 1890, e é a razão pela qual Limes Orientalis e Sal Pradelica, que são os dois Estados mais pobres da Ordem, têm mais licenciados por habitante do que a Schola Coronata — e é, em toda a história administrativa do continente, a única política de redistribuição que alguma vez funcionou por sessenta e um anos seguidos.

Krell tinha sessenta e um anos quando a escreveu.

Escreveu no Memorial:

É a única coisa que fiz que eu defenderia diante de Deus sem preparar nada.

E fi-la para quebrar um bloco político. Foi um suborno. Funcionou porque era um bom suborno, e é boa porque continuou a funcionar depois de o bloco ter deixado de existir, e eu não sei o que fazer com isso.


Ferrum Alpina ficou sozinha e capitulou em novembro de 1829, sem acordo e sem contrapartida, numa carta de quatro linhas.

Krell não comemorou e não escreveu nada nesse dia.

Escreveu dois anos depois, e escreveu isto, e é o parágrafo do Memorial que os oficiais da Congregação dos Meios de 1890 ainda copiam à mão para se lembrarem:

Levei três anos a cobrar uma tabela de nove linhas e não usei a autoridade do Santo Padre uma única vez.

Usei trinta e um purificadores, um desaguisado de frete de 1819, um primo, e uma dotação de fronteira que eu inventei numa tarde.

Um império não se faz com decretos. Faz-se com o que as pessoas querem e não podem pedir em voz alta, e o ofício consiste em descobrir o que é, e em tê-lo em estoque.

Foi por isso que me deram três salas e onze homens em 1814 e me chamaram Congregação dos Meios, e eu achei o nome uma humilhação durante nove anos.


A tabela de preços de 1826 é a data a partir da qual a Ordem Clerical deixa de ser uma Sé e passa a ser um império, e Krell sabia-o no dia em que a afixou, e não escreveu nada sobre isso durante cinco anos.

Quando finalmente escreveu, no Memorial de 1831, escreveu isto:

Perguntam-me quando é que nos tornámos aquilo que somos. Dão-me para escolher o Decreto de 1815, ou a morte dos Nove Estandartes, ou a doutrina de 1824.

Foi a catorze de janeiro de 1826, às nove da manhã, quando um homem meu pregou uma folha numa porta em Bernkanton e outro em Brithon e outro em Vykhrad.

Nesse instante deixámos de pedir e passámos a cobrar, e nada do que veio depois — nem os trilhos, nem as vitórias, nem a púrpura — é outra coisa senão o efeito composto daquela manhã.

Uma folha pregada numa porta. Não houve trombeta.


XV. A Cidade que Cresce

Entre 1826 e 1833, Aurum Roma cresceu de duzentos e onze mil habitantes para trezentos e quarenta mil.

Krell viu aquilo da janela do terceiro pátio durante sete anos, e a coisa de que mais se lembrava não eram os andaimes: era o ruído.

A cidade tinha, a partir de 1827, um ruído de fundo permanente que não existia antes e que nunca mais parou em sessenta anos — carroça de pedra, martelo, roldana, e às seis da manhã e às seis da tarde uma coisa que só existe em cidades que se estão a construir, que é o som de dez mil pessoas a andar ao mesmo tempo na mesma direção.

Vinham de toda a parte. Vinham porque havia obra, e a obra pagava, e em 1828 a Sé era o maior empregador do continente com uma margem que nenhum reino chegava perto de igualar.

E vinham, sobretudo, porque a tabela de preços tinha feito com que todo o mineral bruto do continente passasse a ter de ser encaminhado, purificado e taxado por circuitos que a Sé controlava — e um circuito comercial não é uma linha num mapa, é armazém, é cais, é escrivão, é carroceiro, é estalagem, é guarda, é casa de câmbio, é tribunal de contratos, e tudo isso são pessoas, e as pessoas moram onde trabalham.

Krell tinha calculado o crescimento em 1825, ao propor a tabela. Errou por defeito em quarenta e um por cento.

Foi o maior erro de estimativa da carreira dele e o único de que teve prazer.


Em 1829 a Congregação dos Meios mudou-se para um edifício próprio com quarenta e uma salas e cento e doze funcionários. Krell odiou aquilo.

Odiou-o porque tinha passado a vida a fazer contas com onze pessoas em três salas, e porque sabia — de um modo que não conseguia demonstrar a ninguém e que o irritava profundamente — que uma repartição de cento e doze pessoas produz uma espécie diferente de verdade da que produz uma repartição de onze.

Escreveu no Memorial:

Com onze homens, eu conhecia cada número que me chegava à mesa e sabia quem o tinha feito e se aquele homem tinha tendência a arredondar.

Com cento e doze, chega-me um total. O total é melhor do que os meus de 1819, mais rápido, mais completo, e obedece-me.

E eu já não sei onde é que ele mente. Sei que mente algures, porque todos mentem algures. Deixei de ter o nariz.


Houve, nesses sete anos, uma coisa que não correu bem e que Krell nunca conseguiu resolver, e é a única derrota administrativa documentada da carreira dele.

Chama-se o desvio de Ferrumkar.

A partir de 1828, a produção declarada de Crisma-Argênteo das casas de purificação de Ferrum Alpina começou a divergir do consumo declarado pelas unidades que abasteciam. A divergência era pequena — entre dois e quatro por cento — e foi crescendo, e em 1832 andava nos sete.

Sete por cento da produção de Ferrum Alpina são cento e noventa mil cartuchos por ano.

Krell mandou auditar três vezes. As três auditorias voltaram limpas.

Não havia roubo. Não havia contrabando — foi a primeira hipótese, e foi investigada com uma minúcia considerável, e a Inquisição Reformada chegou a deter quatro transitários em 1831 e a soltá-los todos.

O mineral não estava a sair de Ferrumkar.

Estava a ser consumido em Ferrumkar, e não havia registo de quem o consumia, e a quarta auditoria — a que Krell mandou fazer em 1833, por um cónego novo e obstinado chamado Vitale — voltou com uma frase na página onze que Krell leu e releu e depois arquivou sem ação:

Não há no setor registo de perda. Há, contudo, entre os operários das galerias e das forjas, prática difundida de aquisição de cartucho avulso para uso doméstico, em perímetro de casa, em quantidade que os mestres de forja descrevem como costume antigo e cuja tolerância se recomenda por razões de paz laboral.

Uso doméstico. Perímetro de casa.

Cento e noventa mil cartuchos por ano a proteger casas de mineiros numa cidade que não estava em nenhuma frente, a duzentos e quarenta quilómetros do Limbo, atrás de uma cordilheira que nunca fora entrada.


Krell percebeu. Escreveu-o no Memorial e escreveu-o sem margem para dúvida, e é a passagem daquele livro que a Inquisição Reformada mandou copiar em 1853 e que circula desde então dentro da Ordem num extrato de uma página:

Não estão com medo de demónios. Estão com medo do pó.

Um homem de Ferrumkar sabe, aos trinta anos, que vai morrer daquilo e que o filho entra no lugar dele. Não pode fugir, porque há lista de espera para entrar e porque não há outro sítio.

Portanto compra um cartucho, e põe-no na prateleira da cozinha, e não o dispara nunca — e eu vi três casas, e nas três o cartucho estava na prateleira, e nas três a mulher da casa mo mostrou como quem mostra uma relíquia.

Não é superstição. Aquilo funciona. Está acordado. Custou vinte segundos da vida de um cónego.

Eles compraram um pedaço de coisa acordada e puseram-no em cima do armário, porque é a única coisa que existe naquela cidade que foi tocada pelo Céu e que lhes pertence.

Eu passei quatro anos a auditar isto como se fosse fuga de inventário.

Era liturgia. Era liturgia a acontecer numa cozinha, sem padre, e nós não temos nome para isso nem sítio onde a lançar, e por isso mandei arquivar.


A Velinia Sereníssima pediu em novembro de 1829, e o pedido chegou à Congregação dos Meios, e Krell reconheceu-o no primeiro parágrafo.

Era a petição de 1820 outra vez.

Não literalmente — estava escrita em veneziano de chancelaria e não em latim de jurista de Reichshamn, e era muito mais bem-educada, e vinha acompanhada de uma oferta em vez de uma ameaça. Mas era a mesma coisa: uma potência secular a pedir a Aurum Roma que lhe desse capacidade de purificação para uma operação militar que Aurum Roma não comandava.

A Vigília da Cova é decenal. Leviath sobe em 1830 como subira em 1820 e em 1810, e a frota combinada sai, e não o mata, e volta com menos navios. Velinia arma quarenta e um cascos; a Maritima Coronata arma dezanove.

E uma frota em campanha gasta munição consagrada a uma taxa que nem se compara à de um exército em terra, porque um canhão não dispara cinco vezes por dia.

Velinia pedia vinte e dois purificadores licenciados, por cinco meses, e oferecia pagá-los à razão de quatro vezes o vencimento da Sé, mais transporte, mais seguro de vida para as famílias em caso de perda.


Krell pôs o requerimento em cima da mesa e ficou a olhar para ele com uma sensação que não sabia como classificar e que acabou por classificar, no Memorial, como vertigem administrativa:

Dez anos antes, a mesma pergunta tinha-nos partido ao meio numa sala e custado nove mil vidas.

Desta vez respondi-lhe em nove dias e resolveu-se em despacho de secretaria. Não foi a conselho. Não foi a conclave. Não incomodou o Santo Padre.

E a diferença entre as duas ocasiões não é moral, não é teológica e não é de coragem.

Em 1820 nós não tínhamos procedimento. Em 1829 tínhamos.


O procedimento existia desde 1826 e chamava-se, no jargão da Congregação, Destacamento de Ministério Exterior, e Krell escrevera-o com três cónegos ao longo de catorze meses, e ele tem vinte e nove artigos e resolve exatamente o problema que tinha destruído a Cruzada dos Nove Estandartes.

Diz quantos. Diz por quanto tempo. Diz quem paga. Diz que os destacados continuam sob jurisdição da Sé e que respondem ao capelão-chefe e não ao comandante da operação. Diz que a operação fica obrigada a fornecer-lhes alojamento separado, guarda pessoal e — este é o artigo dezassete, e é de Krell, e é o que ele mais defendeu — limite de horas diárias, fiscalizado pelo capelão-chefe, com poder de suspender o destacamento em caso de incumprimento.

O artigo dezassete existe por causa do cónego Bonifácio.

Krell nunca o escreveu em lado nenhum e não era preciso: toda a gente na Congregação sabia porque é que havia um limite de horas e porque é que o poder de o fazer cumprir estava num clérigo e não no almirante.


Deferiu-se.

Vinte e dois purificadores licenciados, por cinco meses, ao abrigo dos vinte e nove artigos, com capelão-chefe nomeado pela Sé e com Velinia a pagar quatro vezes o vencimento — que Krell aceitou sem regatear porque o dinheiro era o menos interessante daquele acordo.

O que ele queria estava no artigo vinte e seis, e Velinia aceitou-o sem discussão porque em novembro de 1829 lhe pareceu uma formalidade:

Os registos de produção e de consumo da operação são propriedade da Sé e ser-lhe-ão entregues no termo do destacamento.

Ou seja: a Sé ia ficar a saber, cartucho a cartucho, quanto é que custa em munição consagrada conter Leviath durante uma noite.

Ninguém no mundo tinha esse número. Velinia tinha-o, em parte, nos arquivos do Arsenal, e nunca o entregara a ninguém, e a Sé andava havia trinta anos a estimá-lo por palpite.

Krell obteve-o por uma cláusula de contrato de trabalho.


A Vigília da Cova de 1830 correu mal por razões que não têm nada que ver com nada disto: a frota chegou tarde, com maré errada e nevoeiro fechado, e o Olho Verde já estava fora quando a linha se formou.

Catorze navios ao fundo numa noite. Trinta e uma das oitenta e quatro famílias do Conselho sem herdeiro varão.

Dos vinte e dois purificadores destacados pela Sé, morreram nove.

Sete no mar, com os cascos em que estavam. Dois nos quatro meses seguintes, do que faz o ofício.


Krell recebeu a lista dos nove a 14 de outubro de 1830 e leu os nomes, e sabia seis deles porque tinha assinado as licenças.

E depois recebeu, em janeiro de 1831, os registos do artigo vinte e seis — quatro maços, do Arsenal de Velinia, com o consumo da operação hora a hora — e passou três semanas a trabalhá-los, e produziu um documento de onze folhas que é hoje a base de toda a doutrina naval consagrada do continente e que contém, na folha sete, o número que ninguém tinha:

Conter Leviath durante uma noite custa entre cento e quarenta e cento e setenta mil cartuchos consagrados e não o mata.

Cento e cinquenta mil, em média, de dez em dez anos, para uma coisa que volta.

É o equivalente a cento e sete purificadores a trabalhar um mês inteiro.


Krell escreveu as conclusões e depois escreveu, em folha separada, o que pensou, e a folha separada está no Memorial e é a passagem que os oficiais de marinha da Ordem citam sem saber de quem é:

Fizemos tudo bem.

Havia procedimento. Havia limite de horas e havia um capelão-chefe com poder de o impor, e ele impô-lo duas vezes e há registo das duas. Havia guarda pessoal, alojamento separado, contrato, seguro.

Nenhum dos nove morreu como morreu o cónego Bonifácio. Nenhum foi gasto. Nenhum fez, no quinto dia, prata morta que alguém distribuísse sem lhe dizer.

Sete afundaram-se com os navios em que estavam, a fazer o seu ofício, num serviço autorizado, pago, fiscalizado e canónico.

E eu percebi, ao fim de onze folhas, que construí durante quinze anos uma máquina cuja única função demonstrável é garantir que as pessoas morram corretamente.

Não morrem menos. Morrem no sítio certo, com papel, e nós ficamos a saber quantas foram.

Deus me perdoe se isto for pouco. Passei a vida a fazê-lo e não sei fazer outra coisa, e tenho a impressão razoável de que é mais do que havia, e a impressão razoável não me tem servido de grande companhia.


O segundo movimento é de 1830 e dura uma noite.

Mattias da Casa Solar foi nomeado Capitão-Geral da Ordem dos Cavaleiros do Selo a 9 de junho de 1830, com quarenta anos, e recebeu a nomeação em Karentin, e a primeira coisa que fez foi ir a Aurum Roma prestar obediência, porque estava no regulamento que ele próprio ajudara a escrever.

Ficou três semanas. Numa delas jantou com o Cardeal Amandus Krell, que tinha então sessenta e dois anos, e é o único encontro documentado entre os dois, e está documentado porque Krell o registou.

Foi um jantar mau.

Não discutiram. Nenhum dos dois era homem de discutir e ambos eram de origem humilde e reconheceram-se imediatamente nisso, o que em geral ajuda e naquela noite não ajudou nada.

O que correu mal foi uma pergunta.

Mattias perguntou — e perguntou-a com toda a inocência, porque não sabia, porque ninguém lhe tinha dito e porque o processo estava fechado havia onze anos:

— Eminência. Em dezanove, quando se fez o censo, eu mandei um formulário.

— Mandou.

— Vossa Eminência viu-o?

— Vi.

Mattias pousou o copo.

— Eu estive três anos à espera de um processo — disse. — Escrevi aquilo à espera de um processo. Não podia declarar zero porque era mentira, e não podia declarar o que fazia sem me acusar, e portanto declarei e esperei, e não veio nada. Eminência, eu tenho quarenta anos e passei onze deles a achar que a minha Ordem me tinha esquecido num arquivo.

Krell ficou calado um bocado.

Depois disse a verdade, porque estava com sessenta e dois anos e porque era o género de homem que dizia a verdade quando ela já não custava nada:

— Não o esqueci, capitão-general. Pus o seu formulário na pilha errada de propósito.

— Porquê?

— Porque me fazia falta.

E aqui — e Krell escreveu isto com uma honestidade que lhe custou, e escreveu-o sabendo que um dia alguém leria — aqui a conversa deixou de ser sobre 1819.

— Vossa Eminência — disse Mattias, muito devagar — guardou um crime meu porque lhe fazia falta.

— Guardei um facto seu. Eu não tinha, em dezanove, um único registo, em lado nenhum, de que aquilo pudesse ser feito por alguém sem ordenação. Tinha rumor. Tinha o que se diz das aldeias. — Krell pousou as duas mãos na mesa. — O senhor mandou-me uma declaração assinada, com nome de unidade, com número, com método. Onze cartuchos. Não nenhum.

— E o que é que Vossa Eminência fez com isso?

— Nada, durante cinco anos. Depois dei-o a um canonista em 1823 e disse-lhe que me arranjasse uma maneira de aquilo ser legal, e ele levou onze semanas, e o que ele escreveu é o Voto de Medida que o senhor tem no regulamento e que, segundo me consta, já salvou quatro guarnições.

Mattias não disse nada durante muito tempo.

Depois disse:

— Então eu sou a prova.

— O senhor é a única prova documental que esta casa alguma vez teve, produzida voluntariamente, de que o dom não passa exclusivamente por nós. — Krell olhou para ele. — E está num arquivo a que só eu e três homens temos acesso, e vai continuar lá, e o senhor não vai ser incomodado nunca, e no dia em que eu morrer alguém vai herdar aquela chave.


Mattias voltou a Karentin três dias depois e nunca mais falou com Krell.

E o que ele levou daquele jantar, e que levou o resto da vida, não foi medo e não foi gratidão.

Foi uma coisa que ele escreveu no caderno na estrada, entre Vallium e o desfiladeiro, em três linhas, com a letra a tremer por causa do trote:

Ele não me protegeu. Ele guardou-me.

Há uma diferença e eu levei o jantar inteiro a encontrá-la: um homem protegido está seguro. Um homem guardado está disponível.

Estou num armário em Aurum Roma há onze anos, com uma chave, e alguém a vai herdar.


XVI. O Ano em que Não Aconteceu Nada

Em 1830, a nove dias de distância de Aurum Roma, catorze navios foram ao fundo numa noite no Mar do Coro, e trinta e uma das oitenta e quatro famílias do Conselho de Velinia ficaram sem herdeiro varão, e a Vigília da Cova voltou a custar o que custa sempre.

A Vigília Branca soube em outubro e soube mal.

E o que interessa deste ano, na casa das chamas, não é a Cova.

É que em 1830 não houve uma única inscrição verificável.


Doze meses. Cento e noventa e dois turnos servidos, com quatro Brancas em serviço e a regra dos dois turnos semanais ainda por vir.

Cento e noventa e dois turnos. Inscrições de vocábulo corrente: quarenta e uma, todas retidas pela regra quarta. Inscrições verificáveis: zero.

Aelius de Sárvar tinha trinta e nove anos de ofício quando aquilo aconteceu, e era a terceira vez que via um ano magro, e as outras duas tinham sido 1803 e 1819, e nas duas o ano seguinte compensara.

Este não compensou. 1831 deu três. A média da década anterior era de dezoito.


A Cúria não notou, e a razão pela qual não notou é a coisa mais sinistra deste capítulo e é puramente administrativa.

A Cúria não notou porque 1830 foi um ano excelente.

A tabela de preços rendia. As três casas de purificação tinham formado, até esse ano, quatrocentos e onze licenciados. Os Cavaleiros do Selo tinham nove regimentos e uma doutrina escrita. A produção continental de Crisma-Argênteo tinha subido sessenta e um por cento em cinco anos, não porque houvesse revelação nova, mas porque havia mais gente a aplicar a revelação de 1817 e a de 1822 e a de 1826.

Uma inscrição não é uma máquina. É uma instrução. E uma instrução recebida em 1822 continua a render em 1830, em 1840 e em 1880, e rende mais a cada ano em que se formam mais homens capazes de a executar.

Portanto o continente, em 1830, estava a crescer depressa com base em coisas que lhe tinham sido ditas havia oito e treze e vinte anos, e ninguém na Congregação dos Meios tinha uma linha no orçamento para quantidade de coisas novas que nos foram ditas este ano, porque essa coluna nunca existiu e não existe hoje.

Aelius escreveu, em janeiro de 1831, um relatório de duas folhas e mandou-o à Madre Vigilante, que era Sofia Kranz, que o leu e o mandou à Cúria com uma nota de apoio.

Voltou em março com um despacho de sete palavras de um monsenhor do gabinete de assuntos internos:

Sem matéria. Arquive-se. Recomenda-se oração.


Aelius guardou o despacho.

Guardou-o do modo como guardara a transcrição de setembro de 1821, isto é, numa bíblia, e é por isso que existem hoje dois papéis numa bíblia de um escrivão morto em 1841 e é por isso que a Inquisição Reformada, em 1888, ao reconstituir a série dos silêncios que a regra sétima tornara incontável, encontrou exatamente dois pontos anteriores a 1850.

Um é o relatório de Aelius de 1831.

O outro é o despacho de sete palavras.

E é com estes dois papéis, e com mais nada, que a Reformada estabeleceu — sessenta e dois anos depois — que a curva já estava a descer em 1830, e que portanto o esvaimento dos Anjos não começou na Estagnação: começou antes de a Era da Forja começar, no melhor ano do século, quando ninguém tinha nenhum motivo para olhar.


O que Aelius escreveu na margem do despacho, com a letra já grande porque a vista se ia, foi:

Recomenda-se oração.

Recomendo-a também. Rezo há quarenta anos e não deixei de o fazer um único dia.

Mas eu perguntei se estavam a falar menos e o monsenhor respondeu-me que rezasse mais, e as duas coisas não se respondem uma à outra, e eu não sei se ele não percebeu a pergunta ou se percebeu tão bem que não podia responder-lhe por escrito.

Sou escrivão. A única coisa que sei fazer é anotar, e anotei, e anotaram-me de volta que não há matéria.

Ficará neste livro. Alguém há de o abrir.


ATO V — KARENTIN

XVII. A Queda

Karentin-Alta caiu a 3 de novembro de 1834, entre as duas e as seis da manhã, e a coisa que ninguém em Aurum Roma conseguiu compreender durante dois anos foi que ela não caiu por fora.

A muralha norte não foi rompida. Está de pé hoje. Tem trinta e um metros de face de Ferro-do-Coro e foi construída em 1811 por gente que sabia exatamente contra o que a estava a construir, e aguentou vinte e três anos de tudo o que a fenda mandou, e não foi por ali.

Foi pelo aqueduto.


A cidade-fortaleza tinha cisterna, e a cisterna enchia por gravidade de uma nascente a mil e seiscentos metros de altitude, três quilómetros a nordeste, por uma conduta de pedra coberta com trinta e um respiradouros.

Os respiradouros tinham grade. As grades eram de Ferro-do-Coro nos primeiros onze e de ferro comum nos outros vinte, e a razão disso está num orçamento de 1809 e é a razão de sempre: o Ferro-do-Coro custava onze vezes mais e a conduta estava acima da linha de neve e ninguém acreditou que alguma coisa subisse ali.

Mattias tinha lido aquele orçamento em 1831, quando passou a Capitão-Geral e mandou rever as fortificações das sete Casas, e escrevera na margem substituir as vinte, e mandara o pedido à Congregação dos Meios em março de 1832.

O pedido foi deferido.

A obra estava programada para o verão de 1835.


Isto é o que Mattias soube em novembro de 1834 e é o que ele nunca disse em voz alta a ninguém em toda a vida, e sabe-se porque está no caderno:

Pedi em trinta e dois. Deram-me em trinta e três. Marcaram para trinta e cinco porque a obra é de verão e porque acima dos mil e seiscentos não se trabalha em outubro.

Não houve negligência. Não houve mesquinhez. Toda a gente fez o seu ofício com competência e no prazo, e a cidade caiu por onze meses.

Não há ninguém a quem culpar e é isso que não me deixa dormir. Se houvesse alguém eu tinha onde pousar isto.


O que se sabe da noite sabe-se de onze depoimentos, e o mais longo é o do sargento Vitor da Casa Solar, quarenta e um anos, recolhido em Vallium a 19 de novembro de 1834 por um cónego que escreveu tudo o que ele disse e não lhe fez uma única pergunta durante duas horas, o que foi a decisão mais inteligente tomada por alguém naquele mês.

Está transcrito no relatório de Mattias entre as páginas dezanove e trinta e uma. É a única parte do documento que Krell mandou copiar para o Arquivo dos Meios, e é a única que o Capitão-Geral não reescreveu.


Depoimento do sargento Vitor, Casa Solar, quarta companhia. Vallium, 19 de novembro de 1834.

Eu estava de serviço à cisterna. É serviço de castigo e eu estava de castigo por uma coisa de bebida em outubro, e digo-o já porque não quero que depois pareça que eu estava lá por mérito.

A cisterna tem uma sala de guarda com dois homens e uma campainha que toca se o nível descer depressa, porque o nível a descer depressa quer dizer rutura na conduta e é o que se espera que aconteça um dia. A campainha nunca tocou em vinte e três anos e toda a gente lhe chamava a campainha do sino do juízo, com perdão.

Tocou à uma e quarenta.

O outro homem era o Hansi, que é da Casa Solar há nove anos e é do vale de Karentin, e o Hansi disse logo que não era rutura porque não tinha havido tremor e porque a conduta rebenta com tremor. Eu não percebo de condutas. Fui ver o nível e o nível estava a subir.

A subir. É isso que eu quero que fique escrito, senhor cónego, porque quando eu disse isto ao tenente ele mandou-me repetir três vezes.

A campainha é feita para tocar quando desce. Estava a tocar porque o flutuador tinha ido ao fundo, e o flutuador tinha ido ao fundo porque alguma coisa lá dentro o tinha puxado, e a água estava a subir porque alguma coisa estava dentro dela e tinha corpo.


Fomos os dois à boca da cisterna com lanterna de Lúmen. É regulamento levar Lúmen à cisterna e naquela noite foi a única coisa de regulamento que serviu para alguma coisa.

Com Lúmen aquilo não sobe. Não vem à luz. Está lá, e ouve-se, e a água mexe, e enquanto a lanterna estiver acesa e a mão de quem a segura não tremer, fica no fundo. Nós estivemos ali, os dois, a segurar a lanterna virada para a água, desde a uma e quarenta até às três e um quarto.

Uma hora e trinta e cinco minutos, senhor cónego. Eu contei porque havia relógio de parede na sala de guarda e porque não havia mais nada para fazer com a cabeça.

O Hansi chorou a maior parte do tempo e não tem vergonha nenhuma nisso e eu já lho disse. Chorou baixinho e segurou a lanterna e não a baixou uma única vez.


O que entrou pela cisterna não foi o que tomou a cidade. Isso soubemos depois. O que entrou pela cisterna foram duas coisas e ficaram no fundo por causa do Lúmen e morreram lá quando se drenou em trinta e seis.

O que tomou a cidade entrou pelos respiradouros de cima e desceu pela conduta seca, que é a de serviço e não leva água em novembro, e saiu às casamatas do anel interior pelo poço de inspeção número nove, que é do lado de dentro da muralha.

Do lado de dentro, senhor cónego.

Vinte e três anos de muralha de trinta e um metros com face de Ferro-do-Coro e entraram-nos por um buraco de visita com uma grade de ferro de ferreiro, do lado de dentro, a duzentos passos da casa do governador.


O alarme do anel interior tocou às duas e nove.

A partir daí é confusão e eu não vou dizer que vi coisas que não vi. Eu estava na cisterna e fiquei na cisterna até às três e um quarto, que foi quando veio um cabo dizer que se evacuava e que nós saíamos com a quarta coluna.

Eu disse-lhe que não podia largar a lanterna.

Ele disse-me que a cidade estava a ser evacuada.

E eu disse-lhe outra vez que não podia largar a lanterna, e ele percebeu, e é preciso dizer que percebeu em dois segundos, porque se nós largássemos aquilo o que estava no fundo da cisterna subia e vinha por trás da coluna que ia a sair.

Ele perguntou quanto tempo é que nós aguentávamos.

Eu disse que a lanterna tinha carga para quatro horas e que a minha mão tinha para menos.


Ficámos mais duas horas e quarenta.

Não vou dizer que foi coragem porque não foi. Foi que ir embora significava vinte homens a morrer atrás de nós e nós a saber e a ir na mesma, e eu não sou desses e o Hansi também não, e mais nada.

Às cinco e cinquenta e cinco veio o cónego Petrek em pessoa com dois homens e uma lanterna carregada e disse-nos para sair.

Eu perguntei-lhe quem é que ficava a segurar.

E ele disse-me — e é isto, senhor cónego, é isto que eu vim aqui dizer e o resto é tudo enchimento —

ele disse-me:

«Eu.»


O cónego Petrek tinha sessenta e um anos e era de Solnica e eu conheci-o oito anos. Ele acordava a nossa munição às quintas-feiras de manhã e à tarde jogava às cartas com os sargentos e perdia sempre e pagava sempre.

Naquela altura já estava a acordar cartuchos desde as duas e meia da manhã, com os outros três, para a retaguarda da coluna. Três horas e meia. Tinha a mão direita fechada e não abria.

Segurou a lanterna com a esquerda.

Eu disse-lhe que não podia ficar sozinho e ele disse-me que não estava sozinho e eu não percebi na altura se ele estava a falar dos dois homens que trouxera ou de outra coisa, e não perguntei, e passei estes dezasseis dias a desejar ter perguntado.

Saí com a quarta coluna às seis e dez.

A última coisa que vi de Karentin-Alta foi a boca da cisterna com luz lá dentro.

Ainda estava acesa quando a estrada virou.


Mattias leu este depoimento pela primeira vez a 22 de novembro de 1834, em Vallium, e leu-o de pé, e quando acabou mandou chamar o cónego que o recolhera e fez-lhe uma única pergunta.

Perguntou se o sargento tinha dito mais alguma coisa depois de a transcrição acabar.

O cónego disse que sim. Disse que o sargento Vitor ficara sentado um bocado e depois perguntara se aquilo que ele contara era suficiente para se pedir alguma coisa.

— Pedir o quê? — disse Mattias.

— Ele queria saber se chegava para se pedir à Ordem que mandasse retomar a cidade. — O cónego hesitou. — Eu disse-lhe que essas decisões não se tomam com depoimentos. Ele perguntou-me com o que é que se tomam.

Mattias ficou calado.

— E o senhor respondeu-lhe o quê?

— Não respondi nada, senhor Capitão-Geral. Não soube.


Morreram, na noite de 3 de novembro, mil quatrocentas e onze pessoas: duzentos e nove cavaleiros, cento e quarenta e dois da tropa de guarnição, e mil e sessenta civis dos três mil que lá viviam.

Saíram mil novecentos e vinte e sete, pela porta sul, em quatro horas, e a evacuação foi executada de um modo que os manuais militares do continente estudam desde então, e foi executada por um tenente de vinte e seis anos cujo nome não é conhecido porque ele morreu em 1841 e a Casa Solar não guarda apelidos.

Os quatro purificadores da guarnição ficaram. Os quatro.

Não por heroísmo declarado e não por ordem — Mattias verificou isto e verificou-o com um cuidado quase doentio durante o inverno seguinte, porque precisava de saber se alguém lhes tinha mandado ficar, e ninguém lhes tinha mandado.

Ficaram porque a terceira regra diz que uma unidade sem purificador se retira, e porque um purificador que sai com a coluna de evacuação leva consigo a única coisa que permite à retaguarda disparar, e porque os quatro perceberam em simultâneo, sem se falarem, que a coluna de mil novecentas pessoas ia precisar de fogo consagrado atrás dela durante quatro horas.

Fizeram quatro horas.

O último deles era um cónego de sessenta e um anos chamado Petrek, de Solnica, e a coisa que se sabe dele é que na última hora estava a acordar cartuchos sentado no chão, encostado a uma parede, e a passá-los a um sargento que os distribuía, e que ele já não conseguia levantar a mão direita e que fazia o rito com a esquerda, o que não é permitido e não é ensinado e não devia funcionar.

Funcionou. Está no relato do sargento, que saiu vivo.


Mattias escreveu o relatório da queda em dezoito dias e é o documento mais longo da carreira dele e tem sessenta e uma páginas.

Não há nele uma única palavra de justificação. Krell leu-o em Aurum Roma em janeiro de 1835 e escreveu na capa, a lápis, duas palavras que o arquivo conservou: homem honesto.

A parte que a Cúria não quis foi a página cinquenta e nove.

Na página cinquenta e nove, Mattias fez uma coisa que ninguém lhe pedira: calculou o custo da grade.

As vinte grades de ferro comum, substituídas por Ferro-do-Coro, ao preço da tabela de 1826, coluna I, com mão de obra e transporte de altitude: quatro mil e cento e dez ducados aurélios.

E escreveu, por baixo, sem comentário, o que a Congregação dos Meios tinha gasto no mesmo exercício de 1832 em obra de representação no quarto pátio de Aurum Roma: onze mil e duzentos.

A Cúria mandou retirar a página cinquenta e nove do exemplar de arquivo.

Mattias tinha cópia. A cópia está em Karentin-Alta, emoldurada desde 1871, e a maior parte dos oficiais que passam por ela julga que é uma relíquia da defesa e não sabe ler o que lá está.


XVIII. O Escuro

Aelius começou a perder a vista em 1832 e ficou cego dos dois olhos em agosto de 1834, três meses antes de Karentin-Alta, e a coisa aconteceu devagar e depois toda de uma vez, que é como acontece.

Havia médico na Vigília. O médico chamava-lhe catarata dupla com esgotamento e não sabia mais nada, e a única coisa que disse a Aelius que serviu para alguma coisa foi que não tinha sido a chama.

— O senhor nunca olhou.

— Nunca.

— Então não foi. — O médico arrumou as coisas. — É a idade e são quarenta e quatro anos a escrever à luz de velas de sebo em letra de dois milímetros. Perdoe-me a franqueza: o senhor gastou os olhos do modo mais banal que há.

Aelius agradeceu-lhe sinceramente. Foi a melhor notícia que recebeu naquele ano.


Um escrivão de Vigília nunca deve olhar para a chama.

É a primeira regra que se aprende e é a única que se ensina com ameaça, e Aelius de Sárvar tinha passado quarenta e quatro anos a cumpri-la — e cumprira-a como um homem cumpre uma coisa difícil, isto é, querendo, todos os dias, catorze mil vezes, com o canto do olho a puxar e a ser puxado de volta.

E em agosto de 1834 deixou de ter de querer.

Ele escreveu sobre isto uma vez, à sobrinha, numa carta ditada em 1837, e a carta existe:

Toda a gente nesta casa acha que eu estou a ser corajoso e ninguém tem coragem de mo dizer, e eu deixo estar porque explicar seria pior.

Eu não estou a ser corajoso. Eu fui, durante quarenta e quatro anos, um homem que todos os dias escolhia não olhar.

Agora sou um homem que não pode olhar.

Perdi a única coisa que eu fazia que valia alguma coisa diante de Deus, e ninguém repara, porque de fora as duas coisas parecem iguais.


Continuou a trabalhar sete anos.

Isto parece impossível e não é, e a explicação é mecânica e sem romance nenhum: um escrivão de Vigília escreve sem olhar para o papel desde o segundo ano de ofício, porque olhar para o papel significa baixar a cabeça e perder sílabas. Escreve-se de lado, com a folha por baixo da mão, a olhar para a parede.

Aelius tinha a letra formada havia quarenta anos. A mão sabia.

O que ele perdeu não foi a escrita: foi a releitura. Deixou de poder verificar o que tinha escrito, e portanto deixou de poder corrigir, e portanto a Vigília passou a pôr uma assistente ao lado dele a conferir cada folha no fim do turno.

A assistente tinha dezanove anos em 1834 e chamava-se Doroteia, e passou sete anos a ler em voz alta a Aelius de Sárvar aquilo que Aelius de Sárvar acabara de escrever, para que ele confirmasse.

Em 1868 ela foi Madre Vigilante, e em 1888 ainda era, e é a Madre Doroteia do conclave de emergência.

Nenhum dos dois soube nunca o que o outro ia ser.


A coisa que interessa a este livro aconteceu em 1836 e foi de uma banalidade administrativa completa.

A Cúria mandou, em fevereiro, um ofício à Vigília Branca propondo a aposentação com honra do escrivão Aelius de Sárvar, de setenta e quatro anos, cego, ao serviço havia quarenta e seis, com pensão integral e alojamento vitalício.

Era um ofício generoso. Era, além disso, absolutamente sensato: um escrivão cego que precisa de uma assistente a conferir-lhe o trabalho custa duas pessoas e rende uma.

Sofia Kranz recusou-o.

Recusou-o por escrito, em três parágrafos, e o terceiro parágrafo é famoso dentro da Vigília e nunca saiu de lá:

Eminência Reverendíssima, o escrivão Aelius de Sárvar entrou nesta casa em 1790 e transcreveu desde então trinta e uma Brancas, das quais vinte e nove estão mortas.

Não há nesta casa, nem na Cúria, nem no continente, mais ninguém que as tenha ouvido a todas. Os cónegos rodam de dois em dois anos, as Madres de sete em sete, e as raparigas não se falam umas às outras por regra desta casa que Vossa Eminência conhece.

Ele é a continuidade. Não porque seja sábio — ele não é sábio, é escrivão — mas porque ficou.

Se o aposentarem, esta casa passa a ter memória de sete anos. É isso que estão a propor, e não julgo que seja isso que estão a querer.

Ficou.


XIX. As Onze Semanas

A retomada de Karentin-Alta começou a 2 de março de 1836 e acabou a 19 de maio, e são setenta e nove dias, e toda a gente lhe chama onze semanas porque onze semanas é o que está no relatório e porque soa melhor.

Foi feita só com Cavaleiros do Selo.

Isto é o facto de que a Ordem se orgulha e é preciso dizer de onde veio, porque não veio de orgulho: veio de Mattias ter recusado, em janeiro de 1836, uma oferta de sete mil homens de tropa de coroa e de duas casas alpinas, e a recusa custou-lhe uma reprimenda escrita do Conselho dos Sete e quase lhe custou o posto.

A razão que ele deu por escrito foi logística e era verdadeira: sete mil homens extra num vale glacial em março significam abastecimento que a estrada não suporta.

A razão que ele não deu está no caderno e tem duas linhas:

Se entrarem com tropa de coroa, a cidade é retomada por toda a gente, e daqui a dez anos metade do continente lembra-se de que Roma precisou de ajuda para limpar a sua própria montanha.

Custa-me seis semanas a mais e não sei quantos homens. Vou pagar.


Levou quatro mil e duzentos homens. Sete regimentos das sete Casas, o que foi a primeira vez na história que as sete operaram juntas e a última até 1859.

Levou dezanove purificadores licenciados — dezanove, de um efetivo continental que em 1836 andava nos cinco mil e seiscentos — e a Congregação dos Meios levou cinco meses a autorizar aquilo, e Krell assinou a autorização com sessenta e oito anos e a assinatura está trémula.

E levou, pela primeira vez em campo, artilharia de Ardentina de primeira geração: onze peças, saídas das refinarias do sul havia catorze meses, com uma instrução de manuseamento de quarenta páginas que ninguém tinha testado em altitude.

Duas explodiram. A segunda matou nove homens.

Está no relatório, na página onze, com os nove nomes de serviço, e Mattias insistiu que estivesse lá, contra a opinião de dois oficiais superiores que queriam que a coisa se registasse como acidente de material, e o argumento dele foi o de sempre:

— Se não escrevermos, no ano que vem alguém repete.


A campanha não é interessante militarmente e Mattias foi o primeiro a dizê-lo.

Foi cerco. Foi um cerco de sete semanas a uma cidade que a Ordem tinha construído e cujas plantas a Ordem tinha, com sapa de Ardentina em três pontos escolhidos por um engenheiro que trabalhara na muralha em 1811 e que tinha então setenta e três anos e que fez a campanha inteira numa liteira.

A parte difícil foi o aqueduto.

Entraram por onde tinham saído. Pelos respiradouros — pelos vinte de ferro comum que Mattias mandara substituir em 1832 e cuja obra estava marcada para o verão de 1835 e que nunca se fez, e que estavam exatamente como estavam, e foi por lá.

Mattias foi pessoalmente no terceiro grupo. Tinha quarenta e seis anos e era Capitão-Geral e não devia ter ido, e foi, e nunca deu explicação nenhuma a ninguém.


A cidade foi retomada a 19 de maio de 1836, e o que estava lá dentro fica fora deste livro, porque este livro é sobre uma secretária em Aurum Roma e sobre o que é que se decide numa sala.

Fica fora, e há uma coisa que fica dentro, e é uma coisa de contabilidade.


Em novembro de 1834 havia em Karentin-Alta três mil e quarenta e quatro civis, pelo recenseamento paroquial de agosto desse ano.

Mil e sessenta morreram na noite.

Mil novecentos e vinte e sete saíram pela porta sul em quatro horas e foram recebidos e contados em Vallium entre 6 e 11 de novembro, e a lista existe, com nome, e é o documento que a diocese usou durante trinta anos para resolver heranças.

Mil e sessenta mais mil novecentos e vinte e sete são duas mil novecentas e oitenta e sete.

Faltam cinquenta e sete.


Mattias detetou a diferença em janeiro de 1835, ao trabalhar o relatório, e a primeira coisa que fez foi o que qualquer pessoa competente faz, que é presumir erro.

Mandou reconferir as listas três vezes. Mandou cotejar com o recenseamento de agosto e com os registos de batismo da paróquia. Mandou perguntar em nove aldeias do vale se havia gente de Karentin-Alta acolhida por parentes e não declarada, e havia — foram encontradas onze pessoas assim, ao longo de catorze meses, e todas as onze foram riscadas da diferença.

Sobraram quarenta e seis.

Quarenta e seis pessoas que entraram numa cidade em agosto de 1834 e que não morreram na noite, porque os corpos foram contados, e que não saíram pela porta sul, porque a coluna foi contada em Vallium com nome.


Ele não falou nisto a ninguém durante dezasseis meses.

Não por segredo. Porque não havia nada a fazer com aquilo e porque dizê-lo em voz alta, numa guarnição de refugiados alojada em Vallium com mil novecentas pessoas que tinham deixado lá dentro toda a gente que conheciam, teria sido uma crueldade sem finalidade nenhuma.

Levou a lista dos quarenta e seis nomes na campanha de 1836. Está no caderno, numa folha dobrada, com a letra dele.

E a 20 de maio, no primeiro dia dentro da cidade retomada, deu ordem — a segunda ordem que deu, a seguir à dos purificadores — para que se procurasse.


Procuraram onze dias, com quarenta homens, e este é o único assunto sobre o qual o relatório final de Karentin-Alta é deliberadamente vago, e é vago porque Mattias o escreveu vago e porque foi a única vez na vida em que o fez.

O que está escrito é isto, e é tudo:

Do recenseamento em falta, não se apurou paradeiro de quarenta e dois. Apurou-se o de quatro, cujos nomes se remetem em separado ao Ordinário de Ferrum Alpina para os efeitos que este entender.

Encontraram-se, no anel interior e nas galerias de serviço, sinais de permanência humana posterior a novembro de 1834, sem que se possa estabelecer duração nem número.

Não se recolheu testemunho.

Não se recomenda diligência ulterior.


Sinais de permanência humana.

São quatro palavras e Mattias escolheu-as e discutiu-as com o próprio capelão durante uma tarde, e o que elas cobrem — e é isto que os oficiais da Ordem que leem o relatório em Karentin-Alta hoje não percebem, porque o relatório está emoldurado e ninguém emoldura coisas para as ler — é que a cidade esteve ocupada dezoito meses e que alguém lá esteve a viver.

Não se sabe quem. Não se sabe quantos. Não se sabe em que condição, e a expressão em que condição é aqui a mais importante das três e é a razão pela qual não se recolheu testemunho.

O parecer do capelão, que Mattias solicitou por escrito e que juntou ao processo, tem seis linhas:

Não há no direito canónico presunção que nos permita tratar como vivo quem esteve dezoito meses do lado de lá, nem presunção que nos permita tratar como perdido quem não vimos.

Recomendo que se registe o que se viu, que não se conclua, e que se remetam ao Ordinário os quatro nomes.

Sobre os quarenta e dois, recomendo que fiquem em lista de rogação perpétua da Casa Solar, sem declaração de óbito.

É pouco e é o que há.


A lista de rogação perpétua da Casa Solar existe.

É lida em voz alta uma vez por ano, a 3 de novembro, em Karentin-Alta, e tinha quarenta e dois nomes em 1836 e tem, em 1890, seiscentos e onze, porque outras coisas aconteceram em cinquenta e quatro anos e porque a Ordem, tendo uma vez inventado uma categoria para as pessoas de quem não se pode dizer nem que morreram nem que vivem, passou a usá-la.

É a única liturgia própria que os Cavaleiros do Selo têm.

Não foi aprovada por Roma. Foi feita por um capelão alpino numa tarde de maio de 1836 para resolver um problema administrativo de quarenta e dois nomes, e sessenta e um anos depois é a coisa mais parecida com uma alma que aquela Ordem tem.


Mattias escreveu, no caderno, na noite de 31 de maio de 1836, a última entrada da campanha:

Retomámos a cidade em onze semanas e vai ficar na história como a primeira vitória de uma Ordem Militar como instituição, e é verdade, e os homens merecem-no.

Eu entrei por um respiradouro que mandei substituir em trinta e dois e vim procurar quarenta e seis pessoas e encontrei quatro.

Vou escrever o relatório e vou escrevê-lo bem e não vou pôr nele o que penso, que é o seguinte:

que a diferença entre esta campanha e a de Marnheim não foi coragem, nem fé, nem competência, porque aqueles homens tinham as três.

Foi que eu tinha dezanove purificadores e o Conde de Reichshamn tinha um.

E eu tive-os porque um homem em Aurum Roma passou vinte anos a construir uma máquina que os produz, e porque essa máquina me odeia e eu odeio-a, e porque ela funciona.


O que interessa é o que Mattias fez a 20 de maio, no primeiro dia.

Mandou procurar os quatro purificadores.

Não havia nada para encontrar e ele sabia disso, e mandou procurar na mesma, e foram três dias com quarenta homens, e no terceiro dia um sargento encontrou, numa casamata do anel interior, uma caixa de latão com cento e onze cartuchos.

Estavam acordados. Todos.

Estavam acordados e tinham lá estado dezoito meses e ninguém os disparara, e isso significa uma coisa muito simples e muito difícil de suportar, que é que os quatro homens fizeram cento e onze cartuchos a mais do que quem ficou conseguiu gastar.

Mattias ficou com aquela caixa.

Levou-a consigo o resto da vida e está hoje na Casa Solar e nunca foi aberta desde 1836, e há uma discussão na Ordem, que dura há cinquenta e quatro anos e que já foi objeto de dois pareceres, sobre se aqueles cento e onze cartuchos ainda funcionam.

Ninguém os disparou para descobrir.


XX. O Cavaleiro Vykhradiano

Quem levou os despachos de Karentin-Alta a Aurum Roma, em junho de 1836, foi um major de trinta e oito anos da Casa do Limes chamado Konstanty Vlassov.

Mattias escolheu-o por três razões e disse-lhe as três, o que era o hábito dele:

— O senhor comandou o assalto ao respiradouro leste e está no relatório por nome. O senhor é vykhradiano, e eu quero que a Cúria veja um vykhradiano a entregar isto, porque metade da Cúria ainda acha que o leste é um sítio onde se vai buscar gente. E o senhor não pertence a casa nenhuma.

Vlassov era neto de um general. O avô comandara dezassete mil veherênicos num vale em 1786 e morrera lá, com quase todos eles, na manhã de 17 de maio, debaixo de uma coisa que não se descreve.

O neto nascera refugiado em 1798, sem terra, sem renda e sem apelido que valesse alguma coisa fora do leste, e subira por carreira.

— Não pertenço, senhor Capitão-Geral.

— Eu sei. É por isso que vai.


Vlassov ficou em Aurum Roma cinco semanas.

Foi recebido, foi louvado, foi promovido a tenente-coronel, e passou trinta e três dias a fazer o que faz um oficial de campo numa capital, que é esperar em antecâmaras.

E numa dessas esperas — a 11 de julho de 1836, no corredor exterior do quinto pátio, onde se espera pela Congregação dos Meios — sentou-se ao lado dele um homem muito velho e cego, com uma assistente, e perguntou-lhe se ele era o oficial de Karentin.

Vlassov disse que era um deles.

E Aelius de Sárvar, setenta e quatro anos, escrivão, disse-lhe:

— O senhor esteve no aqueduto.

— Estive.

— Quantos purificadores levaram na campanha?

Vlassov achou a pergunta estranha, porque era uma pergunta de intendência e o homem era um escrivão de uma casa de mulheres.

— Dezanove.

— Dezanove — repetiu o velho. E depois, para a assistente, num tom completamente diferente, como quem confirma uma conta: — Dezanove por quatro mil e duzentos. Um por duzentos e vinte.

Ficou calado um bocado.

— Em 1786 — disse — foram quarenta e três mil homens para um vale e levaram nove.

— Nove purificadores?

— Nove. — Aelius voltou a cara na direção dele, do modo impreciso dos cegos. — O senhor sabe quantos voltaram, coronel?

— Trezentos e dezassete — disse Vlassov. — O meu avô não foi um deles.

E houve então um silêncio de uma qualidade que Vlassov descreveu, muitos anos depois, num caderno que ele próprio escreveu e que acabou nas mãos de um cardeal em 1866, com uma frase que ficou:

Percebi que aquele velho cego tinha passado a vida a comparar coisas que ninguém lhe tinha mandado comparar, e que eu era, naquele corredor, a primeira pessoa em quarenta anos a quem ele podia dizer uma delas em voz alta.


EPÍLOGO — 1837

XXI. As Velas

Aurelianus I entrou em coma litúrgico a 2 de fevereiro de 1837 e morreu a 11, e nos nove dias as mãos dele escreveram.

Não é figura. Está documentado por catorze testemunhas e há treze relatos concordantes: o Um estava sem consciência, sem reação a estímulo, sem fala — e a mão direita escrevia, continuamente, em latim, e quando lhe acabava a folha parava até lhe porem outra.

Escreveu duzentas e onze folhas.

São os Cânones Áureos, e são o fundamento técnico da Cúria do Hashmal durante sessenta anos, e Krell esteve presente em quatro daqueles nove dias e viu aquilo acontecer e escreveu no Memorial que foi a única coisa da vida dele que não conseguiu reduzir a números.

O que ele conseguiu reduzir a números, e reduziu, e é a parte dele naquele quarto, foi isto:

As duzentas e onze folhas continham, entre teologia e rito, quarenta e uma instruções técnicas novas.

Quarenta e uma.

A média anual de inscrições verificáveis da Vigília Branca na década anterior era de nove.

Um homem de oitenta e dois anos, em coma, em nove dias, produziu quatro anos e meio de revelação — e morreu, e a interface fechou-se com ele, e o Um seguinte não teve nada parecido, nem o seguinte, nem nenhum até 1890.

Krell escreveu a conta e depois escreveu, por baixo:

Não sei o que isto quer dizer e desconfio de toda a gente que diz saber.

Só registo o seguinte: aquilo esteve disponível, naquela intensidade, durante nove dias, e a condição para estar disponível parece ter sido um homem a morrer.

Se for esse o preço da tabela, então nós andámos vinte e dois anos a discutir orçamentos e nunca soubemos qual era a moeda.


O conclave abriu a 3 de março de 1837.

Durou dezanove dias e três turnos de cinza preta, e ao décimo quinto dia convergiram dois terços num cardeal de sessenta e um anos, prefeito da Congregação da Doutrina, homem de reputação austera e de linha rigorista, que a Cúria conhecia como candidato há quatro anos e que iria tomar o nome de Reformatus.

Conduziram-no em silêncio à Vigília Perpétua, como manda o rito, e os Cardeais-Eleitores acompanharam e não falaram.

Krell estava na terceira fila.

Ficaram diante das sete chamas dos Arcanjos dezanove minutos.

Nenhuma tremeu.


Não há descrição boa disto e Krell tentou três vezes no Memorial e riscou duas.

O que ele deixou foi:

Dezanove minutos é muito tempo.

Ao fim do quarto, toda a gente naquela capela já sabia. Ao fim do sétimo, o candidato já sabia. E ficámos lá mais doze porque ninguém tem autoridade para declarar uma rejeição antes do fim do tempo canónico, e o tempo canónico são dezanove minutos porque alguém em 1790 escreveu dezanove numa folha.

Doze minutos com aquele homem de joelhos e setenta e dois cardeais atrás dele a olhar para as costas dele.

Nunca vi nada assim e rezo para não voltar a ver.

E há uma coisa mais, e escrevo-a porque sou o que sou e porque não consigo sair de uma sala sem ter contado o que lá estava.

Ao décimo terceiro minuto, olhei em volta.

Setenta e dois cardeais, e eu conhecia-lhes as caras havia vinte e três anos, e vi em dezoito delas a mesma coisa que estava na minha e que eu tinha esperança de que não se notasse.

Alívio.

Não por ele. Por nós. Porque aquele homem tinha uma linha rigorista e porque metade daquela sala tinha, nos catorze anos anteriores, assinado alguma coisa que um pontificado rigorista teria ido buscar.

Dezoito de setenta e dois é um quarto. Um quarto do colégio cardinalício estava, ao décimo terceiro minuto, com um homem de joelhos à frente e a agradecer a Deus em silêncio por uma coisa que Deus acabara de fazer e que lhes convinha.

Não sei o que fazer com isto e não o vou levar a confessor nenhum, porque o meu confessor estava na segunda fila.

O cardeal rejeitado voltou à condição de cardeal, como manda o cânone, e ficou excluído definitivamente, e viveu mais catorze anos, e nunca mais falou em público sobre coisa nenhuma.

O conclave recomeçou no dia seguinte e ao quarto turno elegeu um cardeal de cinquenta e quatro anos ligado à linha das Ordens Militares, sobre quem a única coisa que toda a gente dizia era que fora ele a defender a dotação de dezanove purificadores para Karentin-Alta no Conselho dos Sete quando a Congregação hesitava.

Foi conduzido às velas a 22 de março.

A chama de Camuel tremulou uma vez e firmou-se.

Hashmalian I.


Krell voltou a pé para o gabinete nessa noite e é a única vez em toda a obra dele em que escreve sobre o que sentiu, e escreve-o mal, o que é sinal:

Elegemos um Pontífice sobre onze semanas de campanha alpina.

Isto não é impiedade. A vela tremulou; o Céu reconheceu-o; eu vi e acredito no que vi, e vou até ao fim da vida.

Mas eu estava naquela capela e sei contar, e sei que se a cidade não tivesse sido retomada em maio de trinta e seis, aquele homem não estaria naquela lista em março de trinta e sete.

E portanto o Céu reconheceu um homem que ali chegou por uma campanha militar que eu financiei com dezanove licenciados que eu autorizei com a minha assinatura trémula em setembro do ano passado.

Não sei o que fazer com esta frase. Escrevo-a porque é verdade e ponho-a neste livro que ninguém vai publicar.

Vinte e dois anos. Comecei com um decreto de catorze artigos sem um único número dentro.

Acabo a saber que os números chegaram a todo o lado, incluindo aos sítios onde eu achava que eles não entravam.


Hashmalian I mandou chamar Amandus Krell a 4 de abril de 1837, treze dias depois da eleição, e foi a primeira audiência de meios do pontificado.

Krell tinha sessenta e nove anos e tinha servido Aurelianus I durante vinte e três, e foi para aquela sala com a certeza — não formulada, mas inteira — de que o iam aposentar.

Preparou-se para isso. Levou a pasta.

A pasta chamava-se A Fazer e ele escrevera aquele nome a lápis na capa em 1815 e nunca o corrigira, e nos vinte e dois anos seguintes ela deixara de ser uma pasta e passara a ser quatro volumes e o índice deles.

Levou-os todos. Se o iam aposentar, ia entregá-los pessoalmente.


O novo Um recebeu-o sentado, que foi a primeira diferença e que Krell registou.

Tinha cinquenta e quatro anos e uma reputação de homem prático. Era cardeal ligado à linha das Ordens Militares e era, dizia-se, o homem que defendera os dezanove purificadores para Karentin-Alta quando a Congregação hesitava — e Krell, que sabia exatamente quem tinha hesitado na Congregação porque fora ele, não desmentiu nunca aquela versão e também nunca a confirmou.

Hashmalian I foi direto.

— Eminência. Quantos anos tem?

— Sessenta e nove, Santíssimo Padre.

— E quantos anos de Congregação?

— Vinte e três em novembro.

O Um assentiu.

— Vou fazer-lhe uma pergunta e quero a resposta que o senhor daria ao seu confessor e não a que daria a mim. — Pousou as mãos na mesa. — Se pudesse desfazer uma coisa destes vinte e três anos, qual era?


Krell tinha a resposta.

Tinha-a havia onze anos e nunca ninguém lha pedira, e ele percebeu, com uma espécie de vertigem, que estava a acontecer a coisa mais improvável que podia acontecer a um homem da idade dele, que é ser-lhe feita, uma vez, a pergunta certa.

E percebeu ao mesmo tempo, no mesmo segundo, que a resposta verdadeira não servia — porque a resposta verdadeira era a reforma de 1824, e dizê-la significava pedir ao Um que desmontasse a Inquisição Reformada, e aquilo não ia acontecer, e o único efeito de o pedir seria acabar a carreira dele numa tarde e não mudar nada.

Portanto deu a segunda.

— A quarta determinação do despacho da tabela, Santíssimo Padre.

— Não conheço.

— É de 1826. É a que manda afixar o preço na praça e a que mantém as colunas de desconto em anexo reservado. — Krell abriu o segundo volume, procurou, e leu: — Os coeficientes de aplicação não são matéria de publicação.

— E devia ser?

— Devia. E não é por virtude, Santíssimo Padre, é por aritmética. — Ele fechou o volume. — Königsmark paga duzentos e quarenta por cento acima de Ferrum Alpina e sabe que paga mais, mas não sabe quanto nem sabe porquê, e passou onze anos a construir teorias sobre isso. As teorias são todas piores do que a verdade.

— Qual é a verdade?

— Que nós cobramos caro ao Norte porque o Norte purifica em casa e nós queremos que isso lhes custe os purificadores deles em vez de nos custar os nossos. É frio e é defensável e eu defendo-o. Mas em segredo transforma-se noutra coisa: em segredo, um homem de Königsburg que paga aquele preço só tem duas explicações possíveis, que é ou que Roma o odeia, ou que Roma está a mentir sobre o que aquilo custa.

Krell levantou a cabeça.

— Nós não os odiamos e não estamos a mentir. Mas passámos onze anos a deixá-los escolher entre duas coisas falsas, e eles escolheram, e o Cisma do Norte está hoje mais fundo do que estava em 1826, e uma parte disso é a folha que eu não deixei afixar.


Hashmalian I ficou calado um bocado.

Depois disse uma coisa que Krell não esperava.

— Eminência, o senhor não me respondeu.

— Santíssimo Padre—

— Eu perguntei-lhe o que é que desfazia. O senhor deu-me um erro de política externa de 1826, que é um erro verdadeiro e que eu vou mandar rever. — O Um inclinou-se. — E deu-mo porque é o segundo da lista. Eu quero o primeiro.

Silêncio.

— Eminência, eu li as atas de 1824. Todas. Levei nove dias. — Hashmalian I não levantou a voz em nenhum momento daquela audiência e Krell registou isso também. — Sei quem pediu o tribunal sumário e sei porquê, e sei que o pedido tem duas páginas e não menciona heresia uma única vez. Sei que o senhor queria exclusividade de serviço e que lhe deram o tribunal, e sei que o senhor escreveu os considerandos do primeiro artigo e não escreveu os outros dois.

Krell não disse nada.

— Quantos processos é que a Reformada abriu no ano passado?

— Trezentos e quarenta e um, Santíssimo Padre.

— E em 1825?

— Sessenta e nove.

— Em onze anos multiplicou por cinco, e a população de obediência cresceu dezasseis por cento. — O Um endireitou-se. — O senhor sabe o que isso quer dizer e eu também. Não está a apanhar mais heresia. Está a procurar mais fundo, porque uma casa com orçamento e sem julgamento público não tem nenhum sítio onde parar.


E aqui Amandus Krell fez a única coisa daquela audiência de que se arrependeu, e arrependeu-se dela durante quatro anos e escreveu-o.

Defendeu-a.

Não por lealdade à Inquisição, que ele detestava. Por uma razão pior e mais funda, e ele reconheceu-a enquanto a estava a dizer e não conseguiu parar:

— Santíssimo Padre, se Vossa Santidade abrir os julgamentos, os autos passam a ser consultáveis, e os autos contêm o que os réus fizeram. — Ouviu-se a dizer aquilo e continuou. — Metade deles funcionou. Está nos processos. Está verificado por instrução, com testemunho e com peritagem, porque a Reformada é competente e verifica tudo.

— Eu sei.

— Então Vossa Santidade sabe que publicar um julgamento por heresia funcional é publicar a prova de que a heresia funciona.

Hashmalian I olhou para ele durante muito tempo.

E depois disse a frase que fechou a audiência, e Krell escreveu-a no Memorial naquela mesma noite, palavra por palavra, com a nota de que a ouvira de pé:

— Eminência, o senhor acabou de me dar, em três frases, a razão pela qual esta casa não pode ser honesta. E deu-ma bem, e eu não tenho resposta, e isso deixa-me acordado.

O Um levantou-se.

— Fique na Congregação. Não o vou aposentar; tenho sessenta e nove anos de trabalho seu em quatro volumes e nenhum homem que os saiba ler. Mas quero uma coisa, e vou pedi-la uma vez só.

— Diga, Santíssimo Padre.

— Escreva. Tudo. As três verdades, não as duas.

Krell não percebeu imediatamente e o Um viu que ele não percebeu.

— Não para publicar. Para existir. — Hashmalian I foi até à janela. — Eminência, eu vou governar isto vinte anos ou dois, e o que vier a seguir vai herdar uma máquina que ninguém desenhou de propósito e que já ninguém consegue explicar por inteiro. O senhor é o único homem vivo que a viu ser feita peça a peça.

— Ninguém o vai ler.

— Provavelmente. — O Um voltou-se. — Mas se ninguém escrever, daqui a sessenta anos esta casa vai acreditar que nasceu assim, e uma casa que acredita que nasceu assim não consegue mudar nada, porque já não sabe onde é que pôs as juntas.


O Memorial sobre os Meios foi começado a 9 de abril de 1837, cinco dias depois daquela audiência, e Krell escreveu-o em três anos e sete meses, à noite, em três volumes, com a mão cada vez pior.

Não o publicou. Deixou instrução expressa de não se publicar enquanto a tabela estivesse em vigor, o que é uma condição que nunca se verificou e que ele sabia que nunca se verificaria, e que é portanto a maneira de um homem de setenta anos dizer nunca sem o dizer.

Está no Arquivo dos Meios. Foi consultado, entre 1841 e 1890, por catorze pessoas.

Uma delas foi um cónego de província de trinta e nove anos, em 1860, que fazia investigação sobre a história das Congregações e que levou onze dias a ler os três volumes e que saiu de lá com o que ele próprio descreveu, muitos anos mais tarde, como a única educação política que alguma vez recebi.

Chamava-se Sebastien Vergesa.

Fez carreira inteira em arquivo e comissão. Chegou a cardeal sem nunca ter chefiado Estado nenhum, e em 1866 recebeu das mãos de um marechal vykhradiano reformado um pacote em oleado com um índice copiado à noite por uma assistente de dezanove anos, e não perguntou de onde vinha porque já sabia.


XXII. O Índice

A última coisa deste livro passa-se a 4 de agosto de 1837, num corredor, e leva dois minutos.

Konstanty Vlassov estava de novo em Aurum Roma — tinha voltado em julho para a formatura de confirmação de postos do novo pontificado — e ia a sair do quinto pátio quando o mandaram parar.

Era a assistente do escrivão cego. Doroteia, vinte e dois anos.

Disse que o senhor Aelius pedia se o senhor coronel podia dispensar um momento.


Aelius estava sentado num banco de pedra ao sol, que era onde passava as manhãs desde que deixara de ver, e tinha ao colo um pacote embrulhado em oleado e atado com fio.

— Coronel.

— Senhor escrivão.

— O senhor lembra-se de mim.

— Lembro-me da conta — disse Vlassov. — Um por duzentos e vinte.

Aelius sorriu, e foi a única vez que Doroteia o viu sorrir naquele ano.

— Quero dar-lhe uma coisa e o senhor não a pode recusar, porque se a recusar eu tenho de a levar de volta e não tenho onde a pôr.

Estendeu o pacote.

— O que é?

— É o índice.


Não era o arquivo. O arquivo da Vigília Branca são quatro mil e seiscentas transcrições em cento e onze maços e está no Cofre do Coro e não sai de lá.

Era o índice.

Aelius de Sárvar tinha, ao longo de quarenta e sete anos, mantido um caderno pessoal em que registava, para cada transcrição, a data, a Branca, a classificação, e — e é isto que fazia daquilo uma coisa que não devia existir — as remissões: que transcrição repete qual, com que variação, em que sentido corrige.

Era a regra primeira aplicada quatro mil e seiscentas vezes.

Sofia Kranz e as quatro assistentes tinham usado aquilo durante nove anos para escrever a Sintaxe Hashmal. Sem aquele caderno, a Sintaxe teria levado trinta anos ou não teria sido escrita.

O caderno era propriedade da Vigília. A cópia que Aelius tinha nas mãos naquela manhã não estava autorizada por ninguém, e fora feita ao longo de quatro anos pela assistente Doroteia, à noite, por ditado, e Doroteia sabia exatamente o que estava a fazer e tinha vinte e dois anos e fê-lo à mesma.

— Isto é irregular — disse Vlassov.

— É. — Aelius não baixou as mãos. — Coronel, eu tenho setenta e cinco anos e estou cego e trabalho nesta casa há quarenta e sete. Vou morrer aqui dentro. O que eu transcrevi está num cofre com uma fechadura e três chaves, e o índice que permite encontrar seja o que for lá dentro existe em um exemplar, na mesma sala, no mesmo cofre.

— E agora em dois.

— Agora em dois.

Vlassov olhou para o pacote e não pegou nele.

— Porquê eu?

E Aelius de Sárvar deu a resposta que tinha preparado, que ele não era homem de improvisar coisas destas, e que Vlassov escreveu no caderno dele naquela mesma noite porque percebeu, ao ouvi-la, que ia querer lembrar-se das palavras exatas:

— Porque o senhor não pertence a casa nenhuma. Porque é do leste e a Cúria não olha para o leste. Porque subiu por carreira e não tem nada a proteger além do posto. E porque o senhor perguntou-me quantos voltaram de um vale em 1786 e disse-me que o seu avô não foi um deles, e eu percebi que o senhor é das pessoas que contam.

Ficou um instante.

— Nós somos poucos, coronel. Somos muito poucos e não nos conhecemos uns aos outros, e passamos a vida a fazer contas em sítios diferentes sem saber que as outras pessoas as estão a fazer.


Vlassov levou o pacote.

Guardou-o trinta e um anos, atravessou com ele a Era da Forja, comandou em Cherniwicz em 1859 com aquilo numa arca, recusou em 1861 a elevação a Senhor da Salvação com uma frase que ficou — quem manda em tudo deixa de ver alguma coisa — e em 1866 entregou-o, com um caderno próprio que ninguém lhe pedira, a um cardeal de quarenta e cinco anos que fizera a carreira inteira em arquivo e comissão.

Aelius de Sárvar morreu a 9 de março de 1841, aos setenta e nove anos, com quatro mil e seiscentas transcrições no nome e nenhuma assinada, porque um escrivão de Vigília não assina.

Amandus Krell morreu a 2 de dezembro do mesmo ano, aos setenta e três, e o Memorial sobre os Meios ficou inédito por vontade expressa dele e está no Arquivo dos Meios em três volumes com uma nota na capa do primeiro, escrita à mão, que diz:

Não publicar enquanto a tabela estiver em vigor.

Está em vigor. Foi revista onze vezes e nunca revogada.

Mattias da Casa Solar morreu em 1851, aos sessenta e um anos, em Karentin-Alta, e mandou que o enterrassem sem nome, como manda o voto, e a Casa Solar cumpriu, e a lápide diz apenas Capitão-Geral, 1830-1848.

Alguém, algures nos anos sessenta, gravou por baixo, sem autorização e com um cinzel mau, a frase de junho de 1820:

Contaram as balas e não contaram quem as faz.

A Ordem discutiu duas vezes se a devia mandar apagar.

Não apagou.


XXIII. O Que Ficou

Convém dizer o que aconteceu às coisas, porque as pessoas acabaram e as coisas não.


A chave.

O Arquivo dos Meios tem três chaves e Amandus Krell tinha uma. À morte dele, em dezembro de 1841, ela passou ao Prefeito seguinte, que era um cónego de quarenta e quatro anos que Krell formara e que se chamava Vitale — o mesmo que em 1833 fizera a quarta auditoria de Ferrumkar e escrevera a frase sobre uso doméstico na página onze.

Vitale foi Prefeito da Congregação dos Meios durante dezanove anos e não deu a ninguém o formulário de censo de 1819 com a caligrafia direita e pequena no campo do nome.

Guardou-o pela mesma razão que Krell o guardara, e guardou-o com uma diferença: soube, desde o princípio, que o estava a guardar para alguém.

Em março de 1852, quando os Vidros Quebrados tomaram Ferrumkar e a seguraram quarenta dias e purificaram munição sem clérigo nenhum, e funcionou, a Cúria precisou de decidir em nove dias uma coisa que não tinha pensado em trinta e um anos, que era o que dizer.

E a Inquisição Reformada pediu à Congregação dos Meios tudo o que houvesse em arquivo sobre purificação por não ordenado.

Vitale mandou o parecer de 1823 — as quarenta páginas de casuística que distinguem purificação sacramental de acordamento de extremidade, e que estabelecem, em letra miúda e para poder negá-lo em letra grande, que aquilo funciona sem padre.

Não mandou o formulário de 1819.

Não mandou as quatro páginas de Mattias de 1824 sobre os onze e os cinquenta, que estavam no mesmo maço e que teriam dito à Reformada, num só documento, que o fenómeno tinha sido observado, medido e descrito trinta e um anos antes, por um oficial, numa casa da Ordem, com autorização de ninguém.

Escreveu, no registo de remessa, a justificação, e ela tem nove palavras e é a coisa mais Krell que um discípulo de Krell alguma vez escreveu:

Remete-se o que foi pedido. Não se remete o que não foi.


As quatro páginas.

Ficaram no maço. Foram encontradas em 1855 por um cónego da Cúria do Hashmal que escreveu por cima, a lápis, isto devia ter sido publicado em 1824, e não publicou.

Foram encontradas outra vez em 1871, por um arquivista que as catalogou corretamente e sem comentário.

E em 1889, um ano depois do Conclave de Emergência, um inquisidor de quarenta e oito anos que estava a reconstituir a série dos silêncios da Vigília pediu ao Arquivo dos Meios tudo o que houvesse sobre observação de purificação fora de licença anterior a 1852, e recebeu três documentos, e um deles eram as quatro páginas.

Leu-as numa tarde.

O que ele fez a seguir não consta deste livro porque este livro acaba em 1837, mas consta de outro sítio, e o nome dele era Reinhardt Voss, e a frase de Mattias que ele sublinhou a lápis — o único sublinhado que alguma vez deixou num documento de arquivo em vinte e seis anos de ofício — foi:

Os cinquenta estavam a fazer força. Os onze, a certa altura, deixaram de fazer força e passaram a estar simplesmente presentes, e foi aí.

Voss não tinha fé pessoal visível. Acreditava no método.


A tabela.

A tabela de preços de 14 de janeiro de 1826 foi revista onze vezes entre 1831 e 1878 e nunca foi revogada, e os coeficientes de aplicação nunca foram publicados.

Hashmalian I mandou rever a decisão do anexo reservado em abril de 1837, como prometera a Krell na audiência, e a revisão durou dois anos e concluiu, em 1839, que a publicação dos coeficientes era inoportuna no atual estado das relações com as Igrejas cismáticas.

É uma frase perfeita. Diz que se publica quando as relações melhorarem, e as relações com Königsmark e com Brytonia nunca melhoraram entre 1839 e 1890, e portanto a condição nunca se verificou, e portanto a decisão de 1826 continua em vigor em 1890 por força de uma revisão que a mandou rever.

Krell morreu em 1841 convencido de que a revisão ia acontecer. É a última coisa otimista que se lhe conhece.


A provisão de fronteira.

Instituída em janeiro de 1829 para quebrar um bloco político de sete Cardeais-Estado, indexada ao número de povoações e não à receita, revista de dez em dez anos.

Sobreviveu a tudo. Sobreviveu a cinco pontificados, à industrialização, à Era do Império inteira e à Estagnação, e em 1887 era a razão pela qual a diocese de Pradel-Leste tinha, no papel, quatro purificadores licenciados para um setor de nove aldeias.

Quatro em papel. Um e um pedaço em pedra.

A provisão continuou a ser paga. O que ela comprava deixou de existir, e o mecanismo que Krell inventou numa tarde de 1828 continuou a funcionar perfeitamente durante sessenta anos a distribuir uma coisa que já não havia, e é preciso dizer que isto não é ironia: é o que acontece a todas as boas instituições, e a alternativa — não haver provisão nenhuma — teria sido pior, e o recuo de vinte e dois quilómetros de outubro de 1887 teria acontecido em 1879.


A Sintaxe.

As sete regras foram publicadas em 1839, com o nome de Sofia Kranz, e são o fundamento de toda a doutrina de Vigília do continente.

A regra sétima — a ausência de inscrição não se regista como ausência, regista-se como turno — foi escrita para proteger raparigas de dezanove anos e conseguiu-o, e tornou os silêncios incontáveis durante cinquenta e sete anos.

Sofia Kranz morreu em 1848, aos sessenta anos, Madre Vigilante havia vinte e dois, e nunca soube.

A tabela de cento e dezanove linhas continuou a ser preenchida depois dela e está em 1890 nas quatrocentas e seis linhas, e a coluna que ela acrescentou a lápis no fim — a que conta os anos que o limite de dois turnos devolveu a cada mulher — foi passada a tinta pela Madre seguinte e nunca mais foi retirada.

Em 1884 o limite caiu, num inverno, por necessidade de frente.

A coluna continuou a ser preenchida. A partir de 1884 os números que lá entram são negativos, e a Madre Doroteia, que assumiu em 1868 e que tinha sido a assistente de dezanove anos que lia em voz alta a um escrivão cego aquilo que ele acabara de escrever, escreveu-os na mesma, todos, um por um, durante seis anos.


O índice.

Aelius de Sárvar transcreveu quatro mil e seiscentas vezes em cinquenta e um anos e não assinou nenhuma, porque um escrivão de Vigília não assina.

O caderno de remissões que ele manteve em paralelo — a regra primeira aplicada quatro mil e seiscentas vezes, a coisa sem a qual a Sintaxe teria levado trinta anos ou não teria sido escrita — existe em dois exemplares.

Um está no Cofre do Coro, com três chaves.

O outro foi entregue num corredor, numa manhã de agosto de 1837, a um tenente-coronel vykhradiano de trinta e nove anos que não pertencia a casa nenhuma, e atravessou depois trinta e um anos e uma arca e uma campanha e dois homens, e em 1866 chegou às mãos de um cardeal que fizera a carreira inteira em arquivo e comissão.

Em 1887 esse cardeal confiou uma caixa lacrada a um sargento do Limes com vinte e oito anos de serviço, com instrução de a não abrir.

Em 1890 o sargento tem cinquenta e um anos, a caixa continua fechada, e ele não a abriu.


E a folha.

Há uma coisa que não sobreviveu e convém dizê-lo, porque este livro é sobre contas e uma conta que se destrói também é um facto.

Em fevereiro de 1827, sozinho, com a porta fechada, Amandus Krell estimou em meia folha quantas pessoas no território de obediência faziam o que Pankrác Jelen fazia, e o número que lhe saiu foi entre quatro mil e onze mil, e ele queimou a folha.

Ninguém voltou a fazer aquela conta em sessenta e três anos.

Não porque fosse proibida — não é proibida, não há cânone nenhum que a proíba, qualquer cónego da Congregação a podia refazer numa tarde com os dados públicos.

Porque ninguém a encomendou.

E é assim que este mundo guarda os segredos que mais lhe custam: não os esconde. Não os tranca em cofre nem os manda apagar. Simplesmente nunca põe o trabalho em orçamento nenhum, e passam-se sessenta anos, e a coisa não está escrita em lado nenhum, e toda a gente jura de boa-fé que não sabia.


O que ficou, então.

Ficou uma tabela pregada numa porta em 1826 que ainda governa o preço de tudo.

Ficou uma regra de retirada escrita por um homem de vinte e oito anos numa casa de pastor e que desde então proíbe quatro mil capitães de ficarem onde não devem.

Ficou uma provisão de fronteira que distribui purificadores a dioceses que já os não têm.

Ficou uma lista de rogação perpétua que começou com quarenta e dois nomes de gente de quem não se pode dizer nem que morreu nem que vive, e que tem hoje seiscentos e onze.

Ficou uma coluna a lápis, passada a tinta, que conta anos de vida devolvidos a mulheres de dezanove anos, e que desde 1884 conta ao contrário.

E ficaram três volumes no Arquivo dos Meios, com uma nota na capa do primeiro a dizer não publicar enquanto a tabela estiver em vigor, consultados por catorze pessoas em quarenta e nove anos.

Nenhum dos três homens deste livro mudou coisa nenhuma.

O decreto de 1815 tinha catorze artigos e nenhum número dentro. Em 1837 a Ordem Clerical tinha orçamento, doutrina, recrutamento, tabela, tribunal, três casas de formação e cinco mil e seiscentos purificadores licenciados, e um Pontífice eleito sobre onze semanas de campanha alpina.

Entre uma coisa e a outra houve nove mil homens numa planície a quem ninguém deu quarenta padres, um ferrador de vinte e dois anos que percebeu a aritmética antes dos cardeais e a quem disseram que não percebia de bênçãos, um moleiro de Solnica que abençoava sal às quintas-feiras e cuja filha continuou a fazê-lo, e cento e dezanove raparigas das quais quatro estavam vivas em 1835.

A Igreja não foi validada por ter uma cabeça. Ganhou uma cabeça por ter sido validada, e depois passou vinte e dois anos a construir o corpo, e o corpo foi construído por gente que estava a resolver problemas pequenos numa segunda-feira.

É assim que se fazem os impérios e é a única maneira que há.

Que Deus nos julgue pela folha certa.


Fim da peça

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