Heptarquia Pactuária — 1874 a 1877 — Era do Império
Contexto histórico
A Inquisição Reformada tem catorze mil homens e mulheres e só três mil deles saem de um gabinete.
Não é uma ordem de combate. É a menor das três Ordens Militares Clericais e é pequena de propósito. Os Cavaleiros do Selo são cento e dez mil e matam demónios; os Hospitalários do Hashmal são cinquenta e seis mil e tratam o que sobra. A Reformada faz a terceira coisa, e a terceira coisa não tem um verbo confortável.
Nós vemos, diz o lema. É verdade e é insuficiente.
Opera em células. Três a nove membros, um número em vez de um nome, sem organograma escrito. Um inquisidor conhece a sua célula, o seu superior imediato e mais ninguém, e isso não é segredo defensivo: é a condição de emprego. Ninguém serve na região onde nasceu, para que não haja clemência local. Não há condecoração, não há promoção celebrada, não há funeral público.
Um inquisidor que morre é substituído pelo número seguinte.
E há a segunda reforma, a que deu à Ordem o nome errado.
A primeira, em 1824, transformou um tribunal lento num corpo rápido com execução em dias — é essa que se ensina. A segunda nunca foi anunciada. Aconteceu em 1852, depois de os Vidros Quebrados tomarem Ferrumkar e purificarem munição sem clérigo nenhum, e funcionar.
Não houve julgamento público. Não podia haver: um julgamento público exigiria estabelecer nos autos o que exatamente os réus tinham feito.
A partir de 1852 a Reformada trabalha debaixo do chão.
O mandato real da Inquisição Reformada não é punir a heresia. É impedir que se saiba que a heresia funciona.
Os melhores inquisidores sabem disto e continuam, porque a alternativa — o continente inteiro a descobrir que o monopólio sacramental é falso, no meio de uma guerra que só o monopólio sustenta — é pior do que a mentira.
A leste, para lá do Limes Orientalis, fica a Heptarquia Pactuária: sete cidades e as tribos que as rodeiam, sobre as ruínas de Veheran, que era a maior civilização do mundo antes de 1780 e que ficou do lado errado da linha em 1786 e nunca foi resgatada.
Os pactuados não são bárbaros. São o que sobrou. A inversão deles é culta.
Karzhar é a cidade de Luzhar, e é bela — mármore branco recuperado das ruínas, aqueduto veherênico em uso, sem muralha nenhuma porque uma muralha seria admitir medo. Assusta por ser boa de morar.
Sathkar é a cidade de Sathnar, e é a chaminé: petróleo, forjas acesas há noventa anos, refino de Ardentina líquida, e o Mineral Negro — a substância oposta, que não mata demónios e os move.
E o Selo VII, debaixo de tudo, é o único de onde não saíram demónios.
Saíram Vigias caídos. Anjos rebeldes ainda capazes de ensinar. Foram eles que ensinaram os sobreviventes veherênicos a purificar Mineral Negro, a pactuar com forma e cláusula, e a construir aquilo em que vivem.
Este livro conta três anos de uma célula de nove que atravessou a fronteira para mapear o beneficiamento do Mineral Negro, e encontrou outra coisa por baixo.
Sete entraram.
Dois voltaram.
E a informação que trouxeram foi arquivada, sem catálogo, por decisão de um homem que nunca saiu de Vykhrad — e a decisão dele foi, dentro da lógica da casa, correta.
"Nós vemos."
— lema da Inquisição Reformada, desde 1824
ATO I — OS SETE QUE ENTRARAM
I. A Requisição
A primeira coisa que a Célula Onze fez, em fevereiro de 1874, foi pedir munição a homens que os desprezavam.
Não há outra maneira. A Inquisição Reformada não consegue armar-se, e a razão é a razão mais desagradável que existe neste universo: a purificação depende de fé genuína, e um homem cujo ofício é a suspeita metódica, a leitura de livro-caixa e o interrogatório de doze horas tende a não ter a fé que consagra.
Jerzy Halt tinha cinquenta e um anos, dezanove de serviço, e nunca tinha acordado um único cartucho na vida. Tinha tentado três vezes — uma aos vinte e nove, uma aos trinta e seis, uma aos quarenta e quatro — e as três vezes se pusera diante de uma caixa aberta numa capela vazia e dissera as palavras certas e ficara ali o tempo necessário, e o mineral não fizera nada.
Não escreveu isso em lado nenhum. Não é matéria de registo.
O arsenal dos Cavaleiros do Selo em Vykhrad fica dentro da cidadela, e Halt entrou por uma porta lateral com a requisição na mão e esperou quarenta minutos num corredor de pedra, de pé, porque não havia banco.
O sargento de arsenal que o atendeu tinha uns trinta anos e uma cicatriz que lhe atravessava a sobrancelha e desaparecia no cabelo, e leu a requisição duas vezes com a lentidão deliberada de quem quer que a leitura seja notada.
— Quatro mil e oitocentos — disse. — Para nove pessoas.
— Para três anos — disse Halt.
— Não diz três anos aqui.
— Não diz nada aqui. É uma requisição, sargento, não é um relatório.
O sargento pousou o papel.
— Sabe o que é que quatro mil e oitocentos faz numa companhia de linha? Faz onze dias.
— Sei.
— Sabe quanto tempo leva a fazê-los?
— Sei — disse Halt, e era verdade, e era o problema. — Leva um purificador licenciado três anos e meio de produção declarada. Sei-o melhor do que o senhor, porque sou eu que leio os livros.
O sargento assinou.
Assinaram sempre. É preciso ser exato sobre isto porque a lenda diz o contrário: os Cavaleiros do Selo nunca recusaram uma requisição da Reformada em cinquenta anos de arquivo, e não recusaram porque a lei não os deixa, e porque no fundo — e isto Halt sabia e nunca disse a nenhum deles — os Cavaleiros preferem ter a Reformada armada e a vigiar do que desarmada e a fazer outra coisa.
O que fazem em vez de recusar é a frase.
Halt ouviu-a às costas, na porta, dita não a ele mas ao escrivão do balcão, em voz calculada para chegar:
— Eles caçam o que não conseguem matar sozinhos.
Não se voltou.
Tinha ouvido aquilo pela primeira vez aos vinte e sete anos e tinha-a achado injusta durante seis meses, e depois tinha percebido que era simplesmente verdadeira, e a partir daí deixou de lhe fazer impressão da mesma maneira que um homem deixa de sentir o peso dos próprios óculos.
A Célula Onze tinha, em fevereiro de 1874, nove membros e três anos de mandato.
O mandato cabia em duas linhas e Halt tinha-o memorizado porque não se leva papel para o outro lado:
Levantamento do beneficiamento de Mineral Negro na Heptarquia Pactuária: sítios, volume, método, mão de obra, destino.
Determinar se existe capacidade de produção fora de Sathkar.
Era um mandato de intendência. Não dizia possessão, não dizia pacto, não dizia heresia. Era o género de coisa que se dá a uma célula com um contabilista à frente, e Halt percebeu no próprio dia em que o recebeu que tinha sido escolhido pela formação e não pelo resto.
Não lhe desagradou.
Um homem que passou dezanove anos a ler livro-caixa sabe uma coisa que os Cavaleiros nunca aprenderão: um exército mente sobre tudo menos sobre o que compra.
Fonte — Do processo de requisição 4.811
Cavaleiros do Selo, arsenal de Vykhrad, processo de requisição interordens 4.811 de 1874. Documento comum, não classificado. Consta dos livros do arsenal e é público dentro da Ordem Clerical, e é por isso que este livro o pode citar quando não pode citar quase nada do resto.
Requisição.
Requer-se, ao abrigo do artigo nono do decreto de 1824, entrega de quatro mil e oitocentos cartuchos de Crisma-Argênteo consagrado, calibre de ordenança.
Requerente: Inquisição Reformada, por elemento habilitado.
Destino: não se declara.
Prazo: imediato.
Despacho do arsenal.
Entregue. Quatro mil e oitocentos.
Faz-se notar que a presente requisição consome o equivalente a três anos e meio de produção declarada de um purificador licenciado, e que o arsenal de Vykhrad recebeu no corrente ano dotação para dezanove mil e quatrocentos.
Faz-se notar que a entrega é obrigatória nos termos do artigo nono e que se faz sem reserva.
Faz-se notar, em separado e para efeito de escrita, que esta é a quarta requisição interordens do corrente ano e que as quatro somam onze mil e oitocentos, e que portanto sessenta por cento da dotação deste arsenal foi entregue a corpos que a não produzem.
[Anotação do comandante do arsenal, na margem, em tinta diferente:]
Cumpra-se, que é o que se faz.
E leve-se ao conhecimento do Grão-Mestre que a Casa do Limes entregou em quatro anos, aos três corpos requerentes, quarenta e um mil cartuchos, e que a Casa do Limes perdeu no mesmo período mil e quatrocentos homens por insuficiência de munição em quatro ocasiões documentadas.
Não estou a pedir que se altere o artigo nono. O artigo nono é justo e eu percebo-o: eles vigiam e nós lutamos e não podem vigiar desarmados.
Peço que fique escrito uma vez, num livro, que nós sabemos a conta.
[E por baixo, numa terceira letra, sem assinatura, que o arquivo do arsenal nunca identificou:]
Eles caçam o que não conseguem matar sozinhos.
Este livro cita esta última linha porque ela é o atrito institucional mais antigo da Ordem Clerical e porque é verdadeira e porque é injusta, e as três coisas ao mesmo tempo.
É verdadeira: a Inquisição Reformada não consegue armar-se e depende dos Cavaleiros para cada cartucho que dispara.
É injusta: em três anos e dois meses dentro da Heptarquia Pactuária, a Célula Onze disparou três cartuchos.
Foram os de Tobias Kranz, numa estrada, a 4 de junho de 1877, e foram disparados por um homem que tinha sido Cavaleiro do Selo.
Os restantes quatro mil setecentos e noventa e sete ficaram num armazém de couro em Sathkar e nunca foram recuperados.
II. Os Nove
Convém apresentá-los agora, porque sete deles não chegam ao fim deste livro e o leitor tem direito a saber a quem está a ser apresentado.
A Célula Onze não se chamava Célula Onze entre eles. Chamava-se a onze, sem maiúscula, do mesmo modo que se diz a carroça ou a quarta-feira, e é a única familiaridade que aquela gente se permitia.
JERZY HALT, cinquenta e um anos, chefe. Kantonal de Bernkanton, filho de um perito de seguros, formado em bolsa e escritório antes de formado em qualquer outra coisa. Entrou na Reformada aos trinta e dois pelo caminho normal — não se recruta leigos, recruta-se de dentro, e Halt vinha da contabilidade do Estado da Forja Alpina, onde tinha passado nove anos a verificar faturas de Ferro-do-Coro.
Descobriu uma fraude de quatrocentos e onze mil ducados aurelios em 1855 e a fraude era de um bispo, e o que aconteceu a seguir não consta de lado nenhum, e três meses depois havia um homem da Reformada à porta da repartição a perguntar se ele queria mudar de ofício.
Sem fé pessoal visível. Acredita no método.
É o tipo canónico da casa e sabe que é o tipo canónico da casa, e a única coisa que ele próprio sabe de si e que não está na ficha é que não é frio. Halt não é frio. É um homem que aprendeu, muito cedo, que a reação é uma despesa.
MIRA SOLVANG, trinta e quatro anos. Hospitalária do Hashmal com faculdade sacramental, transferida para a Reformada em 1869 por requisição nominal, o que é raro e mal visto pelas duas Ordens.
É a única pessoa da célula que pode purificar, e é por causa dela que a requisição de fevereiro de 1874 foi de quatro mil e oitocentos e não de doze mil: com uma purificadora dentro, a célula podia repor.
Também é a única que os Cavaleiros de Vykhrad cumprimentavam pelo nome.
Kantonal por adoção e velinesa de nascimento, trabalha com formulário e não acha graça nenhuma nisso. Tem o caderno dos Hospitalários e continua a usá-lo depois de transferida, que é tecnicamente uma irregularidade e que ninguém alguma vez lhe apontou.
Voto de Registo: anota-se tudo. Mesmo o que não convém. Especialmente o que não convém.
PETRA VAHL, trinta e oito anos. Escriturária de arquivo, doze anos no Arquivo Fechado de Aurum Roma antes de sair para campo, o que é a trajetória inversa da normal e aconteceu porque ela pediu.
Perguntaram-lhe porquê, no processo de transferência, e a resposta consta e é a única frase interessante daquele processo:
Passei doze anos a ler o que outras pessoas viram. Queria ver uma vez.
É a memória da célula. Não escreve em campo — não se leva papel para o outro lado — e por isso decorou o método do arquivo e usa-o de cabeça: entrada, data, fonte, grau de confiança. Três anos de levantamento inteiro guardados atrás dos olhos de uma mulher de trinta e oito anos.
É por isso que ela volta. Não por sorte.
TOBIAS KRANZ, vinte e nove anos. Ex-Cavaleiro do Selo, Casa do Limes, quatro campanhas. Saiu em 1871 por uma razão que consta como incompatibilidade de serviço e que significa, no vocabulário daquela casa, que bateu num superior.
É o braço da célula. Halt precisava de um e pediu um e recebeu este, e no primeiro mês pensou que tinha recebido um problema, e ao fim de seis meses tinha mudado de opinião por uma razão que não esperava: Kranz não gostava de violência. Executava-a bem e depois ficava muito calado durante dois dias.
Halt anotou isso de cabeça e nunca lho disse.
OSVALD REINER, quarenta e quatro anos. Linguista. Filho e neto de diáspora veherênica, nascido em Aurum Roma, o que satisfaz a regra do território natal por um tecnicismo que toda a gente na célula conhecia e ninguém comentava.
Fala veherênico antigo, veherênico corrente de Karzhar, três dialetos de estepe e o latim eclesial de que se esperava. É o único da célula que pode entrar num mercado e não ser notado, e o único que, ao ouvir uma oração, sabe se ela está certa.
Trouxe consigo uma coisa que não estava no mandato e que se revelou a peça mais importante de todo o levantamento, e trouxe-a sem saber: a avó dele rezava o Rito Veherênico e ensinou-lho de cor quando ele tinha nove anos, em Aurum Roma, na cozinha, e mandou-o não o escrever.
Ele nunca o escreveu.
KONRAD STELLING, quarenta e sete anos. Médico, não hospitalário — formado em Königsburg, laico, contratado. É o único civil da célula e o único que recebe salário em vez de côngrua, e faz questão de o recordar quando está de mau humor, o que é frequente.
Entrou porque a Reformada precisava de alguém que soubesse ler um corpo sem lhe perguntar a confissão primeiro, e que não tivesse voto nenhum que o obrigasse a tratar quem chegasse.
É o homem mais cínico da célula e o único que reza.
EMIL DORN, vinte e seis anos. O mais novo. Batedor, montanha e estepe, recrutado da guarda de estrada de Vykhradia aos vinte e dois.
Não tem história. É a coisa que se há de dizer dele: tinha vinte e seis anos, era bom no que fazia, ria-se com facilidade, e a célula gostava dele do modo lateral e não declarado com que aquela gente gostava das pessoas.
Morre no segundo ano e a sua morte não tem nada de significativo, e é por isso que está neste livro.
E há os dois que não entraram.
NIKOLAUS BRECHT, cinquenta e nove anos, ponto de contacto em Vykhrad. Nunca atravessou a fronteira e nunca foi suposto atravessá-la. A função dele era receber, autenticar e transmitir.
Fez as duas primeiras coisas durante três anos com uma competência que ninguém contestou.
Não fez a terceira.
E a nona.
A nona não tem nome neste livro porque não tinha nome no arquivo. Consta como o nono elemento da Onze, no género gramatical neutro que a casa usa quando não quer dizer, e consta em três linhas do despacho de constituição da célula:
Elemento em posição desde 1868. Não se comunica. Não se procura. Recebe.
Estava do outro lado havia seis anos quando os sete atravessaram.
Continuava lá em 1890.
III. A Fronteira
Atravessaram a nove de abril de 1874, a sul do Vau de Strazhka, num sítio onde a linha não é linha nenhuma e onde há vinte e dois quilómetros de estepe que ninguém guarda porque não há nada para guardar.
Não foi difícil. É preciso desfazer esta ideia logo, porque a literatura da Ordem passou cem anos a vender a fronteira do leste como uma parede e ela não é uma parede: é uma faixa de mil e quatrocentos quilómetros com catorze fortalezas nela, o que dá uma fortaleza a cada cem quilómetros, o que dá noventa e nove quilómetros de nada.
Passaram a pé, de noite, em duas horas e meia, com contrabandistas que Dorn tinha comprado em fevereiro e que não fizeram uma única pergunta porque nunca fazem.
A coisa que Halt registou daquela travessia, e registou-a de cabeça porque não se leva papel, foi que ao fim de quarenta minutos tirou o casaco.
Era abril, era de noite, e estavam a quatrocentos metros de altitude na estepe do leste, onde em abril, de noite, um homem não tira o casaco.
Olhou para os outros e Kranz já tinha tirado o dele e trazia-o na mão.
Não disse nada. Reiner, que ia à frente, também não disse nada, e Halt percebeu — pela maneira como Reiner não disse nada — que Reiner sabia o que era e tinha decidido não o explicar.
Passaram a primeira noite num currão abandonado e Halt não dormiu, e foi nessa noite que teve a conversa com Reiner que este livro precisa de registar, porque é a conversa que enquadra tudo o que vem depois.
— Está mais quente — disse Halt.
— Está.
— Quanto?
— Não sei em graus. Sei que é sempre assim. — Reiner estava a olhar para fora, para a estepe, onde não havia nada. — O Limbo é morno. A Heptarquia é morna. Os veteranos do Limes sabem-no e não têm palavra para isso, e chamam-lhe o calor de fenda, que é uma expressão que não explica nada.
— É à temperatura de quê?
Reiner demorou a responder.
— De um corpo — disse.
Halt guardou aquilo e pensou nele durante três anos e escreveu, no relatório final que nunca foi transmitido, uma frase que é a única frase de todo aquele documento que não é administrativa:
Um homem que entra na Heptarquia deixa de sentir frio ao fim de meia hora e não repara. Quando repara, já não pode usar a informação, porque já lá está.
É a melhor descrição de pacto que este levantamento produziu e não foi obtida por interrogatório nenhum.
Foi obtida a andar.
IV. O Que o Mandato Não Dizia
Petra Vahl passou doze anos no Arquivo Fechado e sabia, portanto, uma coisa que os outros seis não sabiam: um mandato de duas linhas nunca é um mandato de duas linhas.
O Arquivo Fechado não tem catálogo. É o que a Reformada tem em vez de jurisprudência: um depósito único, em Aurum Roma, sem índice público, onde tudo o que a Ordem viu em cinquenta anos está guardado e nada está encontrável a não ser que já se saiba que existe.
Vahl tinha sido uma das onze pessoas com acesso de circulação livre. Não era arquivista-chefe e nunca chegou a sê-lo; era a escriturária que ia buscar.
E uma escriturária que vai buscar durante doze anos aprende o depósito de outra maneira: não por assunto, mas por volume. Sabe que corredor engrossa, que ano tem três caixas e que ano tem trinta e uma, e que assunto é pedido duas vezes por década e por quem.
O mandato da Onze pedia beneficiamento de Mineral Negro.
Vahl foi ver, antes de sair, quanto material existia sobre Mineral Negro no Arquivo Fechado.
Existia pouco. Quatro caixas, a maior parte anterior a 1850, e quase tudo interrogatório de contrabandista apanhado no Limes com dois quintais em bruto que não sabia explicar o que pensava fazer com aquilo.
Quatro caixas é nada. Quatro caixas é menos do que há sobre falsificação de relíquia.
E ao lado, na mesma prateleira, porque o depósito não organiza por assunto, havia dezanove caixas de uma série que ela nunca tinha visto pedida por ninguém em doze anos.
O rótulo dizia: LEVANTAMENTO DOS ESTANDARTES — 1854 —
E por baixo, numa etiqueta mais pequena e mais recente, a única classificação que o Arquivo Fechado usa:
GRAU SEIS.
Grau seis é o grau mais alto e significa três coisas cumulativas: não sai do depósito, não se copia, e a consulta é registada com nome.
Petra Vahl não consultou.
Fez uma coisa que era tecnicamente permitida e que ninguém tinha previsto porque ninguém tinha pensado nisso: contou as caixas e anotou a data.
Dezanove caixas, abertas em 1854, grau seis, sobre bandeiras.
Levou aquele facto para o outro lado da fronteira dentro da cabeça, sem saber o que era, e foi essa a peça que em 1876 lhe permitiu perceber o que a célula tinha encontrado — três anos antes de qualquer outra pessoa da Ordem o perceber, e por uma via que não constava de método nenhum.
Fonte — Do despacho de constituição da Célula Onze
Inquisição Reformada, Secretaria de Células, Aurum Roma. Despacho 411 de 1873, de 19 de dezembro. Uma folha, sem timbre, sem assinatura legível. O original está no Arquivo Fechado e não tem cota, porque o Arquivo Fechado não tem cotas.
Constitui-se célula de nove elementos sob o número onze.
Mandato: levantamento do beneficiamento de Mineral Negro na Heptarquia Pactuária — sítios, volume, método, mão de obra, destino. Determinar se existe capacidade de produção fora de Sathkar.
Prazo: três anos a contar da travessia.
Chefia: elemento primeiro.
Ponto de contacto: elemento oitavo, em Vykhrad. Toda a comunicação passa por ele e nenhuma o ultrapassa.
Elemento nono: em posição desde 1868. Não se comunica. Não se procura. Recebe.
Munição: requisite-se aos Cavaleiros do Selo pelo canal ordinário. Não se declare destino.
Não se levam documentos. Não se escreve em campo. Não se toma nota de nome próprio.
Não se estabelece contacto com população cristã cativa. Faz-se notar que existe e que não é matéria deste mandato.
Em caso de captura de elemento, os restantes não alteram o plano e não tentam recuperação. Está assim desde 1824 e não se explica outra vez.
Extinta a célula por qualquer causa, transmite o elemento oitavo o que tiver, e constitui-se número seguinte.
[Na margem inferior, a lápis, com uma letra que a Secretaria identificou em 1889 como sendo do próprio Cardeal-Inquisidor da época e que nunca foi autenticada:]
Nove é demasiado. Manda-se nove quando não se sabe o que se procura.
V. Karzhar Pela Primeira Vez
Entraram em Karzhar a 2 de junho de 1874, separados, em cinco dias, por quatro portas diferentes, e a cidade não tem porta nenhuma.
É preciso explicar isto porque é a primeira coisa que desmonta o leitor e desmontou a célula.
Karzhar não tem muralha.
Não a perdeu, não a demoliu, não a deixou cair. Nunca a teve, por decisão expressa, e a decisão consta e é atribuída a Luzhar em pessoa no ano de 1793: uma muralha é uma confissão de medo, e a cidade do Príncipe da Soberba não confessa medo.
O resultado prático é que se entra em Karzhar a andar.
Há uma estrada, há casas dos dois lados, as casas vão ficando mais altas e mais brancas, e a certa altura um homem percebe que está dentro de uma cidade de duzentas mil pessoas e que ninguém lhe perguntou nada.
Reiner tinha quarenta e quatro anos e era filho e neto de gente que tinha sido expulsa daquela terra, e tinha passado a vida inteira a ouvir descrever aquilo.
Sentou-se numa esplanada na Rua dos Aquedutos às onze da manhã e pediu café e o café veio, e era bom, e custou o equivalente a três cêntimos aurelios, e a mulher que lho serviu tinha uns cinquenta anos e as mãos limpas e perguntou-lhe se queria água com ele, como se pergunta em qualquer cidade do continente.
Reiner disse que sim.
Ficou ali uma hora.
E o que ele escreveu — dois anos depois, em outubro de 1876, em Aurum Roma, numa declaração que não lhe foi pedida e que entregou na mesma — é a melhor coisa que a Ordem Clerical tem escrita sobre Karzhar, e a Ordem Clerical nunca a publicou:
Eu fui preparado a vida inteira para uma cidade de horror e encontrei uma cidade de província com bom mármore.
As pessoas falam baixo na rua. Os aquedutos funcionam. Há flores nas janelas e as flores são cuidadas, o que quer dizer que alguém as rega todos os dias, o que quer dizer que há gente naquela cidade cuja preocupação real, num dia normal, é se as flores morrem.
Não é. É a cidade. Eles vivem ali.
O horror de Karzhar não é que seja um sítio mau. É que é um sítio bom, e é um sítio bom porque funciona, e funciona pela razão que nós não podemos escrever num relatório.
O que Reiner fez naquela primeira hora, além de beber café, foi ouvir.
Foi ouvir a língua.
E na segunda hora percebeu a coisa que ia ocupar os três anos seguintes da vida dele e que não estava no mandato de duas linhas e que nenhuma outra pessoa da célula teria notado.
O veherênico de Karzhar tem um buraco.
Não é uma língua morta nem uma língua substituída. É a língua corrente da cidade, falada por duzentas mil pessoas, viva e produtiva e a gerar gíria nova.
E tem, no meio, um conjunto de palavras que já não se usam.
Não são palavras proibidas — Reiner verificou isso e é importante, e a Reformada nunca percebeu a diferença. Palavras proibidas produzem substitutos: as pessoas arranjam maneira de dizer a coisa por outro caminho, e o caminho novo é visível e é rastreável, e é assim que se apanha uma heresia.
Estas não tinham substituto.
Tinham simplesmente deixado de ser precisas.
Eram as palavras da liturgia veherênica. Não Deus, que continua a dizer-se e que na Heptarquia significa outra coisa. As outras: a palavra para a hora entre a nona e a véspera, a palavra para o ato de perdoar sem que tenha sido pedido, a palavra para o silêncio que se guarda depois de uma oração e antes de levantar os olhos.
Nove palavras. Reiner contou-as ao longo de dezanove meses.
Nove palavras que uma cidade inteira deixou de precisar, e que a avó dele, numa cozinha em Aurum Roma, em 1839, tinha dito à frente dele todas as noites durante quatro anos.
Intervalo — O Primeiro Ano
O primeiro ano não produziu nada e este livro tem de o dizer, porque a literatura de espionagem mente sobre isto de uma maneira que causa danos reais a quem faz o ofício.
De abril de 1874 a abril de 1875, a Célula Onze estabeleceu: onde se dorme, onde se come, quem aluga sem perguntar, quanto custa cada coisa, que documentos existem, que documentos ninguém pede, em que dias há mercado, onde é que a guarda passa e a que horas, e quanto tempo demora uma carroça de Karzhar a Sathkar com carga e sem.
Doze meses.
Um contabilista chamaria a isto abertura de conta e Halt chamava-lhe isso mesmo, em voz alta, e a célula ria-se dele.
O que faz um ano inteiro é a papelada.
É a coisa que nenhum leitor acredita: a Heptarquia Pactuária tem burocracia. Tem-na pesada, tem-na antiga, e tem-na herdada de Veheran, que era um Estado com registo civil desde 1640 e cujos livros sobreviveram em três cidades.
Um homem que chega a Karzhar e não faz nada não é notado durante uns três meses.
Ao quarto, alguém pergunta-lhe onde mora.
Não é polícia. É o cobrador de água.
O aqueduto de Karzhar é veherênico, foi restaurado a partir de 1841, e a água paga-se por fogo e por trimestre, e o cobrador passa de casa em casa com um livro e cobra.
Um homem sem registo de residência não tem fogo, e um fogo sem cobrança é um buraco no livro do cobrador, e um cobrador com um buraco no livro reporta-o porque é isso que faz um cobrador.
Foi assim que a Célula Onze quase acabou em agosto de 1874, ao quarto mês, num assunto de três ducados e meio.
Resolveram-no do único modo que havia, e é o modo pelo qual se resolve tudo naquele sítio, e Halt escreveu-o no relatório final com uma satisfação profissional que é a única emoção que se lhe nota em cento e onze folhas:
Pagaram.
Registaram residência, em nome falso, na Casa de Contrato do quadrante norte, com declaração de ofício — negociantes de couro de Vykhradia, que é a nacionalidade que menos perguntas levanta porque há trezentos por ano — e pagaram a água atrasada e a multa.
A multa era de onze cêntimos.
E é aqui que Jerzy Halt encontrou, no quarto mês, aquilo que ia estruturar os três anos seguintes, e encontrou-o sentado numa sala de espera com um talão na mão:
A Heptarquia Pactuária tem arquivo.
Tem registo de residência, registo de ofício, registo de contrato, registo de propriedade, registo de óbito e registo de pacto.
Tudo escrito. Tudo conservado. Tudo, em Karzhar, público durante nove dias e depois consultável mediante taxa.
Halt ficou sentado naquela sala de espera nove minutos e depois fez uma coisa que nenhum inquisidor da história daquela Ordem tinha feito:
Pediu uma certidão.
Custou dois ducados e meio e demorou seis dias e continha o que ele tinha pedido, que era o registo de propriedade de um armazém do quadrante oriental, e o registo de propriedade de um armazém do quadrante oriental não lhe interessava absolutamente nada.
O que ele queria saber era se dava.
Deu.
Halt escreveu, no relatório final:
Este elemento passou dezanove anos nesta Ordem a obter informação por interrogatório, por observação e por delação, que são os três métodos que a casa ensina.
A partir de agosto de 1874 obteve-a por requerimento e taxa, e obteve mais em três anos do que por qualquer dos outros três.
Não é hábil e não me orgulho. É simplesmente que eles escrevem tudo e nós nunca perguntámos.
Faz-se notar que a Inquisição Reformada não tem, em cinquenta anos de existência, um único procedimento escrito para requerer documento a autoridade pactuária, e que a razão de não ter é doutrinária, e que a doutrina é esta: não se reconhece autoridade a quem não a tem.
Nós não pedimos certidões àquela gente porque pedir seria reconhecer que há Estado.
Há Estado. Cobra a água em três ducados e meio por trimestre e passa recibo.
Fonte — Do registo de portagem de Karzhar
Portagem norte, quadrante do aqueduto. Registo afixado e consultável mediante taxa de dois ducados e meio. Extratos decorados pelo elemento primeiro em onze consultas entre 1874 e 1877 e transcritos em Vykhrad.
Entradas de Mineral Negro beneficiado, por mês, em arrobas. Ano de 1874.
Janeiro 391 · Fevereiro 404 · Março 388 · Abril 411 · Maio 399 · Junho 402 Julho 410 · Agosto 396 · Setembro 401 · Outubro 388 · Novembro 412 · Dezembro 390
Total: 4.792.
Ano de 1875.
Total: 4.811.
Ano de 1876.
Total: 4.804.
[Anotação do elemento primeiro:]
Três anos. Variação de dezanove arrobas em quatro mil e oitocentas, que é quatro décimos por cento.
Isto não é o que faz uma cidade que compra o que precisa. Uma cidade que compra o que precisa varia com a estação, com a obra, com o preço.
Isto é o que faz uma cidade que compra uma quota.
Karzhar não compra Mineral Negro a Sathkar. Karzhar recebe de Sathkar quatro mil e oitocentas arrobas por ano ao abrigo de alguma coisa, e paga o que estiver estipulado, e não pede mais nem aceita menos.
E o mês em que o número foi mais alto em três anos foi abril de 1874 — quatrocentas e onze — e não houve um único mês acima disso.
Quatrocentas e onze parece ser tecto.
Faz-se notar que nós não sabemos de que instrumento decorre este tecto nem entre que partes foi acordado, e que passámos três anos a olhar para o número sem perceber que estávamos a olhar para uma cláusula.
VI. O Cerco
O Cerco é a única coisa murada de Karzhar.
É uma ironia que os pactuários acham engraçada e que dizem em voz alta: a cidade que proíbe muralhas tem um muro, e o muro é por dentro.
Tem quatro metros de altura, é de tijolo e não de mármore, cerca oito quarteirões no lado norte, e tem duas portas que estão abertas de dia.
Abertas. É preciso dizê-lo devagar porque ninguém acredita à primeira: as portas do Cerco de Karzhar estão abertas das seis da manhã às oito da noite, todos os dias, e ninguém as guarda.
Vesna tinha dezanove anos e tinha passado por elas talvez mil vezes.
Nunca saiu.
Não por medo do muro. Por uma coisa muito mais eficiente, que é a única coisa que aquela cidade construiu com verdadeiro génio, e que nenhum relatório da Reformada alguma vez conseguiu transmitir a um leitor de Aurum Roma sem que o leitor concluísse que os cativos eram cobardes.
Não eram cobardes.
É que um servo sem-sangue de Karzhar não é um prisioneiro. É um noivo.
Vesna tinha data.
Onze de março de 1877. Estava marcada desde que ela tinha catorze anos, tinha sido comunicada à família em cerimónia, e a família — que era a família dela, viva, no Cerco, três irmãos e uma mãe — tinha-a recebido do modo como se recebe um casamento vantajoso: com alívio, com alguma inveja de vizinhança, e com uma preocupação real e detalhada sobre a roupa.
Comia carne quatro vezes por semana. Tinha dois vestidos bons e um terceiro a ser feito para a data. Tinha aprendido a ler, porque os sem-sangue de casa boa aprendem a ler, e os da casa a que ela estava atribuída eram casa boa.
As pessoas do Cerco tratavam-na com carinho. Não com um carinho encenado: com o carinho genuíno, atento, quotidiano, que se dedica a uma pessoa cuja vida vai mudar para melhor dentro de pouco tempo e que vai deixar saudades.
Perguntavam-lhe pelo vestido.
Ela sabia o que ia acontecer a 11 de março de 1877. Não estava enganada e não lhe tinham mentido — e é essa a parte que Aurum Roma nunca engoliu, e é por isso que os relatórios sobre o Cerco eram lidos e arquivados e nunca produziam decisão nenhuma.
Sabia que ia ser pactuada. Sabia as cinco etapas, porque toda a gente em Karzhar as sabe, do mesmo modo que toda a gente em Bernkanton sabe os sintomas da tuberculose.
Sabia que o branco do olho amarelece na borda, e que depois as veias da mão escurecem e brilham sob a luz certa, e que depois se deixa de sentir a dor nas pontas dos dedos, e que depois o corpo deixa de cicatrizar como corpo.
E que depois já não é ele.
Sabia tudo isso e continuava a experimentar o vestido, e as duas coisas viviam na mesma cabeça sem se tocarem, porque era a única maneira de viver.
O que Vesna pensava — e ninguém neste livro lho perguntou nunca, e ela nunca o disse a ninguém, e está aqui porque ela o disse em 1881, a uma mulher num quarto em Bernkanton, quatro anos depois de tudo isto acabar — era uma coisa pequena e prática:
Eu tinha medo de ter medo no dia.
Não do resto. Do dia. De fazer má figura à frente da minha mãe.
Intervalo — Por Que Razão Ninguém Foge
O ponto IV do primeiro relatório da Célula Onze diz que não se registaram fugas do Cerco de Karzhar e que não se registaram tentativas, e diz a seguir que o elemento primeiro não tem explicação para apresentar e faz notar a ausência de explicação em vez de apresentar conjetura.
Aurum Roma leu aquilo em dezembro de 1874 e respondeu que não era matéria do mandato.
Este livro trata do assunto porque tem três anos de observação e porque a explicação existe e tem quatro partes, e nenhuma delas é medo.
Primeira: não há para onde.
É a parte mecânica e é a menos interessante e tem de ser dita primeiro para não ficar a atrapalhar.
Um servo sem-sangue que sai do Cerco de Karzhar está em Karzhar, que é uma cidade de duzentos mil habitantes sem muralha, e pode andar por ela à vontade.
Depois de Karzhar há cento e dez quilómetros de estepe até Sathkar num sentido e trezentos até à fronteira noutro, sem estrada que não seja vigiada por portagem, sem língua que sirva do outro lado, sem dinheiro e sem ninguém.
Fugir do Cerco não é o problema. Fugir do Cerco é atravessar uma porta aberta.
O problema é o dia seguinte, e o dia seguinte é trezentos quilómetros.
Segunda: a família está lá dentro.
O Cerco não é um campo de prisioneiros. É um bairro.
Tem oito quarteirões, tem entre seis e nove mil pessoas, tem casas, tem ruas com nome, tem duas praças e um mercado de terça-feira.
E tem famílias inteiras, de três e quatro gerações, e as famílias não estão todas no mesmo ponto do processo: numa casa do Cerco pode haver uma avó que nunca foi pactuada e a quem já ninguém marca data por ser velha, um pai que foi pactuado em 1861 e que trabalha em Karzhar e volta a casa, dois filhos com data marcada e um que ainda não tem idade.
Vesna tinha a mãe e três irmãos.
Um sem-sangue que foge não foge de uma prisão. Sai de casa.
Terceira, e é a que Aurum Roma não conseguiu ler: não é uma condenação. É um estatuto com termo.
E o termo, para a família que fica, é melhoria.
Uma casa que dá um sem-sangue a uma casa boa de Karzhar recebe contrapartida — e a contrapartida consta, está em instrumento, é registada na Casa de Contrato e é pública durante nove dias como tudo o resto.
A família de Vesna recebia, desde 1869, três ducados aurelios por trimestre e licença de mercado.
Não é fortuna. É, para uma família do Cerco, a diferença entre carne duas vezes por semana e carne quatro vezes.
E cessa se ela fugir.
Quarta, e é a que fecha e é a que não se consegue escrever num relatório sem parecer que se está a defender aquilo.
Ninguém no Cerco de Karzhar acha que o que lhes vai acontecer é a pior coisa que há.
É preciso dizer isto com cuidado e devagar.
Eles sabem o que é o pacto. Sabem as cinco etapas, sabem que na quinta já não é ele, e não lhes mentiram e não é preciso mentir-lhes porque toda a cidade conhece o processo do mesmo modo que uma cidade cristã conhece a tuberculose.
O que eles têm à frente, e que a Ordem Clerical nunca pôs numa folha, é a comparação.
Um sem-sangue do Cerco olha para a alternativa e a alternativa, tal como ele a consegue ver, é ser o que são os outros.
Os outros são os pactuários de Karzhar, que vivem numa cidade com aquedutos e escolas e velórios com comida, que comem carne quatro vezes por semana, que morrem aos cinquenta, e que — este é o ponto — estão perfeitamente bem na maior parte dos dias da vida deles.
Mira Solvang escreveu, no caderno, em 1876, a única linha em três anos que ela própria classificou como opinião:
O erro da minha Ordem sobre este bairro é presumir que estas pessoas não sabem o que lhes vai acontecer.
Sabem melhor do que eu.
O que elas não têm é outra coisa com que comparar, e a única outra coisa que eu tenho para lhes oferecer é trezentos quilómetros de estepe e uma cidade onde ninguém fala a língua delas.
Eu sei que a minha é melhor. Sei-o com tudo o que tenho e não mudo de opinião.
Não sei prová-lo a uma rapariga de vinte e dois anos que tem a mãe a três ruas daqui.
E há a última coisa, que é a razão pela qual este intervalo existe e que Halt não pôs no relatório porque não sabia como.
No Cerco de Karzhar, a fuga não é castigada.
Não há sanção prevista. Não há busca. Não há cartaz.
Se um sem-sangue sair e não voltar, a casa a que estava atribuído comunica à Casa de Contrato, a contrapartida à família cessa, e a data é dada por não cumprida, e escreve-se no registo a palavra veherênica que significa, aproximadamente, desistiu.
E é tudo.
Foi isso que Osvald Reiner apurou em 1875, em três semanas, e que trouxe a Halt convencido de que era a coisa mais importante do primeiro ano.
Halt ouviu, pensou, e disse-lhe que não era.
— Não percebe — disse Reiner. — Eles não os perseguem.
— Percebo perfeitamente — disse Halt. — E é por isso que não fogem.
E depois, porque Reiner continuou a olhar para ele:
— Uma porta fechada dá a um homem uma coisa para empurrar. Tire-lhe a porta e ele tem de decidir sozinho, todos os dias, durante oito anos, e é muito mais difícil.
Eles não fecharam o bairro. Puseram o muro e abriram as portas e deixaram a decisão lá dentro.
É a coisa mais bem desenhada que eu vi nesta cidade e foi desenhada por gente que percebe de contratos.
Fonte — Do primeiro relatório da Célula Onze
Transmitido por elemento oitavo, Vykhrad, 14 de novembro de 1874. Recebido em Aurum Roma a 2 de dezembro. Nove folhas. Autenticado, transmitido e arquivado sem observações.
I. Da travessia.
Efetuada a 9 de abril no vau sul de Strazhka, sem incidente. Sete elementos. Custo: onze ducados aurelios em suborno de passador, que é preço corrente e consta da tabela de 1871.
Faz-se notar que o vau sul não é vigiado por nenhum dos dois lados e que esta situação é conhecida das duas partes há pelo menos vinte anos.
II. Da entrada em Karzhar.
Efetuada entre 2 e 7 de junho, em cinco dias, por elementos separados.
Não houve controlo de entrada de espécie alguma.
Faz-se notar, por ser matéria de interesse militar e não deste mandato, que a cidade de Karzhar não tem fortificação, não tem guarnição permanente visível e não tem posto de guarda em nenhum acesso. A cidade tem duzentos mil habitantes.
Faz-se notar ainda que a ausência de fortificação é doutrinária e não é descuido, e que portanto não é explorável: uma coluna que entrasse em Karzhar sem combate entraria numa cidade de duzentos mil pactuários e não teria como sair.
III. Do beneficiamento.
Não há beneficiamento de Mineral Negro em Karzhar.
Levantaram-se, no período, quarenta e um estabelecimentos que trabalham o mineral, e todos os quarenta e um são de acabamento e não de beneficiamento: joalharia, ourivesaria de sigilo, moagem para tinta de tatuagem, embutido de mobiliário, fio para bordado.
O mineral chega a Karzhar já purificado. Chega de Sathkar por estrada, em carro fechado, em quantidade que os registos de portagem permitem estimar em cerca de quatrocentas arrobas por mês.
Faz-se notar que a portagem de Karzhar tem registo escrito, público e afixado, e que qualquer pessoa o pode consultar, e que este elemento o consultou onze vezes sem que ninguém lhe perguntasse nada.
IV. Do que este mandato não pediu.
Faz-se notar uma coisa que não é matéria deste mandato e que se regista por parecer de interesse.
A cidade de Karzhar tem uma classe de cativos cristãos — na designação local, servos sem-sangue — estimada em entre seis e nove mil pessoas, residente em bairro murado no quadrante norte.
O bairro não tem guarda. As portas estão abertas durante o dia.
Não se registaram fugas no período. Não se registaram tentativas.
Este elemento não tem explicação para apresentar e faz notar a ausência de explicação em vez de apresentar conjetura.
V. Da munição.
Consumo no período: zero.
Faz-se notar.
[Despacho de receção, Aurum Roma, 2 de dezembro de 1874, três linhas:]
Recebido. Prossiga-se para Sathkar, que é o objeto.
O ponto IV não é matéria deste mandato. Não se repita.
O ponto V anota-se com apreço.
ATO II — A CHAMINÉ
VII. Sathkar
Se Karzhar desmonta um homem por ser bonita, Sathkar recompõe-no, porque Sathkar é exatamente o que um inquisidor foi preparado para encontrar.
Chegaram a 11 de março de 1875, por estrada, em carroça de carga, entre fardos de couro, e Halt viu a cidade primeiro pelo céu.
A quarenta quilómetros o céu muda de cor.
Não escurece: fica cor de latão. Há um plano baixo de fumo que assenta sobre a bacia inteira e que não sobe porque o ar não o deixa subir, e a luz que atravessa aquilo chega ao chão amarela e sem sombra.
Um homem em Sathkar não tem sombra ao meio-dia. Tem uma mancha mais escura debaixo dos pés e nada mais.
Sathkar tem, em 1875, cerca de cento e quarenta mil habitantes e cinquenta e três altos-fornos.
É um número que Halt levou catorze meses a estabelecer e que é, por si só, a coisa mais importante do levantamento inteiro, e é a razão pela qual um contabilista foi posto à frente daquela célula.
Cinquenta e três.
Ferrum Alpina, que é o Estado da Forja da Ordem Clerical, que é a maior concentração metalúrgica do mundo cristão, que abastece três frentes, tem em 1875 quarenta e um.
O que aquilo significa é a espinha deste livro e convém dizê-lo agora, com os números à frente, porque a partir daqui tudo o que a célula encontra é consequência disto.
A Heptarquia Pactuária não é uma horda.
É a segunda potência industrial do continente, e em ferro bruto é a primeira, e produz aquilo com um terço da população da Ordem Clerical, sem carvão de qualidade, sem rede ferroviária comparável e com trezentos e trinta milímetros de chuva por ano, que é menos do que qualquer bloco cristão.
Consegue-o por três razões e nenhuma delas é sobrenatural:
Primeira: petróleo. Sathkar assenta sobre um campo de petróleo que aflora à superfície em quinze pontos e que os veherênicos já usavam antes de 1780 para calafetar barco. Um forno a nafta não espera por carvão.
Segunda: mão de obra que não se poupa. É a razão desconfortável e é verdadeira e Halt anotou-a sem retórica.
Terceira, e é a que a Ordem Clerical não pode escrever num relatório: não param.
Ferrum Alpina para. Para ao domingo, para nas trinta e nove festas de guarda do calendário aureliano, para para bênção de forno trimestral, para para visita canónica.
Sathkar não tem domingo.
Halt fez a conta no fim do primeiro ano e refê-la três vezes porque não acreditou, e o resultado consta do segundo relatório e é, em opinião deste livro, a frase mais perigosa que a Inquisição Reformada produziu no século dezanove:
A Heptarquia produz mais ferro do que nós porque trabalha mais dias.
Não é o mineral. Não é o pacto. Não é vantagem infernal de espécie nenhuma que este elemento tenha conseguido documentar.
São cinquenta e um dias por ano.
Intervalo — O Que Petra Vahl Viu em Sathkar
Petra Vahl tinha passado doze anos numa cave a ir buscar caixas e tinha pedido a transferência para ver uma vez, e a coisa que ela viu e que os outros seis não viram não foi nada do que a célula tinha ido procurar.
Foi o fumo à noite.
Sathkar arde sem parar e não tem domingo, e um homem que chega de dia vê o céu cor de latão e a falta de sombra e acha que percebeu.
De noite não há céu.
Há uma tampa laranja a cem metros de altura, iluminada por baixo pelos cinquenta e três fornos, e por baixo dessa tampa há uma cidade de cento e quarenta mil pessoas onde é possível ler um jornal na rua às três da manhã.
Nunca escurece. É essa a coisa.
Petra Vahl passou três anos numa cidade que nunca escurece, e é a única coisa daquele sítio de que ela falou espontaneamente em dezasseis anos, e falou dela duas vezes, e das duas disse a mesma coisa:
— Eu tinha estado doze anos numa cave e fui parar ao único sítio do mundo onde não se pode apagar a luz.
O que ela fez em três anos foi o que sabia fazer, que era arrumar.
A Célula Onze não tinha papel e não podia ter, e portanto tudo o que aquelas seis pessoas apuraram existiu, durante três anos, exclusivamente dentro da cabeça de Petra Vahl.
Ela impôs-lhes o método do Arquivo Fechado à terceira semana e impô-lo com uma secura que Halt achou graça e que os outros acharam insuportável durante quatro meses e depois nunca mais discutiram:
Entrada. Data. Fonte. Grau de confiança.
Nada entrava sem os quatro. Um elemento que chegava a dizer ouvi dizer que a Forja Quarta tem nove câmaras era mandado embora e voltava quando soubesse a quem tinha ouvido, em que dia, e se a pessoa sabia por ter visto ou por lhe terem dito.
O grau de confiança é o que a Ordem Clerical tem de melhor e é a única coisa boa que a Inquisição Reformada inventou, e Vahl usava a escala do Arquivo, que tem cinco graus e que qualquer arquivista sabe de cor:
Primeiro: visto pelo elemento. Segundo: dito ao elemento por quem viu. Terceiro: dito ao elemento por quem ouviu de quem viu. Quarto: corrente pública verificada em duas fontes independentes. Quinto: corrente pública não verificada.
Das cento e onze folhas que ela escreveu em Vykhrad em 1877, noventa e uma são de primeiro e segundo grau.
Dezanove são de quarto.
Uma é de quinto, e está identificada como de quinto, e é a que diz que a Casa Terceira ameaçou recorrer para cima.
Halt escreveu, sobre isto, no relatório final, e é o único elogio nominal que aquele documento contém:
Faz-se notar que a disciplina de registo do elemento quinto é a razão pela qual estas cento e onze folhas valem alguma coisa.
Uma célula sem papel produz, ao fim de três anos, uma mistura de facto e de convicção que ninguém consegue separar depois, e produz sempre, e é a razão pela qual os relatórios desta casa são maus.
Este não é.
E não é porque uma escriturária de quarenta e um anos mandou embora, durante três anos, toda a gente que chegou sem saber a quem tinha ouvido.
E há a segunda coisa que Petra Vahl fez e que ninguém lhe pediu.
Contou os dias.
Todos. Desde 9 de abril de 1874. Sem calendário, sem marca, sem risco em parede nenhuma — de cabeça, todas as noites, e acrescentava um.
Perguntaram-lhe porquê, em 1886, no depoimento interno, e a resposta é a mais seca de todo aquele documento:
Porque o mandato era de três anos a contar da travessia e alguém tinha de saber quando é que acabava.
E porque uma pessoa que perde a conta dos dias num sítio onde não escurece perde outras coisas a seguir, e eu tinha visto isso em arquivo.
Quando saíram, a 25 de junho de 1877, ela sabia que era o dia mil cento e setenta e três.
Disse-o em voz alta na fronteira, sem que ninguém tivesse perguntado, e Mira Solvang escreveu-o no caderno nessa noite com uma nota que é a única piada registada em três anos:
O elemento quinto informou-nos do número de dias.
Ninguém tinha perguntado.
Anoto-o porque ela vai querer que fique.
VIII. O Beneficiamento
O mandato pedia método, e o método esteve à vista durante onze meses antes de alguém o perceber, o que é típico e é humilhante e Halt escreveu-o assim.
O Mineral Negro não se funde.
É a primeira coisa que se aprende e a Ordem Clerical sabe-a há sessenta anos: aquilo parece carvão betuminoso com brilho verde e não se comporta como minério nenhum. Não funde a temperatura de forno, não reduz com fluxo, não liga com nada.
A Ordem tentou. Há um relatório de 1831, em Ferrum Alpina, de um mestre-fundidor que passou catorze meses e quatrocentas arrobas a tentar fundir Mineral Negro capturado e que escreveu no fim, com uma raiva que atravessa cinquenta anos de papel: não é minério. É outra coisa e nós estamos a tratá-la como minério porque parece minério.
Tinha razão e ninguém o seguiu.
Em Sathkar não se funde.
Mói-se.
Halt viu a operação pela primeira vez em janeiro de 1876, do lado de fora de uma janela alta, em cima de um telhado, durante quarenta minutos, com Kranz ao lado a contar homens e Vahl a decorar o layout.
Havia dezanove moinhos numa nave de cem metros. Moinhos de pedra, verticais, movidos a eixo e a correia de um veio central que era movido por uma máquina a vapor alimentada a nafta.
O mineral entra em pedra e sai em pó.
O pó é verde e é fino como farinha de flor e fica suspenso no ar da nave em permanência, e é por isso que os homens que trabalham naquela nave são pactuários de terceira etapa e não outra coisa qualquer: a terceira etapa perde a sensibilidade à dor nas extremidades e o pó de Mineral Negro queima a pele.
Um homem de primeira ou segunda etapa não aguenta uma semana. Um de terceira não sente.
Não é crueldade de emprego. É especificação técnica, e consta das listas de contratação de Sathkar, e Vahl decorou uma dessas listas em fevereiro de 1876 e é esse o documento mais frio deste livro:
Moagem — exige-se terceira. Não se aceita segunda. Salário de terceira.
E depois do pó, o que faz do Mineral Negro o que ele é.
O pó não serve para nada. Halt levou mais quatro meses a perceber isto e só o percebeu porque Solvang lho disse, e Solvang percebeu-o porque era hospitalária e porque a medicina de possessão ensina uma coisa que a metalurgia não ensina.
O pó tem de ser posto em contacto com um pactuário durante um período.
Não é rito. Não há palavras, não há fórmula, não há celebrante. Há um recipiente com pó e um homem, e o homem fica ali.
Quarenta dias.
Solvang explicou-lho numa noite de junho de 1876, num quarto alugado sobre uma oficina, e Halt anotou-o de cabeça palavra por palavra porque percebeu ao terceiro minuto que estava a ouvir a resposta ao mandato:
— É o inverso exato do nosso — disse ela. — É por isso que ninguém em Roma percebeu, e eu percebi porque passei nove anos a extrair marca de gente.
— Explique como se eu fosse contabilista.
— O senhor é contabilista.
— Por isso é que peço.
Solvang pensou.
— O nosso mineral consagra-se por ato. Um purificador põe-se à frente de uma caixa, reza, e a coisa fica feita em quarenta segundos ou em sessenta ou em cinquenta e um conforme o homem e conforme o ano. É um acontecimento. Tem princípio e fim e pode ser cronometrado, e há um reino inteiro no norte que não faz outra coisa senão cronometrá-lo.
— E este?
— Este não é um ato. É uma exposição.
Ela procurou a palavra certa e não a encontrou e usou uma pior de propósito:
— É como salga.
Halt ficou muito quieto.
— Repita.
— Salga. Ou curtimenta, ou fermentação, ou qualquer coisa em que a matéria e o agente ficam juntos e o tempo faz o trabalho. Não há celebrante porque não é preciso celebrante. É preciso presença, durante tempo suficiente, e o tempo suficiente são quarenta dias, e sabemos que são quarenta dias porque os contratos de Sathkar pagam à quarentena e não ao dia nem à peça.
— Um homem pode fazer quantas quarentenas?
— Nove por ano, se descansar. Eles fazem onze.
— E o homem?
Solvang olhou para ele.
— O homem acelera.
Está tudo ali e Halt viu-o naquela noite, e é a razão pela qual este livro considera Mira Solvang a melhor coisa que a Célula Onze tinha:
O beneficiamento de Mineral Negro converte o pactuário em máquina de beneficiamento e consome-o ao fazê-lo.
Cada quarentena avança o portador dentro das cinco etapas. Um homem entra na moagem em terceira etapa aos vinte e quatro anos, faz onze quarentenas por ano, e está em quinta aos trinta e um.
E na quinta já não é ele.
E na quinta continua a trabalhar, porque o que está lá dentro não tem desconforto nenhum, e fica exatamente parado, e um corpo que fica exatamente parado à frente de um recipiente durante quarenta dias é o instrumento ideal para uma operação que exige presença e nada mais.
Sathkar não emprega possessos de quinta etapa apesar de serem possessos.
Emprega-os porque são.
Halt escreveu, no segundo relatório:
Cumpre-se o mandato.
Método: moagem mecânica seguida de exposição a portador de pacto por período de quarenta dias. Sem rito, sem celebrante, sem fórmula verbal documentada.
Mão de obra: exclusivamente pactuários de terceira etapa ou superior, por exigência física da operação e não por escolha doutrinária.
Volume: entre nove mil e onze mil arrobas por ano, das quais cerca de quatro mil e oitocentas ficam na Heptarquia e o restante sai por Vykhradia e por Velinia, em rotas que constam do anexo.
Capacidade fora de Sathkar: nenhuma documentada.
Faz-se notar que este último ponto é a única resposta deste relatório de que este elemento não está seguro, e que a insegurança se deve a uma coisa que se relata em separado.
Intervalo — Viver Ali
Ninguém pergunta como é que se vive três anos numa cidade inimiga e é a coisa que ocupa mais tempo.
Não se vive escondido. É a primeira ilusão a cair: seis pessoas escondidas numa cidade de cento e quarenta mil são seis pessoas descobertas em quatro meses, porque esconder-se é um comportamento e um comportamento nota-se.
Vive-se à vista, com ofício declarado, a pagar impostos.
A Célula Onze era, em Sathkar, uma casa comercial de couro de Vykhradia.
Tinha nome — que não consta deste livro porque não consta de nenhum documento —, tinha armazém alugado no quadrante sul, tinha licença de comércio paga em janeiro de cada ano, e tinha, em 1876, dezasseis clientes.
Comprava couro em Vykhradia e vendia-o em Sathkar.
E fazia-o a sério, com margem, e é a coisa de que Halt teve mais orgulho em três anos e que ele mencionou duas vezes no relatório final sem que fosse preciso:
A casa deu lucro nos três exercícios.
Faz-se notar por a coisa não ser irrelevante: uma cobertura que dá prejuízo é uma cobertura que levanta perguntas de credor, e um credor pergunta melhor do que um polícia.
Quem tratava do couro era Solvang.
É a ironia da célula e eles sabiam-na: a purificadora licenciada, a única pessoa daquele grupo com faculdade sacramental, passou três anos a regatear peles.
Fê-lo bem. Tinha cabeça kantonal e formulário e aprendeu os preços em seis meses, e em 1876 era ela que negociava com os dezasseis clientes, porque uma mulher de trinta e cinco anos que fala mal veherênico e traz um livro de contas debaixo do braço é a coisa menos ameaçadora que aquela cidade tinha para oferecer.
Um dia normal da Célula Onze em 1875 era assim.
Solvang abria o armazém às sete. Stelling tinha consulta em casa três manhãs por semana, porque tinha posto placa de médico e porque a placa de médico é a melhor cobertura que existe num sítio onde morrem quatrocentas pessoas por ano de tifo.
Kranz carregava e descarregava. Dorn andava pela cidade. Reiner estava em Karzhar dez meses por ano e vinha a Sathkar em fevereiro e em agosto.
Halt fazia contas — as verdadeiras e as outras.
E Vahl não tinha ofício nenhum e era a coisa mais difícil da célula de justificar, e resolveram-no do modo mais simples: era mulher de Halt.
Passaram três anos casados sem o serem.
Ninguém escreveu uma linha sobre isso em lado nenhum. É preciso dizê-lo com cuidado porque a tentação é enorme e porque não há nada: nem no caderno de Solvang, que anotava tudo, nem nas cento e onze folhas, nem nos papéis pessoais de Brecht.
O que há é uma linha no depoimento interno de Petra Vahl de 1886, quando lhe perguntaram como é que a cobertura se tinha mantido três anos, e que ela respondeu com o desdém profissional de quem acha a pergunta abaixo do assunto:
Mantinha-se porque era aborrecida. Duas pessoas de meia-idade que não se falam ao pequeno-almoço são a coisa mais crível que aquela cidade tinha visto.
E há a outra parte e esta o caderno regista, porque o Voto de Registo não distingue.
Solvang tratou gente.
Em três anos, em Sathkar, numa casa com placa de médico onde o médico era Stelling e onde ela não podia declarar-se nada, Mira Solvang tratou — e a contagem é dela e está no caderno, somada no fim de cada ano — quatrocentas e onze pessoas.
Queimaduras de pó, sobretudo. Fraturas de forja. Duas amputações que Stelling fez e ela assistiu. Onze partos.
Pactuários, na maioria. Segunda e terceira etapa, na maioria.
O Voto de Tratamento Indistinto diz que um Hospitalário trata quem chegar. Soldado, camponês, herege, pactuário capturado. Não se pergunta a confissão antes de estancar o sangue.
É escândalo permanente na Ordem Clerical e é tolerado porque é útil, e Mira Solvang sabia perfeitamente que era tolerada por ser útil e continuou a tratar.
O que nenhuma casa em Aurum Roma tinha previsto é o que acontece quando uma hospitalária com aquele voto vai viver três anos para dentro do inimigo.
Trata quem chegar.
E chegaram quatrocentos e onze.
Halt sabia.
É o ponto e é a razão pela qual este intervalo existe: Jerzy Halt sabia desde o quarto mês, porque contava tudo e porque o consumo de linho e de álcool da casa não batia certo com uma casa de couro, e nunca disse nada.
Vahl perguntou-lhe uma vez, em 1876, por que razão não dizia.
E Halt deu-lhe a resposta que é dele e que é a melhor definição daquele homem que este livro conseguiu obter:
— Porque está no voto dela e ela avisou-me no primeiro mês e eu disse que sim.
— O senhor disse que sim?
— Disse. — Halt não levantou os olhos do livro. — Ela perguntou-me se o voto dela valia do outro lado da fronteira. Eu disse que não sabia e que achava que sim. Foi tudo o que se falou sobre isso em três anos.
E há a última coisa, que não é bonita e que fecha isto.
Das quatrocentas e onze pessoas que Mira Solvang tratou em Sathkar entre 1874 e 1877, ela não obteve informação de nenhuma.
Não perguntou.
Está no caderno, na soma de 1876, numa linha que ela escreveu porque alguém um dia ia perguntar:
Não se interrogou ninguém desta lista e não se registou nome de nenhum.
Faz-se notar que o elemento primeiro nunca o pediu e que se ele o tivesse pedido este elemento teria recusado, e que ambos sabíamos as duas coisas e que nenhum dos dois as disse em voz alta em três anos.
Fonte — Das contas da casa de couro
Livro de escrita da casa comercial que serviu de cobertura à Célula Onze em Sathkar. O livro ficou no armazém quando a célula saiu, em junho de 1877, e nunca foi recuperado. O que se transcreve é reconstituição de memória do elemento primeiro, feita em Vykhrad em julho de 1877, e é o último documento que Jerzy Halt não chegou a ditar, porque morreu antes.
O que existe é a reconstituição parcial feita por Petra Vahl a partir do que ele lhe tinha lido em voz alta ao longo de três anos, e é, portanto, contabilidade decorada por uma pessoa que ouviu outra pessoa lê-la.
Vahl apresentou-a com uma advertência: «não respondo por algarismo nenhum abaixo da dezena.»
Exercício de 1875. Resumo.
Compras de couro em Vykhradia: 1.411 ducados aurelios. Vendas em Sathkar: 1.890. Margem bruta: 479.
Aluguer de armazém: 144. Licença de comércio: 22. Água e fogo, duas casas: 28. Portagem e taxa de estrada: 61. Certidões requeridas a Casa de Contrato: 41.
Resultado do exercício: 183 a favor.
Exercício de 1876. Resumo.
Margem bruta: 511. Encargos: 309. Resultado: 202 a favor.
Faz-se notar, por o elemento primeiro o ter feito notar em voz alta a este elemento em janeiro de 1877 e ter rido, coisa que fez duas vezes em três anos:
A casa de couro rendeu, nos três exercícios, quinhentos e oitenta e nove ducados aurelios.
A côngrua anual de um chefe de célula da Inquisição Reformada é de duzentos e vinte.
Ganhámos mais a vender peles a pactuários do que a caçá-los.
Rubrica sem designação, presente nos três exercícios.
1875: 71. 1876: 94. 1877, até junho: 62.
Total: 227.
Esta rubrica não tem designação no livro. Consta como traço e algarismo, na coluna de encargos, entre «taxa de estrada» e «diversos».
Este elemento sabe o que é e declara-o agora porque o elemento primeiro já não pode ser prejudicado por isso:
É linho, álcool, ópio e catgut.
São as quatrocentas e onze pessoas do caderno do elemento segundo.
Jerzy Halt lançou-as em três exercícios de contabilidade, todos os meses, numa rubrica sem nome, e fechou as contas com elas lá dentro, e apresentou lucro.
IX. Emil Dorn
Emil Dorn morreu a 19 de setembro de 1875, em Sathkar, aos vinte e seis anos, e este livro vai contar como, e vai contá-lo depressa, porque foi depressa.
Estava a contar carroças num pátio de portagem, encostado a uma parede, com um saco ao ombro, a fazer aquilo que fazia há dezoito meses e que fazia muito bem.
Um carro de eixo largo entrou mal, prendeu a roda numa pedra de guia, a carga deslocou-se e um fardo de três quintais caiu da altura de um homem e meio.
Apanhou-o no lado direito.
Morreu duas horas depois, numa barraca de pátio, com Stelling ao lado, de uma hemorragia interna que Stelling identificou em quatro minutos e para a qual não havia nada a fazer naquele sítio nem em nenhum outro sítio do continente em 1875.
Não foi assassinado. Ninguém o descobriu. Não houve interrogatório, não houve perseguição, não houve nada.
Caiu-lhe um fardo em cima num pátio de carga.
É preciso dizer o que isto fez à célula e é preciso dizê-lo sem elevação nenhuma, porque a elevação é exatamente o que aquela gente não tinha.
Não houve funeral. A Inquisição Reformada não faz funeral público e aquilo era território inimigo.
Stelling e Kranz enterraram-no de noite, fora da cidade, numa vala que abriram os dois, e a única coisa que se fez de diferente do que se faria com um saco de pedra foi que Stelling — que é o homem mais cínico da célula e o único que reza — rezou.
Kranz perguntou-lhe o que estava a dizer.
Stelling disse que não sabia, que era uma coisa que a mãe dizia, e que não perguntasse mais.
Halt tomou conhecimento na manhã seguinte e fez três coisas, por esta ordem, e as três constam.
Perguntou se alguém tinha visto alguém a ver.
Perguntou se o saco dele tinha sido recuperado.
E mandou continuar.
Foi tudo.
Foi exatamente o que o despacho de constituição manda fazer e foi exatamente o que Halt teria feito com qualquer um deles, incluindo consigo próprio, e a célula percebeu-o e não achou mal, porque toda aquela gente tinha assinado a mesma coisa.
A única fissura aconteceu onze dias depois, e foi tão pequena que só Vahl a registou, e registou-a porque registar era o que ela fazia.
Halt, a fechar a reunião de terça-feira, distribuiu tarefas pela ordem do costume, que era ordem de número: segundo, terceiro, quarto, quinto, sexto, sétimo.
Chegou ao sétimo, que era Dorn.
Parou meio segundo.
E disse: — sétimo — e passou a tarefa a Kranz, que era o quarto, e ninguém disse nada.
Vahl anotou de cabeça: parou meio segundo.
E foi a única coisa que alguém da Célula Onze escreveu sobre a morte de Emil Dorn.
Fonte — Das listas de contratação de Sathkar
Levantamento por memória, elemento quinto, exercício de 1876. Petra Vahl decorou catorze listas ao longo de dezanove meses e transcreveu-as em Vykhrad em abril de 1877, em quatro dias, à ordem de Nikolaus Brecht. A transcrição consta do relatório final e nunca foi cotejada com originais, porque nunca se obtiveram originais.
Forja Quarta de Sathkar — chamamento de fevereiro de 1876. Afixado à porta, em veherênico corrente.
Moagem, nave grande — dezanove postos.
Exige-se terceira. Não se aceita segunda.
Salário de terceira: quatro e meio por quarentena, casa e carne.
Exposição, câmaras um a nove — quarenta e um postos.
Exige-se quarta ou quinta. Quinta com acompanhante.
Salário de quarta: sete por quarentena, casa e carne.
Quinta: paga-se à casa.
Transporte interno — doze postos.
Aceita-se primeira e segunda. Aceita-se sem-sangue com licença.
Salário: dois, casa, sem carne.
Vigilância de câmara — quatro postos.
Exige-se não pactuado.
Salário: nove, casa e carne, e licença de saída da cidade.
Faz-se notar por quem transcreve, e faz-se notar com a consciência de que é a observação mais importante deste anexo:
O posto mais bem pago da Forja Quarta de Sathkar exige que o trabalhador não seja pactuário.
São quatro homens. Ganham o dobro de um moedor de terceira e mais do que um capataz.
E o que fazem, das quatro que se apurou, é ficar sentados à porta das câmaras de exposição durante o turno, com uma campainha, e tocar a campainha se um dos expostos se levantar.
Perguntou este elemento, por interposta pessoa, por que razão é preciso que não sejam pactuados.
A resposta foi dada por um capataz, em veherênico, no mercado, sem que ele soubesse a quem estava a responder, e foi esta:
— Porque um pactuado não dá por ela.
[Nota de Jerzy Halt, no relatório final, a seguir a este anexo:]
Detenho-me neste ponto.
Uma cidade que emprega possessos de quinta etapa numa operação industrial paga, do seu próprio bolso e ao dobro do salário, quatro homens limpos para vigiarem os possessos.
Isto só faz sentido se houver alguma coisa que os possessos possam fazer e que Sathkar não queira que aconteça.
Não sabemos o que é. Sabemos que Sathkar paga nove por quarentena para que não aconteça, e que paga há pelo menos onze anos, e que o posto existe nas nove câmaras e não só numa.
Registo a pergunta sem a responder, que é o que este ofício manda fazer quando não se sabe.
Fonte — Do caderno de Mira Solvang
Hospitalários do Hashmal, caderno de campo, formato kantonal de 1869. Mira Solvang manteve o caderno depois de transferida para a Inquisição Reformada, o que é irregular e nunca lhe foi apontado. Entregue a Nikolaus Brecht em Vykhrad em julho de 1877, transcrito por ele e devolvido. O original está na casa hospitalária de Bernkanton.
Frontispício, formulário impresso, preenchido em abril de 1874.
Casa: sem designação. Ala: sem designação. Titular: Solvang, M., hospitalária com faculdade, licença 4.411. Período: aberto.
Observação da titular, em espaço destinado a outra coisa: não há casa e não há ala. Preencho na mesma porque o formulário é o formulário.
Karzhar, 19 de julho de 1874.
Observação de rua. Homem, cerca de trinta, primeira etapa, borda do olho amarela havia talvez um ano. Vendia peixe.
Não escondia.
Faz-se notar, porque é o contrário do que esta casa ensina: em Aurum Roma a primeira etapa é o sinal que se procura e o sinal que se esconde. Aqui não se esconde nada porque não há de quem.
A doutrina de deteção que eu aprendi em nove anos é doutrina de sociedade cristã. Vale zero a leste do Limes e ninguém no meu ofício percebeu isso, porque ninguém do meu ofício veio cá.
Karzhar, 4 de setembro de 1874.
Primeira contagem de rua. Quatro horas, Rua dos Aquedutos, das nove à uma.
Contadas 411 pessoas adultas identificáveis à distância de três metros.
Primeira etapa ou acima, por sinal ocular: 190.
Sem sinal: 221.
Faz-se notar que quase metade da população adulta de uma rua central de Karzhar não tem pacto de espécie alguma, e faz-se notar porque a Ordem Clerical presume o contrário e escreve o contrário e prega o contrário.
Uma cidade pactuária é uma cidade com pactuários, e não uma cidade de pactuários, e é uma diferença de mil por cento em qualquer plano militar que alguém venha a fazer.
Karzhar, 11 de janeiro de 1875.
Segunda contagem, mesma rua, mesmo intervalo, para controlo.
Contadas 388. Primeira ou acima: 179. Proporção: quarenta e seis por cento.
Confirma setembro.
Nota: fiz a contagem de setembro convencida de que ia encontrar oitenta por cento. Escrevo isto para ficar registado que a minha expectativa estava errada em trinta e quatro pontos, e que a minha expectativa é a expectativa da minha Ordem.
Sathkar, 2 de junho de 1875.
Terceira contagem. Rua da Forja Quarta, das seis às dez da manhã, turno de entrada.
Contadas 341.
Primeira ou acima: 309.
Noventa e um por cento.
E das 309, terceira etapa ou acima: 214.
Nota da titular, escrita a seguir, com a letra pior:
Sathkar não é Karzhar.
Isto devia ser óbvio e não é, porque nós tratamos os dois com a mesma palavra. Karzhar é uma cidade com pactuários; Sathkar é uma cidade de pactuários; e são cento e dez quilómetros de distância.
A diferença não é doutrinária. É de emprego. Em Sathkar o pacto é condição de trabalho e está afixado à porta das forjas, e um rapaz de dezasseis anos de Sathkar pacta pela mesma razão pela qual um rapaz de dezasseis anos de Bernkanton faz aprendizagem: porque é o que há.
Sathkar, 19 de setembro de 1875.
Óbito: Dorn, E., vinte e seis anos, elemento sétimo. Hemorragia interna por esmagamento, lado direito. Diagnóstico do doutor Stelling, com o qual concordo.
Intervalo entre lesão e óbito: duas horas e dez.
Não havia nada a fazer. Escrevo-o porque daqui a vinte anos alguém pode ler isto e perguntar-se se havia.
Hora do óbito: dezasseis e vinte.
Não se registou nome em nenhum outro sítio porque não se registam nomes.
Registo-o aqui.
Sathkar, 14 de outubro de 1875.
Óbito observado à distância, pátio da Forja Sétima. Homem, cerca de trinta, quinta etapa. Caiu a andar. Não houve convulsão, não houve queixa, não houve queda de joelhos — caiu inteiro, como uma peça.
Levaram-no em vinte minutos. Não houve paragem de trabalho.
Perguntei mais tarde a um capataz, por interposta pessoa, o que acontece quando um exposto morre em câmara.
Resposta: paga-se o resto da quarentena à casa.
X. O Homem que Ficou Parado
Em novembro de 1876, Tobias Kranz esteve sentado à mesa de uma casa de comida em Sathkar com um homem de quinta etapa a menos de dois metros de distância durante uma hora e quarenta minutos.
Não sabia. Percebeu ao fim de cinquenta minutos.
Kranz tinha sido Cavaleiro do Selo quatro campanhas e tinha matado, pela conta dele, entre trinta e quarenta demónios, e a imprecisão da conta é a coisa que um homem de fora nunca percebe: no Limes não se contam, contam-se depois, e a contagem faz-se pela munição gasta e é sempre generosa.
Tinha visto possessão em todas as etapas. Tinha visto primeira etapa num rapaz de dezasseis anos numa aldeia do Limes e tinha visto quinta duas vezes, as duas em combate, as duas a dez metros de distância, as duas resolvidas com munição de Crisma-Argênteo por quem tinha munição.
Achava que sabia o que era.
O que a Reformada lhe tinha ensinado em 1871, e que os Cavaleiros não ensinam, é que a quinta etapa não se identifica pelo rosto.
Identifica-se pela postura.
Um corpo humano não fica quieto. Um homem sentado a uma mesa desloca o peso de dez em dez segundos, ajusta o pé, muda o cotovelo, coça, respira fundo uma vez em cada dois minutos, pisca a um ritmo que varia com a atenção. Não repara em nada disso porque o corpo faz aquilo por conta própria, para não doer.
Um corpo com desconforto move-se.
O que está na quinta etapa não tem desconforto.
O homem chamava-se, segundo o dono da casa de comida, Andrik, e estava lá quase todas as noites, e era um homem de uns trinta e dois anos, de casaco bom, com as mãos limpas, que jantava sozinho.
Kranz reparou nele porque ele era educado com a criada.
Foi isso. Não foi frieza, não foi olhar, não foi nenhuma das coisas que a literatura promete. O homem agradeceu à criada com uma cortesia exata quando ela lhe pôs o prato, e Kranz reparou nele por ser cortês, e ficou a olhar por uma razão de ofício sem nenhuma suspeita, e ao fim de cinquenta minutos percebeu que em cinquenta minutos aquele homem tinha mudado de posição uma vez.
Uma.
Para levar a mão ao copo.
Kranz ficou os cinquenta minutos seguintes a fazer uma coisa que não lhe tinha sido pedida e que consta do relatório dele porque Halt insistiu que constasse:
Contou.
Dos cinquenta minutos seguintes: quatro deslocações de peso, todas funcionais (copo três vezes, faca uma). Nenhuma deslocação não funcional. Piscar regular, intervalo constante, o que em pessoa normal não acontece. Respiração regular sem suspiro.
Comeu tudo. Comeu com bom apetite e devagar.
Falou com o dono da casa à saída sobre o preço da lenha.
Pagou. Contou o troco. Contou-o certo.
Deu boa noite.
E depois Kranz escreveu a coisa que fez Halt parar a reunião e ler duas vezes em voz alta:
Este elemento esteve armado durante toda a observação, com nove cartuchos consagrados, à distância de dois metros, sem obstáculo entre os dois.
Não disparou, o que é correto e corresponde a ordem permanente.
Faz-se notar, porém, e é matéria de relatório e não de foro íntimo, que este elemento não quis disparar.
Não por medo. Por não haver nada a apontar.
Quatro campanhas ensinaram este elemento a matar aquilo quando aquilo vem contra uma linha. Não ensinaram o que fazer quando aquilo paga o jantar e conta o troco certo.
Peço que se registe a insuficiência da minha formação e não a minha hesitação, porque são coisas diferentes e a segunda seria matéria disciplinar.
Halt registou-a como insuficiência de formação.
E depois, em separado, numa folha que não foi transmitida e que ficou com ele e que se encontrou em 1878 entre os papéis dele, escreveu quatro linhas que são o coração deste livro:
Kranz tem razão e a doutrina não.
Nós fomos formados contra um Inferno que ataca. Estamos há dois anos a viver dentro de um Inferno que abre casa de comida, paga lenha, emprega gente e conta o troco.
A doutrina não está errada sobre o que aquilo é. Está errada sobre o que aquilo faz durante o dia.
E o dia é a maior parte do tempo.
Fonte — Do segundo relatório da Célula Onze
Transmitido por elemento oitavo, Vykhrad, 19 de fevereiro de 1876. Trinta e uma folhas. Autenticado e transmitido. É o único relatório da Célula Onze que Aurum Roma leu.
I. Do cumprimento do mandato.
Dá-se por estabelecido o método do beneficiamento de Mineral Negro e remete-se em ponto VII.
Dá-se por estabelecido o volume e remete-se em ponto VIII.
Não se dá por estabelecida a existência ou inexistência de capacidade de produção fora de Sathkar, e faz-se notar que este é o único ponto do mandato de 1873 que não se cumpriu em dois anos, e que este elemento não prevê cumpri-lo em três.
VII. Do método.
Moagem mecânica em nave, dezanove moinhos verticais de pedra, eixo central, correia, máquina a vapor a nafta. Produz pó. O pó não é o produto.
Exposição do pó a portador de pacto de quarta ou quinta etapa, em câmara fechada, durante quarenta dias corridos.
Sem rito. Sem celebrante. Sem fórmula verbal documentada.
A matéria e o portador ficam juntos e o tempo faz o trabalho.
Este elemento faz notar que a expressão anterior é da autoria do elemento segundo, hospitalária com faculdade, e que este elemento a adota por não conseguir produzir melhor.
VII, continuação. Do que isto significa e que excede o mandato.
O nosso mineral consagra-se por ato. Um purificador põe-se diante de uma caixa, reza, e a coisa fica feita em quarenta a sessenta segundos. É acontecimento: tem princípio, tem fim, é cronometrável.
O deles beneficia-se por exposição. Não há acontecimento. Há um corpo e um recipiente e quarenta dias.
Do que decorre, e este elemento pede que se leia com atenção porque é a coisa mais importante destas trinta e uma folhas:
O beneficiamento deles não consome fé. Consome tempo de portador.
E tempo de portador é uma coisa que se compra, que se contrata, que se afixa à porta e que se paga à quarentena, e que — ao contrário da fé — se pode aumentar contratando mais gente.
Nós não podemos aumentar a nossa produção contratando. Eles podem aumentar a deles.
É a assimetria central desta guerra e este elemento não a encontrou escrita em parte nenhuma da doutrina desta casa.
VIII. Do volume.
Entre nove mil e onze mil arrobas por ano.
Destino apurado: cerca de quatro mil e oitocentas ficam na Heptarquia; o restante sai por Vykhradia e por Velinia em nove rotas que constam do anexo.
Faz-se notar que o volume de saída — entre quatro e seis mil arrobas por ano — passa integralmente por território cristão ou por porto cristão, e que portanto é conhecido, e que portanto alguém do nosso lado é pago para o não ver.
Este elemento não tem competência nem mandato para investigar essa matéria e faz notar que ela existe.
IX. Do custo humano da operação, por ser matéria de método.
Um portador entra em moagem em terceira etapa, tipicamente entre os vinte e dois e os vinte e seis anos.
Faz nove a onze quarentenas por ano.
Cada quarentena avança-o dentro das cinco etapas por um mecanismo que o elemento segundo descreve em anexo clínico e que este elemento não resume por não o entender.
Chega a quinta etapa entre os trinta e os trinta e três.
Em quinta etapa continua a trabalhar e trabalha melhor, porque a operação exige presença imóvel e o que está em quinta etapa não tem desconforto nenhum.
Sathkar não emprega possessos de quinta apesar de o serem. Emprega-os porque o são.
XI. Do que este elemento não consegue explicar.
A Forja Quarta de Sathkar mantém quatro postos de vigilância de câmara.
Exige-se, por escrito e afixado, que os ocupantes não sejam pactuados.
O salário é de nove por quarentena, contra quatro e meio de um moedor de terceira, e inclui licença de saída da cidade, que é privilégio.
Os quatro postos custam, por ano, mais do que os dezanove moedores juntos.
A função declarada é tocar uma campainha se um exposto se levantar.
Perguntou-se, por interposta pessoa, por que razão é preciso que não sejam pactuados, e a resposta obtida de um capataz, no mercado, sem que ele soubesse a quem respondia, foi: «porque um pactuado não dá por ela».
Este elemento não tem explicação para apresentar.
Registo a pergunta sem a responder, que é o que este ofício manda fazer quando não se sabe, e faço notar que é a segunda vez que este elemento o faz em dois anos e que a primeira foi sobre o bairro cativo de Karzhar e que sobre essa foi instruído a não repetir.
XXXI. Da munição.
Consumo no período: zero.
Total acumulado desde a travessia: zero.
Restam quatro mil e oitocentos cartuchos.
Faz-se notar, por ser a última linha destas trinta e uma folhas e por este elemento a considerar de interesse:
Levámos munição para uma guerra e viemos parar a uma cidade com escolas.
Intervalo — As Aldeias de Entre
Entre Karzhar e Sathkar há cento e dez quilómetros de estrada e catorze aldeias, e a Célula Onze atravessou-as quatro vezes em três anos e não as levantou nenhuma vez, porque as aldeias não eram matéria do mandato.
Este livro trata delas aqui, fora da ordem, num intervalo, porque foi assim que a célula as conheceu: de passagem, pela janela de uma carroça, e sem nunca poder parar.
O que há entre Karzhar e Sathkar não se parece com nenhuma das duas.
Karzhar é mármore e aqueduto. Sathkar é fumo e latão. Entre as duas há estepe com trezentos e trinta milímetros de chuva por ano, aldeias de dezassete a duzentas casas, gado, centeio ruim, e uma população que um observador de Vykhradia descreveria, sem hesitar, como camponeses.
São camponeses.
É o problema militar que aquela fronteira tem desde 1790 e que ninguém resolveu: o povo pactuário é indistinguível de camponês vykhradiano, e a infiltração é o que é porque um homem de Belikatra pode atravessar o Limes e trabalhar seis meses numa quinta cristã sem que ninguém lhe pergunte nada.
O que a Célula Onze viu nas catorze aldeias, ao longo de quatro travessias, foi um gradiente.
Halt anotou-o de cabeça e escreveu-o no relatório final numa página que Brecht sublinhou duas vezes, e é uma das duas ou três coisas verdadeiramente novas que aquele documento contém:
A corrupção não é um estado. É uma distância.
Primeira a quarta aldeia a contar de Karzhar — entre zero e trinta e um quilómetros.
Indistinguíveis de aldeia cristã. Capela veherênica em pé, usada, com o interior refeito e sem imagem nenhuma. Praça, feira de segunda-feira, cão. Sinal ocular em cerca de um em cada seis adultos.
A quarta tem escola. Faz-se notar que tem escola.
Quinta a nona — entre trinta e um e setenta quilómetros.
Sinal ocular em cerca de um em cada três. Capela fechada em três das cinco, não destruída: fechada, com a porta pregada e o telhado mantido.
Faz-se notar que alguém mantém o telhado de uma capela fechada há quarenta anos e que ninguém neste levantamento conseguiu apurar quem nem porquê.
Marca de Vício visível em nuca ou pulso em cerca de um em cada doze.
Décima a décima segunda — entre setenta e noventa e cinco quilómetros.
Sinal ocular na maioria. Terceira etapa visível — mãos escuras, dedos queimados sem reação — em número que este elemento não conseguiu estimar de carroça.
As três abastecem Sathkar de gado e de gente.
Faz-se notar o seguinte, porque é o que se viu e não o que se esperava: estas três aldeias são as mais prósperas das catorze. Casas de pedra, telha em vez de colmo, poço revestido. A décima primeira tem uma casa de comida com vidro nas janelas.
Quem manda um filho para a moagem de Sathkar recebe o salário de terceira, e o salário de terceira é quatro e meio por quarentena com casa e carne, e onze quarentenas por ano é mais dinheiro do que aquela terra dá em centeio.
Décima terceira e décima quarta — entre noventa e cinco e cento e dez quilómetros.
Não se atravessaram a pé e não se pararam.
Observação de carroça, quatro passagens, em três horas do dia diferentes.
Não se viu criança.
Halt escreveu essa última linha e depois escreveu uma segunda, em baixo, e depois riscou a segunda, e a folha com o risco está no Arquivo Fechado e lê-se por baixo:
Não se viu criança e não se procurou, e este elemento faz constar que não procurou.
O que se passa na décima terceira e na décima quarta aldeia da estrada de Sathkar, este livro não sabe.
Não sabe porque a Célula Onze não parou.
E não parou porque o mandato dizia sítios, volume, método, mão de obra, destino, e porque parar uma carroça de carga numa aldeia de estrada a onze quilómetros de Sathkar, sem motivo comercial, é a coisa mais visível que cinco estrangeiros podiam ter feito naquele território, e teria acabado a célula em 1875 e este relatório não existiria.
Halt tomou a decisão em julho de 1875, sozinho, e comunicou-a à célula em três palavras — não se pára — e ninguém discutiu, porque estava certo.
Está certo e é a coisa de que este livro menos gosta, e é preciso dizê-lo com a mesma secura com que eles o viveram:
A Célula Onze passou quatro vezes à frente de duas aldeias onde não se via criança e seguiu, e seguiu por uma razão profissional correta, e foi por seguir que trouxe o resto.
Mira Solvang escreveu, no caderno, a 11 de agosto de 1876, depois da quarta passagem, três linhas que são a única coisa em todo aquele caderno que não é uma medição:
Quarta passagem. Igual.
Voto de Tratamento Indistinto: trata-se quem chegar.
Não chegou ninguém, porque nós não parámos, e a minha Ordem não tem voto nenhum sobre isso.
E há uma última coisa sobre as aldeias e é a que ficou a Halt.
Na terceira aldeia — a trinta e um quilómetros de Karzhar, a que tem escola, a que é indistinguível de aldeia cristã — a carroça parou por avaria de eixo em setembro de 1876, e a célula teve de esperar quatro horas.
Halt sentou-se num muro.
E uma mulher de uns sessenta anos saiu de uma casa, atravessou a rua, deu-lhe uma caneca de água, e ficou ali a falar com ele uns dez minutos sobre o tempo e sobre o preço do centeio, em veherênico corrente que ele mal entendia, e não lhe perguntou de onde vinha nem para onde ia.
E quando ele se levantou para ir embora, ela disse-lhe uma coisa que Reiner lhe traduziu depois, na carroça, e que Halt pôs no relatório final sem comentário nenhum, no fim da página das aldeias, isolada:
— Vá com Deus.
ATO III — O QUE ESTAVA POR BAIXO
XI. As Nove Palavras
Em janeiro de 1876, Osvald Reiner tinha nove palavras e nenhuma explicação, e tinha-as havia dezanove meses.
Nove palavras da liturgia veherênica que a cidade de Karzhar tinha deixado de precisar. Sem substituto, sem proibição, sem rasto de repressão: simplesmente fora de uso, como se uma população inteira tivesse decidido, ao mesmo tempo e sem combinar, que aquelas coisas não eram precisas.
E depois, num velório, ouviu uma delas.
O velório era de uma mulher de setenta e um anos — o que em Karzhar é idade de prodígio e junta gente — e Reiner estava lá porque um velório de gente velha é o único sítio da Heptarquia onde se fala veherênico antigo em voz alta sem que ninguém estranhe.
Havia umas quarenta pessoas. Era à noite. Havia comida.
E a certa altura uma mulher de uns sessenta anos, ao pé do caixão, disse uma frase de nove sílabas em voz muito baixa, e Reiner, que estava a quatro metros, ouviu-a porque tinha passado dezanove meses a ouvir e porque tinha ouvido aquela frase pela primeira vez numa cozinha em Aurum Roma aos nove anos.
Era o fecho do Rito Veherênico.
Não é uma oração inteira. É a última linha, a que se diz depois de calar e antes de levantar os olhos, e usa duas das nove palavras — a palavra para o silêncio guardado e a palavra para perdoar sem que tenha sido pedido.
Ninguém à volta reagiu.
É o ponto. Reiner olhou para as quarenta pessoas e nenhuma delas piscou, e havia ali gente com a tatuagem de Luzhar na nuca à vista, e o que Reiner percebeu naquele instante, e escreveu em outubro do mesmo ano em Aurum Roma numa declaração que não lhe tinham pedido, foi isto:
Eles não sabem o que ela disse.
Sabem que é uma coisa que se diz num velório. Sabem que a avó dizia. Não sabem que é uma oração, não sabem de quem é a oração, e não sabem — e é isto que me tirou o sono durante dezoito meses — que aquilo, dito com fé genuína, quebra o pacto.
Está proibido em Karzhar desde 1831 e é o único crime capital da cidade.
E está a ser dito em velório, todas as semanas, por gente que não sabe que o está a dizer, à frente de pactuários que não sabem que o estão a ouvir.
A resistência litúrgica de Karzhar é transmitida de cor, sem escrita, há quatro gerações.
Não é uma organização. Reiner procurou-a durante dezoito meses com todos os métodos que a Reformada ensina, e a conclusão dele — que é a conclusão correta e que a Reformada, quando a leu, não soube o que fazer com ela — é que não há organização nenhuma.
Há avós.
Há mulheres velhas que ensinaram a neta ou o neto por volta dos nove anos, na cozinha, sem explicar, e que mandaram não escrever, e que morreram.
Quatro gerações de transmissão oral sem estrutura, sem líder, sem doutrina e sem finalidade declarada, e o resultado ao fim de quatro gerações é o que acontece sempre à transmissão oral sem estrutura:
a versão está errada.
Reiner estabeleceu a extensão do erro ao longo de 1876, comparando onze versões recolhidas em velório com a versão que a avó dele lhe tinha ensinado em 1839 — que era ela própria já uma versão de terceira geração e portanto já estava errada.
Faltavam catorze linhas de quarenta e uma.
Três palavras estavam trocadas por homófonas de sentido diferente.
A ordem de duas estrofes estava invertida.
E a invocação inicial, que na liturgia veherênica nomeia três Arcanjos por ordem, tinha perdido o terceiro e ninguém tinha dado por isso porque a rima continuava a fechar sem ele.
E funciona à mesma.
É o facto e Reiner verificou-o do único modo que havia para o verificar, e a maneira como o verificou é a coisa mais perigosa que um membro da Célula Onze fez em três anos.
Em abril de 1876 encontrou um homem de segunda etapa — as veias das mãos escurecidas, o branco do olho amarelo na borda havia oito anos, moedor na Forja Sétima, quarenta e um anos — que ia a velórios.
Reiner passou três meses a aproximar-se dele. Não o recrutou, não o revelou, não lhe disse quem era. Bebeu com ele catorze vezes.
E em julho de 1876, num velório, sentou-se ao lado dele e disse o fecho do Rito em voz baixa, na versão certa, com as catorze linhas todas e o terceiro Arcanjo no sítio.
E disse-o com fé.
Reiner escreveu, sobre esse ponto, a única frase autobiográfica do relatório inteiro:
Faz-se notar que este elemento teve de rezar a sério, e que não rezava a sério desde os dezanove anos, e que não esperava conseguir.
O homem ao lado dele não fez nada durante nove segundos.
Depois levou a mão à nuca, onde não tinha tatuagem nenhuma porque era moedor e não casta de rito, e ficou com a mão ali, e Reiner viu — a quatro palmos, com luz de vela, e insistiu neste detalhe em três documentos diferentes — o branco do olho dele a limpar da borda para dentro.
Levou, na estimativa dele, entre quarenta minutos e uma hora.
O homem não disse nada e não olhou para ele e não voltou a olhar para ele nunca mais.
Ao fim de uma hora levantou-se e saiu do velório e Reiner nunca mais o viu, e procurou-o três vezes na Forja Sétima e disseram-lhe que já não trabalhava ali.
O que aconteceu àquele homem a seguir é a coisa que este livro não sabe e é a coisa que Reiner carregou até morrer.
Uma de duas: ou saiu de Karzhar e é um dos quatro mil e tal cristãos sem papéis que aparecem em Vykhradia todos os anos e que ninguém conta.
Ou não saiu, e um homem de segunda etapa que deixa de estar em segunda etapa, numa cidade onde o pacto é registado e a etapa é condição de emprego, tem entre dois e nove dias.
Reiner escreveu, no fim:
Não voltei a fazê-lo.
Não por disciplina. Fica registado que não foi por disciplina.
Intervalo — O Interrogatório de Osvald Reiner
Em agosto de 1876, três semanas depois do velório, Jerzy Halt interrogou Osvald Reiner durante seis horas.
Não é figura de estilo e não foi uma conversa. Foi um interrogatório da Inquisição Reformada, com a estrutura da casa, feito por um chefe de célula a um subordinado, numa sala fechada, num país inimigo, sem ninguém de fora.
É a única cena deste livro em que a Célula Onze faz aquilo que aquela Ordem faz.
Reiner tinha cometido três irregularidades e sabia-as, e apresentou-se sem que lho pedissem, e é preciso dizê-lo porque muda a leitura de tudo o que se segue: foi ele que pediu o interrogatório.
As três, pela ordem em que ele próprio as listou:
Estabeleceu contacto continuado com um natural, durante três meses, sem autorização.
Praticou ato religioso em público em território inimigo.
Alterou a condição de um natural — quebrou-lhe o pacto — sem ordem, sem plano de extração e sem capacidade de o proteger a seguir.
Halt começou pelo que a casa manda começar, que é o facto, e demorou duas horas a estabelecê-lo, e não levantou a voz uma vez.
Quantas vezes bebeu com ele. Onde. Em que ordem. Quem os viu. Quem os pode ter visto. O que é que o homem sabia do Reiner e o que é que podia deduzir.
Reiner respondeu a tudo, completo, sem atenuar, e Halt anotou de cabeça, e ao fim de duas horas tinha estabelecido que o risco operacional era baixo — o homem não sabia nada, não podia deduzir nada, e tinha desaparecido.
Podia ter parado ali.
Não parou porque havia a terceira coisa.
— Reverendo — disse Halt, e usou o tratamento de propósito e foi a única vez em três anos que o usou —, o senhor rezou.
— Rezei.
— A sério.
— A sério.
— O senhor disse-me em 1874, no primeiro mês, que não rezava a sério desde os dezanove anos.
— Disse. Era verdade.
— E em julho rezou.
— Rezei.
Halt esperou.
— Não é acusação — disse ele. — Preciso de perceber o mecanismo e não tenho por onde. É a única coisa em três anos que eu não consigo pôr numa folha.
E Reiner deu-lhe a resposta, e a resposta levou quarenta minutos e Halt fê-lo repetir três vezes, e o que ficou está no relatório final num apêndice que Brecht leu duas vezes e sublinhou:
— Eu não rezei àquilo em que acredito — disse Reiner. — Eu não acredito em nada, senhor primeiro. Isso não mudou em julho e não mudou agora.
— Então o quê?
— Eu rezei à minha avó.
Halt não disse nada.
— O senhor vai escrever isso como confusão de um homem cansado — disse Reiner. — Peço-lhe que não escreva, porque é exato e eu pensei nisto três semanas.
As palavras daquela oração eu não as aprendi em seminário. Aprendi-as numa cozinha em Aurum Roma, aos nove anos, com uma mulher que morreu em 1847 e que tinha nascido em Karzhar em 1771 e que saiu de lá aos quinze anos a pé.
Quando eu digo aquelas quarenta e uma linhas, eu não estou a invocar. Eu estou a fazer uma coisa que ela me mandou fazer.
E acredito nela. Nisso acredito. Acredito que ela existiu e que me ensinou aquilo por uma razão e que a razão era boa, e acredito nisso do modo inteiro e sem reserva com que um homem de fé acredita no que acredita.
Se o mecanismo é esse, então não é fé em Deus. É fé em alguém que teve fé em Deus, e é a segunda melhor coisa, e aparentemente chega.
Halt fez a pergunta seguinte muito depressa, o que era invulgar nele:
— Chega sempre?
— Não sei.
— Se eu me pusesse a dizer aquilo — e Halt parou, e este livro faz notar a paragem porque Petra Vahl, que estava do outro lado da porta a guardar, ouviu-a e registou-a —, se eu me pusesse a dizer aquilo, acha que funcionava?
Reiner demorou.
— Não.
— Porque não tenho fé.
— Porque o senhor não tem ninguém — disse Reiner.
Houve um silêncio que Vahl estimou em mais de um minuto.
E depois Jerzy Halt, que tinha cinquenta e três anos e dezanove de serviço e que nunca tinha acordado um cartucho na vida, fez a coisa mais profissional e mais fria e mais dolorosa que este livro regista, e fê-la sem uma pausa:
Voltou ao facto.
— Vamos outra vez ao homem — disse. — Quando é que ele saiu do velório exatamente, em relação a si?
E interrogou-o mais três horas.
No fim, à uma da manhã, Halt fechou a matéria com a fórmula da casa, que consta de manual e que se diz sempre igual:
— Fica estabelecido e não se volta.
E depois acrescentou uma coisa que não consta de manual nenhum:
— Não o faça outra vez. Não por disciplina.
— Então porquê?
— Porque o senhor tem quarenta e seis anos e eu tenho cinquenta e três e ainda temos oito meses, e eu não tenho quem o substitua. — Halt levantou-se. — É essa a razão inteira e não tenho outra e não vou fingir que tenho.
E Reiner escreveu, muito depois, na declaração de 1876 que entregou em Aurum Roma antes da última viagem:
O chefe da minha célula é o homem menos crente que eu conheci e é o homem mais decente com quem trabalhei, e eu passei três anos sem conseguir pôr as duas coisas juntas.
Ponho-as agora e é simples: ele não faz aquilo por Deus. Faz aquilo por nós os seis, que é uma coisa que ele consegue ver.
A minha Ordem chama a isso ausência de fé e desqualifica-o para consagrar mineral.
Tem razão na segunda parte.
Fonte — Das Provas de Discernimento
Inquisição Reformada, manual de campo, edição de 1859, capítulo quarto. Documento interno, não classificado, distribuído a todas as células. É o texto que qualquer inquisidor sabe de cor e a única coisa que aquela Ordem tem que se pareça com doutrina publicada.
Das seis provas.
Prova primeira — do olho. Examine-se a borda da esclerótica a luz de vela, nunca a luz de Lúmen, que altera. O amarelecimento da borda é sinal de primeira etapa e é o único sinal que precede o alojamento.
Prova segunda — da veia. Examine-se o dorso da mão e o pescoço a luz de Hashmalita. Escurecimento verde-azulado com brilho indica segunda.
Prova terceira — da dor. Aplique-se calor ou ponta às extremidades. A ausência de retirada reflexa indica terceira. Faz-se notar que esta prova é cruel e que se não use senão em detenção, e que um homem simulou ausência de retirada em Vallium em 1849 e que a simulação é possível e documentada.
Prova quarta — da cicatriz. Examinem-se feridas antigas. Fecho rápido e em relevo indica quarta.
Prova quinta — da postura. Observe-se o sujeito sentado, sem que saiba, durante não menos de uma hora. Registe-se o número de deslocações de peso não funcionais. Um sujeito humano em repouso desloca o peso não menos de seis vezes por hora. A ausência indica quinta.
Prova sexta — do nome. Pergunte-se ao sujeito o nome próprio dele e o nome da mãe, em intervalo de não menos de duas horas, e compare-se a entoação. Faz-se notar que esta prova não tem fundamento estabelecido e que consta por tradição de casa e que se mantém por dar resultado.
Da aplicação.
Nenhuma prova é conclusiva isolada.
Duas provas concordantes fundamentam detenção. Três fundamentam eliminação do portador.
Faz-se notar que a Ordem não dispõe de prova que distinga pacto consentido de possessão forçada, e que esta distinção, sendo de primeira importância moral, não é de nenhuma importância operacional, e que é por isso que se não investiga.
[Anotação manuscrita na margem do exemplar da Célula Onze, letra de Jerzy Halt, sem data, provavelmente 1876:]
Nenhuma destas seis serve a leste do Limes.
Primeira: não se esconde, logo não é deteção, é contagem.
Segunda: idem.
Terceira: proibida por inutilidade — metade da população adulta de Sathkar é terceira.
Quarta e quinta: valem, e valem muito, e são as únicas.
Sexta: aplicámo-la duas vezes e nas duas deu resultado e nas duas não tínhamos maneira de o verificar, o que é o mesmo que não ter dado resultado nenhum.
Conclusão: o manual de 1859 foi escrito para caçar um pactuário escondido numa cidade cristã e funciona bem para isso. Não existe manual nenhum para uma cidade onde não está escondido.
Somos a Ordem que vê e viemos para o único sítio onde não há nada a descobrir, porque está tudo à vista e afixado à porta.
Fonte — Dos três pontos mortos
Deposições anónimas recebidas pela Célula Onze em Sathkar entre 1874 e 1877, atribuídas ao elemento nono. Sem assinatura, sem identificação, sem data em treze das dezanove. Transcritas de memória por Petra Vahl em Vykhrad, julho de 1877. A transcrição é o único registo que existe.
O método era este e é o método mais antigo que aquele ofício tem.
Um ponto morto é um sítio combinado onde uma pessoa deixa e outra levanta, sem que as duas se vejam nunca. Não há palavra de passe, não há encontro, não há falha possível de identificação porque não há identificação nenhuma.
A Célula Onze tinha três, e os três foram-lhe indicados no despacho de constituição, e Halt nunca soube quem os tinha escolhido.
Um atrás de uma pedra solta na parede de um lavadouro público.
Um debaixo da terceira tábua de um passadiço sobre um esgoto.
Um numa fenda de muro de cemitério, no quadrante sul, entre a quarta e a quinta campa da fileira de cima.
Levantaram dezanove deposições em três anos e dois meses.
Nenhuma tinha assinatura. Nenhuma tinha saudação. Nenhuma tinha uma única palavra que não fosse informação, e é por isso que a transcrição de Vahl é o que é: dezanove blocos de texto sem pessoa nenhuma dentro.
Halt tentou, em 1875, deduzir quem era.
Passou três semanas nisso e depois parou e escreveu, na folha que ficou com ele:
Parei porque o exercício é vaidade e porque, se eu conseguisse, teria posto em risco uma pessoa que sobrevive há sete anos naquele sítio por não ser deduzível.
Sei três coisas e nenhuma delas serve para a identificar.
Sabe escrever em veherênico corrente e em latim eclesial. Tem acesso a informação de casa de contrato e a informação de forja, que são dois mundos que não se cruzam. E nunca, em dezanove deposições, usou o pronome da primeira pessoa.
Deposição terceira. Sem data, provavelmente outono de 1874.
Forja Quarta: nove câmaras de exposição, não sete. A numeração pública dá sete. As duas restantes constam da folha de encargos e não constam da folha de produção.
A folha de encargos é pedida pela Casa de Contrato de Karzhar todos os anos em janeiro. A folha de produção não.
Deposição sexta. Sem data, provavelmente 1875.
O posto de vigilância de câmara foi criado em 1866. Antes de 1866 não existia.
Em 1866 houve, na Forja Quarta, um acontecimento de que não há registo escrito e de que há três versões orais entre capatazes antigos. As três versões concordam em dois pontos: foi na câmara oitava, e morreram catorze pessoas.
Nenhuma das três versões diz que foi um acidente.
Deposição nona. 11 de novembro de 1876 — a única datada por extenso.
Hoje entraram na câmara oitava, à hora do costume, apenas duas pessoas.
O terceiro — o mais novo, o que carrega a caixa — não entrou e não estava.
Saíram ao fim de cinquenta minutos em vez das quatro a seis horas do costume, e saíram a discutir, em veherênico antigo, e a palavra que se repetiu quatro vezes foi «termo».
O terceiro apareceu outra vez a 19 de novembro e desde então tudo igual.
Faz-se notar sem interpretação.
Deposição décima quarta. Sem data, provavelmente fim de 1876.
Foi pedido por Karzhar, em ofício de Conselho, cópia integral da folha de encargos da Forja Quarta com discriminação por câmara.
Sathkar respondeu com a folha global e sem discriminação.
Karzhar insistiu por segunda vez em novembro.
Sathkar não respondeu à segunda.
Deposição décima sétima. Sem data, provavelmente março de 1877 — a penúltima.
O Conselho de Karzhar suspendeu por circular todas as celebrações de pacto novo na cidade por noventa dias, a contar de 11 de março.
Razão declarada: reordenamento de registo.
Razão real: não é matéria desta deposição e quem recebe saberá.
Faz-se notar que a suspensão não se aplica a Sathkar e que Sathkar não a pediu nem a acompanhou.
Deposição décima nona. A última. Levantada no ponto do cemitério a 7 de junho de 1877, dois dias antes da saída.
Sai-se.
Não se procure confirmação de nada do que vai nas dezoito anteriores, porque não a há e porque procurá-la agora é perder gente.
Leve-se o que se tem.
O que ficar fica com quem fica.
[Petra Vahl, ao transcrever esta última em Vykhrad, acrescentou entre parêntesis uma linha que é dela e que ela declarou como sendo dela:]
(É a única das dezanove que sabe que somos pessoas.)
XII. O Que Sathkar Não Quer que Aconteça
A pergunta de Halt ficou dezassete meses sem resposta, e a resposta chegou pelo canal mais banal que existe, que é o canal por onde chega sempre tudo: pela contabilidade.
Porque os quatro homens não pactuados que ganham nove por quarentena para vigiar câmaras de exposição e tocar uma campainha se um exposto se levantar não são um segredo.
São uma despesa.
E uma despesa consta.
Halt passou o ano de 1876 a construir, de cabeça e com Vahl a guardar metade, a folha de encargos da Forja Quarta de Sathkar. Não conseguiu os livros — nunca conseguiu os livros, e faz-se notar no relatório — mas conseguiu o suficiente para o que um contabilista chama de folha por composição: sabe-se quantos postos há, sabe-se o salário de cada posto porque está afixado à porta, multiplica-se.
A Forja Quarta emprega, em 1876, cerca de trezentas e quarenta pessoas.
Os quatro vigilantes de câmara custam, por ano, mais do que os dezanove moedores juntos.
E há a segunda coisa, e foi a segunda coisa que fez Halt ficar acordado.
A Forja Quarta tem nove câmaras de exposição e quatro vigilantes.
Não há vigilância permanente em nove câmaras com quatro homens. Um turno de doze horas com quatro homens dá, com folgas, cobertura de duas câmaras de cada vez.
Então ou a vigilância é aleatória, e nesse caso é dissuasão e não é proteção.
Ou — e Halt chegou aqui em outubro de 1876 e foi o melhor raciocínio da vida dele — as nove câmaras não são iguais.
Quatro homens cobrem duas câmaras.
Vahl tinha o layout decorado de janeiro do mesmo ano: nove câmaras, em duas fileiras, cinco de um lado e quatro do outro, todas do mesmo tamanho, todas com a mesma porta.
Halt mandou Kranz e Stelling estabelecer, ao longo de nove semanas, quais.
Fizeram-no da maneira mais estúpida e mais eficaz que existe: contaram quem entrava e saía pela porta de serviço e a que horas, durante nove semanas, em turnos alternados, escondidos numa oficina do outro lado da rua, com uma greta.
E o resultado é o achado central deste livro.
Sete das nove câmaras funcionam como Solvang tinha descrito: entram expostos de quarta e quinta etapa, ficam quarenta dias, sai pó beneficiado.
Duas não.
As duas câmaras do topo da fileira curta — a oitava e a nona, na numeração da casa — têm, em nove semanas de observação:
Entrada de material: nenhuma.
Saída de material: nenhuma.
Entrada de pessoas: três, sempre as mesmas três, sempre à mesma hora, sempre juntas.
E os quatro vigilantes bem pagos estão sempre nessas duas.
Halt levou aquilo à célula em dezembro de 1876, numa sala por cima de uma estrebaria, com os cinco que restavam à volta de uma mesa sem nada em cima, porque não se escreve em campo.
— Há duas câmaras que não produzem — disse. — Custam-nos mais do que a nave de moagem inteira. Têm vigilância permanente e a vigilância é de gente limpa. E entram lá três pessoas, sempre as mesmas, todos os dias, à mesma hora.
— Quanto tempo ficam? — perguntou Solvang.
— Entre quatro e seis horas.
— A fazer o quê?
— Não sei.
Vahl falou pela primeira vez em vinte minutos.
— Senhor primeiro — disse ela. — O senhor perguntou o que é que Sathkar não quer que aconteça.
— Perguntei.
— Está a fazer a pergunta errada há dezassete meses.
Halt esperou.
— A vigilância não é para impedir que os expostos façam alguma coisa — disse Vahl. — Os expostos das sete câmaras normais também são de quinta etapa e não têm vigilância nenhuma.
— Continue.
— A vigilância está nas duas câmaras onde não há produção. E está lá gente limpa porque um pactuado não dá por ela — foi isso que o capataz disse e nós entendemos ao contrário.
Vahl pousou as duas mãos na mesa.
— Não é que um pactuado não dê pelo exposto a levantar-se.
— É que um pactuado não dá por o que está lá dentro.
Houve um silêncio de uns quinze segundos que Vahl registou de cabeça e que ainda constava do relatório em 1877.
— Aquilo não são câmaras de exposição — disse Halt.
— Não.
— O que é que são?
E Petra Vahl, que tinha passado doze anos no Arquivo Fechado a ir buscar caixas para outras pessoas lerem, disse a frase que a pôs neste livro:
— São o mesmo que as nossas. São o sítio onde se guarda uma coisa que não pode estar à solta e que não se pode matar.
Intervalo — Nove Semanas Numa Greta
O trabalho que estabeleceu o achado central deste livro foi feito por dois homens a olhar por uma fenda de tábua durante nove semanas, em turnos de seis horas, numa oficina de correeiro alugada do outro lado da rua da Forja Quarta de Sathkar.
Custou onze ducados aurelios de aluguer e lançou-se em diversos.
A oficina era real. É preciso dizer isto porque é o que faz a coisa funcionar: Halt não alugou um quarto vazio. Alugou uma oficina de correeiro, pôs lá couro, pôs lá bancada e ferramenta, e a oficina trabalhou nove semanas e vendeu correias.
Quem trabalhava era Kranz, que não sabia trabalhar couro e que aprendeu o suficiente em duas semanas para fazer correia grossa de carro, que é a coisa mais simples que aquele ofício tem.
Fez e vendeu setenta e uma correias em nove semanas.
Dava prejuízo. Halt lançou o prejuízo em diversos também, e é a única vez em três exercícios em que a casa de couro teve uma linha a vermelho, e está lá.
A fenda era entre a segunda e a terceira tábua da parede norte, à altura do peito, e dava para a porta de serviço da Forja Quarta, a onze metros.
Não se via a porta inteira. Via-se uma faixa de um metro e meio de largura, e quem passasse a porta atravessava a faixa em cerca de um segundo e meio.
Um segundo e meio, onze metros, luz de latão, nove semanas.
O método foi de Vahl e é o método do Arquivo Fechado aplicado a uma porta.
Entrada. Hora ao minuto. Número de pessoas. Direção. Carga sim ou não. Grau de confiança.
Kranz e Stelling fizeram turnos de seis horas, das cinco da manhã às cinco da tarde, alternados, e das cinco da tarde às cinco da manhã não se observou, o que é uma lacuna e está declarada no relatório e Halt fez notar que estava.
Nove semanas. Sessenta e três dias. Setecentas e cinquenta e seis horas de observação declarada.
Kranz, que tinha sido Cavaleiro do Selo e que tinha feito quatro campanhas e que tinha matado entre trinta e quarenta demónios, descreveu aquelas nove semanas, no relatório dele, em quatro palavras:
Foi o pior serviço.
E depois, porque Halt lhe mandou desenvolver:
Uma campanha de verão são dez semanas e nelas há três dias de combate e sessenta e sete de marcha, e os sessenta e sete são aborrecidos e toda a gente sabe.
Isto foram nove semanas de sessenta e três dias de sessenta e três, e em cada um deles eu tinha de estar exatamente igual de atento à quinta hora como à primeira, porque a coisa que interessava passava em um segundo e meio e passava uma vez por dia e eu não sabia quando.
Um homem aguenta duas horas assim. Eu fiz seis por dia durante nove semanas e falhei, e sei que falhei, e não sei quantas vezes.
Faço notar que falhei porque é a única coisa útil que eu posso dizer sobre esta observação: os números que vão nestas folhas são mínimos e não são exatos, e quem os usar deve usá-los como mínimos.
O que os dois estabeleceram, em setecentas e cinquenta e seis horas, foi isto e cabe em nove linhas.
Câmaras primeira a sétima: entrada de material em saca, ao ritmo de quatro a seis sacas por dia. Entrada e saída de expostos em ciclos de quarenta dias. Saída de material em barril selado, em média a cada trinta e nove a quarenta e dois dias por câmara.
Câmaras oitava e nona: nenhuma entrada de material em nove semanas. Nenhuma saída de material em nove semanas.
Entrada de pessoas na oitava e na nona: três, sempre as mesmas três, sempre entre as sete e um quarto e as sete e meia da manhã, sessenta e um dos sessenta e três dias.
Nos dois dias em que não entraram três, entraram duas — e uma dessas ocasiões é 11 de novembro de 1876, que é a única deposição datada por extenso do elemento nono, o que dá a essa deposição um segundo grau de confirmação que Vahl registou com evidente satisfação profissional.
Saída: entre as onze e meia e a uma e meia. Quatro a seis horas.
Carga: o mais novo dos três leva uma caixa à entrada. Traz a mesma caixa à saída. A caixa tem cerca de meio metro e é levada com as duas mãos e pelo fundo, o que — e esta é a observação de Kranz e é a melhor coisa que ele fez em três anos — indica peso ou indica cuidado, e um homem que carrega assim sessenta e uma vezes não está a fingir nenhum dos dois.
E há a coisa que Stelling viu e que Kranz não viu, e que só entrou no relatório porque Stelling insistiu contra a opinião de Halt.
Stelling era médico e passou a vida a olhar para corpos e via outra coisa quando olhava para uma porta.
Escreveu:
Faço notar, e faço-o sabendo que o elemento primeiro considera isto conjetura, e aceito a classificação de quinto grau:
Os três que entram na oitava e na nona andam mal.
Não coxeiam, não se apoiam e não são velhos à exceção de um. Andam devagar de mais para a distância, e os três da mesma maneira, e o mais novo tem dezoito ou dezanove anos.
Um rapaz de dezanove anos não anda daquela maneira em lado nenhum do mundo, a não ser que esteja a poupar-se.
Não sei do quê e não tenho como saber, e por isso vai em quinto grau.
Mas eu vi sessenta e uma vezes e a partir da vigésima parei de conseguir olhar para outra coisa.
Halt classificou-o em quinto grau e mandou-o constar.
E acrescentou, por baixo, quatro palavras que são dele e que são a última coisa que este livro tem a dizer sobre as duas câmaras:
Também eu não consigo.
XIII. Dezanove Caixas
Nessa noite Petra Vahl não dormiu e não foi por medo. Foi porque tinha uma coisa na cabeça desde 1873 e só naquela noite percebeu onde é que ela encaixava.
Dezanove caixas.
Abertas em 1854, grau seis, sobre bandeiras, e nunca pedidas por ninguém em doze anos de circulação livre.
O que é preciso perceber, e é a chave, é que o Arquivo Fechado não é grande.
Toda a gente de fora imagina uma coisa infinita. Não é. São quatro salas em cave, em Aurum Roma, com cerca de onze mil caixas, e onze mil caixas é o arquivo de uma companhia de seguros de média dimensão.
A Inquisição Reformada viu pouco em cinquenta anos. É a informação mais desconfortável que existe sobre aquela casa e Vahl sabia-a porque tinha andado lá dentro.
Numa coleção de onze mil caixas, dezanove sobre um único assunto é uma obsessão.
E grau seis não se dá por perigo. Grau seis dá-se por uma de duas coisas: ou porque revela método da casa, ou porque é desmoralizante.
Vahl passou a noite a reconstruir de memória o que tinha visto do lado de fora daquelas caixas em doze anos de passar por elas.
Rótulos de lombada. Foi só o que teve.
ESTANDARTES — I — LUZHAR — KARZHAR ESTANDARTES — II — ASMOTETH ESTANDARTES — III — BELZEBAR ESTANDARTES — IV — LEVIATH — SÉRIE DE CÓPIAS ESTANDARTES — V — BELIFOR ESTANDARTES — VI — MAMMEN ESTANDARTES — VII — SATHNAR
Sete caixas, uma por Príncipe.
E as outras doze.
CONCORRÊNCIAS — 1780-1854 — POR CAMPO
Doze caixas sobre concorrências.
Vahl não tinha lido uma linha daquilo e não precisou.
Um levantamento de bandeiras que ocupa sete caixas e um levantamento de concorrências por campo que ocupa doze, aberto em 1854, dois anos depois de Ferrumkar, classificado no grau mais alto e nunca consultado.
Concorrência por campo quer dizer: quais apareceram juntos, onde, quando.
Ela disse-o a Halt na manhã seguinte, numa rua, a andar, que era como aquela gente falava de coisas grandes.
— Senhor primeiro, quantos Príncipes é que apareceram no mesmo campo de batalha ao mesmo tempo?
Halt andou uns dez passos antes de responder.
— Não é matéria nossa.
— Não perguntei se era matéria nossa.
— Quatro — disse Halt. — No Vau de Strazhka, em 1783. É o máximo registado e é do conhecimento comum de qualquer oficial que tenha lido o relatório de Strazhka, que é público.
— E desde então?
— Três. Duas vezes, creio.
— E a Reformada abriu dezanove caixas sobre isso em 1854 e classificou-as em grau seis.
Halt parou de andar.
E aqui está a coisa, e este livro pede que se leia devagar porque é a dobradiça:
A conclusão está disponível a qualquer oficial que saiba contar.
Se o Inferno pudesse juntar os sete, já o teria feito. Cento e dez anos de guerra e o máximo alguma vez posto no mesmo campo foram quatro, uma vez, no primeiro ano.
O Inferno não é um império.
São sete cortes que não se suportam, com sete estandartes que nem sequer alinham, e um exército sob os sete não consegue formar porque não há maneira física de pôr um espelho, uma seda de trinta metros, um fardo de couro arrastado e uma folha de papel na mesma linha de frente.
A Reformada estabeleceu isto em 1854 e classificou-o no grau mais alto.
Não por ser perigoso. Por ser desmoralizante ao contrário.
Um soldado que descobre que o inimigo é fraco pergunta-se por que razão a guerra dura há um século.
— O senhor sabia — disse Vahl.
— Sabia a conta. Não sabia das caixas.
— E nunca disse.
Halt olhou para ela e deu-lhe a resposta que é a resposta daquela casa e que ele deu sem se defender, o que era o que fazia dele um homem difícil de odiar:
— Nunca disse porque não me perguntaram, e porque se me tivessem perguntado eu teria dado a mesma resposta que a doutrina dá, e porque a doutrina, neste ponto, está certa.
— Está certa a esconder que o inimigo é fraco?
— Está certa a esconder que o inimigo é dividido — disse Halt. — Que é outra coisa e é muito pior.
Fonte — Da declaração de Osvald Reiner sobre a cidade de Karzhar
Entregue por ele em Aurum Roma em outubro de 1876, durante a licença de três semanas que a célula gozou a meio do mandato, à Secretaria de Células, sem que lhe tivesse sido pedida. Dezanove folhas. Não foi publicada, não foi transmitida a ninguém e não foi respondida. Consta do Arquivo Fechado, em caixa própria, e é a única peça da Célula Onze que lá entrou pela via normal.
Da razão desta declaração.
Não me foi pedida e vou dizer por que a faço.
Eu tenho quarenta e seis anos e vou voltar para lá em novembro e há uma probabilidade que eu calculo em cerca de um terço de não voltar de lá.
E há uma coisa que eu sei e que só eu sei nesta casa, e que não cabe em relatório porque relatório pede facto e isto não é facto, é entendimento. Se eu não a escrever agora, morre comigo e esta Ordem fica noventa anos sem ela.
Peço perdão pelo tom. Não sei escrever isto de outra maneira.
Do que Karzhar não é.
Karzhar não é um acampamento, não é uma fortaleza, não é um antro e não é uma corte de horrores.
É uma cidade de duzentos mil habitantes com aqueduto em funcionamento, quatro mercados diários, sistema de esgoto melhor do que o de Vykhrad, duas casas de banhos públicos, uma companhia de teatro estável e cerca de quarenta escolas.
Tem escolas, Excelência. Tem escolas com professor pago e turma de trinta e programa afixado.
Eu estive à porta de uma, na Rua do Terceiro Aqueduto, em maio, e ouvi trinta crianças a recitar a tabuada em veherênico, e estive ali onze minutos, e não consegui sair dali com a cabeça arrumada e não consigo até hoje.
Do que se ensina nessas escolas.
Apurei o programa. Não é segredo; está afixado.
Leitura, escrita, contas, história de Veheran, geografia do continente, e uma disciplina chamada «do instrumento», que é o estudo do contrato de 1786.
Estudam o contrato. Aos onze anos. Cláusula a cláusula, com exercício escrito.
E o que isto produz — e é a coisa que eu vim aqui dizer — é uma população de duzentas mil pessoas em que toda a gente sabe ler um contrato, e a nossa não sabe.
Um camponês do Limes cristão não sabe o que assinou quando assinou. Um moedor de Sathkar sabe a cláusula de cor e sabe a que se pode agarrar se a outra parte falhar.
Isto não é uma observação favorável a eles. É uma observação sobre nós.
Da memória.
Karzhar tem duas memórias e trata-as de maneira oposta e isto é o coração da cidade.
A memória étnica é pública e é cultivada e é verdadeira. Eles sabem que são veherênicos. Sabem que Veheran era a maior civilização do mundo antes de 1780 e sabem que o continente se chamava outra coisa e que o nome foi trocado em 1815 pela Entrega de Vehr, e dizem-no em voz alta, na praça, e têm razão.
É a propaganda mais eficaz que existe contra nós e é eficaz porque não é propaganda. É história.
A memória litúrgica é crime capital.
E as duas vivem na mesma cidade, e a mesma pessoa pode dizer em voz alta que é neta de Veheran e ser executada por dizer em voz baixa a oração de Veheran, e ninguém em Karzhar acha isso contraditório, porque não é: a etnia não quebra o contrato e a oração quebra.
Do que está debaixo das casas.
A cidade foi reconstruída a partir de 1838 sobre a Vehr Maior, que era a capital veherênica e que estava em ruína desde 1781.
Não a demoliram. Construíram por cima.
As caves de Karzhar são veherênicas. Os pisos térreos são pactuários.
Toda a família de Karzhar tem, debaixo da casa, a casa do avô cristão. Não é metáfora e peço que se não leia como metáfora: são adegas com abóbada do século dezassete, com nichos de imagem vazios, e as pessoas guardam ali batata.
Eu estive em quatro. Numa delas, a dona — mulher de uns cinquenta anos, marca de Luzhar na nuca — mostrou-ma com orgulho de proprietária e disse-me que a abóbada era boa e que já lá estava antes.
Perguntei-lhe de quem tinha sido a casa.
Disse que da avó dela.
Perguntei-lhe se a avó era de Karzhar.
E ela disse — e é esta a frase que eu vim de duas mil milhas para entregar a esta casa:
— A minha avó era daqui e era de antes. Como toda a gente.
Da conclusão, que é uma só.
Nós chamamos-lhes pactuados e tratamos a palavra como se fosse uma espécie.
Não é uma espécie. É um estatuto jurídico, e é revogável em direito deles, e há gente em Karzhar que não o tem, e há gente que o tem e que o cumpre como quem paga uma renda.
A Ordem Clerical sustenta, em catecismo, que o pactuário se entregou.
*A verdade é mais difícil e é esta: em 1786, uma comunidade de sobreviventes sem exército, sem clero, sem colheita e sem socorro assinou o único documento que lhe foi oferecido, e nós não lhe oferecemos nenhum.
A Entrega de Vehr é de 1815. Eles esperaram vinte e nove anos.
Peço que se leia esta última linha devagar, porque eu levei quarenta e seis anos a chegar a ela e sou filho dos que saíram:
Eles esperaram vinte e nove anos e nós chegámos para trocar o nome do continente.
[Sem despacho. A caixa contém, além das dezanove folhas, uma folha de registo de entrada com uma data e uma rubrica, e mais nada.]
Fonte — Do Rito Veherênico, na versão de Karzhar
Reconstituição do elemento sexto, 1876. Onze versões recolhidas em velório, colacionadas com a versão que o próprio elemento aprendeu oralmente em Aurum Roma em 1839. Nunca foi escrita antes desta reconstituição e a reconstituição é, portanto, a primeira vez em quatro gerações que este texto existe em papel.
Faz-se notar que o elemento sexto pediu, por escrito, que não fosse copiada.
Da forma.
Quarenta e uma linhas em cinco estrofes. Metro irregular. Rima em quatro dos cinco fechos, o que é característico da liturgia veherênica tardia e o que permitiu datar o original entre 1690 e 1730.
A versão de Karzhar tem vinte e sete linhas de quarenta e uma.
Da invocação.
O original nomeia três Arcanjos por ordem.
A versão corrente nomeia dois.
O terceiro caiu e ninguém deu por isso porque a rima fecha sem ele. Faz-se notar que a rima fecha sem ele por acaso, e que é o acaso mais consequente de que este elemento tem notícia: uma cidade inteira perdeu um Arcanjo da oração porque o verso continuou a soar bem.
Do fecho, que é a parte que se conserva melhor e a única que se diz em público.
Nove sílabas. Conservada nas onze versões sem variação de sentido e com três variações de forma.
Usa duas das nove palavras que Karzhar deixou de precisar: a palavra para o silêncio que se guarda depois de rezar e antes de levantar os olhos, e a palavra para perdoar sem que tenha sido pedido.
Traduz-se como se pode e não se traduz bem:
Cala-se, e é perdoado antes de pedir.
Faz-se notar que em veherênico o sujeito da segunda oração é ambíguo por construção e que pode ser tanto o que reza como aquele a quem se reza, e que as duas leituras são gramaticalmente corretas, e que este elemento não sabe qual era a intenção e desconfia que a ambiguidade era a intenção.
Do que falta.
Faltam catorze linhas.
Onze delas são da terceira estrofe, que no original é a estrofe de pedido — a parte em que se pede alguma coisa.
A versão de Karzhar não tem estrofe de pedido.
Reza-se, cala-se, fecha-se.
Não se pede nada.
[Anotação final do elemento sexto:]
Passei um ano a achar isto uma mutilação e não é.
Uma comunidade que transmitiu de cor durante quatro gerações, sob pena de morte, deixou cair a parte em que se pede.
Não se perde por acaso a estrofe de pedido. Perde-se quando quatro gerações a dizem e não recebem, e a estrofe fica mais difícil de dizer do que as outras, e ao fim de quatro gerações já ninguém a ensina.
O que sobrou é a oração de gente que continuou a rezar depois de deixar de pedir.
E é essa que funciona.
Fonte — Das dezanove caixas
Levantamento dos Estandartes, Arquivo Fechado de Aurum Roma, aberto em 1854, classificado em grau seis. Dezanove caixas. Requerido pela primeira vez em trinta e cinco anos pelo Cardeal Reinhardt Voss, da Reformada, em 1889, para trabalho de outra matéria.
Foi buscá-lo a escriturária mais antiga do depósito e foi ela que o repôs.
O que se transcreve aqui é o que consta do índice interno da série — que existe dentro da série, ao contrário do depósito, que não tem nenhum — e três passagens da caixa décima nona, que é a caixa de conclusões.
Do índice.
Caixas I a VII: um estandarte cada. Descrição, material, uso, registo de aparições em campo por ano e por lugar, com fonte.
Caixas VIII a XVIII: concorrências por campo, 1780 a 1854, por ordem cronológica.
Caixa XIX: conclusões.
Da caixa décima nona, primeira conclusão.
Em setenta e quatro anos de registo, os sete nunca se apresentaram no mesmo campo.
O máximo verificado são quatro, no Vau de Strazhka, no ano de 1783: Luzhar, Asmoteth, Belzebar e Sathnar.
Desde 1783, nunca mais de três.
Desde 1820, nunca mais de dois.
Da caixa décima nona, segunda conclusão — e é a que levou a série ao grau seis.
Se a reunião dos sete fosse possível e conveniente à parte adversa, teria ocorrido no primeiro decénio, em que as condições lhe eram mais favoráveis do que em qualquer momento posterior.
Não ocorreu.
Do que se conclui que não é possível, ou que não é conveniente, ou que não é possível por não ser conveniente a algum deles em particular.
As três hipóteses conduzem ao mesmo: a parte adversa não constitui unidade de comando.
Da caixa décima nona, terceira conclusão — e é a razão pela qual a série ficou trinta e cinco anos por abrir.
Faz-se notar que esta conclusão, sendo favorável, é de divulgação nociva.
Um soldado a quem se diga que o inimigo é fraco não combate melhor. Pergunta por que razão a guerra dura há setenta e quatro anos, e a resposta a essa pergunta não é do foro militar.
Recomenda-se grau seis.
Recomenda-se, em separado, que a doutrina de catequese não seja alterada e que continue a apresentar a parte adversa como unidade, por ser essa apresentação a que sustenta a unidade da nossa.
Faz-se notar que isto é mentira e que quem subscreve o sabe.
[E há uma quarta conclusão, de quatro linhas, e é a única da caixa décima nona que não tem seguimento e que ninguém em trinta e cinco anos desenvolveu:]
Faz-se notar, por fim, que este levantamento arrola sete cortes e que a tradição enoquita arrola, além delas, entidades de ordem anterior — os Vigias — das quais se sabe que instruíram os pactuados do leste e não se sabe onde se situam na ordem daquela parte.
Não constam de campo. Não têm estandarte. Não têm cidade.
Uma entidade que ensinou a construir sete cidades e não tem nenhuma ou está acima das sete ou está abaixo delas, e as duas posições têm consequências militares opostas.
Recomenda-se levantamento próprio.
Não se fez.
Petra Vahl leu estas quatro linhas em 1889, de pé, no corredor quarto, com a caixa décima nona aberta sobre o braço, doze anos depois de ter arrumado cento e onze folhas três prateleiras adiante.
Não é conjetura: consta do livro de requisições que a caixa esteve fora do lugar quarenta e um minutos antes de ser entregue ao gabinete do Cardeal Voss, e o percurso do corredor quarto ao gabinete faz-se em quatro.
Ela sabia a resposta.
Estava a quatro metros de distância, em cartão pardo com fita de linho, escrita por um linguista morto e por um contabilista morto e transcrita por ela própria em quatro dias em Vykhrad em 1877:
Estão abaixo.
E é por isso que estão a tentar abrir o resto.
Fechou a caixa e levou-a ao gabinete e entregou-a e voltou para o corredor quarto.
Não é conjetura que ela tenha sabido: ela era a única pessoa viva que sabia as duas coisas.
É conjetura tudo o resto, e este livro declara-o como conjetura e não escreve mais nada sobre o assunto.
XIV. O Que os Vigias Querem
Convém dizer agora o que a Célula Onze acabou por estabelecer entre dezembro de 1876 e março de 1877, e convém dizê-lo com a mesma secura com que eles o estabeleceram, porque é a informação mais importante que a Inquisição Reformada obteve em cinquenta anos e foi obtida por cinco pessoas cansadas numa cidade cheia de fumo.
Não houve revelação. Não houve documento capturado, não houve interrogatório decisivo, não houve nada do que a literatura promete.
Houve três pessoas a entrar numa porta à mesma hora todos os dias e um linguista que sabia o que elas diziam.
Reiner seguiu-as durante sete semanas.
As três eram: um homem de uns sessenta anos, que é idade impossível na Heptarquia e que por si só dizia tudo; uma mulher de uns quarenta; e um rapaz de dezoito ou dezanove que carregava uma caixa.
Falavam veherênico antigo entre si. Não corrente: antigo, o da liturgia, que é a língua das nove palavras que ninguém em Karzhar precisa.
E o que Reiner ouviu, em sete semanas, aos bocados, em ruas, foi vocabulário de contrato.
Cláusula. Precedência. Parte outorgante. Termo. Revogação.
Não é religião. É a primeira coisa que a célula estabeleceu e é a que muda tudo.
Os pactuários da Heptarquia não são um culto. Isso é propaganda da Cúria e Halt escreveu-o assim, sabendo o que estava a escrever:
Não há devoção documentável nesta cidade. Há cumprimento de contrato.
Um homem de Sathkar não ama Sathnar. Deve-lhe, e sabe quanto, e sabe quando, e a cláusula está registada em casa de contrato do mesmo modo que uma hipoteca.
A Heptarquia Pactuária é a coisa mais parecida com um Estado de direito que existe a leste do Limes, e o direito que aplica é infernal, e é aplicado com rigor, e essa é exatamente a razão pela qual funciona há noventa e quatro anos.
E se é contrato, então tem partes.
E se tem partes, então tem hierarquia de partes.
E foi aqui que a Célula Onze encontrou aquilo que não estava no mandato e que é a razão pela qual sete pessoas atravessaram uma fronteira e duas voltaram.
O Selo VII não abriu por inteiro.
É o achado. Halt escreveu-o em nove palavras no relatório final e nunca mais o desenvolveu, porque um homem daqueles não desenvolve:
O Selo VII não abriu por inteiro. Abriu o suficiente.
O que saiu do Leste Profundo em 1780 não foram demónios. É canon conhecido e é ensinado nos seminários da Ordem como curiosidade e ninguém extrai dele a consequência.
Saíram Vigias.
Anjos rebeldes — os da tradição enoquita, os que ensinaram — e não a soldadesca infernal. Saíram vivos, articulados, capazes de instruir, e instruíram: ensinaram aos sobreviventes veherênicos a purificar Mineral Negro, a pactuar com forma e cláusula, e a construir sete cidades sobre ruínas.
Azzal, a forja. Shemyas, o primeiro chefe.
A Ordem Clerical sabe os nomes. Estão nos catecismos.
O que a Ordem Clerical nunca perguntou é: onde é que eles ficam na hierarquia?
Ficam em baixo.
Um Vigia caído é, na ordem infernal, subalterno de Príncipe, e um Príncipe é subalterno do que quer que esteja acima de Príncipe, e o que quer que esteja acima de Príncipe não saiu do Selo VII em 1780 nem em nenhum outro ano, porque não coube.
Luzhar saiu diminuído. É canon e a Cúria sabe-o e chama-lhe vitória.
Não é vitória. É medida da abertura.
O que passa por uma fenda é o que a fenda deixa passar, e o que passou pelo Selo VII em 1780 foram sete Príncipes reduzidos, um número indeterminado de coisas menores, e um punhado de Vigias que eram, dentro daquilo, funcionários.
E os funcionários passaram noventa e quatro anos a construir uma civilização do lado de fora, e a civilização que construíram não é deles.
É dos sete.
Um Vigia em Karzhar não tem cidade. Não tem estandarte, não tem trono, não tem cláusula em nome próprio. Ensinou tudo e não recebeu nada, porque o contrato veherênico de 1786 foi feito com os Príncipes e não com quem o redigiu.
E é por isso que Azzal e Shemyas querem abrir o resto.
Não para conquistar Cross. Isso é o que a Ordem presumiria e é o que a Ordem presumiu quando finalmente leu aquele relatório, catorze anos depois.
Querem os superiores cá fora porque lá dentro eles não são nada, e cá fora, num mundo onde os Príncipes já construíram sete cidades, quem abrir a porta aos superiores fica a chefiar a repartição.
É promoção.
Halt escreveu, numa linha:
Não estamos a lidar com uma investida. Estamos a lidar com uma disputa de precedência entre duas camadas de funcionários, e o continente está por baixo.
ATO IV — A PARTE QUE NÃO SE PODE ESCREVER
Fonte — Do instrumento de 1786, nas partes que se conseguiram
Reconstituição do elemento sexto a partir de três leituras públicas em praça, 1875-1877, e do manual escolar de Karzhar intitulado «Do instrumento», que é livro de texto de quarta classe, impresso, vendido em livraria e comprado por dois ducados e meio.
A Ordem Clerical nunca viu o instrumento de 1786. Este é o primeiro documento em que partes dele aparecem em língua ocidental.
Do que é.
Não é um pacto individual. Isso é o que nós presumimos e é a origem de tudo o que percebemos mal em noventa anos.
O instrumento de 1786 é um contrato coletivo, outorgado entre, de uma parte, os sete, e da outra parte «a comunidade sobrevivente de Veheran e os seus descendentes por via legítima».
Tem, segundo o manual escolar, cento e quarenta e uma cláusulas.
Foi outorgado no quarto ano depois da queda e no sexto depois da abertura, em lugar que o manual não nomeia, por catorze outorgantes do lado humano, cujos nomes o manual dá e que este elemento decorou e que constam em anexo.
Da cláusula primeira, que o manual escolar chama «a cláusula do que se dá».
Traduz-se com a maior literalidade que o veherênico permite:
«Dá-se serviço, e entende-se por serviço a obra das mãos, a obra do corpo e a obra da vontade, pelo tempo que o instrumento disser e não mais.»
O manual escolar dedica a esta cláusula onze páginas e o exercício da página onze é o seguinte, e transcreve-se porque é um exercício para crianças de onze anos:
«Diz o que não se dá na cláusula primeira. Escreve três coisas.»
As três respostas que o manual dá por certas, no final, são: a alma, a descendência não nascida, e o tempo para além do estipulado.
Da cláusula nona, que é a cláusula de precedência e é a que se lê na praça.
«Não haverá, entre a comunidade e outrem, obrigação, invocação, súplica nem serviço, salvo o que neste instrumento se estipula com os sete; e quem invocar precedência exterior quebra por si e não pelos demais.»
Sublinha-se quebra por si e não pelos demais, porque é a razão pela qual se executa um homem e não uma família, e porque é a diferença entre este sistema e o que nós imaginámos durante noventa anos.
Não há culpa de sangue. Não há castigo coletivo por invocação.
Um homem que reza a Shemyas quebra o contrato dele e o contrato da mulher continua bom.
Da cláusula vigésima segunda, que é a contrapartida.
É a cláusula mais longa e é a que o manual escolar trata com mais cuidado, e é a que o elemento sexto conseguiu menos completa, e lamenta-se.
*Do que se apurou, estipula: proteção contra o que está fora do instrumento; ensino da obra do mineral; e — e é o membro que interessa — «a não entrega da comunidade a terceiro, por qualquer título».
A não entrega a terceiro.
Está lá desde 1786. Foi escrita por gente que acabava de ver o mundo cair e que teve o cuidado, com fome e sem exército, de pôr no contrato uma cláusula contra serem revendidos.
Da cláusula centésima quadragésima primeira, que é a última e que o manual escolar não explica.
O manual escolar de quarta classe de Karzhar transcreve cento e quarenta cláusulas e da última diz apenas:
«A cláusula final não é matéria desta classe.»
Este elemento não a obteve por nenhuma via.
Obteve, em três leituras públicas, que ela existe e que é lida, e que é curta — nas três vezes o escrivão levou menos de vinte segundos — e que a praça se cala de maneira diferente quando ela é lida.
E obteve, de uma mulher de sessenta anos num velório, em resposta a uma pergunta que este elemento fez mal e sem preparação, uma coisa que não serve de nada e que se regista:
«A última é a que diz o que acontece se eles não cumprirem.»
[Anotação do elemento sexto, a fechar:]
Pedi que esta parte fosse lida por quem tiver competência para tirar dela o que eu não tenho.
Digo apenas o que qualquer pessoa vê: eles têm um contrato escrito, com cento e quarenta e uma cláusulas, com cláusula de contrapartida, com cláusula contra revenda, e com uma cláusula final que estipula o incumprimento da outra parte.
E ensinam-no às crianças aos onze anos, cláusula a cláusula, com exercício escrito.
Nós dizemos, em catecismo, que eles se entregaram.
Uma pessoa que se entrega não negoceia cento e quarenta e uma cláusulas, e não põe lá dentro uma que diga que não pode ser revendida, e não passa noventa anos a ensinar aos filhos onde está a letra miúda.
XV. Quem Está do Nosso Lado
A segunda metade do achado chegou em janeiro de 1877 e chegou de Karzhar e não de Sathkar, e chegou por Reiner, e Halt passou duas semanas a recusá-la antes de a aceitar.
Recusou-a por um motivo profissional que consta e que o honra: era boa demais.
Um inquisidor de dezanove anos de casa aprende que a informação que serve na perfeição é quase sempre informação plantada, e o que Reiner trouxe em janeiro de 1877 servia na perfeição.
Reiner trouxe isto: a Heptarquia está a tentar impedi-los.
Não a Heptarquia inteira. Não há Heptarquia inteira; é uma confederação de sete cidades que negoceiam a ordem de marcha e passam mais tempo nisso do que a planear assaltos.
Mas Karzhar, sim. E Karzhar é a cabeça.
O material era este, e Reiner levou catorze meses a juntá-lo e não o obteve por nenhum método que a Reformada ensine:
Primeiro. Em 1871, o Conselho de Karzhar — que existe, que se reúne, que tem atas, e cuja existência a Cúria de Aurum Roma nunca acreditou — emitiu uma proibição de circulação de Mineral Negro não beneficiado dentro da cidade.
Foi lida como medida sanitária e é o que parece: o pó queima a pele, é razoável.
Só que se aplica ao mineral em pedra, que não faz mal a ninguém, e não se aplica ao pó, que faz.
Segundo. Em 1873, o mesmo Conselho recusou por duas vezes autorização para construir câmaras de exposição em Karzhar, com o argumento — que consta e que Reiner ouviu citado duas vezes em ambiente de comércio — de que o beneficiamento é ofício de Sathkar e assim se mantenha.
Isto lê-se como proteção de monopólio. É como Sathkar o leu e é como as outras cinco cidades o leram.
Terceiro, e é o que fez Halt levantar-se da cadeira: em 1875, três homens de Karzhar foram executados na praça do Trono Vazio, publicamente, por heresia.
Na Heptarquia Pactuária. Por heresia.
Halt fez a Reiner a pergunta óbvia e Reiner tinha a resposta, e a resposta demorou dezassete minutos e está resumida no relatório em quatro linhas:
A acusação, lida em praça pública e ouvida por este elemento de perto, foi de «invocação de precedência exterior ao contrato».
Em linguagem corrente: os três tinham rezado a alguém que não era parte no contrato de 1786.
Não a Deus. Este elemento verificou-o e verificou-o com cuidado, porque a hipótese óbvia era resistência litúrgica e teria sido a hipótese errada.
Rezaram a Shemyas.
E aqui a coisa fecha e Halt viu-a fechar numa sala por cima de uma estrebaria em Sathkar, com quatro pessoas à volta de uma mesa vazia, e escreveu depois que foi o pior momento dos três anos e não o melhor.
Karzhar está a executar gente por rezar aos Vigias.
Porque um pactuário de Karzhar tem um contrato com Luzhar.
Um contrato com Luzhar não vale nada perante quem manda em Luzhar.
Se o resto do Selo VII abrir — se o que está por cima de Príncipe sair —, então os sete Príncipes deixam de ser partes contratantes e passam a ser intermediários destituídos, e um contrato feito com um intermediário destituído é papel.
E duzentos mil habitantes de Karzhar, que são a quarta geração de uma civilização construída sobre ruínas, que comem carne quatro vezes por semana, que têm aquedutos a funcionar e flores nas janelas e velórios com comida, deixam de ser cidadãos de uma potência e passam a ser gado.
Eles sabem.
Sabem melhor do que a Ordem Clerical, porque leem o contrato há noventa e quatro anos e a Ordem Clerical nunca o viu.
Halt escreveu, em março de 1877, a frase que Nikolaus Brecht leu em Vykhrad em maio e que o fez fazer o que fez:
Existe, na cidade de Karzhar, um interesse de Estado alinhado com o nosso.
Não há simpatia, não há aproximação possível, não há negociação concebível e este elemento não a propõe e recomenda expressamente que se não considere.
Faz-se notar apenas o facto, porque é facto: se os Vigias abrirem o Selo VII, nós perdemos o continente e eles perdem a cidade, e eles sabem-no primeiro e melhor do que nós.
Estão a matar por isso, em praça pública, e estão a fazê-lo há dois anos, e nós não sabíamos porque nunca tínhamos assistido a uma execução pactuária do princípio ao fim.
Fonte — Das atas do Conselho de Karzhar
Reconstituição do elemento sexto a partir de leitura pública. As atas do Conselho de Karzhar são afixadas à porta da Casa de Contrato durante nove dias e depois recolhidas, e qualquer pessoa as pode ler nesses nove dias, e ninguém as copia porque copiar afixação é proibido e ler não é. Osvald Reiner leu e decorou trinta e uma atas ao longo de dois anos e ditou dezanove a Petra Vahl em abril de 1877.
A existência do Conselho de Karzhar foi negada por Aurum Roma em documento doutrinário até 1891.
Sessão de 4 de novembro de 1871. Ponto terceiro.
Proíbe-se a circulação de Mineral Negro não beneficiado dentro do perímetro da cidade, em qualquer quantidade e sob qualquer forma.
Fundamento: salubridade.
Aprovada por unanimidade dos onze.
[Anotação do elemento sexto:]
O fundamento é falso e é falso de maneira verificável.
O mineral em pedra é inerte e não faz mal a ninguém. O pó queima e é o pó que circula, em sacas, todos os dias, para as quarenta e uma oficinas de acabamento desta cidade, e a proibição não lhe toca.
Proibiram a pedra e deixaram o pó.
Uma proibição sanitária que proíbe o que não faz mal e autoriza o que faz não é sanitária. É outra coisa e levei quatro anos a perceber o quê.
Pedra é o que se põe numa câmara. Pó é o que já lá esteve.
Karzhar proibiu, em 1871, a entrada na cidade de matéria por beneficiar — ou seja, proibiu que se pudesse instalar em Karzhar o que existe em Sathkar.
Sessão de 19 de junho de 1873. Ponto quarto.
Indefere-se o requerimento da Casa Terceira para instalação de câmaras de exposição em terreno de sua propriedade no quadrante oriental.
Fundamento: o beneficiamento é ofício de Sathkar e assim se mantenha.
Aprovada por nove contra dois.
Sessão de 2 de outubro de 1873. Ponto segundo.
Indefere-se, por segunda vez, o mesmo requerimento.
Fundamento: repete-se o de junho.
Aprovada por onze contra zero.
Faz-se constar, a requerimento da Casa Terceira, que a Casa Terceira considera o fundamento insuficiente e reserva-se o direito de requerer perante quem de direito.
[Anotação do elemento sexto:]
«Perante quem de direito» é fórmula e é a fórmula mais interessante que eu li em dois anos nesta cidade.
Não existe instância acima do Conselho de Karzhar em matéria de Karzhar. Isso é estabelecido no instrumento de 1786 e nunca foi disputado.
Então a quem é que a Casa Terceira ameaça recorrer?
Não a Sathkar, que não tem jurisdição sobre Karzhar.
Não às outras cinco cidades, que não têm foro comum — a Heptarquia não tem tribunal federal e é a razão pela qual demora três meses a acordar uma ordem de marcha.
Sobra uma resposta e a resposta é que a Casa Terceira ameaçou recorrer para cima.
Sessão de 11 de setembro de 1875. Ponto único, sessão extraordinária.
Confirmam-se as três sentenças proferidas pela Casa de Contrato nos autos de invocação de precedência exterior ao contrato.
Determina-se execução pública nos termos do costume.
Determina-se, além do costume, que a leitura do instrumento seja feita por extenso e que a praça não seja fechada.
Aprovada por unanimidade dos onze.
[Anotação do elemento sexto:]
«Além do costume».
O costume é leitura resumida e praça fechada. Em setembro de 1875 o Conselho de Karzhar determinou o contrário das duas coisas, e determinou-o expressamente, e mandou constar que era além do costume.
Quiseram que se ouvisse.
Assisti à primeira e é por isso que sei o que se lê, e o que se lê é o contrato inteiro, e o contrato inteiro leva quarenta minutos, e a praça ouve.
Não estavam a punir três homens.
Estavam a ler o contrato em voz alta a duzentas pessoas por semana, durante dois anos, e a usar três condenados como razão para o fazer.
Sessão de 7 de fevereiro de 1877. Ponto quinto.
Suspendem-se por noventa dias todas as celebrações de pacto novo no perímetro da cidade.
Fundamento: reordenamento de registo.
Aprovada por dez contra um.
Faz-se constar o voto contra da Casa Terceira.
[Anotação final do elemento sexto, ditada em abril de 1877, três semanas antes de ser levado:]
Seis anos de atas e uma só linha a atravessá-las.
1871: não entra pedra. 1873: não se instalam câmaras, duas vezes. 1875: lê-se o contrato em voz alta na praça, por extenso, de propósito. 1877: não se fazem pactos novos durante noventa dias.
A Casa Terceira vota contra em 1873 e vota contra em 1877 e é a única que vota contra em seis anos.
Não sei quem é a Casa Terceira e não consegui apurar e não vou ter tempo.
Sei o que o Conselho de Karzhar está a fazer e sei-o com a certeza que se pode ter destas coisas: está a fechar a cidade por dentro, devagar, por via administrativa, sem nunca dizer contra quem, durante seis anos.
E há onze casas no Conselho e dez estão de acordo.
Fonte — Do que se diz na praça do Trono Vazio
Relato do elemento sexto, Osvald Reiner, obtido por assistência direta a três execuções em Karzhar entre outubro de 1875 e fevereiro de 1877. Ditado a Petra Vahl em abril de 1877 e transcrito por ela em Vykhrad. É o único documento da Ordem Clerical que descreve uma execução pactuária do princípio ao fim.
Do lugar.
A praça do Trono Vazio fica no centro de Karzhar e chama-se assim porque tem um trono e o trono está vazio.
É de mármore branco, sobre três degraus, virado a norte, e tem quarenta e um anos: foi feito em 1836 e nunca foi ocupado por ninguém.
Luzhar não se senta. Este elemento apurou três explicações correntes na cidade e nenhuma é oficial, porque nada em Karzhar é oficial: que o Príncipe não se senta porque sentar-se seria admitir cansaço; que se sentou uma vez em 1793 e que o trono de então foi destruído e que este é o segundo; e que o trono não é dele.
A terceira é minoritária e é dita em voz baixa e é a única que este elemento acha interessante.
Da forma.
Não há carrasco encapuzado, não há tambor, não há multidão convocada.
Há um escrivão de Casa de Contrato, com mesa e livro, e há quatro homens de casa de rito com máscara de couro — e a máscara é declarada, o que quer dizer que toda a gente sabe quem são e que a máscara não esconde, marca.
A praça não é fechada. As pessoas param a caminho de outro sítio, ficam, e seguem.
Assisti três vezes e nunca havia mais de duzentas pessoas, e das duzentas a maior parte tinha cesto na mão.
Do que se lê.
O escrivão lê o contrato.
É esta a coisa que eu preciso que quem isto ler entenda, e é a razão pela qual peço que este relato não seja resumido por ninguém: não se lê uma sentença. Lê-se o contrato.
Lê-se, por extenso, o instrumento de 1786 pelo qual a comunidade veherênica sobrevivente contratou com os sete. Lê-se a cláusula de exclusividade. Lê-se a cláusula de precedência.
E depois lê-se o ato do réu.
E depois lê-se a cláusula outra vez.
Levou, nas três vezes, entre trinta e cinquenta minutos, e a praça ouve, e ouve com atenção, e há gente que acompanha de cor as partes que sabe.
Do ato imputado.
Nas três: invocação de precedência exterior ao contrato.
Na primeira, um homem de uns quarenta anos que tinha rezado a Shemyas em casa, à mesa, à frente de dois hóspedes que o denunciaram por escrito e cuja denúncia foi lida em voz alta com os nomes deles.
Na segunda, dois irmãos, ambos moedores, que tinham feito o mesmo numa forja.
Na terceira, uma mulher de uns trinta e cinco anos, casa de rito, que tinha feito outra coisa e sobre a qual este elemento não conseguiu apurar o quê, porque a leitura do ato dela foi feita em voz mais baixa e em fórmula que eu não domino.
Faz-se notar que a mulher da terceira execução era de casa de rito, ou seja, pessoal de culto, e que portanto sabia exatamente o que estava a fazer, o que nos dois primeiros casos não é seguro.
Da fala do réu.
Fala-se. Está previsto e é respeitado e é o momento que este elemento não esperava.
O réu tem direito a alegar incumprimento da outra parte.
Não perdão, não clemência, não arrependimento — nada disso existe naquele quadro. Tem direito a alegar que o contrato não foi cumprido do outro lado, e que portanto a sua invocação de precedência exterior é remédio e não crime.
O homem da primeira execução alegou. Falou nove minutos. Alegou que a casa dele tinha pactuado em 1859 e que a contrapartida prometida não fora integralmente entregue, e citou a cláusula, e citou-a certa.
O escrivão tomou nota.
E depois o escrivão leu a resposta, que estava preparada, porque a alegação tinha sido entregue por escrito com antecedência e é assim que aquele sistema funciona.
A resposta tinha catorze linhas e a última dizia — traduzo com cuidado porque a palavra é de direito e não de religião:
«A entrega parcial não abre precedência. Abre crédito.»
Do fim.
Câmara fechada.
Levam-no por uma porta lateral do edifício da Casa de Contrato e a porta fecha-se e a praça dispersa.
Não se vê. Não se ouve. Não há corpo exposto e não há cabeça em lança e não há nada do que a nossa literatura promete há cem anos.
Nas três vezes, a praça estava vazia dez minutos depois.
Observação final do elemento sexto, e peço que se leia em separado do resto:
Eu fui três vezes convencido de que ia assistir a uma barbárie e assisti a três audiências.
Há acusação, há prova documental, há direito de alegação, há resposta fundamentada e há decisão. O procedimento é melhor do que o nosso.
Faço notar isto sabendo o que faço. O tribunal sumário da Inquisição Reformada, desde a reforma de 1824, não dá ao réu acesso ao instrumento que o acusa e não admite alegação de incumprimento por parte da instituição, porque a instituição não é parte.
Em Karzhar é parte.
Ali o réu pode dizer «vocês não cumpriram» e alguém tem de responder por escrito.
Não estou a defender aquilo. Estou a relatar que o que eles têm é um sistema jurídico e que o nosso, no mesmo ponto, não é.
E acrescento a coisa de que não consigo passar sem dizer, e que não é matéria de relatório e vai aqui na mesma:
Eles executam por rezar ao anjo errado.
Nós executámos, em cinquenta e dois, em Ferrumkar, por rezar com sucesso.
XVI. O Preço
Entre março e junho de 1877, a Célula Onze perdeu mais quatro pessoas, e este livro vai contá-lo sem dramatizar nenhuma das quatro mortes, porque é assim que aconteceram e porque a única coisa pior do que morrer daquela maneira é ser escrito de outra.
KONRAD STELLING, médico, quarenta e nove anos, morreu a 11 de abril de 1877 de tifo.
Não em interrogatório. Não em fuga. De tifo, num quarto alugado em Sathkar, em nove dias, com Mira Solvang a tratá-lo e sem nada para lhe dar, numa cidade de cento e quarenta mil pessoas onde o tifo mata uns quatrocentos por ano e ninguém acha isso notável.
Foi o homem mais cínico da célula e o único que rezava, e nos últimos dois dias não rezou, e Solvang anotou isso no caderno dos Hospitalários porque o Voto de Registo manda anotar o que não convém.
E anotou a última coisa que ele disse, que foi dita à tarde, com lucidez, e que não é uma frase de morte e é por isso que está aqui:
— Diga ao contabilista que a folha dele está mal feita. Não pôs os enterros.
OSVALD REINER, linguista, quarenta e sete anos, foi preso a 2 de maio de 1877 em Karzhar.
Não pela célula. Não pelo Rito. Foi preso numa rusga de casa de contrato, numa quarta-feira de manhã, junto com onze outras pessoas, por uma coisa administrativa — falta de registo de residência — que na Heptarquia se resolve com multa.
Estava sem papéis porque a célula andava sem papéis. Levaram-no.
E o que aconteceu a seguir é a única coisa neste livro que a Célula Onze soube por certo e por testemunha, porque Kranz estava do outro lado da rua:
Reiner deu o nome falso, deu a morada falsa, e o escrivão — um homem de casa de contrato, sentado a uma mesa, com um livro aberto — pediu-lhe que repetisse a morada.
Reiner repetiu.
O escrivão escreveu, e depois levantou os olhos e disse-lhe uma coisa em veherênico antigo.
Nove sílabas.
E Osvald Reiner, que tinha quarenta e sete anos e que tinha passado três anos a treinar-se para não reagir, respondeu.
Foi o que o matou.
Não uma confissão, não uma tortura, não uma delação. Um homem que ouviu a língua da avó numa repartição e respondeu antes de pensar, porque tinha nove anos quando a aprendeu e porque aos nove anos aprende-se abaixo do sítio onde se treina.
Kranz viu-o ser levado por uma porta interior às onze e vinte da manhã.
A célula esperou dezanove dias, que é o que o protocolo manda esperar, e não o recuperou, porque o protocolo proíbe recuperação e está assim desde 1824 e não se explica outra vez.
TOBIAS KRANZ, vinte e nove anos ao entrar e trinta e dois ao morrer, foi o único da célula que morreu do modo como aquela gente é suposta morrer, e morreu a fazer a única coisa que o protocolo dele autorizava.
Em 4 de junho de 1877, quando a célula saía de Sathkar, um controlo de estrada a dezanove quilómetros a oeste parou a carroça.
Não era controlo montado contra eles. Era controlo de rotina de saída de mineral, dos que existem em todas as estradas de Sathkar desde 1860, e para toda a gente.
Kranz estava na boleia, à frente.
Percebeu, pela maneira como o sargento de estrada olhou duas vezes para Solvang, que a coisa ia ao segundo grau de verificação, e que o segundo grau de verificação é a descoberta.
Desceu, andou seis passos na direção do posto, e disparou três vezes.
Não matou ninguém.
É preciso dizê-lo porque a tentação de escrever a outra versão é enorme e a outra versão é falsa. Kranz disparou três cartuchos de Crisma-Argênteo — munição consagrada, contra homens — e a munição consagrada não faz a um homem vivo nada de especial: fere como uma bala.
Feriu um. Falhou dois.
E depois correu para norte, para fora da estrada, para o descampado, porque um homem que corre para o descampado leva atrás de si toda a gente que houver, e foi exatamente o que aconteceu.
A carroça seguiu.
Kranz aguentou, na estimativa de Solvang, entre vinte e quarenta minutos. Não se sabe e nunca se soube.
Não é mártir e a Ordem nunca lhe deu nada, porque a Inquisição Reformada não condecora.
E Solvang escreveu no caderno dos Hospitalários, nessa noite, a nove quilómetros dali, num barranco, com as mãos a tremer, a única linha que ela escreveu em três anos que não é um facto clínico:
Ele não gostava disto. Quero que fique escrito que ele não gostava disto e fê-lo na mesma.
E JERZY HALT, cinquenta e quatro anos, chefe da Célula Onze, não morreu no dia 4 de junho.
Morreu a 21 de junho de 1877, a quatro dias da fronteira, de uma coisa do coração, a andar.
Tinha cinquenta e quatro anos, tinha feito três anos de estepe, e vinha a andar há doze dias, e às sete da manhã de uma quinta-feira parou, pôs a mão no peito com uma expressão mais de aborrecimento do que de outra coisa, sentou-se na berma, e disse a Vahl e a Solvang a última instrução que deu:
— Continuem. Não parem por isto.
E depois, porque era quem era:
— E a folha do Stelling. Ponham os enterros.
Morreu vinte minutos depois.
Petra Vahl e Mira Solvang enterraram-no sozinhas, numa cova rasa, com pedras por cima, e não rezaram porque nenhuma das duas sabia se ele quereria, e ficaram ali sentadas uns dez minutos, e Solvang perguntou:
— Quantos éramos?
E Vahl, que era a memória da célula e que respondia sempre exato, disse:
— Nove.
Intervalo — Os Quatro Meses
Entre fevereiro e junho de 1877, cinco pessoas passaram a duas, e Jerzy Halt teve de decidir três vezes, e das três decisões duas foram certas e uma foi a que o matou.
Este intervalo trata das três.
A primeira decisão foi em fevereiro e foi ficar.
O mandato acabava a 9 de abril de 1877, três anos a contar da travessia, e Halt podia ter saído em janeiro com tudo o que tinha e tinha muito.
Tinha o método. Tinha o volume. Tinha as nove câmaras e as duas que não produziam. Tinha as atas do Conselho. Tinha o Rito.
Não tinha a última peça — quem são as três pessoas que entram e o que é que há dentro da oitava e da nona câmara — e sabia que não a ia ter.
Ficou porque Reiner pediu.
Reiner pediu em janeiro de 1877, numa sala em Sathkar, e pediu três meses, e o argumento dele consta:
— Eu tenho a Casa Terceira — disse. — Votou contra duas vezes em seis anos e é a única. Se eu souber quem é a Casa Terceira, sei quem está do outro lado dentro de Karzhar, e isso vale mais do que tudo o que trouxemos.
— Quanto tempo?
— Três meses. Talvez dois.
Halt fez a conta em voz alta, e é a conta de um contabilista, e é a razão pela qual ele disse que sim:
— Temos munição para trinta anos, temos casa que dá lucro, temos cobertura de três anos sem uma única suspeita registada, e temos quatro pessoas úteis e um médico.
E depois:
— E se sairmos em abril chegamos a Vykhrad em maio e o relatório é lido em julho. Se sairmos em julho é lido em outubro. Três meses de diferença em catorze anos de guerra não é nada.
Escreveu, no relatório final, sobre essa decisão, a única frase autocrítica que aquele documento tem:
Esta conta estava certa em todos os termos e o resultado foi errado, e este elemento não vê, revendo-a, o que deveria ter feito de outra maneira.
Faço notar a distinção porque ela é toda a diferença entre um erro e uma perda, e porque quem ler isto vai querer ver um erro e não há.
A segunda decisão foi em maio e foi não ir buscar Reiner.
Levaram-no a 2 de maio, por uma porta interior da Casa de Contrato de Karzhar, às onze e vinte da manhã, e Kranz estava do outro lado da rua.
Kranz chegou a Sathkar a 5 de maio e a primeira coisa que disse, em pé, ainda com o pó da estrada, foi que havia maneira.
Havia. Kranz tinha passado três dias a estudá-la na estrada e apresentou-a em onze minutos, e era uma coisa de ex-Cavaleiro do Selo: a Casa de Contrato de Karzhar não tem guarda armada, tem dois homens de porta e um escrivão de noite, e um homem com nove cartuchos consagrados e vontade entra ali em três minutos.
Entra. Não sai.
Halt ouviu os onze minutos até ao fim e não interrompeu.
E depois disse:
— Não.
— Senhor primeiro—
— Não. E vou dizer-lhe porquê uma vez e não voltamos ao assunto, porque se voltarmos eu tenho de o mandar embora da célula e não tenho quem o substitua.
O que ele disse a seguir consta, porque Vahl estava na sala:
— Está no despacho de constituição de setenta e três e está em todos os despachos de constituição desde mil oitocentos e vinte e quatro e está assim há cinquenta e três anos: em caso de captura de elemento, os restantes não alteram o plano e não tentam recuperação.
— Eu sei o que está no despacho.
— Sabe. E acha que está lá por crueldade.
Kranz não respondeu.
— Está lá por aritmética — disse Halt. — Uma célula que vai buscar um elemento capturado perde, em média e segundo o que eu li em dezanove anos de arquivo, entre três e a totalidade dos restantes, e recupera o capturado em menos de um caso em nove.
— Em menos de um em nove.
— Menos.
— Então há casos.
— Há três — disse Halt. — Em cinquenta e três anos. E eu li os três e em dois deles o elemento recuperado morreu nos quatro meses seguintes e no terceiro a célula perdeu quatro pessoas para recuperar uma que depois não foi capaz de continuar em campo.
E depois Halt disse a coisa que Vahl pôs no relatório final e que é o que faz dele o homem deste livro:
— E há outra razão e é a minha e não é da casa, e é esta: o Reiner tem, neste momento, a única informação que nós não podemos deixar cair, e é a única pessoa da célula que a tem toda.
— Mais uma razão para ir.
— Não — disse Halt. — É a razão para não ir.
Porque se nós entrarmos ali e falharmos — e vamos falhar — eles ficam a saber que o homem que levaram vale uma operação.
E um homem que vale uma operação é um homem que se interroga com atenção em vez de se interrogar por rotina.
A melhor coisa que nós podemos fazer pelo Osvald Reiner, hoje, é não valermos nada.
A célula esperou dezanove dias, que é o que o protocolo manda, e depois deu-o por perdido.
Kranz não voltou ao assunto e morreu catorze dias depois disso, numa estrada, a correr para um descampado, e este livro deixa as duas coisas lado a lado e não as liga, porque ligá-las seria dar a Tobias Kranz uma intenção que ninguém lhe conhece e que ele não deixou escrita.
A terceira decisão foi em junho e foi sair a pé.
Havia duas maneiras de sair de Sathkar em junho de 1877 com duas mulheres e dois homens.
A rápida era por Vykhradia, por estrada, em nove dias, com a carroça e a cobertura e os papéis da casa de couro, e era a maneira sensata.
A lenta era a pé pelo sul, pela estepe, sem estrada, em dezasseis a vinte e cinco dias, sem cobertura nenhuma porque quatro pessoas a pé na estepe não são casa de couro nenhuma.
Halt escolheu a lenta.
Escolheu-a por uma razão que ele explicou a Solvang e que Solvang pôs no caderno, e que estava certa:
Uma casa de couro que fecha o armazém e sai de Sathkar com toda a gente dentro, em junho, com a licença paga até dezembro, é a coisa mais notada que nós fazemos em três anos.
Um credor pergunta. Um credor pergunta à portagem. A portagem tem o nosso nome e a data e a direção.
Se sairmos pela estrada, deixamos atrás de nós um rasto com data, e o rasto diz a quem o quiser ler exatamente quando é que nós soubemos o suficiente para ir embora.
E quem o ler, em Karzhar, vai contar para trás e vai chegar a fevereiro, e em fevereiro está a circular do Conselho.
Não lhes vou entregar a data.
Estava certo.
E custou dezasseis dias de estepe a um homem de cinquenta e quatro anos com o coração gasto, em junho, e Jerzy Halt sabia o que estava a fazer e fê-lo na mesma, e Petra Vahl, que estava lá, escreveu-o em 1886 num depoimento interno em resposta a uma pergunta sobre outra coisa:
Ele sabia. Perguntei-lhe ao quarto dia se aguentava e ele disse que não sabia, que era uma pergunta razoável, e que se não aguentasse nós levávamos o que ele tinha na cabeça de qualquer maneira porque eu tinha tudo o que ele tinha.
Tinha. Foi por isso que ele me escolheu para a Onze e foi por isso que passou três anos a ler-me tudo em voz alta.
Ele não me estava a informar. Estava a fazer cópia.
XVII. Vesna, no Dia
Há uma coisa que este livro tem de dizer e que só pode dizer aqui, e é uma coisa pequena que desfaz a versão heroica antes que ela se forme:
A Célula Onze não foi buscar Vesna.
Não a resgataram, não a recrutaram, não a tinham nos planos, e o mandato proibia expressamente contacto com população cristã cativa — faz-se notar que existe e que não é matéria deste mandato.
O que aconteceu foi outra coisa e é pior e é melhor.
A data de Vesna era 11 de março de 1877.
Chegou. É preciso dizê-lo assim: chegou, e ela tinha vinte e dois anos, e o vestido estava pronto havia quatro meses.
E a casa a que ela estava atribuída — casa boa, do quadrante do aqueduto, com nome que não consta deste livro — adiou.
Não adiou por bondade.
Adiou porque em fevereiro de 1877 o Conselho de Karzhar suspendeu, por circular, todas as celebrações de pacto novo na cidade durante noventa dias, e a razão declarada da circular foi reordenamento de registo, que não quer dizer nada.
A razão real é a razão deste livro inteiro: Karzhar estava a fechar-se, em 1877, contra uma coisa que vinha de dentro, e um pacto novo é uma parte nova num contrato que a cidade já não sabia se ia querer ter.
Suspenderam-se, segundo o que Reiner tinha apurado antes de ser levado, entre quatrocentas e seiscentas celebrações.
Quatrocentas a seiscentas pessoas no Cerco com a data adiada e o vestido pronto.
Vesna soube a 3 de março, oito dias antes.
E o que ela sentiu — e disse-o em 1881, em Bernkanton, a uma mulher que lhe perguntou, e a mulher escreveu-o e é por isso que existe — não foi alívio.
Fiquei com raiva.
Passei oito anos a preparar-me para um dia e o dia não veio, e a primeira coisa que eu pensei foi que ia ter de o fazer outra vez.
A segunda coisa que eu pensei, e não contei isto a ninguém durante quatro anos, foi: e se nunca vier?
E a terceira coisa foi que eu não sabia fazer nada. Eu sabia ser noiva. Não sabia mais nada, porque nunca ninguém me pediu para saber mais nada.
Os noventa dias acabavam a 11 de junho.
Em 9 de junho de 1877, duas mulheres estrangeiras entraram no Cerco de Karzhar pela porta norte, que estava aberta porque as portas estão abertas, às três da tarde, e ninguém lhes perguntou nada porque ninguém pergunta nada.
XVIII. Por Que É Que Elas Foram
A resposta honesta é que ninguém sabe, porque as duas mulheres que o decidiram deram, ao longo dos treze anos seguintes, quatro explicações diferentes e nenhuma delas coincide.
Este livro apresenta as quatro e não escolhe.
A explicação de Petra Vahl em 1877, no relatório final, escrita em Vykhrad, nove dias depois, em estilo de casa:
Efetuou-se entrada no bairro cativo de Karzhar a 9 de junho com o objetivo de obter confirmação testemunhal do regime de suspensão de celebrações decretado em fevereiro, por ser esse regime a única prova independente do ponto XV deste relatório.
Obteve-se.
Extraiu-se um sujeito por a extração ser, nas circunstâncias, o meio mais fiável de transporte de testemunho.
Quer dizer: fomos buscar uma prova e a prova tinha pernas.
É a versão institucional, é perfeitamente defensável, e Vahl manteve-a durante nove anos.
A explicação de Mira Solvang em 1878, numa conversa que não foi registada e que sobrevive porque a outra pessoa a repetiu:
Estávamos em cinco e depois em três. Eu tinha passado três anos a anotar o que aquela cidade fazia às pessoas e não tinha feito nada por ninguém, nem uma vez, porque o mandato dizia que não era matéria.
Ia-me embora daquele sítio e tinha um espaço na carroça.
A explicação de Petra Vahl em 1886, num depoimento interno, quando lhe perguntaram pela terceira vez:
Fomos sem lhe dizer.
O elemento primeiro estava a duas ruas dali, sentado, porque já não andava bem, e nós dissemos-lhe que íamos ver uma coisa e ele disse que sim.
Percebeu à noite, quando viu a rapariga.
Não perguntou nada. Não perguntou nesse dia e não perguntou nos dezasseis que se seguiram e morreu sem ter perguntado.
Perguntaram-me agora, três vezes, por que razão fomos. Ele tinha o direito de perguntar e não perguntou, e os senhores não tinham e perguntaram, e eu registo a diferença sem a comentar.
E a explicação de Mira Solvang em 1890, aos cinquenta anos, a uma pessoa que não é da Ordem:
Não fomos salvar ninguém. Fomos porque saímos dali com duas de nove e porque nós as duas somos das Ordens que anotam, e havia uma coisa naquela cidade que não cabia em nenhum caderno nosso.
Aquela gente trata os cativos com carinho. Com carinho a sério. Perguntam-lhes pelo vestido.
Eu podia escrever isso num relatório e ninguém em Aurum Roma ia acreditar, e eu sabia que não iam acreditar, porque eu própria não teria acreditado três anos antes.
Um relatório não prova. Uma pessoa prova.
Este livro acrescenta uma quinta hipótese e declara-a como hipótese:
Elas tinham sido nove e eram três, e uma das três estava sentada a duas ruas dali sem conseguir andar mais de vinte minutos seguidos, e as duas sabiam-no, e sabiam o que isso queria dizer para os dezasseis dias que vinham a seguir.
Não há nada em nenhum caderno sobre isso.
O que há é a frase que Mira Solvang usou em 1890 e que é a única das quatro explicações que não explica nada e é a única que este livro acredita:
Havia um espaço na carroça.
E não havia carroça. Saíram a pé.
XIX. A Porta Norte
Elas não disseram quem eram.
Nunca disseram. Vesna passou dois meses com aquelas duas mulheres e só soube em Bernkanton, por outra pessoa, o que é que elas tinham sido, e a primeira reação dela ao saber foi dizer ah, e ficar calada muito tempo, e depois perguntar se isso queria dizer que ela ia ter problemas.
O que aconteceu na porta norte foi isto e levou onze minutos.
A mais velha das duas — a de olhos claros, que falava veherênico mal — perguntou-lhe se ela era do Cerco.
Vesna disse que sim.
A mulher perguntou-lhe se tinha data.
Vesna disse que tinha tido e que tinha sido adiada, e disse-o do modo como se diz uma contrariedade, com um encolher de ombros, porque era assim que se dizia.
E a mulher de olhos claros olhou para a outra, e a outra — a mais calada, que não falava veherênico nenhum e que estava a olhar para as casas — disse qualquer coisa na língua delas, e a de olhos claros voltou-se e fez a pergunta que mudou tudo, e fê-la mal, com a gramática errada, o que Vesna se lembrou toda a vida:
— Tu queres ficar?
Vesna não percebeu a pergunta.
É a parte que ninguém em Aurum Roma acreditou e é a razão pela qual este livro insiste nela: ela não percebeu a pergunta, porque a pergunta pressupunha uma alternativa, e não havia alternativa no vocabulário dela.
Perguntou o que é que queria dizer.
E a mulher de olhos claros — que era Mira Solvang, hospitalária, trinta e sete anos, que tinha nove anos de extração de marca demoníaca e um caderno com o Voto de Registo e que estava a fazer a pior tradução da vida dela — disse:
— Quer dizer que nós vamos embora daqui hoje e que tu podes vir.
Vesna ficou parada uns segundos.
E depois fez três perguntas, por esta ordem, e as três estão no caderno de Solvang porque Solvang as escreveu nessa noite:
Perguntou se podia levar a mãe.
Disse-se que não.
Perguntou se podia ir dizer adeus.
Disse-se que não.
Perguntou o que é que havia do outro lado.
E este elemento não soube responder, porque a resposta verdadeira é «nada que lhe pertença», e porque a resposta que se dá nestas circunstâncias é uma mentira que este elemento não estava disposto a dizer a uma pessoa que ia ter de viver nela.
Respondeu-se: não sei.
E ela disse que sim.
Saiu com o que tinha no corpo.
Não levou o vestido. Solvang perguntou-lhe, anos depois, em Bernkanton, por que razão não tinha levado o vestido, que era a única coisa dela que tinha algum valor, e Vesna respondeu uma coisa que Solvang escreveu e sublinhou:
Porque era da casa. O vestido era da casa. Eu é que era da casa.
ATO V — O OITAVO
Intervalo — Dezasseis Dias de Estepe
Saíram de Sathkar a 4 de junho de 1877 em carroça, perderam Kranz ao meio-dia desse dia num controlo de estrada a dezanove quilómetros, e a partir das duas da tarde eram três pessoas a pé.
Fizeram os cento e dez quilómetros até Karzhar em cinco dias, entraram na cidade a 9 de junho, e saíram de lá nesse mesmo fim de tarde com uma quarta pessoa que não constava de plano nenhum.
Depois foram trezentos quilómetros de estepe sem estrada.
Andaram dezasseis dias.
Este intervalo trata deles porque a maior parte do que uma pessoa faz em três anos de serviço é andar, e porque nenhum relatório da Inquisição Reformada em sessenta e seis anos descreveu alguma vez uma retirada.
Levavam: um odre cada, um saco cada, quatro mil setecentos e noventa e sete cartuchos que abandonaram no segundo dia porque pesam quarenta e um quilos, o caderno dos Hospitalários, e a cabeça de Petra Vahl.
Não levavam mapa.
Vahl tinha o percurso decorado desde 1874 porque tinha decorado tudo, e o percurso era o mesmo da entrada ao contrário, e ela conduziu-os dezasseis dias sem uma única hesitação registada, e Solvang escreveu no caderno, ao décimo primeiro dia, uma linha de admiração profissional:
O elemento quinto não olha para o sol e não olha para as estrelas e sabe onde está.
Perguntei como.
Disse que conta passos desde abril de setenta e quatro.
Halt aguentou doze dos dezasseis.
Foi ficando para trás a partir do sexto e a partir do nono pararam de manhã e de tarde por causa dele e ninguém disse porquê.
Ao décimo segundo, Solvang examinou-o à noite, sem lhe pedir licença, do modo como um hospitalário examina, e ele deixou-se examinar e não perguntou o resultado.
O caderno regista o resultado em linguagem de casa:
Pulso irregular, cento e dez em repouso. Extremidades frias. Dispneia de esforço a partir de talvez meia hora de marcha. Edema de tornozelo bilateral ao fim do dia.
Não há nada a fazer aqui e não haveria nada a fazer em Bernkanton.
Não comuniquei ao doente por ele não ter perguntado e porque perguntar-lhe se queria saber seria comunicar-lhe.
E há a rapariga, e é a parte deste intervalo que Solvang escreveu duas vezes.
Vesna tinha vinte e dois anos, tinha saído de um bairro murado com o que tinha no corpo, e nunca na vida tinha andado mais de três horas seguidas.
Aguentou os dezasseis dias sem uma queixa registada.
Solvang anotou-o ao quarto dia e voltou a anotá-lo ao décimo segundo, e a segunda anotação tem uma frase que é a chave da personagem e que ela não desenvolveu:
Não se queixa e não pergunta quanto falta.
Perguntei-lhe hoje por que razão não pergunta quanto falta.
Disse que não sabe o que é que faria com a resposta.
Ao décimo primeiro dia, Vesna fez uma coisa que não consta de caderno nenhum e que Petra Vahl contou em 1886 num depoimento sobre outra matéria e que o inquiridor registou porque não soube o que fazer com aquilo.
Halt tinha parado, sentado, ao fim da tarde, e estava a demorar mais do que o costume a levantar-se.
E a rapariga, que não falava a língua dele e que em onze dias tinha trocado talvez trinta palavras com ele por intermédio, sentou-se ao lado dele na berma e não disse nada e ficou ali até ele se levantar.
Não o ajudou. Não lhe tocou.
Sentou-se ao lado.
E Jerzy Halt, que tinha cinquenta e quatro anos e que ia morrer quatro dias depois e que nunca na vida tinha conseguido acordar um cartucho, disse-lhe uma coisa em kantonal que ela não percebeu e que Vahl ouviu de dez passos e traduziu para ela ao fim de nove anos, quando se voltaram a ver em Bernkanton.
Foi isto:
— Não pare por mim.
Ela não percebeu na altura.
E quando percebeu, nove anos depois, numa lavandaria em Bernkanton, com trinta e um anos e dois filhos, o que disse — segundo o que Vahl escreveu nesse mesmo dia, que é a última coisa que aquela mulher escreveu sobre a Célula Onze — foi:
— Eu não estava a ajudá-lo. Eu estava cansada.
E depois:
— Mas se ele achou isso, ainda bem.
XX. O Frio
Atravessaram a 25 de junho de 1877, a sul do Vau de Strazhka, no mesmo sítio por onde tinham entrado três anos e dois meses antes, e desta vez eram três e uma delas não era da Ordem.
Levaram duas horas e quarenta minutos.
E ao fim de cinquenta minutos do lado ocidental, a meio de um descampado, a rapariga parou de andar.
Vahl voltou-se.
Vesna estava parada a uns quatro passos atrás, com os braços cruzados sobre o peito e as mãos enfiadas debaixo das axilas, e estava a tremer, e tinha uma expressão que Vahl não soube identificar e que passou os dez segundos seguintes a tentar identificar antes de perceber que era alarme.
— O que é isto? — disse Vesna.
Vahl não percebeu.
— O que é que se passa comigo — disse Vesna, e a voz subiu. — O que é que eu tenho. Estou a fazer isto e não consigo parar.
Ela tinha vinte e dois anos e nunca tinha sentido frio.
Nasceu no Cerco de Karzhar, cresceu no Cerco de Karzhar, e nunca na vida tinha saído da bacia onde o ar está à temperatura de um corpo.
Um veterano do Limes chama-lhe o calor de fenda e não sabe explicá-lo e não precisa, porque um veterano do Limes atravessa a fronteira nos dois sentidos e regista a diferença.
Quem nasce lá dentro não regista nada.
Vesna não tinha palavra para frio. Tinha a palavra veherênica, que existe e que ela sabia, do mesmo modo que sabia a palavra para neve e a palavra para mar — palavras de coisas que estão em canções.
Vahl fez uma coisa que não estava em protocolo nenhum e que ela própria, ao contá-la em 1886, disse que tinha sido a coisa mais estúpida que fez em vinte e quatro anos de serviço:
Explicou.
Disse-lhe, ali, de pé, num descampado, a três quilómetros da fronteira, com uma patrulha a possivelmente onze quilómetros, o que era o frio, e por que razão o corpo treme, e que era normal, e que ia passar quando ela se habituasse e que nunca ia passar de todo.
Levou seis ou sete minutos.
Solvang, atrás, não disse nada e deixou-a falar.
E Vesna ouviu tudo, e depois fez uma pergunta que é a última coisa que este livro tem a dizer sobre a Heptarquia Pactuária e que dispensa qualquer comentário, e Petra Vahl escreveu-a nessa noite, a lápis, no primeiro papel que teve nas mãos em três anos e dois meses:
Perguntou-me se as pessoas do outro lado sentem isto todos os dias.
Disse-lhe que sim.
Perguntou-me como é que nós aguentamos.
Fonte — Da correspondência de Nikolaus Brecht
Papéis pessoais legados à casa de Vykhrad em 1884. Brecht conservou minutas de expedição de catorze anos de serviço, o que não é irregular, e cópia de quatro peças que não tinha o direito de conservar, o que é. As cópias estavam num maço separado com uma folha de rosto de uma linha: «Se isto aparecer, apareceu porque eu quis.»
Minuta de expedição. Vykhrad, 2 de dezembro de 1874. Para a Secretaria de Células, Aurum Roma.
Remete-se primeiro relatório da Célula Onze, nove folhas, autenticado.
Faz-se notar que o ponto IV excede o mandato e remete-se na mesma, por não competir ao elemento oitavo expurgar.
Despacho recebido. Aurum Roma, 2 de dezembro de 1874. [Cópia conservada.]
O ponto IV não é matéria deste mandato. Não se repita.
Minuta de expedição. Vykhrad, 19 de fevereiro de 1876. Para a mesma.
Remete-se segundo relatório da Célula Onze, trinta e uma folhas, autenticado.
Chama-se a atenção de Vossa Senhoria para o ponto VII, que estabelece o método do beneficiamento e que é, por si só, resposta integral ao mandato de 1873.
Chama-se a atenção, em separado, para o ponto XI, que regista quatro postos de vigilância não pactuada na Forja Quarta de Sathkar e para os quais o elemento primeiro declara não ter explicação.
Este elemento oitavo permite-se observar, excedendo a sua função, que quatro postos pagos ao dobro numa operação industrial são a coisa mais informativa que consta destas trinta e uma folhas, e que o elemento primeiro fez bem em registar a pergunta sem a responder.
Despacho recebido. Aurum Roma, 11 de março de 1876. [Cópia conservada.]
Recebido e apreciado. O mandato dá-se por cumprido quanto a método e a volume.
Determina-se prorrogação da célula pelo prazo remanescente com o seguinte aditamento de mandato: estabelecer capacidade de produção fora de Sathkar.
Quanto ao ponto XI: anota-se. Não se desenvolva.
Faz-se notar ao elemento oitavo que a função dele é autenticar e transmitir.
Minuta não expedida. Vykhrad, 14 de março de 1876. Rasurada e conservada.
A função deste elemento é autenticar e transmitir e não tem outra e reconheço-o.
Solicito que se me esclareça se «não se desenvolva» é ordem a transmitir à célula.
Se for, transmito-a e fica dito que a transmiti contra o meu parecer, e o meu parecer é este: acabámos de dizer a cinco pessoas que estão há dois anos num país inimigo que não desenvolvam a única coisa que encontraram e que ninguém esperava.
Se não for ordem, não a transmito e o assunto fica entre nós os dois.
[Por baixo, na mesma folha, outra letra e outra tinta — a do próprio Brecht, em data posterior:]
Não expedi.
Não expedi porque, se a resposta viesse a ser «é ordem», eu teria de a transmitir, e eu não queria a resposta.
É a primeira vez em catorze anos que eu evito receber uma instrução. Registo-o aqui porque não há mais onde e porque quem faz isto uma vez faz outra, e eu fiz outra em setenta e sete.
Minuta de expedição. Vykhrad, 4 de janeiro de 1877. Para a mesma.
Nada a remeter no trimestre.
Célula Onze em posição. Último contacto: 19 de dezembro, ponto de fronteira, por interposta pessoa. Cinco elementos ao serviço.
Perdidos: elemento sétimo, 19 de setembro de 1875, morte acidental em pátio de carga, comunicada em relatório segundo.
Solicita-se, pela terceira vez, instrução sobre se o elemento sétimo consta como perdido em serviço para efeito de côngrua de família.
Despacho recebido. Aurum Roma, 2 de fevereiro de 1877. [Cópia conservada. É a mais curta das quatro.]
Não consta. A Célula Onze não existe em quadro público.
Não se insista.
[Anotação de Brecht na margem, contemporânea:]
Ele tinha mãe em Vykhradia.
Escrevi-lhe eu, em nome próprio, em março, a dizer que o filho tinha morrido a trabalhar para a Coroa numa coisa que não podia explicar, e mandei-lhe onze ducados aurelios meus.
É irregular e assino-o.
Faz-se notar que onze ducados é o valor da côngrua trimestral de um elemento de célula e que eu sei isso porque sou eu que processo as côngruas, e que portanto o que eu fiz foi pagar-lhe um trimestre e não foi caridade nenhuma.
Deviam-lhe onze anos.
XXI. Vykhrad
Nikolaus Brecht recebeu-as a 4 de julho de 1877 numa casa de dois pisos na cidade baixa de Vykhrad, e a primeira coisa que fez, antes de as mandar sentar, foi contá-las.
Contou três.
E disse, porque era a pergunta e não havia outra:
— Quantos?
— Dois — disse Vahl. — Nós as duas. E a rapariga não é nossa.
Brecht olhou para Vesna uns dois segundos, sem hostilidade e sem interesse, do modo como se olha para um objeto que vai ter de ser arrumado, e disse:
— Depois.
Nikolaus Brecht tinha sessenta e dois anos e trinta e um de serviço, e era ponto de contacto havia catorze, e nunca tinha atravessado a fronteira.
É preciso não fazer disto um defeito. O elemento oitavo não atravessa por desenho: a função dele é receber, autenticar e transmitir, e um homem que atravessa deixa de poder autenticar o que traz.
Brecht tinha recebido, em catorze anos, os relatórios de nove células, e tinha transmitido todos, e tinha uma folha de serviço sem uma única observação em trinta e um anos.
Era, na linguagem da casa, limpo.
O que ele fez com a Célula Onze levou quatro dias e foi impecável.
Pôs Vahl numa sala com papel e mandou-a escrever tudo, de cabeça, sem o interromper e sem o resumir, e ela escreveu durante quatro dias — cento e onze folhas, que é o maior volume que uma célula da Reformada produziu no século — e ele não leu uma linha enquanto ela escrevia, porque ler enquanto se escreve contamina.
Pôs Solvang noutra sala e recolheu-lhe o caderno dos Hospitalários, que era irregular e que ele registou como irregular e transcreveu na mesma.
E na noite de 8 de julho de 1877, sozinho, com as cento e onze folhas à frente e uma lâmpada de Lúmen em cima da mesa, leu tudo de uma vez.
Levou nove horas.
Este livro não sabe o que Nikolaus Brecht pensou naquelas nove horas e não vai inventar.
Sabe o que ele fez a seguir, porque está nos assentos, e sabe o que ele escreveu, porque o que ele escreveu sobreviveu.
Às sete da manhã de 9 de julho de 1877, Nikolaus Brecht autenticou o relatório da Célula Onze, em todas as cento e onze folhas, com a rubrica dele em cada uma, que é o procedimento.
E depois não o transmitiu.
Intervalo — As Nove Horas
Este livro disse que não sabe o que Nikolaus Brecht pensou nas nove horas da noite de 8 de julho de 1877 e que não ia inventar, e mantém as duas coisas.
O que pode fazer é dizer o que estava em cima daquela mesa, porque isso sabe-se, e deixar o leitor sentado onde ele esteve.
Estavam cento e onze folhas escritas à mão por uma mulher de quarenta e um anos em quatro dias, a partir de memória, sem uma única correção — e Brecht verificou isso e anotou-o, porque catorze anos de autenticação ensinam um homem a olhar para as rasuras antes de olhar para o texto, e não havia rasuras.
Estava o caderno de enfermaria de Mira Solvang, com quatrocentas e onze pessoas tratadas e nenhum nome registado.
Estava um exemplar do manual de campo de 1859 com a anotação de Halt na margem.
E estava uma lâmpada de Lúmen, que é a coisa mais cara de qualquer gabinete da Ordem Clerical e que a casa de Vykhrad tinha uma, e Brecht pô-la na mesa e leu à luz dela, o que é um detalhe sem importância nenhuma e que ele registou na nota, e é o único detalhe físico de toda aquela noite que sobreviveu.
O que se sabe, além disso, é o percurso da leitura, porque Brecht era metódico e porque anotou a hora a que fechou cada parte.
Começou às dez da noite.
Partes I a VI — a travessia, Karzhar, o Cerco — fechadas à meia-noite e um quarto. Duas horas e um quarto para quarenta folhas.
Partes VII a XI — Sathkar, o método, os quatro vigilantes — fechadas às duas e meia.
Partes XII a XV — as duas câmaras, os Vigias, Karzhar a executar — fechadas às cinco.
Duas horas e meia para dezanove folhas.
Partes XVI a XXI — as mortes, a saída, a rapariga — fechadas às seis.
Uma hora para trinta e uma folhas, o que é leitura rápida, e um homem que lê rápido a parte em que morrem quatro pessoas não está a ler com menos atenção: está a ler com pressa de chegar ao fim.
E depois esteve uma hora sem ler nada.
É a única coisa daquela noite que se pode chamar interior e sabe-se porque ele deixou a hora em branco na anotação e porque a anotação seguinte é das sete.
Uma hora, com as cento e onze folhas fechadas em cima da mesa, num gabinete de Vykhrad, com uma lâmpada de Lúmen acesa e a cidade a acordar lá fora.
Às sete da manhã autenticou.
Cento e onze folhas, rubrica em cada uma, que é o procedimento e que leva cerca de vinte minutos a fazer bem.
Fê-lo bem. Estão todas rubricadas e a rubrica é a mesma nas cento e onze, e um perito que as visse hoje diria que foram rubricadas de seguida e sem hesitação, porque foram.
E depois, e é a última coisa que este livro sabe daquela noite, escreveu a nota das quatro razões.
Levou-lhe, pelo espaçamento da letra e pelo que ele próprio anotou no fim, cerca de duas horas para duas folhas.
Duas horas para duas folhas é escrita lenta.
É a escrita de um homem que está a pôr cada frase à prova antes de a deixar ficar, e o resultado é um documento que qualquer pessoa que saiba ler percebe à primeira, e é a única coisa em todo este assunto que foi escrita para ser lida por alguém que ainda não nasceu.
Uma coisa mais, e fecha este intervalo.
Petra Vahl estava naquela casa, no piso de cima, e não dormiu, e ouviu.
Não ouviu nada de particular. Ouviu um homem a andar, de vez em quando, de uma ponta à outra de um gabinete, durante nove horas.
E em 1886, quando lhe perguntaram no depoimento interno se tinha tido conhecimento do destino do relatório, respondeu que não, o que era verdade, porque só soube em 1884 pelos papéis dele.
E acrescentou, sem que lho tivessem perguntado, a coisa que fez o inquiridor de 1886 riscar meia página e recomeçar:
Sei que ele leu tudo, porque eu ouvi-o andar a noite inteira e um homem que decide não transmitir decide-o à terceira folha e vai dormir.
Ele leu as cento e onze.
Foi o único.
XXII. As Quatro Razões
Ele escreveu-as. É o que torna este livro possível: Nikolaus Brecht não escondeu o relatório e não o destruiu e não mentiu sobre ele.
Arquivou-o, na íntegra, no Arquivo Fechado de Aurum Roma, por via de depósito direto — que é uma via que existe e que é legal e que é usada três ou quatro vezes por década —, com uma nota de acompanhamento de duas folhas assinada com o nome inteiro.
O Arquivo Fechado não tem catálogo.
Um documento depositado por via direta existe, está lá, é consultável por quem tiver acesso de circulação — e não é encontrável a não ser que já se saiba que existe.
Brecht sabia-o. Petra Vahl, que tinha passado doze anos naquele depósito, sabia-o melhor do que ele.
A nota de acompanhamento tem quatro razões e é o documento mais bem escrito deste livro, e é preciso apresentá-lo inteiro e sem ironia, porque nenhuma das quatro razões é má-fé e três delas estão certas.
Aurum Roma, por depósito direto. 9 de julho de 1877.
Nikolaus Brecht, elemento oitavo, Célula Onze.
Autentiquei as cento e onze folhas que acompanham esta nota e respondo por elas. O que ali está é o que os elementos primeiro, segundo, quinto e sexto viram, e são pessoas de cuja competência não tenho reserva a apresentar. Quatro deles morreram a obter aquilo.
Não transmito.
Exponho as razões e assino-as com o meu nome inteiro, o que é irregular e faço de propósito, para que quem um dia isto leia saiba a quem imputar.
Primeira. O relatório estabelece que o Inferno tem política interna, que as suas camadas disputam precedência entre si, e que uma dessas camadas trabalha ativamente contra a outra.
Isto é, tanto quanto se sabe, verdadeiro.
E é indefensável em doutrina. A Ordem Clerical sustenta cento e dez anos de guerra sobre a proposição de que o adversário é um. Um adversário que é sete, ou que é sete mais uma camada de funcionários descontentes, não justifica a estrutura que temos, e a estrutura que temos é a única coisa que está entre o continente e o que está debaixo do Selo VII.
A proposição verdadeira derruba a instituição que a verdade precisa que fique de pé. Não tenho solução para isto e não sou o homem a quem cabe encontrá-la, e é por isso que não transmito a um homem a quem também não cabe.
Segunda. O relatório estabelece que existe, na cidade de Karzhar, um interesse de Estado alinhado com o nosso, e que os pactuários de Karzhar estão a executar gente por rezar aos Vigias.
O elemento primeiro recomenda expressamente que se não considere aproximação. Concordo com ele e vou mais longe.
Se isto for transmitido, alguém em Aurum Roma vai considerar. Não hoje. Daqui a nove anos, quando uma frente estiver a ceder e alguém precisar de uma ideia.
E na hora em que a Ordem Clerical estabelecer contacto com uma corte pactuária por interesse comum, deixámos de ser a coisa que somos, e todos os que morreram no Limes desde 1780 morreram numa outra guerra que ninguém lhes disse que era.
Prefiro que este papel fique numa cave.
Terceira. O relatório contém, no ponto XI, o relato de uma quebra de pacto obtida por recitação do Rito Veherênico na versão íntegra, verificada de perto pelo elemento sexto.
É a coisa mais valiosa que esta Ordem obteve em cinquenta anos e é a coisa que eu menos posso transmitir.
Porque não é uma arma. Requer fé genuína de quem reza, e nós somos a Ordem que não tem — é a nossa condição de ofício e está estabelecida há cinquenta anos e o elemento sexto conseguiu-o uma vez, com um esforço que ele descreve, e nunca mais o tentou.
Se isto for transmitido, transforma-se em programa. Vão-se formar homens para isto e os homens não vão conseguir, porque não se forma fé, e vai-se concluir que falharam por deslealdade em vez de por impossibilidade.
Já vi essa conclusão ser tirada nesta casa. Não a quero ver outra vez à escala de um continente.
Quarta, e é a única de que não me orgulho.
O elemento primeiro morreu a 21 de junho, a quatro dias da fronteira, de causa natural, aos cinquenta e quatro anos.
Se ele estivesse vivo eu transmitia.
Não porque ele mo mandasse — eu sou o oitavo e ele era o primeiro e nisto a hierarquia não conta, e ele sabia-o.
Transmitia porque ele estaria vivo para responder pelas cento e onze folhas, e eu teria transmitido o relatório de um homem, e não o relatório de uma célula extinta que não tem quem o defenda.
Um documento sem autor vivo, nesta casa, não é um documento. É um objeto a que qualquer pessoa pode atribuir a intenção que lhe convier.
Deposito-o em vez de o transmitir porque um depósito não tem intenção. Fica. Quem o quiser, procura.
Assino: Nikolaus Brecht.
Intervalo — O Que Se Faz com Uma Pessoa
O problema de Vesna ocupou Nikolaus Brecht mais tempo do que as cento e onze folhas e é o único assunto de toda a Célula Onze que ele resolveu mal.
Diz-se isto sem malícia. Ele próprio o escreveu.
O problema é este e é administrativo e não tem nada de dramático.
Uma mulher de vinte e dois anos, nascida em território pactuário, sem documentos, sem língua do continente ocidental, sem ofício, sem família deste lado e sem existência legal em sítio nenhum, atravessou a fronteira de Vykhradia por passagem irregular em junho de 1877.
A Ordem Clerical não tem procedimento para isto.
Não é desatenção. É doutrina: um cativo cristão recuperado do leste é, em direito canónico, um cativo cristão recuperado do leste, e o procedimento é entrega ao bispado da naturalidade dele.
Vesna não tinha naturalidade cristã. Nasceu em Karzhar.
Brecht passou duas semanas nisto e a coisa que ele escreveu ao fim das duas semanas é a frase mais honesta deste livro sobre o que aquela Ordem é:
Não há casa. Procurei.
Há casa para o cativo recuperado, há casa para o herege arrependido, há casa para o possesso extraído e há casa para a órfã de guerra.
Não há casa para a pessoa que nasceu lá dentro, que é cristã por nenhuma via que nós reconheçamos, que não pactuou, e que saiu por vontade própria dois dias antes da data.
Ela não é nada. Não estou a ser cruel: ela literalmente não cabe em nenhuma das quatro categorias e eu li as quatro portarias.
As opções eram três e Brecht escreveu-as por ordem e depois riscou a primeira.
Entregar ao bispado de Vykhrad como cativa recuperada. É o caminho normal e dura nove meses e acaba em casa de acolhimento e depois em serviço doméstico, e ela seria interrogada quatro ou cinco vezes por gente da minha Ordem, e a primeira pergunta seria por que razão saiu, e ela não tem resposta que satisfaça, porque a resposta é que lhe adiaram a data.
[Riscado, com nota: não faço isto.]
Segunda: deixá-la em Vykhrad sem papéis. É o que acontece a quatro mil por ano e não morre ninguém disso, e ao fim de dois anos há maneira de arranjar papéis.
Dois anos em Vykhrad sem papéis, para uma mulher de vinte e dois anos sem língua, é uma coisa que eu sei o que é e não escrevo.
Terceira: uma das duas leva-a.
Fez a terceira e fê-la do modo mais irregular possível, e o que ele escreveu sobre isso está no maço das quatro cópias, numa folha à parte, em letra pequena:
Falsifiquei.
Fiz-lhe uma declaração de naturalidade de uma aldeia do Limes de Vykhradia que foi destruída em 1859, na campanha de Cherniwicz, e cujo registo paroquial ardeu, e que portanto não pode ser desmentida por documento nenhum porque não há documento nenhum.
Escolhi essa aldeia porque a conheço de serviço e porque sei que o registo ardeu.
Pus-lhe nome de família daquela aldeia. Pus-lhe idade certa.
Assinei com a rubrica de autenticação da minha função, que é a única coisa que eu tenho e que vale, e que eu usei catorze anos para autenticar o que era verdade.
Usei-a uma vez para isto.
Se algum dia isto for descoberto e alguém procurar o que mais é que eu autentiquei em catorze anos, encontrará que está tudo certo, e encontrará esta.
E há de concluir que um homem que falsifica uma vez falsifica sempre, o que é falso, e que portanto tudo o resto é duvidoso, o que é o dano real e é o dano que eu fiz a esta casa, e não à rapariga.
Assumo.
Vesna foi para Bernkanton com Mira Solvang em setembro de 1877, com um papel que dizia que ela tinha nascido numa aldeia que já não existia.
Levou consigo duas coisas: o papel e uma carta de recomendação para a casa hospitalária, assinada por Solvang, que dizia que a portadora era pessoa de confiança e que sabia lavar.
Não sabia lavar.
Aprendeu em três semanas e Solvang escreveu no caderno, em outubro de 1877, uma linha que é das poucas com humor em vinte e um anos daquele caderno:
V. não sabia lavar e disse que sabia. Aprendeu em três semanas. Anoto por ser o primeiro embuste de que ela é autora e por ter corrido bem.
Fonte — Do processo de Vesna na casa hospitalária de Bernkanton
Hospitalários do Hashmal, casa de Bernkanton, processo de pessoal auxiliar 1877/411. Formulário kantonal. Os Hospitalários abrem processo a toda a gente que entra ao serviço, incluindo lavandaria, porque o Voto de Registo não distingue.
Ficha de admissão, 11 de setembro de 1877.
Nome: [preenchido] Idade: 22 Naturalidade: conforme declaração anexa. Estado: solteira. Ofício anterior: nenhum declarado. Sabe ler: sim. Sabe escrever: não. Línguas: veherênico. Kantonal, nenhum. Admitida para: lavandaria, turno de dia. Recomendada por: Solvang, M., hospitalária com faculdade.
Observação do admissor, mesma data, campo livre:
A recomendante trouxe a admitida em pessoa e esperou duas horas, o que não é costume dela nem de ninguém.
A admitida não fala kantonal e respondeu ao formulário por intermédio da recomendante.
Fez uma pergunta no fim, por intermédio, e transcrevo-a por ser invulgar:
Perguntou se ia poder sair.
Respondi que sim, que a lavandaria é turno de dia e que se sai às seis.
Perguntou outra vez, e a recomendante traduziu segunda vez com mais palavras, e percebi que a pergunta não era sobre o turno.
Respondi que sim, que pode sair quando quiser e para onde quiser e que ninguém lhe pergunta nada.
Não pareceu acreditar. Anota-se.
Averbamento, 2 de março de 1878.
Aprende kantonal. Progresso notável para seis meses.
Passa a turno de dia com chave, que é posto de confiança.
Averbamento, 19 de junho de 1880.
Requer autorização para frequentar aula de escrita da casa, duas noites por semana.
Deferido.
Averbamento, 11 de novembro de 1881.
Concluiu a aula de escrita.
Faz-se notar, a pedido da própria e por ela ter insistido, que a primeira coisa que escreveu por sua mão foi uma carta que não expediu e que pediu para guardar no processo.
Guarda-se.
[A carta consta do processo. Está em veherênico, escrita com letra de quem aprendeu kantonal primeiro, com a ortografia aproximada. Tem quatro linhas e não tem endereço.]
Mãe,
Eu não fiz má figura no dia.
Não houve dia.
Estou bem e faço uma coisa com as mãos e ninguém me pergunta nada.
Averbamento, 4 de maio de 1884.
Casou. Continua ao serviço a pedido próprio.
Averbamento, 21 de novembro de 1890.
Falecimento da recomendante, Solvang, M.
Faz-se notar, porque o Voto manda e porque foi pedido pela interessada, que a titular deste processo assistiu ao velório e que pediu para ficar a fechar a sala, e que ficou sozinha na sala vinte minutos, e que quando saiu pediu que se anotasse que tinha ficado.
Anota-se.
XXIII. O Que Aconteceu às Duas
PETRA VAHL voltou ao Arquivo Fechado em setembro de 1877 e ficou lá até 1893.
Pediu a transferência ela própria, pela segunda vez na vida e no sentido inverso da primeira, e o despacho de deferimento tem uma linha de fundamentação que é uma das poucas frases com humor que a Inquisição Reformada produziu:
Defere-se. A requerente é a única funcionária desta casa que pediu duas vezes o lugar oposto ao que tinha e tinha razão nas duas.
Passou dezasseis anos naquela cave.
E o que ela fez lá dentro durante dezasseis anos é a única coisa que se parece com vingança em todo este livro, e não se parece muito: guardou a cota.
Não há cotas no Arquivo Fechado. É o ponto. Mas há posição física, e Petra Vahl sabia, até morrer, exatamente em que corredor, em que prateleira e em que altura estavam as cento e onze folhas da Célula Onze, e sabia-o porque foi ela própria quem as arrumou.
Nunca as mostrou a ninguém.
Nunca lhe perguntaram.
Em 1889 — doze anos depois — o Cardeal Reinhardt Voss, da Reformada, pediu ao Arquivo Fechado tudo o que existisse sobre concorrência de estandartes no campo, para um trabalho que não tem nada que ver com este.
Petra Vahl, que tinha então cinquenta e três anos e era a funcionária mais antiga do depósito, foi buscar as dezanove caixas de 1854.
E não foi buscar as cento e onze folhas.
Perguntaram-lhe, em 1893, no fim da carreira, num inquérito de rotina, se alguma vez tinha deixado de fornecer material pedido.
Respondeu que não, e era verdade: ninguém tinha pedido.
MIRA SOLVANG não voltou à Reformada.
Pediu reversão para os Hospitalários do Hashmal em outubro de 1877 e obteve-a em três semanas, o que é insolitamente rápido e que se deve, segundo o que se apurou depois, a uma carta pessoal do Prior de Bernkanton que ninguém lhe pediu para escrever.
Foi para a casa hospitalária de Bernkanton e ficou lá vinte e um anos.
Trabalhou em enfermaria de desgaste: é a ala onde se enterram os clérigos iluminados no fim do prazo, as Brancas Médiuns ao fim de quatro ou seis anos, e os purificadores licenciados no fim da carreira — cerca de dois mil e quatrocentos por ano em todo o continente, e todos eles morrem numa cama hospitalária.
E os Hospitalários, sendo o que são, anotam.
Mira Solvang passou vinte e um anos a anotar a curva.
E em 1881 anotou, num caderno de enfermaria de Bernkanton, entre um óbito de purificador de cinquenta e nove anos e um óbito de Branca de vinte e seis, quatro linhas que não são de enfermaria nenhuma e que a casa nunca apagou:
Conversa com V., 24 anos, ex-cativa de Karzhar, quatro anos em Bernkanton, empregada de lavandaria desta casa.
Perguntada sobre o que mais lhe custou na saída, respondeu que foi não saber fazer nada.
Perguntada sobre o dia marcado, respondeu que o que a assustava era fazer má figura à frente da mãe.
Anota-se porque o Voto manda anotar o que não convém, e isto não convém a ninguém.
Fonte — Da enfermaria de desgaste de Bernkanton
Hospitalários do Hashmal, casa de Bernkanton, cadernos de enfermaria de desgaste, 1878 a 1898. Mira Solvang foi titular da ala entre 1879 e 1890. Os cadernos são públicos dentro da Ordem e estão na casa e qualquer hospitalário os pode pedir.
A enfermaria de desgaste é a ala onde morrem os clérigos iluminados no fim do contacto, as Brancas Médiuns ao fim do prazo, e os purificadores licenciados no fim da carreira. Cerca de dois mil e quatrocentos por ano em todo o continente. Todos eles morrem numa cama hospitalária.
E os Hospitalários, sendo o que são, anotam.
Resumo anual, 1879. Casa de Bernkanton, ala de desgaste.
Óbitos: 41.
Purificadores licenciados: 29. Idade média: 58 anos e 4 meses. Anos de exercício: 31.
Clérigos iluminados: 8. Idade média: 44. Anos de contacto: 5 e meio.
Brancas Médiuns: 4. Idade média: 27. Turnos: 4 e 6 e 5 e 6.
Resumo anual, 1884.
Óbitos: 51.
Purificadores licenciados: 34. Idade média: 56 anos e 1 mês.
Clérigos iluminados: 11. Idade média: 42. Anos de contacto: 4 e um quarto.
Brancas Médiuns: 6. Idade média: 26. Turnos: seis, sete, sete, sete, oito, oito.
[Anotação da titular, 1884, no fim do resumo:]
Seis Brancas neste ano e quatro delas acima de seis turnos.
O limite canónico é de dois e foi quebrado por circular este ano, e a circular é boa e é necessária e eu concordo com ela e assino-o.
Anota-se na mesma que quatro mulheres nesta casa fizeram sete e oito turnos e que a mais velha tinha vinte e nove anos.
Resumo anual, 1889.
Óbitos: 61.
Purificadores licenciados: 39. Idade média: 54 anos e 9 meses.
Clérigos iluminados: 14. Idade média: 41. Anos de contacto: 3 e três quartos.
Brancas Médiuns: 8. Idade média: 25.
Folha anexa, sem data, letra da titular, arquivada no fundo de 1889 e não integrada em nenhum resumo.
Dez anos nesta ala.
Purificadores licenciados: idade média à morte, cinquenta e oito anos e quatro meses em setenta e nove; cinquenta e quatro e nove em oitenta e nove.
Três anos e sete meses em dez anos.
Clérigos iluminados: cinco anos e meio de contacto em setenta e nove; três e três quartos em oitenta e nove.
Brancas: vinte e sete anos à morte em setenta e nove; vinte e cinco em oitenta e nove.
As três curvas descem e descem juntas e descem todos os anos e não há um único ano de inversão em dez.
Esta casa forma, por ano, entre onze e catorze purificadores.
Esta casa enterra, por ano, entre vinte e nove e trinta e nove.
Não sou eu quem forma e não é a minha Ordem, e o seminário de Bernkanton tem números próprios que eu não tenho.
Mas eu tenho estes e eles são do que se enterra e o que se enterra é mais do que o que entra por aquela porta, e é mais há dez anos, e vai continuar a ser.
[Segunda folha anexa, mesma letra, presa à primeira:]
Fiz isto por hábito de Ordem e não por encomenda de ninguém, e vou fazer uma coisa que não é de hábito nenhum, que é escrever o que isto quer dizer.
Escrevo-o uma vez e não o repito e não o mando a lado nenhum.
Eu estive três anos, entre setenta e quatro e setenta e sete, numa cidade onde o outro lado beneficia a matéria que usa por exposição de portador e não por ato de fé, e onde por isso a produção se aumenta contratando gente.
Vim de lá com essa informação e ela foi para uma cave e eu concordei com quem a lá pôs, e continuo a concordar.
E passei dez anos nesta ala a ver a nossa descer.
Nós gastamos fé e não a podemos contratar, e eles gastam tempo de gente e podem, e é isso, é só isso, é essa a diferença inteira, e está numa cave em Aurum Roma e está aqui em três colunas de números que qualquer hospitalário desta casa pode pedir e ler.
E vai continuar em duas partes até alguém as pôr na mesma mesa.
Duvido que seja eu. Tenho quarenta e nove anos e tossido sangue duas vezes este mês.
[Não há terceira folha.]
XXIV. Vesna, Depois
Vesna chegou a Bernkanton em setembro de 1877 com vinte e dois anos, sem documentos, sem língua e sem ofício, e é preciso dizer o que lhe aconteceu sem embelezar, porque o que lhe aconteceu foi duro e não foi trágico e as duas coisas são diferentes.
Trabalhou em lavandaria catorze anos.
Aprendeu kantonal em três, mal, e fala-o com sotaque que ninguém identifica porque não há em Bernkanton mais ninguém com aquele sotaque.
Casou em 1884 com um homem de Bernkanton que trabalhava em fundição, e o casamento foi bom e durou, e ele nunca soube de onde é que ela vinha, e ela nunca lhe disse, e em 1890 continuava a não lhe ter dito.
Teve dois filhos.
Nunca escreveu à mãe.
Não podia — não há correio para a Heptarquia e não haveria endereço e ela não sabe escrever veherênico, porque no Cerco ensinava-se a ler e não a escrever.
Pensou nela todos os dias durante uns seis anos e depois, segundo o que ela própria disse, pensou nela quase todos os dias.
E há a coisa que ela faz e que ninguém em Bernkanton percebe e que este livro deixa aqui sem a explicar:
Vesna usa casaco dentro de casa.
Em agosto. Com a lareira acesa. O marido implica com isso há seis anos e ela ri-se e não explica, e uma vez, em 1888, disse-lhe uma coisa que ele achou estranha e que repetiu a um amigo e que é assim que se sabe:
— Eu não sinto o frio como tu. Eu sinto-o como uma coisa que está a acontecer.
E há a última, que é de 1890 e que fecha isto.
Em março de 1890, uma mulher de cinquenta anos entrou na lavandaria da casa hospitalária de Bernkanton e sentou-se num banco ao pé da caldeira e ficou ali uma hora, e era Mira Solvang, que estava doente e que morreu em novembro do mesmo ano.
Falaram de coisas pequenas.
E à saída, Solvang perguntou-lhe uma coisa que tinha guardado treze anos:
— Se a data não tivesse sido adiada, tu tinhas ido?
E Vesna, que tinha trinta e cinco anos e dois filhos e catorze anos de lavandaria e um casaco vestido em março dentro de uma sala com caldeira, respondeu:
— Ia.
E depois:
— E tu terias chegado a Karzhar em junho à mesma, e eu teria estado lá, e tu não me terias reconhecido, porque eu já seria outra coisa.
E depois, e é a última fala deste livro que pertence a uma pessoa viva:
— Vocês chegaram dois dias cedo. Foi só isso. Toda a gente diz que é muito mais do que isso e é só isso.
Fonte — Das folhas que ficaram com o elemento primeiro
Jerzy Halt escreveu, ao longo de três anos, um número indeterminado de folhas que não fazem parte de relatório nenhum e que nunca foram transmitidas. Levava-as consigo. Vinte e uma sobreviveram: estavam no saco dele quando morreu, e Petra Vahl trouxe o saco, e entregou-o a Nikolaus Brecht com o resto.
Brecht leu-as, decidiu que não eram matéria de serviço, e guardou-as com os papéis pessoais dele, o que é irregular duas vezes.
Estão em Vykhrad. São a única coisa neste livro que se parece com um diário e não são um diário: são um contabilista a pensar em voz alta em papel, porque era como ele pensava.
Folha quarta. Sem data, provavelmente 1874.
Fiz hoje as contas do primeiro semestre e fecham.
Não sei porque é que isto me dá satisfação num sítio destes e dá.
Folha sétima. Sem data, provavelmente fim de 1875.
O Dorn tinha vinte e seis anos.
Estive hoje a fazer a conta de quanto é que esta Ordem gastou nele — recrutamento, quatro anos de côngrua, instrução, equipamento, passagem — e dá seiscentos e onze ducados aurelios.
Fiz a conta porque é o que eu faço e a meio dela percebi que estava a fazê-la para não fazer outra coisa, e acabei-a na mesma, porque acabar é melhor do que parar a meio.
Seiscentos e onze.
Não é a conta certa e eu sei qual é a conta certa e não a sei fazer.
Folha nona. Sem data, provavelmente 1876.
Três coisas que eu sei e que não vão no relatório porque não são de relatório.
Primeira: a Solvang trata gente e eu sei desde o quarto mês e nunca disse nada, e ela sabe que eu sei e nunca disse nada, e é a coisa mais parecida com amizade que houve nesta célula em dois anos.
Segunda: a Vahl sabe tudo o que eu sei e sabe-o de propósito, porque eu lho leio todas as semanas em voz alta. Nunca lhe disse porquê e ela nunca perguntou, e é porque nunca perguntou que eu sei que ela percebeu.
Terceira: o Kranz vai morrer. Não é previsão, é aritmética: em qualquer coisa que corra mal, o desenho da célula põe-no à frente, e as coisas correm mal duas ou três vezes em três anos.
Escrevo isto para que fique escrito que eu sabia quando o desenhei.
Folha décima primeira. Sem data, provavelmente depois do velório de julho de 1876.
O Reiner quebrou um pacto com uma oração.
Eu estive dezanove anos nesta casa a perseguir gente por dizer que isso é possível.
Não é o mesmo. Ferrumkar foi purificação sem clero e isto é outra coisa, e eu sei a diferença e podia escrevê-la em três linhas e sustentá-la à frente de um tribunal.
Escrevo aqui que passei a noite a fazê-lo e que nenhuma das três linhas me serviu.
Folha décima terceira. Sem data, 1876.
Perguntei ao Reiner se funcionava comigo e ele disse que não porque eu não tenho ninguém.
Tinha razão e disse-o com delicadeza, o que foi pior.
Eu tinha uma irmã em Bernkanton e escrevo-lhe duas vezes por ano há dezanove anos a dizer que estou bem e que o trabalho corre. Ela acha que eu sou perito de seguros como o nosso pai.
Se eu morrer aqui, ela vai ficar a achar isso.
E eu prefiro assim e não é por ofício, é porque não consigo imaginar a cara dela a ouvir o resto.
Folha décima sexta. Janeiro de 1877.
O Reiner pediu três meses e eu dei.
A conta está certa: temos munição, temos casa, temos cobertura, e três meses em catorze anos de guerra não é nada.
A conta está certa e eu vou escrever aqui, porque não o posso escrever em mais lado nenhum, que a conta não é a razão.
A razão é que aquele homem passou dois anos a dizer-me coisas que eu não percebia e que eram todas verdadeiras, e que quando ele me pediu três meses eu percebi, pela cara dele, que era a primeira vez em dois anos que ele me pedia alguma coisa.
Dei-lhe os três meses por isso.
Se correr mal, correu mal por isso, e não pela aritmética, e quem um dia ler o relatório vai ver a aritmética e vai achar que eu decidi bem.
Folha décima nona. Maio de 1877, depois de Karzhar.
Dezanove dias.
Acabaram hoje.
O protocolo manda esperar dezanove e eu esperei dezanove e no vigésimo dei-o por perdido, e fi-lo às nove da manhã, sozinho, sem cerimónia, porque não há cerimónia.
Escrevo aqui uma coisa que nunca hei de dizer a ninguém desta célula.
Eu contei os dezanove dias ao contrário.
Comecei em dezanove e fui tirando um, e não sei porquê, e quando cheguei a três percebi o que estava a fazer e continuei na mesma até ao zero, porque parar a meio é pior.
Folha vigésima primeira. A última. Sem data, junho de 1877, provavelmente escrita na estepe.
Não aguento os dezasseis dias.
Fiz a conta ao terceiro e sei fazer contas.
A Vahl tem tudo. Leu-o comigo semana a semana durante três anos e não falhou uma. A Solvang tem o caderno dela e o caderno é bom.
Está feito. Não falta nada que eu tenha e elas não tenham.
Escrevo isto para que, se alguém encontrar estas folhas, fique a saber que eu soube e que continuei a andar, e que continuar a andar era a única coisa útil que me restava fazer, e que eu não fiz nenhum gesto e não disse nada a ninguém porque um gesto teria feito com que elas parassem.
Não parem por isto.
É a única instrução que eu deixo e vou dizê-la em voz alta quando for altura, e elas vão achar que foi coragem, e não foi: eu escrevi-a aqui há dezasseis dias e ensaiei-a.
[Não há folha vigésima segunda.]
EPÍLOGO — O NÚMERO SEGUINTE
O Que Está na Cave
A Célula Onze extinguiu-se por despacho de 19 de julho de 1877, um mês e dez dias depois da última morte, e o despacho de extinção tem duas linhas e uma delas é aritmética:
Extingue-se a Célula Onze. Constitui-se a Célula Doze.
Foi tudo.
Não houve menção, não houve nota de serviço, não houve nada. É o que a casa faz e é o que aquela gente assinou.
A Célula Doze foi constituída em agosto de 1877, com seis elementos, e recebeu um mandato de duas linhas que pedia levantamento de rotas de saída de Mineral Negro por Vykhradia.
Não recebeu o relatório da Onze.
Não podia: o relatório da Onze estava depositado no Arquivo Fechado por via direta e não era encontrável a não ser que já se soubesse que existia, e o chefe da Doze não sabia, porque um inquisidor conhece a sua célula, o seu superior imediato e mais ninguém.
Mapeou as rotas em dois anos e fê-lo bem, e o relatório dela foi transmitido, lido e aproveitado, e está na origem de três operações de interdição no Limes entre 1880 e 1884 que correram razoavelmente.
Nenhuma delas teve o menor efeito sobre coisa nenhuma.
Os Sete
Este livro deve aos sete a coisa que a Ordem deles não dá, que é dizer o que lhes aconteceu com nome e por extenso, e fá-lo aqui.
EMIL DORN, elemento sétimo, morreu a 19 de setembro de 1875 em Sathkar, aos vinte e seis anos, de hemorragia interna por esmagamento, num pátio de portagem, por queda de um fardo de carga.
Está enterrado fora de Sathkar, a cerca de dois quilómetros a sul, numa vala aberta por duas pessoas, sem marca.
Não consta em quadro público da Inquisição Reformada porque a Célula Onze não existe em quadro público.
A mãe dele, em Vykhradia, recebeu em março de 1877 uma carta de um homem que ela não conhecia e onze ducados aurelios.
Morreu em 1889 e até morrer continuou a dizer às vizinhas que o filho estava na guarda de estrada e que não escrevia porque nunca tinha sido de escrever.
KONRAD STELLING, médico contratado, morreu a 11 de abril de 1877 em Sathkar, aos quarenta e nove anos, de tifo.
Não era da Ordem. Era o único civil da célula e recebia salário e não côngrua, e fazia questão de o recordar quando estava de mau humor.
Deixou, em Königsburg, uma irmã, e a irmã recebeu em 1878 o pagamento integral do contrato dele até ao termo — que é o que a Ordem Clerical faz com contratados civis e que faz corretamente e sem atraso, porque um contrato civil é um contrato e um contrato cumpre-se.
Ela escreveu a agradecer e a perguntar onde é que o irmão estava enterrado.
A resposta consta e tem uma linha:
Não é possível informar.
OSVALD REINER, elemento sexto, foi detido a 2 de maio de 1877 em Karzhar, numa rusga de casa de contrato, por falta de registo de residência.
Não se sabe o que lhe aconteceu.
Este livro diz que não se sabe e não vai preencher.
Sabe-se que foi levado por uma porta interior às onze e vinte da manhã e que Tobias Kranz o viu da rua.
Sabe-se que o nome falso dele não consta de nenhuma lista de execução pública de Karzhar entre 1877 e 1890, e que essas listas são afixadas e que foram consultadas em 1889 por via comercial e pagas a dois ducados e meio.
E sabe-se que, em Karzhar, um estrangeiro sem papéis detido numa rusga administrativa paga multa e sai, e que a multa é de onze cêntimos.
O que isto permite concluir é que ou ele pagou onze cêntimos e saiu e desapareceu, ou não foi executado publicamente.
Nada mais.
Tinha quarenta e sete anos. Era filho e neto de gente que tinha saído daquela cidade a pé. Falava cinco línguas e a que ele falava melhor era a que aprendeu numa cozinha em Aurum Roma, aos nove anos, com uma mulher que tinha nascido em Karzhar em 1771.
TOBIAS KRANZ, elemento quarto, morreu a 4 de junho de 1877 num descampado a dezanove quilómetros a oeste de Sathkar, aos trinta e dois anos.
Disparou três cartuchos de Crisma-Argênteo, feriu um homem, falhou dois, e correu para norte.
Não se sabe quanto tempo aguentou nem como acabou.
Tinha sido Cavaleiro do Selo, Casa do Limes, quatro campanhas, e tinha saído em 1871 por incompatibilidade de serviço, que quer dizer que bateu num superior.
A Inquisição Reformada não condecora e a Casa do Limes, que condecora, não o podia condecorar porque ele já não era dela e porque não constava nada.
Em 1878, alguém da Casa do Limes — nunca se apurou quem — mandou gravar o nome de Tobias Kranz na lista dos mortos da campanha de verão de 1877 daquela Casa, que está numa parede em Vallium.
Kranz não esteve na campanha de verão de 1877.
O nome está lá.
JERZY HALT, elemento primeiro, chefe da Célula Onze, morreu a 21 de junho de 1877 na berma de um caminho de estepe a quatro dias da fronteira, aos cinquenta e quatro anos, de uma coisa do coração, a andar.
Está enterrado em cova rasa com pedras por cima, sem marca, num sítio que Petra Vahl sabia localizar e que nunca indicou a ninguém.
Perguntaram-lhe, em 1886, se queria indicar.
Disse que não.
Não deixou família. Deixou, na casa de Bernkanton onde tinha nascido, uma irmã mais velha que morreu em 1881 e que nunca soube o que é que o irmão fazia, e que dizia às vizinhas que ele era perito de seguros como o pai.
Era o homem menos crente da célula e o único que nunca conseguiu acordar um cartucho e o único de quem ninguém, em três anos, disse uma única palavra de queixa.
MIRA SOLVANG, elemento segundo, voltou aos Hospitalários do Hashmal em outubro de 1877 e trabalhou vinte e um anos em enfermaria de desgaste em Bernkanton.
Morreu a 21 de novembro de 1890, aos cinquenta anos, na casa onde trabalhava, de uma coisa de pulmão que ela própria diagnosticou em 1888 e que registou no seu próprio processo de pessoal, com a sua letra, porque o Voto de Registo não distingue e porque ela era o titular e o doente e achou que era mais simples assim.
Teve funeral. Os Hospitalários fazem funeral.
Estiveram presentes cento e quarenta pessoas, o que é muito para uma hospitalária de casa de província, e entre elas uma mulher de trinta e cinco anos da lavandaria que pediu para ficar a fechar a sala.
PETRA VAHL, elemento quinto, voltou ao Arquivo Fechado de Aurum Roma em setembro de 1877 e ficou lá até 1893.
Reformou-se com cinquenta e sete anos e trinta e um de serviço, sem uma única observação na folha, sem condecoração porque a casa não condecora, e com a pensão de escriturária de primeira, que é de cento e onze ducados aurelios por ano.
Foi viver para Bernkanton.
Ninguém sabe porquê e ela não explicou, e a única pessoa que teria percebido tinha morrido três anos antes.
A partir de novembro de 1890, com a morte de Mira Solvang, era a única das sete pessoas que atravessaram a fronteira em abril de 1874 que ainda estava viva.
O Que a Informação Fez
Nada.
É a resposta e este livro dá-a já, porque o leitor tem direito a saber onde é que isto vai dar antes de o fazer andar mais catorze anos.
As cento e onze folhas da Célula Onze não alteraram, entre 1877 e 1890, uma única decisão de uma única pessoa em nenhum ponto do continente.
Não há batalha que se tivesse travado de outra maneira. Não há tratado que se tivesse escrito diferente. Não há um homem que tenha morrido a menos ou a mais.
E há uma coisa que este livro tem de dizer a seguir e que é a coisa mais difícil que tem para dizer, porque desfaz o conforto que o leitor está a construir desde a página em que Nikolaus Brecht arquivou o relatório.
Se tivesse sido transmitido, também não teria feito nada.
É preciso perceber a Ordem Clerical em 1877 e não é confortável.
Um relatório de uma célula extinta, de nove elementos com sete mortos, sobre um mandato de intendência mineral, com a informação central classificada em graus de confiança honestos — ou seja, com metade dela declarada como inferência — chega à Secretaria de Células de Aurum Roma em agosto de 1877.
O que acontece a esse relatório, na Ordem Clerical daquele ano, é o seguinte e é verificável porque aconteceu a outros:
É lido por um secretário de quarta ordem que tem, na mesa, entre onze e dezanove relatórios de célula por semana.
É resumido em nove linhas.
As nove linhas sobem.
O que sobe não é o Selo VII não abriu por inteiro e os Vigias estão a tentar abrir o resto e Karzhar está a tentar impedi-los.
O que sobe é: célula extinta no leste, mandato cumprido quanto a método e volume, não cumprido quanto a capacidade externa, perdas sete de nove, matéria adicional sobre disputas internas do inimigo em grau de confiança baixo.
E o que um cardeal faz com matéria adicional em grau de confiança baixo é o que qualquer pessoa faz com matéria adicional em grau de confiança baixo.
Nikolaus Brecht sabia isto.
Está na nota das quatro razões, na entrelinha da quarta, e é a razão pela qual a quarta razão é a única de que ele diz não se orgulhar e não é a razão pela qual ele deveria ter vergonha:
Um documento sem autor vivo, nesta casa, não é um documento.
Ele não arquivou aquilo porque a verdade fosse perigosa.
Arquivou porque a verdade era frágil, e porque a única maneira de uma coisa frágil sobreviver àquela máquina é não entrar nela.
E é aqui que este livro faz a sua única afirmação de juízo e fá-la uma vez:
Nikolaus Brecht acertou pelo motivo errado.
Ele achou que estava a esconder uma coisa perigosa de gente que a usaria mal.
O que ele fez, na verdade, foi conservar uma coisa verdadeira num sítio onde ela não podia ser resumida em nove linhas por um secretário de quarta ordem.
Cento e onze folhas inteiras, autenticadas folha a folha, numa caixa sem cota, no corredor quarto do Arquivo Fechado.
Intactas.
E foi por isso que, quando alguém finalmente as foi buscar — e alguém foi buscá-las, e este livro existe —, o que lá estava era tudo e não era o resumo de nada.
Os Que Ficaram Onde Estavam
NIKOLAUS BRECHT morreu em Vykhrad em 1884, aos sessenta e nove anos, na cama, em serviço, com uma folha sem observações.
Nunca foi questionado sobre o depósito de 1877 porque ninguém soube que houve um depósito em 1877.
Deixou os papéis pessoais à casa e nos papéis pessoais havia uma cópia da nota de acompanhamento das quatro razões, que ele não tinha o direito de guardar e que guardou, e é por causa dessa cópia que este livro sabe o que ele escreveu.
Na margem da quarta razão — a única de que ele dizia não se orgulhar —, havia uma linha acrescentada em data posterior, com tinta diferente, e é a última coisa que Nikolaus Brecht escreveu sobre o assunto em sete anos de vida:
Continuo a achar que fiz bem nas três primeiras.
A NONA nunca saiu.
Não há nada mais para dizer e este livro não vai inventar nada, porque inventá-lo seria exatamente o contrário do que aquela mulher fez.
Consta do despacho de constituição de 1873: elemento em posição desde 1868. Não se comunica. Não se procura. Recebe.
Consta do despacho de extinção de 1877, numa terceira linha que não estava na versão que circulou e que só aparece no original:
O elemento nono mantém-se. Transfere-se para a Célula Doze com a mesma condição.
E consta, uma última vez, de uma lista administrativa de 1889 — uma folha de encargos correntes da Secretaria de Células, sem importância nenhuma, do género que ninguém lê:
Elemento em posição, leste. Vinte e um anos. Sem comunicação recebida.
Vinte e um anos.
Ela forneceu, segundo o que Halt estabeleceu em 1876 e escreveu nas cento e onze folhas, cerca de um terço de tudo o que a Célula Onze soube — por deposições anónimas em três pontos mortos de Sathkar, sem uma única palavra de identificação, durante três anos.
Os sete nunca a viram.
Halt escreveu, numa linha:
Não sei quem é o nono. Sei que está lá e que o que manda está certo, e parei de querer saber mais em 1875.
O Que Roma Disse que Não Existia
Em 1891 — catorze anos depois — a Congregação da Doutrina de Aurum Roma retirou de circulação uma nota doutrinária de 1856 que tinha sido reimpressa onze vezes e que era ensinada em todos os seminários do continente.
A nota chamava-se Da natureza das cidades do leste e tinha nove páginas, e o ponto quarto dizia isto, em latim eclesial e depois em vernáculo:
Não há entre os pactuados governo, nem conselho, nem magistratura, nem lei escrita, nem qualquer forma de deliberação comum.
Onde a vontade do demónio é imediata, não há necessidade de conselho, e onde não há necessidade não há órgão.
Assim se explica que aquelas cidades, sendo populosas, não produzam nem tratado, nem embaixada, nem instrumento, e que toda a negociação com elas seja impossível por falta de parte com quem negociar.
É falso em todos os membros da frase e era falso em 1856 e era verificável em 1856 por qualquer pessoa que fosse a Karzhar ler uma afixação à porta da Casa de Contrato durante nove dias.
O Conselho de Karzhar reúne desde 1791.
Tem onze casas, tem atas, tem ordem do dia, tem votação nominal e afixa.
Por que razão foi retirada em 1891 é matéria de que este livro não sabe nada e sobre a qual não vai especular.
Sabe-se que foi retirada por despacho de circulação interna, sem anúncio, e que a edição de 1891 do manual de seminário saiu sem o ponto quarto e sem nota de que o ponto quarto tivesse existido.
Sabe-se que nos catorze anos anteriores tinham chegado a Aurum Roma, por vias diversas, pelo menos quatro relatos independentes que estabeleciam a existência do Conselho de Karzhar, e que um deles é o da Célula Onze e que esse não chegou.
E sabe-se que quem preparou a edição de 1891 foi o mesmo funcionário que preparou a de 1889, e que em 1889 o ponto quarto ainda lá estava.
Petra Vahl tinha, nesse ano de 1891, cinquenta e cinco anos e estava no seu último biénio no Arquivo Fechado.
Não há nada que a ligue à retirada da nota doutrinária. Este livro fez a pergunta e não encontrou nada e diz que não encontrou nada.
O que há é uma coisa muito menor, que consta do livro de requisições internas do depósito, e que se regista aqui porque é a única coincidência de todo este assunto e porque não prova nada:
Em novembro de 1890 — quatro meses antes da retirada — alguém da Congregação da Doutrina requereu ao Arquivo Fechado tudo o que exista sobre deliberação coletiva entre pactuados.
O pedido está registado.
E ao lado, na coluna de execução, na letra miúda de uma funcionária de cinquenta e quatro anos que estava naquele depósito desde 1865:
Fornecidas onze peças.
O relatório da Célula Onze não é uma peça sobre deliberação coletiva entre pactuados.
É um relatório sobre beneficiamento de Mineral Negro, e contém, no ponto XV, dezanove atas do Conselho de Karzhar decoradas por um linguista morto e transcritas por uma escriturária, e uma pessoa que soubesse que aquilo estava lá dentro poderia tê-lo classificado como peça sobre deliberação coletiva sem forçar nada.
Vahl forneceu onze peças e as onze estão identificadas no livro por posição física, que é como aquele depósito identifica as coisas.
Nenhuma das onze é a caixa sem cota do corredor quarto.
O Continente, em 1890
Em 1890, treze anos depois, o Selo VII continua fechado no que lhe falta fechar.
Os Vigias continuam a tentar, na oitava e na nona câmara da Forja Quarta de Sathkar, com três pessoas a entrar por uma porta à mesma hora todos os dias, e quatro homens limpos pagos a nove por quarentena para tocarem uma campainha.
Karzhar continua a executá-los na praça do Trono Vazio, por invocação de precedência exterior ao contrato, umas três ou quatro vezes por ano, publicamente, e a Ordem Clerical continua a não assistir a execuções pactuárias do princípio ao fim e portanto continua a não saber o que elas dizem.
Os sete Príncipes nunca mais apareceram mais de três no mesmo campo. Em Cracoviana, em 1888, foram dois.
E a Inquisição Reformada continua a ter dezanove caixas de 1854 em grau seis, e cento e onze folhas de 1877 sem cota nenhuma, três prateleiras adiante, no mesmo corredor, na mesma cave.
A quatro metros de distância uma da outra.
Ninguém pôs as duas coisas em cima da mesma mesa.
As Duas Coisas que Ninguém Pôs na Mesma Mesa
Em 1890, a Ordem Clerical de Aurum Roma tem, em dois sítios diferentes, as duas metades da resposta à pergunta de que depende a sobrevivência dela, e não sabe que as tem.
Este livro põe-nas lado a lado uma vez, porque é a única coisa que um livro pode fazer.
Primeira metade. Está na casa hospitalária de Bernkanton, em caderno de enfermaria, e é pública dentro da Ordem dos Hospitalários do Hashmal.
A idade média à morte dos purificadores licenciados desceu três anos e sete meses em dez anos.
O tempo de contacto dos clérigos iluminados desceu de cinco anos e meio para três e três quartos.
As Brancas Médiuns morrem aos vinte e cinco em vez de aos vinte e sete, e fazem sete e oito turnos onde o limite canónico era dois.
Três curvas, dez anos, sem um único ano de inversão.
A Ordem Clerical está a gastar-se mais depressa do que se repõe, e os Hospitalários têm os números em três colunas e sabem-no desde cerca de 1881.
Segunda metade. Está numa caixa sem rótulo, de cartão pardo com fita de linho, no corredor quarto do Arquivo Fechado de Aurum Roma, e não é encontrável a não ser que já se saiba que existe.
O adversário não gasta fé.
Gasta tempo de portador, que se contrata, que se afixa à porta, que se paga à quarentena, e que se aumenta empregando mais gente.
Cinquenta e três altos-fornos contra quarenta e um. Cinquenta e um dias de trabalho a mais por ano. Nove mil a onze mil arrobas beneficiadas com mão de obra que se compra num mercado.
Eles podem crescer contratando. Nós não podemos.
As duas metades juntas fazem uma frase, e a frase é esta, e ninguém em Cross a escreveu até hoje:
A curva da Ordem Clerical desce porque o que ela gasta é insubstituível, e a curva da Heptarquia Pactuária não desce porque o que ela gasta se compra — e as duas coisas foram medidas, por duas mulheres, em dois cadernos, na mesma década, e as duas mulheres conheciam-se.
Mira Solvang e Petra Vahl passaram três anos juntas em Sathkar e dezasseis anos separadas a quatrocentos quilómetros uma da outra.
Uma tinha a curva.
A outra tinha a razão.
Escreveram-se, segundo o que consta do processo de pessoal de Bernkanton, quatro vezes em dezasseis anos, e as quatro cartas eram de circunstância e nenhuma delas se conservou.
E em março de 1890, quando uma delas estava a morrer, a outra não foi.
Este livro não sabe porquê e não vai supor.
Sabe que Petra Vahl foi viver para Bernkanton em 1893, três anos depois do funeral a que não foi, e que passou os últimos anos a quatro ruas da casa onde a outra tinha trabalhado vinte e um anos, e que nunca lá entrou.
E há a última coisa, e é a coisa que dá o nome a este livro.
A Célula Doze foi extinta em 1881.
Seguiu-se a Treze, que durou quatro anos, e a Catorze, e a Quinze, e em 1890 a Inquisição Reformada tem em campo trinta e uma células numeradas e a mais recente é a Quarenta e Um.
Quarenta e uma células em sessenta e seis anos.
Nenhuma delas tem nome. Nenhuma delas tem funeral. Nenhuma delas sabe o que a anterior encontrou, porque as células não comunicam entre si e porque o Arquivo Fechado não tem catálogo e porque um inquisidor conhece a sua célula, o seu superior imediato e mais ninguém.
Cada uma começa do princípio.
Cada uma atravessa uma fronteira e ao fim de quarenta minutos tira o casaco e não repara.
E quando morre, é substituída pelo número seguinte.
Fonte — Do que não se encontrou
A última peça deste livro é uma lista de ausências, e é a peça mais honesta que ele tem.
A Célula Onze passou três anos e dois meses no interior da Heptarquia Pactuária e trouxe cento e onze folhas. O que não trouxe é o seguinte, e enumera-se porque um levantamento que não declara o que lhe falta não é um levantamento, é uma história.
Não se estabeleceu o que está nas câmaras oitava e nona da Forja Quarta de Sathkar.
Sabe-se que não produzem. Sabe-se que custam. Sabe-se que três pessoas entram lá todos os dias e que falam veherênico antigo e vocabulário de contrato.
Não se entrou. Não se viu. Não se obteve descrição de segunda mão.
Tudo o que este livro afirma sobre o que aquilo é assenta em inferência e a inferência está declarada como inferência em todos os pontos em que aparece.
Não se identificou a Casa Terceira do Conselho de Karzhar.
Votou contra em 1873 e votou contra em 1877 e é a única que votou contra em seis anos de atas.
Osvald Reiner tinha três meses para o apurar e foi detido ao quarto dia do segundo mês.
Não se apurou o que aconteceu na Forja Quarta em 1866.
Três versões orais entre capatazes antigos, concordantes em dois pontos: câmara oitava, catorze mortos.
Nenhuma das três diz acidente.
O posto de vigilância não pactuada foi criado nesse ano.
Não se estabeleceu a existência ou inexistência de capacidade de beneficiamento fora de Sathkar.
É o único ponto do mandato de 1873 que não se cumpriu, e é o ponto que a prorrogação de 1876 mandou cumprir expressamente.
Três anos. Não se cumpriu.
Não se identificou o elemento nono.
E declara-se que não se tentou depois de 1875, por decisão do elemento primeiro, e que a decisão foi correta.
Não se parou nas duas últimas aldeias da estrada de Sathkar.
Quatro passagens em três anos. Não se viu criança nas duas.
Não se parou, não se procurou, e o elemento primeiro fez constar que não procurou.
É a ausência de que este livro tem mais dificuldade em dar conta e é aquela sobre a qual tem menos a dizer.
Não se soube o que aconteceu ao homem do velório de julho de 1876.
Segunda etapa, quarenta e um anos, moedor da Forja Sétima.
Osvald Reiner rezou ao lado dele e o pacto quebrou e ele saiu sem dizer nada e sem voltar a olhar.
Procurou-se três vezes na Forja Sétima e disseram que já não trabalhava ali.
Uma de duas: ou está vivo em Vykhradia sem papéis, entre os quatro mil por ano que ninguém conta.
Ou teve entre dois e nove dias.
[E há uma última ausência, que não é de facto e que Petra Vahl acrescentou de sua iniciativa em 1877, na folha cento e onze, depois da assinatura, e que Nikolaus Brecht autenticou como todas as outras:]
Não se soube por que razão o elemento primeiro escolheu sair a pé.
Ele deu uma razão operacional e a razão estava certa e eu acreditei nela durante nove anos.
Deixei de acreditar quando fiz a conta que ele teria feito e que ele fez de certeza, porque fazia todas.
Pela estrada chegávamos a Vykhrad a 13 de junho com três pessoas.
A pé chegámos a 4 de julho com duas.
Ele sabia a diferença e sabia qual das três ia ser ele, e escolheu a pé, e a razão operacional era verdadeira e não era a razão.
E há a segunda coisa, e é a que eu só vi em oitenta e seis, e vi-a a fazer a conta outra vez por outro motivo.
A estrada de Vykhradia sai de Sathkar para noroeste.
A pé pelo sul passa-se por Karzhar.
Não é desvio. É o caminho. Quem sai a pé pelo sul passa por Karzhar porque não há outro sítio onde encher os odres em cento e dez quilómetros, e ele sabia-o, porque sabia tudo o que se podia saber daquele território ao fim de três anos.
Ele escolheu o único caminho que nos punha à porta daquela cidade dois dias antes do fim da suspensão, e nunca disse nada, e quando nós lhe dissemos que íamos ver uma coisa ele disse que sim, e quando viu a rapariga não perguntou nada.
Não escrevo que ele o fez de propósito, porque não sei e porque escrever o que se não sabe é o contrário do que esta casa faz.
Escrevo que faltou perguntar-lhe, e que tive dezasseis dias de estepe para o fazer, e que não perguntei.
Fonte — Do mapa de células de 1890
Inquisição Reformada, Secretaria de Células, Aurum Roma. Mapa de efetivos operacionais, exercício de 1890. Documento de rotina interna, distribuído a quatro pessoas. Não é classificado porque não diz nada: é uma lista de números e de contagens.
Células constituídas desde 1824: quarenta e uma.
Em atividade à data: trinta e uma.
Extintas: dez.
Das extintas, por causa declarada:
Mandato cumprido: quatro.
Mandato não cumprido, prazo esgotado: duas.
Extinção por perda de elementos: quatro.
Elementos em campo: cento e noventa e um.
Elementos perdidos desde 1824: duzentos e onze.
[E é tudo. O documento tem uma folha e não tem mais nada, e é por isso que este livro o cita: porque é o único sítio em que a Inquisição Reformada conta os seus mortos, e conta-os numa linha, sem nome, ao lado da contagem dos vivos.]
Duzentos e onze em sessenta e seis anos.
É cerca de três por ano, o que num corpo de três mil operacionais é uma perda que qualquer regimento de linha do continente consideraria excelente e que a Casa do Limes trocaria pela dela sem hesitar um segundo.
E é preciso pôr isto ao lado do resto, porque é a última coisa deste livro que é verdadeira e desconfortável ao mesmo tempo:
A Inquisição Reformada morre pouco.
Morre muito menos do que os Cavaleiros do Selo, que perdem mil e quatrocentos numa má campanha de verão, e morre menos do que os Hospitalários, que apanham tifo nas enfermarias de campanha em números que ninguém publica.
Sete de nove numa célula é, em sessenta e seis anos daquela Ordem, o pior resultado registado.
A Célula Onze é a pior coisa que aconteceu àquela casa e aconteceu-lhe num mandato de intendência mineral.
E há uma última linha no mapa de 1890, na parte de baixo, na rubrica das observações, que existe em todos os mapas anuais desde 1824 e que em quase todos está em branco:
Observações: nenhuma.
Fonte — Da folha do último dia
Arquivo Fechado de Aurum Roma. Folha avulsa, sem timbre, sem assinatura, encontrada em data que não se declara, dobrada em quatro, dentro do livro de requisições internas do depósito, entre a folha do exercício de 1893 e a contracapa.
O livro de requisições internas é um livro de rotina que se consulta para verificar quem pediu o quê, e que se abre talvez duas vezes por ano, e que ninguém folheia até ao fim porque o fim é branco.
A folha tem sete linhas em letra miúda e direita de escriturária de longa prática, e não diz o que é, e não precisa.
Corredor quarto, face oeste.
Estante nove, prateleira quarta a contar de baixo.
Entre a caixa de «Interdição de rotas — Limes Orientalis — 1880-1884» e a caixa de «Falsificação de relíquia — Meridia — 1871».
Caixa sem rótulo, de cartão pardo, com fita de linho.
Cento e onze folhas manuscritas, rubricadas folha a folha.
Uma nota de acompanhamento de duas folhas, assinada com nome inteiro.
Depósito direto, 9 de julho de 1877.
[E por baixo, separada por um espaço, uma oitava linha que é a única que não é posição física:]
Eram nove.
Petra Vahl reformou-se a 11 de dezembro de 1893, com cinquenta e sete anos e trinta e um de serviço, e no inquérito de rotina do fim da carreira perguntaram-lhe, como se pergunta a toda a gente, se alguma vez tinha deixado de fornecer material que lhe tivesse sido pedido.
Respondeu que não.
Era verdade. Nunca ninguém pediu.
Este livro não afirma que a folha é dela.
Não tem assinatura, não tem data, não tem nada que a ligue a pessoa nenhuma, e a letra de uma escriturária de longa prática parece-se com a letra de todas as outras escriturárias de longa prática, e o Arquivo Fechado teve, entre 1865 e 1893, onze pessoas com acesso de circulação.
O que este livro afirma é o seguinte, e afirma-o com o grau de confiança que a casa dela ensinou a declarar:
Alguém que sabia exatamente onde aquilo estava deixou, no fim de uma carreira, um papel a dizer onde estava.
Não o mostrou a ninguém. Não o entregou a ninguém. Não o pôs em sítio onde fosse encontrado depressa.
Dobrou-o em quatro e meteu-o na parte branca de um livro de rotina, num depósito sem catálogo, para que estivesse lá quando alguém, um dia, por alguma razão, fosse até ao fim daquele livro.
Grau de confiança: segundo.
Dito a quem escreve por quem viu a folha.
Nota sobre as fontes: o relatório da Célula Onze — cento e onze folhas, autenticadas folha a folha por Nikolaus Brecht — está depositado por via direta no Arquivo Fechado de Aurum Roma e não tem cota. A nota de acompanhamento das quatro razões existe em duplicado nos papéis pessoais de Brecht, legados à casa de Vykhrad em 1884. O caderno de enfermaria de Mira Solvang está na casa hospitalária de Bernkanton, no fundo de 1881, e é público. A declaração de Osvald Reiner sobre Karzhar foi entregue por ele em Aurum Roma em 1876, antes da última viagem, e nunca foi publicada. As falas de Vesna são de 1881 e de 1890 e chegaram por duas vias diferentes que nunca se cruzaram.