Ir ao conteúdo
Tales of Cross
Livro Grátis, inteiro 87 min

Conclave de Emergência

Aurum Roma — outubro de 1888

Ano
1888
Era
Era da Estagnação
Onde
Aurum Roma
Leitura
87 min
páginas
70
Conclave de Emergência 1 de 70

Aurum Roma — outubro de 1888 — Era da Estagnação

Contexto histórico

Outubro de 1888. Cento e oito anos depois do Cataclismo dos Selos — a noite em que a montanha rachou sobre Ivandir, a cidade-coroa do extremo leste, e o Inferno subiu pela primeira vez ao mundo —, o continente de Cross encontra-se na quarta década da Era da Estagnação: a guerra contra o Inferno não acaba, nem cedo, nem tarde, nem nunca. Tecnologia em plateau permanente, demografia parada, cidades que não crescem mais, conclaves que se tornaram rituais de continuidade.

Aurum Roma, capital pontifícia da Ordem Clerical, governa cerca de cento e vinte milhões de almas em sete Estados internos e, indiretamente, o resto dos trezentos milhões de habitantes do continente. A Cúria detém o monopólio do dom angélico do Hashmal e distribui ao mundo o armamento que mata demônio — Hashmalita purificada, Ferro-do-Coro, Crisma-Argênteo, Lúmen — em troca de obediência política. A frente permanente do Limes Orientalis segura o Limbus Mundi e a Heptarquia Pactuária. O Mar Tenebrum sangra Mineral Negro. As revelações angélicas, que durante quase um século aceleraram a tecnologia do continente, tornaram-se raras nos últimos anos. Conjectura inquisitorial sussurrada nos corredores: o Céu está cansado de nós.

Na noite de 22 de outubro de 1888 — quatro dias após o Feriado de Ivandir, oitavário de luto pela cidade que caiu primeiro —, o Pontífice Coronatus V, sexto Um da Ordem Clerical desde Aurelianus I, é envenenado durante o jantar litúrgico no Palácio da Vigília. Vinho consagrado. Sete cardeais à mesa. Camareiro de trinta e quatro anos de serviço sem ver nada.

Em oito dias, conforme rito canônico de emergência, os vinte e quatro Cardeais-Eleitores Coroados precisam entregar um novo Reconhecido às Sete Velas dos Arcanjos na Vigília Perpétua. A continuidade do canal angélico — a única coisa que segura o mundo — depende da eleição. Os Coronatos têm onze votos. Os Reformados, sete. Os Inquisitoriais, quatro. A aritmética dos dois terços opera, indiferente à fé do que a soma.

É neste interregno de oito dias que três pessoas — um cardeal velho que ainda reza o Rito Veherênico em particular, um inquisidor brytônico que acredita no método, e uma Branca Médium em ano quatro de contato pleno — se cruzam sem terem planejado se cruzar, e descobrem, cada uma a seu modo, que a doutrina velha ainda opera: o demônio cai apenas pelo tiro consagrado por quem ainda crê na hora exata em que mede o pó.


"O Céu, dizem os anciões, está cansado de nós. Quem se sentir tentado a julgar essa frase pelo seu próprio crédito — que primeiro examine se ainda crê na hora em que mede o pó."

— atribuído a São Aurelianus, Cânones Aureos, fragmento marginal, ano de Nosso Senhor de 1837


I. A Vela

A pena, que ele segurava com a mão direita porque a esquerda já não fechava desde aquela noite em Solar do Crepúsculo, há vinte e cinco anos atrás — vinte e cinco anos, lembrou-se com a vertigem branca que cada aniversário lhe trazia, vinte e cinco anos de penas seguradas a uma mão só, vinte e cinco anos de bençãos dadas com a destra estendida e a sinistra fechada sob o manto, vinte e cinco anos —, a pena raspava o papel devagar, devagar, como quem mede a paciência das próprias palavras antes de cravá-las.

E ele cravou.

Recebi notícia de tua chegada a Hárkovgrad.

Parou. Olhou para o que tinha escrito, e para o que ainda não tinha escrito, e para o frasco de tinta preta cujo fundo se aproximava como o fundo de tantas coisas em sua vida ultimamente se aproximava, e pensou — Adriano Veris pensou, porque era assim que ele orava sem perceber, em pensamentos longos que se enrolavam sobre si mesmos como serpentes santas em capitéis bizantinos — pensou que talvez Tomáz já estivesse morto, ou se não morto, perdido, e se não perdido, mudado, mudado em uma daquelas mudanças que o leste promove em homens jovens, mudanças que não se desfazem mesmo quando o homem volta e nunca mais será o que partiu; e se isto era assim, se Tomáz já era outro Tomáz, então a quem ele escrevia agora, exatamente, sob esta vela de Lúmen que não tremulava porque o Lúmen não tremulava, jamais tremulava, e nesse não-tremular continha — Adriano percebeu com uma quietude que se parecia à dor — toda a sua glória e todo o seu defeito?

Reza no porão da casa que te ofereceram, escreveu, o quarto de cima dá para a rua e a rua, te disseram bem, mente.

Verdade. Toda rua mente. Era doutrina velha, era o que os anciões diziam, e era o que ele, Adriano, sessenta e sete anos, mão esquerda perdida, refugiado veherênico criança aos cinco, cardeal há vinte e dois, ainda repetia a si mesmo em noites como esta — noites em que o Um morria envenenado e os cabos da Cúria estavam sem cifra desde a hora vinte e dois e o rosto do próprio secretário ainda não decidira por quem chorar.

E havia algo a dizer, e ele sabia que havia, e demorava, demorava — porque escrever a um homem que talvez não fosse mais o homem é como escrever a Deus em véspera de pecado, é como confessar antes de saber qual será a falta, e Adriano não tinha pressa, ou tinha, ou não sabia mais distinguir, porque a manhã viria de qualquer modo, e às oito os Coronatos desceriam das salas altas vestidos de paciência, e os Reformados, da escada do meio, viriam de pasta nas mãos como mercadores ao banco, e a Inquisitoria sorriria pouco como sorri pouco quem aprendeu a sorrir só com a parte da boca que importa, e a aritmética dos dois terços operaria como opera toda aritmética humana, indiferente à fé do que a soma.

Tomáz, escreveu então, com algum apuro, te escrevo porque aprendi tarde, na batalha de Solar, quando ainda tinha duas mãos, a única coisa que se aprende sobre o demônio: que ele não cai pela balística do tiro, não, jamais cai por isso, ainda que assim ensinem nos manuais, ainda que assim repitam os pregadores que nunca atiraram, o demônio cai porque o tiro foi consagrado por alguém que ainda acreditava na hora em que mediu o pó, e é por isso que a Hashmalita purificada por mão cética é mineral morto, e é por isso que tu, se for ao front, verás soldados serem mortos por balas que não falharam mecanicamente — falharam porque o pobre clérigo que as benzeu já não cria, e a tua tarefa, se tens alguma, é não ser esse clérigo, jamais, jamais, jamais.

Três jamais. Releu. Não rasurou. Era assim que os anciões veherênicos faziam, lembrou-se — repetiam três vezes para selar — e ele praticava o Rito Veherênico em silêncio, em particular, contrabandeado dentro da própria sotaina romana, e Deus, segundo lhe parecia, não checava credenciais.

Deus não checava credenciais. Era a única coisa pela qual Adriano agradecia a Deus, esta noite.

Eles dirão que o Anjo está em Aurum esta noite, continuou, e a frase pesava porque podia ser verdade — havia rumor, e o rumor tinha cheiro de verdade, e a Branca Korlavna estava em turno na Vigília Perpétua, e se a Branca dizia que descida iminente, descida iminente era —, e dirão que desceu nas fortalezas da Vigília. Talvez seja verdade. Talvez não. Eu não verei. Não tenho mais olhos para isso. Tu, talvez, tenhas. Eu votarei amanhã sem saber se o Céu chegou ou não chegou, e o voto valerá o mesmo, valerá exatamente o mesmo, porque a graça opera por trás das pálpebras fechadas dos cardeais cegos tanto quanto opera por trás das pálpebras abertas dos cardeais videntes.

Pousou a pena. A vela continuava quieta. O sino do convento da Roma Velha bateu quatro horas, e Adriano percebeu que esqueceu de jantar, e que isto era a terceira noite consecutiva em que esquecia, e que isto também era doutrina velha — jejuar antes do peso, diziam os monges do Rito Veherênico, jejuar não por mérito mas porque o corpo carregado é mau julgador do espírito; e ele sorriu sem sorrir, com aquele sorriso interior que não chega à boca, que nem mesmo deve chegar, porque sorrir explícito é vanglória de homem velho, e ele já tinha vanglória demais por uma noite.

Escreveu, então, a última linha. Demorou. Quando demorou suficiente, escreveu rápido.

Reza por mim. Não pelo conclave. Por mim.

Assinou com três letras só — A. V. C. — e dobrou o papel com a destra, porque a sinistra não fechava, nunca mais fechara desde Solar, e pingou o lacre, e pressionou o sinete do peixe três vezes, três vezes como os anciões selavam, e segurou o lacre até que a cera esfriasse contra a polpa do polegar, e a dor pequena daquela cera contra a pele lhe pareceu, naquele instante exato, uma das poucas coisas verdadeiramente reais do dia inteiro.

A vela de Lúmen continuava quieta. Continuaria sempre. E era o defeito do Lúmen — esta quietude eterna sob a qual os homens deviam decidir todas as coisas importantes do mundo — e era também, Adriano sabia bem, a sua glória.

Lá fora, o sino do convento bateu mais uma vez. Não a hora. Outro sino — o sino de defunção da Sé Maior, três badaladas longas e três curtas, repetidas, repetidas, repetidas — porque o Um estava morto havia trinta e seis horas, e a cidade ainda não decidira como chorar, e os sinos não esperam pela cidade.

Adriano apagou a vela com os dedos. Doeu menos do que era de costume. Ele ficou um instante na escuridão antes de se levantar, e nessa escuridão — porque era assim que orava também, em escuridões pequenas entre cera e cera — disse a si mesmo, em latim arcaico veherênico que ninguém em Aurum Roma teria reconhecido fora de uma capela escondida da Maritima Coronata, três palavras inteiras:

Domine, ne abscondas.

Senhor, não te escondas.

E saiu.


II. A Notícia

Voss recebeu a notícia no momento em que mais a desejara não ter recebido — porque estava terminando, e nada irrita mais um inquisidor terminando do que ter de começar outra coisa enquanto a primeira ainda não fechou seu próprio dossiê com o cordão de cera vermelha que a Reformada exige; o suspeito sobre a banqueta, um cocheiro de Argênteo de quarenta e três anos chamado Otto Velgrein, que jurara três vezes que não, três vezes em latim eclesial perfeito, três vezes com a sintaxe que nunca um possuído consegue manter por mais que tente fingir, era, na avaliação técnica dele, Voss, inocente; mas o sentinela à porta tinha entrado sem pedir, e os sentinelas da Reformada não entram sem pedir, e portanto algo de mau, ou algo de muito mau, ou algo daquela qualidade de mau que faz a hierarquia da Inquisição esquecer momentaneamente que a hierarquia existe, tinha ocorrido lá em cima.

— Inquisidor — disse o sentinela. Era um rapaz, sargento-noviço, brytônico como Voss, mas das colônias do norte. — O Um caiu.

Voss não disse nada. Pegou a luva esquerda, que tinha tirado para escrever o termo provisório de soltura de Velgrein, e a calçou devagar, dedo por dedo, como quem mede a posse das próprias mãos. Olhou para o cocheiro. O cocheiro o olhava de volta sem entender. O cocheiro talvez nunca soubesse, lembrou-se Voss em uma daquelas digressões que ocorrem em meio à carga, o cocheiro talvez nunca soubesse que tinha sido posto sob suspeita de pacto, que tinha sido trazido para um subsolo da Reformada por quatro horas e três quartos, que tinha sido interrogado por um inquisidor que decidira sua inocência exatamente no minuto em que entrara o sentinela com a frase, o Um caiu; o cocheiro Velgrein, para o cocheiro Velgrein, era um dia como outro, um chamamento como outro, e em casa a mulher e os dois filhos esperariam pelo jantar, e quando ele chegasse, com a sua roupa de cocheiro e o seu cheiro de cavalo, ele diria simplesmente que houve atraso, e ninguém perguntaria mais, porque na Argênteo de Aurum Roma o que se aprendia jovem era a não perguntar.

— Sargento — disse Voss. — Solta este homem.

— Sim, Inquisidor.

— E manda Pohl para a Vigília. Imediatamente.

— Pohl já está lá, Inquisidor.

— Há quanto tempo?

— Quarenta minutos.

— Então me leve para lá.

Quarenta minutos. Voss subiu as escadas com o sentinela à frente e pensou, enquanto subia, que quarenta minutos era exatamente o intervalo que o protocolo da Reformada exigia entre a queda de um Pontífice e a abertura formal do inquérito; pensou também que quarenta minutos era o tempo que um veneno alquímico mediano leva para perder rastreabilidade no sangue de um homem velho; pensou ainda que quarenta minutos era o tempo que dá, exatamente, para limpar uma sala com cuidado, sem pressa, sem deixar marca, se a pessoa que limpa é alguém que conhece os procedimentos da Reformada e sabe o que ela procura; e portanto, se Pohl estava lá há quarenta minutos, e Pohl era bom, talvez já não houvesse nada a achar — ou então havia tudo, e era para isso que o tinham deixado limpar. Voss não sabia ainda. Mas Voss raramente sabia ainda quando entrava em uma cena, e a profissão dele era exatamente esta: caminhar para dentro de salas onde algo já tinha acontecido e onde nada do que ainda iria acontecer dependeria das suas mãos com a mesma exatidão com que dependeria do silêncio com que ele resolvesse entrar.

A noite estava fria. Outubro tardio. Os bairros centrais de Aurum Roma ainda tinham, no ar, o cheiro residual do incenso das procissões do Feriado de Ivandir — quatro dias antes, a cidade inteira havia parado por dezesseis horas, sinos batendo seiscentas vezes em cada paróquia, jejum solene, cera negra adicionada às velas dos Arcanjos no entardecer da Vigília. Voss não jejuara. Voss não jejuava por princípio, e isto a Reformada sabia, e isto a Reformada tolerava, porque a Reformada precisava de homens que não confundissem privação corporal com clareza investigativa. Jejuar antes do peso, diziam os clérigos veherênicos, e Voss respeitava a sintaxe da frase sem aderir à sua prática; o seu peso, raciocinava ele, era o método; e o método, raciocinava ele ainda, não come pão.

No fim das escadas, no pátio interno do Palatium Reformatum, esperava um carro elétrico — daqueles novos, alimentados a célula de Hashmalita, que a Cúria distribuíra aos altos serviços operacionais havia dez anos e cuja autonomia, depois de uma década de uso quase contínuo e de manutenção feita por operários consagrados cada vez mais raros, começava a falhar em momentos inconvenientes. Voss entrou. O motorista o reconheceu sem falar. Os carros elétricos da Cúria não tinham aviso luminoso na frente; quando rodavam, rodavam em silêncio cinza, e este silêncio, durante o trajeto até o Palácio da Vigília, foi a coisa mais alta da cidade — o silêncio do carro contra o pano de fundo dos sinos de defunção batendo na Sé Maior, três longos três curtos, três longos três curtos, repetidos, repetidos, sem cansaço, sem dúvida, sem fim.

Voss apoiou a têmpora contra a janela. A cidade passava. Estagnada como sempre. Em vinte e cinco anos de serviço, ele tinha aprendido a reconhecer o silêncio próprio das ruas de Aurum Roma — não o silêncio absoluto, que não existe em capital alguma, mas o silêncio relativo, o silêncio-residual, o silêncio que sobra quando a sociedade resolve não comentar nada do que pertence ao serviço da Cúria; e neste silêncio, esta noite, havia uma camada nova — fina como um esmalte fresco sobre verniz velho — que era a camada da notícia que ainda não tinha chegado oficialmente às esquinas mas que já tinha chegado oficiosamente aos olhos. As pessoas nas calçadas estavam paradas demais. Os botequins estavam fechados cedo. Os Cabos da Cúria, sem cifra, já tinham telegrafado para o que importava telegrafar — e Aurum Roma, sem nada dizer, sabia.

O Palácio da Vigília surgiu adiante. Suas torres em silhueta contra o gás-lume das avenidas próximas. O Inquisidor Reinhardt Voss desceu, deu três passos sobre as lajes molhadas — chovera levemente naquela tarde, e a Hashmalita das luminárias urbanas, refletindo-se nas poças, parecia ouro derramado e congelado, dourado-raio em pedra líquida, beleza imerecida —, e entrou pela porta dos serviços laterais.

Pohl o esperava no corredor, com a expressão que tinha sempre quando o caso era pior do que parecia — uma expressão neutra, com a sobrancelha esquerda levemente alta, como quem segura uma frase difícil dentro da boca para não desperdiçá-la em palavras inúteis.

— Reinhardt.

— Helmut. Conta.

Pohl contou andando. Caminharam pelo corredor de mármore policromo dos Quartos da Vigília — corredor que Voss conhecia bem, embora nunca o tivesse pisado em circunstâncias úteis. A Vigília Perpétua tinha duas alas: a do santuário interno, com as Sete Velas dos Arcanjos, onde só Brancas Médiuns entravam, e a dos Quartos exteriores, onde o Pontífice, em vésperas litúrgicas, fazia recolhimento. Era no Quarto Norte — o mais reservado, o que dava para o jardim de cipreste consagrado — que a coisa acontecera.

— Jantar oficial — disse Pohl. — Sete cardeais. Coronatus V à cabeceira. Vinho consagrado. Hóstia votiva. Pão de Vigília. Camareiro Bernardo serviu — esse Bernardo que serve aqui há trinta e quatro anos, Reinhardt, trinta e quatro, três Pontífices.

— Bernardo está vivo?

— Bernardo está vivo, e Bernardo está chorando em uma sala lateral.

— Ele bebeu?

— Não. Os camareiros não bebem.

— E quem bebeu?

— Todos. O Um primeiro, como exige o rito. Depois os sete. Coronatus V tomou três goles, falou três frases, caiu. Os cardeais beberam imediatamente depois. Nenhum dos cardeais sentiu nada.

Voss parou no corredor. Olhou para Pohl. Pohl manteve a sobrancelha esquerda na posição que lhe era natural.

— Nenhum.

— Nenhum, Reinhardt. Isso é o que quero que ouças. Nenhum.

Voss começou a calcular. Nenhum podia querer dizer três coisas. Nenhum podia querer dizer que o veneno estava apenas no copo do Um — entornado no copo, não no jarro, um veneno de superfície aplicado depois do serviço, antes do gole; mas isto exigia acesso direto ao copo no breve intervalo entre o serviço e o levantar dos brindes, e o acesso direto ao copo do Um, naquela mesa, era o acesso de exatamente uma pessoa: o Camareiro Bernardo. Nenhum podia querer dizer também que o veneno não era um veneno alquímico simples mas um sacramento corrompido — um ato litúrgico inverso operado contra a fé pessoal do Um, e portanto inofensivo aos outros sete porque os sete não eram alvo da inversão; e isto, Voss percebeu com uma irritação fria e sem sangue, era a hipótese que iria ocupar a sua semana inteira. Nenhum podia querer dizer ainda — e esta era a hipótese cínica, a que Voss formulava em silêncio para si mesmo e nunca verbalizava com Pohl — que os sete cardeais mentiam, todos, em conluio; mas o conluio total de sete cardeais em sete minutos de cena nunca acontecera em arquivo da Reformada que Voss tivesse lido, e Voss tinha lido muito arquivo, e portanto descartou a hipótese cínica antes mesmo de a formular por completo.

— Onde está o copo?

— Apreendido. Selado. Em câmara escura.

— A gota residual?

— Há, sim. Pouca. Eu não toquei.

— Bom.

Entraram no Quarto Norte. Quatro lâmpadas de Lúmen ainda acesas — não tremulavam, jamais tremulavam — iluminavam a cena com aquela luz quieta que Voss respeitava sem saber porquê. A mesa permanecia montada. O lugar do Um, na cabeceira, estava vazio; o corpo já tinha sido levado ao Hospital de Aurum Roma, onde o Dr. Karl Verge, Hospitalário, devia conduzir a autópsia litúrgica nas próximas horas. Os pratos dos sete cardeais estavam ainda como tinham ficado — meio comidos, dois inteiros, um derrubado quando o cardeal que ali sentava se levantou em pânico ao ver o Um cair. As sete cadeiras estavam vazias agora. Os sete cardeais já haviam sido removidos para câmaras separadas, à espera de Voss.

Voss caminhou até o lugar do Um. Olhou para o copo selado em câmara escura — uma caixa de chumbo opaco, lacrada com cera litúrgica e o sinete de Pohl. Pediu a chave. Pohl entregou. Voss não abriu ainda. Pensou.

— Helmut.

— Sim.

— Quando o Um falou as três frases, antes de cair, alguém anotou?

Pohl hesitou. Era a hesitação técnica de quem sabe que a resposta vai ser uma resposta cara.

— Anotou. O Cardeal Lukas Vorenz. Coronato. Ele estava com a pasta aberta — disse Pohl. — Estava registrando o jantar para os arquivos da Cúria, como é a função rotativa do Coronato sênior em reuniões pontifícias internas. Ele anotou as três frases.

— Trouxe a pasta?

— Trouxe.

— Onde está?

— Em câmara apartada. Eu deixei selada. Ainda não abri.

— Bom. Não abra. Eu abro.

Voss continuou a olhar para o copo. Nenhum dos cardeais sentiu nada. Os outros seis bebiam o mesmo vinho. O vinho era consagrado pelo Coronatus V em pessoa, antes do serviço, como exige o rito do Pré-Conclave da Vigília. O vinho, se contivesse veneno alquímico simples, mataria a todos. Se contivesse veneno seletivo — algum composto que reagisse com a química particular do corpo do Um e de mais ninguém — então o que matara o Um seria conhecimento técnico profundo, dentro do quadro do dom angélico do Hashmal, e portanto conhecimento que um clérigo iluminado teria. Se o copo, e só o copo, contivesse algo aplicado depois do serviço, então o aplicador era Bernardo, o servidor de trinta e quatro anos, ou alguém que tivesse acesso ao copo na fração de segundos antes do gole — e nessa fração de segundos, na geometria da mesa de Vigília, a única pessoa ao alcance era o Cardeal Lukas Vorenz, à direita do Um, com a pasta aberta sobre os joelhos.

Voss não disse nada. Pousou a chave do copo selado sobre a mesa. Olhou para Pohl. Pohl, que conhecia Voss há quinze anos, leu nos olhos do superior três coisas que ainda não estavam ditas e provavelmente não seriam ditas por algumas horas — leu, e baixou a sobrancelha esquerda à posição neutra; o que para Pohl, em Pohl, significava eu também.

— Helmut. Bernardo primeiro. Câmara três. Eu chego em dez minutos. Vorenz por último. Câmara sete. Não fale com ele antes.

— Sim, Reinhardt.

— Pohl.

— Sim.

— Se Vorenz pedir algo entre agora e o interrogatório — qualquer coisa, água, papel, confessor —, traga você mesmo. Não delegue.

— Sim.

Pohl saiu. Voss ficou sozinho com a mesa. Olhou para o lugar onde o Um se sentara. Coronatus V, pensou — o quinto Pontífice da linhagem Coronata desde Aurelianus I, sucessor da Era do Império, eleito em 1882 sob a vela do Arcanjo Sariel que tremulara duas vezes — Coronatus V tinha sessenta e oito anos. Não era jovem. Não era amado. Não era especialmente sábio. Mas era o Um, e o Um era a única voz humana autorizada a falar pelo coro dos Anjos na Terra; e enquanto o Um vivesse, a interface revelacional do Hashmal — por mais esvaída que estivesse, por mais raras que se tornassem as inscrições automáticas e os sonhos litúrgicos das Brancas — continuava operando.

E agora não operava.

E enquanto não operasse, o continente ficava sem canal. O Conclave de Emergência tinha oito dias para entregar um Reconhecido. Oito dias durante os quais demônio nenhum ficaria mais imortal do que o normal, mas durante os quais nenhuma revelação fresca chegaria, e a Hashmalita já purificada se manteria em estoque, e o estoque, Voss sabia bem — porque a Reformada compartilhava certas planilhas com a Hospitalária — o estoque estava em queda há três anos. E ninguém na Cúria admitia isso publicamente. E talvez fosse exatamente esta queda do estoque que tornava o envenenamento do Um, neste ano específico, em outubro de 1888, durante a Era da Estagnação madura, um ato político de uma temperatura que não tinha precedente.

Voss inspirou. Soltou o ar. Levantou-se da mesa. Foi à câmara três, onde Bernardo estaria chorando, e onde ele, Voss, com aquela paciência seca que era a sua única forma de oração, começaria a montar o caso.

A chuva voltara a cair lá fora. Os sinos de defunção continuavam — três longos três curtos, três longos três curtos — e em algum lugar dos andares superiores do Palácio, Voss soube sem ver, uma porta de Vigília se abriu, e uma jovem Branca, com a mão estendida e a respiração curta, passou a guarda interna sem dizer nada e correu para o santuário das Sete Velas, porque algo nas chamas estava começando a tremer.


III. A Descida

Iván Korlavna entrou no santuário pela porta dos serventes. Não pela porta canônica. A porta canônica das Brancas dava para o nártex, com mármore vermelho-do-coro e a inscrição em latim eclesial sobre a verga — NON EXTINGUITUR — que toda Branca lia toda vez que entrava e toda vez se sentia obrigada a perguntar a si mesma se ainda acreditava no que a inscrição prometia. Iván usava a outra porta. A dos serventes. Sem inscrição. Sem mármore vermelho. Só um corredor cinza com cheiro de óleo de baleia consagrado e uma escada estreita que descia para o subsolo onde se guardava a cera negra dos Feriados de Luto.

Ela usava aquela porta porque preferia subir ao santuário pelo lado em que as Sete Velas se viam de baixo — uma a uma, em fila contra o teto abobadado, lâmpadas de Lúmen ardendo sem tremular sob os nomes dos Sete Arcanjos esculpidos em pedra polida — e não pelo lado em que apareciam de costas, como tinha de ser quando se entrava pela porta canônica. Era uma preferência sua. Sem doutrina. Madre Doroteia, sua Superiora, já lhe dissera duas vezes — apenas duas, sem severidade, porque Madre Doroteia tinha guardado para si o silêncio das suas próprias preferências e respeitava as silenciosas dos outros — que entrar pelos serventes não era de bom decoro para uma Branca de turno noturno. Iván assentira. Continuara entrando pelos serventes. Madre Doroteia não voltara a comentar.

Eram três e quarenta e duas da madrugada, lia o relógio da escada. Iván sabia ler horas, embora não soubesse ler muito mais — sabia ler o seu próprio nome e o nome dos sete Arcanjos e a inscrição da verga e a fórmula curta do Te Deum — e a sua leitura era lenta como a leitura de quem aprendeu tarde, mas era exata, e ela tinha orgulho na exatidão. Três e quarenta e dois. Em dezesseis minutos, abriria o turno. Em dezesseis minutos, a Branca anterior, Sister Estela de Sárvar, lhe entregaria o cíngulo de turno, faria três reverências às Sete Velas, sairia pelo nártex como exige o decoro, e Iván Korlavna ficaria, sozinha, durante as próximas oito horas, com os sete coros e as sete chamas e os sete nomes esculpidos e a inscrição que prometia que aquelas chamas não se apagariam.

Subiu a escada. Não correu. Branca não corre nos serventes; nem nos serventes, nem em parte alguma do santuário; corre apenas em emergência, e a emergência tem nome próprio nos manuais da Ordem Branca — chama-se gradus septimus, o sétimo grau, e o sétimo grau ocorre apenas quando uma das Sete Velas se apaga ou tremula irregularmente; e mesmo no gradus septimus corre-se com o passo cadenciado da liturgia, não com o passo apavorado das ruas.

Ela tinha caminhado da casa das Brancas até o Palácio da Vigília em dezessete minutos exatos, como sempre, atravessando o pátio da Catedral pela transversal interna, sem cruzar os corredores que naquela noite a sua mãe — quer dizer, Madre Doroteia, a outra mãe, porque a sua mãe verdadeira, mineradora de Cracoviana, há doze anos não dava notícia, e dela Iván não pensava antes do turno por uma disciplina que ela mesma se impunha — sem cruzar os corredores em que poderia esbarrar com algum cardeal em vigília extraordinária. Ela queria entrar no santuário limpa. Queria entrar como se entrasse pela primeira vez. Era um exercício seu. Sem doutrina. Madre Doroteia também não comentava esse.

A porta dos serventes se abriu. O santuário estava em silêncio — não o silêncio relativo da cidade, mas o silêncio interno, aquele que se ouve, aquele que tem espessura, aquele que as Brancas aprendem em três anos de noviciado a reconhecer como uma matéria. Sister Estela de Sárvar estava ajoelhada no degrau inferior do altar, com o cíngulo de turno no colo, e quando ouviu a porta levantou a cabeça e olhou para Iván.

Iván parou.

Sister Estela tinha os olhos vermelhos. Não chorava. Brancas em turno não choravam — o protocolo era claro, choro durante o turno era falha técnica, era água caindo onde devia haver atenção — mas Sister Estela tinha os olhos vermelhos de quem tinha chorado antes de assumir o turno, e isto também era falha técnica menor, e Iván percebeu sem percebir-se percebendo que algo estava errado naquela noite mais do que o já-errado de toda noite que se seguia à morte de um Pontífice.

— Estela.

— Korlavna.

— Estela, o que está...

E foi quando Iván levantou os olhos.

A vela de Sariel, terceira da fileira, ardendo havia setenta e cinco anos sem interrupção sob o nome do Arcanjo da Penitência, tremia.

Não tremulava. Tremia. Há diferença. Tremular é da chama, do material — uma corrente de ar, uma cera mal centrada, uma combustão imperfeita, e a chama tremula; é fenômeno físico. Tremer é da luz, da própria luz, antes da chama; é fenômeno metafísico, e nas velas de Lúmen, que não tremulam, jamais tremulam, jamais — porque o Lúmen é a luz mais quieta que os homens já fabricaram, e o seu defeito é exatamente esse, o de não responder ao mundo material — em uma vela de Lúmen, tremer é coisa que se reconhece sem se confundir, e que se reconhece uma vez na vida, se se reconhecer, porque uma vez é o suficiente; tremer significa, na linguagem técnica das Brancas, que o Anjo está pedindo passagem.

Iván viu. Estela viu também — e estava vendo havia, segundo o relógio da escada que Iván agora calculava em silêncio, doze ou treze minutos.

— Há quanto tempo? — perguntou Iván, com a voz mais quieta que conseguiu, porque Brancas, mesmo no gradus septimus, mantêm a voz quieta.

— Treze minutos.

— Por que não chamou Madre?

— Não dá tempo.

— Não dá tempo?

— Está vindo agora, Korlavna. Está vindo agora.

Sister Estela entregou o cíngulo de turno antes da hora. Levantou-se. Caminhou em direção à porta canônica. Não fez as três reverências às Sete Velas; o protocolo de emergência permite. Iván ficou no degrau inferior, com o cíngulo de turno nas duas mãos, olhando para a vela de Sariel que tremia.

E então a vela de Mikahel, primeira da fileira, começou a tremer também.

E então a de Gabriel, segunda.

E então — Iván sentiu o ar do santuário apertar, como apertam os tímpanos antes da chuva forte — todas as sete começaram a tremer ao mesmo tempo, e não havia palavra técnica nos manuais para o que aquilo era, porque o que aquilo era não acontecia, ou se acontecia, acontecia uma vez por geração, e a Branca que tinha registrado em diário a última ocorrência tinha morrido em 1809, e o diário estava no Cofre do Coro, e Iván nunca o tinha lido, e Madre Doroteia talvez nem soubesse que existia.

Iván Korlavna, vinte e quatro anos, eslava vykhradiana, filha de mineradores de Cracoviana, em ano quatro de contato pleno com sobrevida estimada em seis a oito meses, ajoelhou-se sobre o cíngulo de turno e fez a única coisa que sabia fazer naquela situação que os manuais não cobriam: rezou.

Rezou no russo arcaico que aprendera no colo da mãe e que Madre Doroteia tinha tentado, sem sucesso, fazê-la trocar pelo latim eclesial nas orações privadas. Rezou três Pai Nossos. Rezou as três invocações do Rito Pactuário Inverso — não o pactuário, o pactuário inverso, que é a oração que se faz quando se está cercado e não há mais nada a oferecer senão o próprio silêncio. Rezou um verso de Salmo que ela tinha aprendido sem entender, em latim que ela pronunciava com sotaque eslavo grosso, manus tuas in manus tuas, embora soubesse que a frase original era outra e que o original começava com In, mas o seu cérebro, agora, nesta espessura, não estava entregando o resto da frase.

Foi quando o silêncio do santuário se converteu em outro silêncio, e ela soube — sem ter sido instruída, sem ter sido avisada, sem ter sido preparada, embora todas as Brancas saibam, no fundo, que isto acontece uma vez — que o Anjo tinha entrado.

Não viu. Não cheirou. Não ouviu. Sentiu dentro — e a palavra dentro já é uma traição da experiência, porque não era dentro de nada que ela pudesse situar; era um dentro anterior ao corpo, um dentro de onde o corpo é projetado por inteiro, e Iván, que tinha aprendido a reconhecer o seu próprio corpo em horas de jejum e oração e contato menor, perdeu por um instante a capacidade de saber onde acabava ela e começava o santuário.

O Anjo não falou. Não fala. Nunca falou em palavra de boca; os Anjos depositam conhecimento implantado, e o que Iván recebeu, naquele instante, foi um conhecimento de dois itens.

O primeiro item: um nome.

O segundo item: um sinal.

O nome era um nome de homem. Cardeal. Não era um cardeal que ela conhecesse pelo rosto, porque Brancas não viam cardeais a não ser em ocasiões litúrgicas, e nas ocasiões litúrgicas os cardeais usavam mitra e estola e o rosto tinha pouca utilidade. Mas o nome veio inteiro, sintaxe inteira, como um cartão sob a porta: Lukas Vorenz. Veio também a função: Coronato sênior. Função rotativa de registro dos jantares pontifícios internos. Veio também o tempo: Doze anos. Pacto silencioso. Lukas Vorenz. Doze anos.

O segundo item — o sinal — era um gesto. Uma maneira de mostrar que ela sabia, sem precisar dizer. Voltado contra ela mesma, este sinal: significava que se ela ousasse falar, a queima dela aceleraria. Você pode falar. Você pode escolher falar. Mas falar custa. Falar reduz o tempo restante. Que era oito meses; passará a seis. Que era seis; passará a quatro. Falar é tua escolha.

E foi tudo. O Anjo retirou-se. As Sete Velas pararam de tremer, uma por uma, na mesma ordem com que tinham começado — Mikahel parou primeiro, depois Gabriel, depois Sariel, depois Rafael, depois Uriel, depois Camuel, depois Jegudiel — e por dois ou três segundos o santuário voltou ao silêncio comum, ao silêncio-residual de toda noite, ao silêncio sem espessura.

Iván Korlavna ficou ajoelhada. Sangrava pelo nariz — sangrava pouco, mas sangrava, e o sangue tinha o cheiro morno e mineral que ela conhecia das vezes anteriores em ano três e ano quatro, e o sangue não era em si o problema, o problema era o que o sangue indicava no contador interno que ela carregava havia agora quatro anos. Limpou com o avesso da manga do hábito branco. Não rezou de novo. Não tinha mais palavras na cabeça. Não chorou. Não desmaiou — tinha pensado, por uma fração de segundo, que desmaiaria, e estava preparada para isso, e até teria gostado, porque desmaiar resolveria por algum tempo o problema imediato de saber o que fazer agora.

Mas não desmaiou.

Levantou-se. Colocou o cíngulo de turno na cintura. Fez as três reverências às Sete Velas. Caminhou até o nártex. Voltou. Não — não voltou. Ficou parada no degrau inferior. Sentou-se na pedra.

E pela primeira vez em quatro anos de turnos, em centenas de vigílias, em incontáveis horas de silêncio profissional sob aquelas chamas que jamais tremulavam, Iván Korlavna fez uma coisa que nenhuma Branca canonicamente deveria fazer durante turno: pegou o cíngulo, soltou-o de novo, segurou-o nas duas mãos, e falou em voz alta sozinha.

Disse:

— Cardeal Lukas Vorenz.

Ouviu o próprio nome dele na própria voz. Não tinha melhorado. Não tinha piorado. O nome continuava sendo o que o Anjo entregara. Vorenz. Coronato sênior. Doze anos. Pacto silencioso.

Repetiu. Por costume veherênico — embora ela fosse vykhradiana, e nunca tivesse posto pé num templo veherênico, e nunca tivesse sequer ouvido o Rito antigo —, repetiu três vezes, exatamente como os anciões selavam. Não soube por que três vezes. Madre Doroteia tinha-lhe ensinado uma.

— Cardeal Lukas Vorenz. Cardeal Lukas Vorenz. Cardeal Lukas Vorenz.

A vela de Sariel, na fileira, continuava firme. As outras seis também. Iván Korlavna, ano quatro, sobrevida agora reduzida — quatro horas e a queima já tinha começado a contar a baixa —, encostou a têmpora contra a pedra do degrau inferior do altar e esperou que a Madre Doroteia chegasse de manhã, ou que o relógio batesse oito horas, ou que algo no mundo lá fora se movesse para receber dela este nome que ela carregava agora como se carrega um filho de cobre, pesando e mordendo.

Lá embaixo, no Quarto Norte, em uma câmara apartada onde um camareiro de trinta e quatro anos de serviço chorava sem saber o que tinha visto, o Inquisidor Reinhardt Voss começava o seu primeiro interrogatório da semana.


IV. O Primeiro Dia

Adriano Veris atravessou o pátio do Palácio Pontifício com a mão direita segurando o livro de horas e a esquerda fechada sob o manto, como sempre, como há vinte e cinco anos. A manhã de outubro estava clara — uma daquelas manhãs raras da Estagnação tardia em que o smog se levantava por algumas horas e a cidade, por engano ou por liberdade momentânea da meteorologia, deixava entrever que sob a fumaça permanente ainda havia céu. O sino do convento da Roma Velha bateu oito horas. A inscrição em latim sobre o portal interno do Palácio — NEMO INTRAT NISI VOCATUS, ninguém entra senão chamado — recebia, naquela manhã, oitenta e quatro homens chamados; vinte e quatro Cardeais-Eleitores Coroados, vinte e dois cardeais sem coroação convocados como observadores, sete Mitrados Maiores em função consultiva, oito secretários, vinte e um diáconos auxiliares, dois inquisidores em vigília de procedimento, e ele — Adriano Veris, Reformados, mão esquerda perdida em Solar do Crepúsculo, sessenta e sete anos, refugiado veherênico que ainda rezava o Rito antigo em particular.

O Conclave de Emergência abria às nove. Tinha-se uma hora de protocolo: reverência ao corpo do Um, que jazia em paramentos no salão do catafalcum; oração coletiva; verificação dos cabos da Cúria; conferência das credenciais. Adriano não tinha pressa. Adriano nunca tinha pressa, embora reconhecesse em si mesmo, naquele momento, uma curiosidade fria e quase intrusiva — uma curiosidade de inquisidor, ele admitiu, e isto o desconcertou levemente, porque a curiosidade de inquisidor era exatamente o defeito profissional que ele desprezava nos colegas que não conseguiam manter cardinalato e profissão de fé na mesma pessoa — a curiosidade de saber quem entre os vinte e três outros cardeais coroados tinha dormido naquela noite, e quem não tinha dormido, e por que.

O salão do catafalcum. Coronatus V no centro, vestido em paramento branco e ouro, com a tiara dos Reconhecidos depositada ao lado esquerdo, junto à mão fechada — porque os paramentadores tinham-no posto com as duas mãos fechadas, como exigia o rito do morto pontifício, embora Adriano notasse, ao se aproximar para a reverência, que a mão direita do Um estava fechada de um modo levemente errado, como se quem a fechara tivesse hesitado antes do gesto final, ou como se a rigidez já se tivesse instalado antes da paramentação, o que sugeria, no cálculo frio que Adriano não queria fazer mas fazia, que o corpo tinha demorado mais para ser preparado do que o protocolo previa, e que isto significava — talvez, ou não — que a autópsia litúrgica do Hospital tinha sido demorada, e que a demora tinha sido por algum motivo técnico, e que o motivo técnico era informação que ainda não tinha sido transmitida ao Conclave.

Adriano fez a reverência. Sussurrou o Domine dona ei requiem. Olhou para o rosto morto. O Um tinha sessenta e oito anos. Adriano tinha sessenta e sete. Em alguns conclaves ele tinha sido cogitado como possível Reconhecido; em nenhum deles tinha sido apresentado formalmente como candidato; e em todos eles, ele tinha agradecido a Deus por não o ser, porque ser o Um era assumir o canal angélico, e assumir o canal angélico era queimar mais rápido do que ele queria queimar. Ele queria queimar devagar. Tinha um noviço, Tomáz, no leste. Tinha um livro de horas. Tinha a oração veherênica privada. Queimar devagar era o seu projeto. E olhando para o rosto morto do Coronatus V — que tinha queimado em seis anos completos como Um, sobrevida média —, Adriano confirmou-se na sua aversão. Não eu, pensou. Por favor, não eu.

Saiu do salão do catafalcum pela porta lateral e entrou na Antecâmara dos Coroados, onde o protocolo do dia previa que os vinte e quatro cardeais-eleitores aguardassem antes da entrada formal no Conclave propriamente dito. A Antecâmara estava cheia. Dezenove cardeais já tinham chegado. Cinco ainda não. Adriano contou — porque contar era o que ele fazia em situações sociais para se ocupar enquanto observava —, contou e identificou quem faltava: o Cardeal Lukas Vorenz, dos Coronatos; o Cardeal Khorvic, dos Veligradenses; o Cardeal Tehmunn, Veligradense também; o Cardeal Helsinki, dos Hospitalários; e o Cardeal Pradian, Independente do Maritima Coronata. Os outros dezenove estavam dispostos em três grupos visuais que reproduziam exatamente o mapa político da Cúria: os Coronatos junto ao lustre central, em casacas escarlate de gala, conversando entre si em tom contido como o protocolo exigia; os Reformados em meia-lua afastada da janela leste, em estolas mais simples, pasta na mão como mercadores ao banco — como ele tinha escrito a Tomáz na noite anterior, e pensou agora, com leve constrangimento, que talvez tivesse sido injusto na metáfora, porque havia ali três Reformados que eram homens de fé tão real quanto a dele; e os Inquisitoriais — quatro deles —, em estolas pretas com fio de prata, em pé num canto, sem conversar, com aquela imobilidade técnica que era marca da facção.

Adriano caminhou para os Reformados. Cumprimentou o Cardeal Sebastien Vidor, sessenta e dois anos, decano da facção, com a inclinação canônica. Vidor retribuiu. Trocaram três frases mínimas — o tempo (frio), a saúde (ainda passável), a missa matinal (rezada). Não mencionaram o Um. Não mencionaram o Conclave. Não mencionaram nada do que estava no ar de todos. Era assim que Reformados se cumprimentavam no primeiro dia do Conclave: trocando exatamente o que não importava, para que o que importava ficasse intacto até a sala fechada.

Em algum ponto desta inutilidade ritual, Adriano olhou de soslaio para a porta lateral por onde os retardatários ainda chegariam. E foi exatamente neste olhar que viu — durante uma fração de segundo, antes de a porta se fechar atrás de quem entrava — uma figura que não pertencia à Antecâmara dos Coroados, e que portanto, em rigor, não deveria estar ali.

Uma Branca Médium. Hábito branco sem marca. Cabelo curto sob a touca canônica. Mãos vermelhas — fenômeno conhecido nas Brancas em pós-turno de Vigília intensa, vasos superficiais dilatados pela exposição prolongada à temperatura artificial das chamas de Lúmen, e Adriano reconheceu de imediato porque tinha estudado em juventude. A Branca passou pelo corredor lateral com pressa contida, falando com um diácono auxiliar — Adriano não ouviu o que dizia, porque a distância era de uns vinte passos e o ruído de fundo da Antecâmara absorvia —, mas viu o diácono balançar a cabeça, viu a Branca insistir, viu o diácono balançar a cabeça outra vez, com aquele balanço de quem repete uma negativa que já tinha dado e que se aborrecia de ter de dar de novo.

Adriano interrompeu Sebastien Vidor no meio da quarta frase desnecessária. Pediu licença com uma reverência discreta. Caminhou até a porta lateral. Saiu para o corredor.

A Branca, agora, estava parada contra a parede, com uma das mãos no peito, respirando devagar. Não chorava. Brancas não choravam. Mas estava em estado que, na catalogação interna de Adriano, ele teria classificado como desgaste agudo — categoria três da escala de Hospitalários sobre exposição angélica recente. Ela viu Adriano chegar. Olhou para ele sem reconhecer o rosto.

— Sister. — Adriano falou com aquela voz baixa que reservava para os doentes e os moribundos. — Você precisa de alguém?

— Eu preciso falar com um Cardeal-Eleitor.

— Você está falando com um.

— Não com você. Com... — ela hesitou, e Adriano viu nela a hesitação técnica de quem foi treinada a não revelar nome de cardeal a cardeal nenhum sem autorização da Superiora.

— Sister, qual é o seu nome?

— Korlavna. Sister Iván Korlavna. Eu sou da Vigília Perpétua. Turno noturno.

Korlavna. Adriano registrou. Korlavna. Era um sobrenome eslavo, vykhradiano provavelmente, mineradores. E a Vigília Perpétua era a guarnição das Sete Velas. E ela estava aqui, no corredor da Antecâmara dos Coroados, sozinha, em pós-turno, com mãos vermelhas e em desgaste agudo, uma hora antes da abertura do Conclave, tentando falar com um cardeal específico.

Adriano não era inquisidor. Mas tinha vivido o suficiente para reconhecer, à distância de cinco palavras, uma testemunha em situação irregular.

— Korlavna — disse, baixo. — Você esteve em turno esta noite. Algo aconteceu.

— Algo aconteceu — ela concordou.

— Eu vou te ajudar. — Adriano olhou em volta. O corredor estava vazio salvo pelo diácono que se afastava agora, claramente aliviado por ter delegado o problema. — Eu vou te ajudar, mas você precisa entender que se contares para mim, e eu não for a pessoa que o Anjo te disse para procurar, eu vou te entregar à pessoa correta sem te trair. Está claro?

Iván Korlavna olhou para ele em silêncio. Não tinha pedido nem mencionado o Anjo. Mas Adriano tinha dito o Anjo com aquela naturalidade dos cardeais antigos que viveram o suficiente para deduzir o sobrenatural a partir dos sintomas profissionais, e nisto ela reconheceu uma coisa que a sua experiência de quatro anos como Branca não lhe permitia explicar em palavras técnicas mas que ela sentiu como reconhecimento — o reconhecimento de que aquele cardeal de cabeça grisalha e mão esquerda fechada sob o manto, com o livro de horas na destra e olhos de quem dormiu pouco, acreditava. Acreditava no que estava acontecendo. Não com a fé performática dos Coronatos no lustre central. Acreditava com a fé operacional de quem mediu o pó.

— Eu preciso falar com... — começou Iván, e parou outra vez, e Adriano percebeu que ela ainda hesitava porque o protocolo das Brancas era rígido nesta parte específica, e que ela seria castigada por Madre Doroteia se desse o nome do cardeal-alvo a um cardeal-não-alvo. Mas ela estava em desgaste agudo. E o cardeal-não-alvo estava acreditando. E o Anjo, que o conhecimento implantado tinha entregado, não lhe dera proibição expressa de delegar a mensagem.

— Eu preciso falar com um Inquisidor — disse afinal, mudando de rota. — Um Inquisidor Reformado. De alta posição.

Adriano não pestanejou. Inquisidor Reformado de alta posição: havia exatamente um, naquela hora, naquele Palácio, na função de Inquisidor-em-Vigília de Procedimento do Conclave de Emergência — Reinhardt Voss, Inquisição Reformada, brytônico, quarenta e cinco anos, com fama de não confundir privação corporal com clareza investigativa.

— Eu sei quem é — disse Adriano. — Eu vou levá-la até ele.

— Agora?

— Imediatamente. — Adriano hesitou meio segundo. — E Sister Korlavna.

— Sim.

— Quando você falar com ele, eu vou estar na sala. Se não me quiser ali, eu saio. Mas se eu estiver ali, eu posso ser útil. Eu sou Adriano Veris. Reformados.

Iván Korlavna olhou-o por dois segundos. Calculou — sem saber o que calculava, porque ela não tinha treinamento em cálculo político, mas algo no rosto do cardeal velho lhe dizia que aquela informação adicional, Reformados, era pedido tácito de permissão para presença, e que ela podia recusar a permissão, e que ele a respeitaria.

— O senhor pode ficar — disse ela.

Adriano não esperou. Ofereceu o braço direito como apoio. Iván aceitou sem cerimônia. Saíram do corredor pela porta dos serviços. E em três minutos — três minutos durante os quais Adriano calculou em silêncio que tinha agora cinquenta e sete minutos até a abertura do Conclave, e que se a conversa com Voss durasse mais que trinta, ele chegaria atrasado, e que chegar atrasado era escândalo menor mas escândalo — chegaram à porta da câmara onde Reinhardt Voss, naquele exato momento, estava terminando o seu segundo interrogatório da semana, com o Camareiro Bernardo, que continuava a chorar sem parar.


V. O Suspeito

Voss tinha começado por Bernardo às quatro e dezessete da madrugada. Tinha terminado às seis e cinquenta e dois. O camareiro de trinta e quatro anos de serviço, três Pontífices, tinha contado tudo o que sabia, e o tudo o que sabia era — Voss verificara — exatamente nada de útil: Bernardo tinha servido o vinho consagrado a partir do jarro central, conforme rito; tinha enchido o copo do Um primeiro, conforme rito; tinha enchido os sete copos dos cardeais em sequência horária, conforme rito; tinha recuado três passos atrás da cadeira papal e ali permanecido, mãos cruzadas sobre o avental litúrgico, conforme rito; não tinha visto nenhum dos cardeais tocar no copo do Um; não tinha visto nenhum movimento incomum; não tinha visto absolutamente coisa nenhuma, porque Bernardo, em trinta e quatro anos de serviço, tinha desenvolvido a competência profissional dos camareiros litúrgicos de não ver nada que não fosse explicitamente solicitado, e esta não-visão era a sua honra, e a sua honra era no fim das contas a única coisa que tinha a oferecer à Cúria além de mãos firmes para servir vinho.

Voss tinha registrado o depoimento. Tinha selado. Tinha entregado Bernardo aos auxiliares do Hospital para sedação leve — porque o velho não conseguia parar de tremer, e tremor prolongado em camareiro litúrgico após evento desta gravidade exigia, segundo o protocolo, sedação supervisionada. Bernardo, ao ser levado, tinha agarrado o pulso de Voss com a força inesperada dos velhos em pânico e tinha dito, em latim eclesial que misturava com brytônsh por descontrole emocional, eu serviria de novo, eu serviria de novo, eu não vi, eu não vi. Voss tinha ficado quieto por alguns segundos. Depois tinha respondido, em brytônsh puro porque Bernardo era brytônico de nascimento ainda que tivesse servido em Aurum Roma trinta e quatro anos: Eu sei. Eu acredito. Vai descansar. E tinha desencaixado os dedos do velho do seu pulso com a paciência de quem desencaixa um animal pequeno preso em um arame.

E agora, às sete e dez da manhã, com sono acumulado mas operacional, Voss estava na câmara três outra vez, sozinho, lendo o depoimento que Bernardo tinha assinado quando entrou a Sister Iván Korlavna conduzida por um cardeal velho de mão esquerda fechada sob o manto.

Voss reconheceu o cardeal. Adriano Veris. Reformados. Decano honorário da facção, embora não decano formal, porque o decano formal era Sebastien Vidor. Veris tinha sido inquisitor menor em juventude, antes de subir ao cardinalato. A Reformada arquivava todos os cardeais com histórico inquisitorial — Voss tinha lido o dossiê de Veris havia anos, por curiosidade —, e Veris constava como integridade aceitável, classificação técnica que a Reformada usava para descrever cardeais que não tinham culpa registrada mas que tinham, em situações específicas, mostrado capacidade de operar fora do protocolo por motivo justificável. Era uma classificação rara. Voss respeitava-a.

— Inquisidor — disse Veris, à porta. — Esta jovem deseja falar com você. Eu pedi permissão para acompanhar. Ela concedeu.

Voss avaliou a Branca em meio segundo. Mãos vermelhas — desgaste agudo —, palidez residual, manchas escuras subocular, postura ainda controlada mas no limite do que a Reformada classificaria como categoria três. Olhou para Veris. Veris devolveu o olhar com a serenidade dos cardeais antigos que aprenderam a ser olhados sem se ofenderem.

— Sister, — disse Voss, à Branca — entre. Cardeal Veris, o senhor pode acompanhar. Por favor, sentem-se.

Iván Korlavna sentou na cadeira que Voss lhe indicou. Veris sentou-se ao lado dela, levemente atrás, posição protocolar de testemunha acompanhante. Voss sentou de frente, fechou o caderno de Bernardo, deixou-o de lado, abriu um caderno novo.

— Sister Korlavna. Comece pelo começo. Em que turno?

— Turno noturno. Comecei às quatro horas.

— Esta madrugada?

— Sim.

— Em que altura do turno?

— Treze minutos depois de eu chegar.

Voss anotou. Treze minutos. Bernardo tinha servido o jantar no Quarto Norte às nove da noite anterior. Coronatus V tinha caído por volta das nove e dezessete. Pohl chegara à cena às nove e quarenta e cinco. Voss chegara às onze e doze. Os interrogatórios dos cardeais iniciaram à meia-noite e quinze. O interrogatório de Bernardo às quatro e dezessete. A descida — agora Voss tinha um nome técnico para o que ainda não sabia o que era — a descida tinha ocorrido às quatro e treze ou perto disso. Sete horas depois da queda do Um.

— O que houve no minuto treze?

Iván Korlavna olhou para a parede atrás de Voss. Não para Voss. Voss reconheceu o desvio. Brancas em relato pós-contato angélico não conseguiam olhar diretamente para interrogadores nos primeiros relatos — os manuais da Hospitalária registravam. Voss respeitou.

— A vela de Sariel começou a tremer.

— Tremer — Voss repetiu, anotando. — Não tremular.

— Tremer.

— Você tem certeza da distinção?

Iván olhou agora para Voss. Apenas um segundo. Mas Voss reconheceu, naquele segundo, a impaciência técnica de quem é submetida a perguntas básicas por interrogador que precisa fazê-las para protocolo.

— Inquisidor. Eu sou Branca há doze anos. Estou em turno na Vigília há quatro anos. Eu sei a diferença.

— Boa. Continue.

— Em sequência, as outras seis começaram a tremer também. Sister Estela de Sárvar, que estava no turno anterior, viu antes de eu chegar. Treze minutos antes. Ela tinha avaliado, no julgamento dela, que não havia tempo para chamar a Madre Doroteia. Quando eu entrei, ela me entregou o cíngulo, fez três reverências, saiu pelo nártex. As Sete começaram a tremer juntas pouco depois. Eu ajoelhei no degrau inferior. Eu rezei. Em russo arcaico, depois em latim eclesial mal-pronunciado, depois em silêncio. O Anjo entrou. Eu não vi. Eu não ouvi. Eu senti dentro. O Anjo me entregou conhecimento implantado. Dois itens. Um nome de homem. Um sinal voltado contra mim, dizendo-me que se eu falar, a minha queima acelera.

Voss parou de anotar. Olhou para Iván. Olhou para Veris. Veris não tinha se movido. Voss voltou para Iván.

— Você decidiu falar.

— Sim.

— Por quê?

Iván Korlavna olhou outra vez para a parede atrás de Voss. Demorou nesta vez.

— Porque o conhecimento implantado, se eu não falar, fica em mim e morre comigo em seis meses. Se eu falar, ele opera. Eu tenho seis meses ou tenho seis meses. A diferença é se opera ou não.

Voss pousou a pena. Olhou-a inteira por dois segundos. Não disse nada. Voltou a pegar a pena.

— O nome.

— Cardeal Lukas Vorenz. Coronato sênior. Função rotativa de registro dos jantares pontifícios internos. Doze anos de pacto silencioso.

Atrás de Iván, Veris não se mexeu, mas Voss, que era treinado em reconhecer microcontrações no rosto humano, viu o cardeal velho fechar mais um pouco a sinistra debaixo do manto. Foi o único movimento. Suficiente para Voss saber que Veris registrara o nome com peso. Vorenz. Coronato sênior. Voss já tinha Vorenz na lista, por geometria de mesa — Vorenz era o único cardeal à direita do Um, com pasta aberta, com acesso direto ao copo durante a fração de segundo entre serviço e gole — mas a Reformada não age sobre geometria de mesa; age sobre prova litúrgica, e prova litúrgica era exatamente o que esta Branca, sentada à sua frente em desgaste agudo, tinha acabado de produzir.

— Sister.

— Sim.

— Para que esta informação seja operacional, o tribunal sumário do Conclave vai precisar de um testemunho seu registrado. Não anônimo. Com a sua face, com a sua voz, em câmara fechada do Conclave, ou em depoimento escrito assinado e selado e lido em sessão. Você entende o que isso significa?

— Significa que eu acelero a queima.

— Significa que você acelera a queima. Sim.

— Eu sei.

— Eu posso oferecer alternativas. Há protocolos de testemunho indireto. A Madre Doroteia, com depoimento de Branca anonimizado. Isto reduz peso processual mas mantém a Cúria informada.

— Inquisidor. Se for indireto, vão dizer que é histeria.

— Vão.

— Então tem que ser direto.

Voss anotou. Pousou a pena de novo. Olhou para Veris.

— Cardeal Veris. Posso pedir a sua opinião?

— Pode.

— O senhor é cardeal-eleitor. O senhor entrou em contato com esta testemunha por iniciativa própria, fora de protocolo. O senhor já carrega, neste momento, conhecimento que se for revelado prematuramente compromete a investigação. Como o senhor pretende operar nas próximas oito horas?

Veris levou três segundos para responder. Adriano sabia o que ia dizer. Tinha sabido desde o instante em que Korlavna se tinha apoiado no seu braço direito.

— Inquisidor, eu vou ao Conclave em quarenta e cinco minutos. Eu vou me sentar no meu banco habitual. Vou votar na primeira rodada conforme costume, no candidato que a minha facção indicar para teste de força — Reformados costumam apresentar candidato simbólico na primeira rodada, sem expectativa de vitória. Eu vou comportar-me como Reformados se comportam.

— E sobre Vorenz?

— Sobre Vorenz, eu não vou agir até o senhor me dizer que está pronto. Esta informação ficará comigo, e ficará com a Sister Korlavna, e ficará com o senhor, e com Pohl se o senhor decidir, e com ninguém mais.

— Por quanto tempo?

— Até o senhor encontrar a segunda prova.

Voss reagiu com uma rara contração na sobrancelha esquerda. Veris tinha ido um passo à frente do que Voss esperava. Segunda prova. Veris sabia que uma Branca em desgaste agudo carregando conhecimento implantado angélico era prova maior para um inquisidor reformado, mas prova menor para um tribunal sumário composto majoritariamente de Coronatos. Tribunal sumário aceitaria uma Branca apenas com respaldo material. Voss precisava da segunda prova.

— Cardeal — disse Voss —, o senhor pensa como inquisidor.

— Eu fui.

— Eu sei.

— Eu sei que sabe.

Os dois se olharam por dois segundos. Iván Korlavna, no meio, olhou para a parede atrás de Voss, depois para o chão, depois para as suas próprias mãos vermelhas, que não doíam mas que ela sentia distantes, como mãos de outra pessoa em colo emprestado.

— Sister — disse Voss. — Eu vou fazer um pedido. Você não precisa aceitar.

— Diga.

— Não testemunhe ainda. Permita-me trinta horas. Vou tentar a segunda prova. Se eu encontrar, o seu testemunho vira força conclusiva. Se eu não encontrar, e mesmo assim você testemunhar, será no segundo dia do Conclave em vez de no primeiro, e a queima que você vai pagar será exatamente a mesma — mas o caso estará mais firme. Trinta horas. Não testemunhe ainda. Volte para a casa das Brancas. Descanse. Coma. Beba água. Madre Doroteia pode ser informada, sob meu pedido formal, de que você está sob observação inquisitorial menor de procedimento; ela não vai interrogá-la. Em trinta horas, eu mando alguém buscá-la, ou eu mando recado de que não precisa vir.

Iván Korlavna pensou. Trinta horas. Cinco horas de sono talvez. Mais quinze horas de descanso ativo. Mais dez horas de retorno à casa das Brancas com sotaina trocada e cíngulo posto. Cabia. Não acelerava a queima de modo significativo. Aceitou.

— Trinta horas — disse.

— Trinta. — Voss anotou no caderno o horário. Sete e vinte e quatro da manhã. — Sister, mais uma coisa.

— Sim.

— O sinal voltado contra você. O Anjo te disse que se você falar, a queima acelera. Você falou comigo agora. Você sente alguma coisa?

Iván Korlavna parou. Considerou. Inspirou. Sentiu o corpo, na medida em que conseguia sentir o próprio corpo nessas horas finais de desgaste agudo. Sentiu o pulso. Sentiu o esterno. Sentiu o esôfago. Tudo dentro do esperado.

— Sinto a perda — disse. — Não mais do que esperado. Algo entre uma hora e duas horas, talvez. Sete a treze por cento de redução no total restante.

— Você calcula em percentagem.

— A Madre Doroteia me ensinou a calcular.

— Madre Doroteia merece minha admiração.

— A Madre Doroteia também não merece coisa nenhuma — disse Iván com a primeira leve aspereza que tinha apresentado em todo o interrogatório —, mas é bom inquisidor. É bom porque ensina a calcular. Coisa que cardeais não fazem.

Voss não comentou. Adriano Veris, ao lado dela, com a sinistra ainda fechada sob o manto, sorriu pela primeira vez naquela manhã, e o sorriso, como sempre, ficou no interior e não chegou à boca, porque ele, Adriano, tinha vanglória demais por uma manhã já.

— Sister — disse Voss, ao fim. — Vai.

Iván Korlavna levantou-se. Saiu sem reverência ao inquisidor — não havia protocolo de reverência das Brancas aos inquisidores —, mas com uma leve inclinação ao Cardeal Veris, que ela já tinha entendido como aliado. Veris devolveu a inclinação com a destra estendida. Iván saiu. A porta fechou. Voss olhou para Veris.

— Cardeal.

— Inquisidor.

— Trinta horas é pouco tempo para a segunda prova.

— Eu sei.

— Como espera ajudar?

Adriano Veris pegou o livro de horas que tinha pousado sobre o colo durante o interrogatório. Folheou-o até a página da terça-feira da semana, a página do dia. Mostrou-a a Voss. A página continha a oração do dia em latim eclesial, e nas margens, em letra miúda e cursiva veherênica que Voss não conseguiu ler — porque Voss não lia veherênico —, três anotações pessoais que o cardeal tinha feito em algum momento naquela manhã ou na noite anterior.

— Aqui — disse Adriano, e apontou para a primeira anotação. — Tenho um nome de copeiro auxiliar do Vorenz que serviu no convento dos Coronatos na noite de domingo, três dias antes do jantar fatal. Tenho razão de acreditar que esse copeiro auxiliar é da casa Brask, da Meridia, e que foi posto no convento dos Coronatos por arranjo discreto do Cardeal Lúmen Brask, Independente meridiano, três anos atrás, por motivo que à época não era declarado mas que agora, conjecturalmente, suspeito que era a preocupação do Brask com Vorenz. — Apontou para a segunda anotação. — Aqui, tenho um endereço em Argênteo onde, segundo um informante da Reformada que serve à Velinia há nove anos, Vorenz mantém apartamento sob nome falso. Eu sei o nome falso. Vou te entregar. — Apontou para a terceira. — Aqui, tenho a informação de que o copo do Um no jantar fatal foi trocado quarenta e oito horas antes do jantar — não substituído, apenas trocado de posição na vitrina dos copos pontifícios privados; mas qualquer troca na vitrina é registrada no caderno do Camareiro Bernardo, e Bernardo, que o senhor já interrogou, esqueceu de mencionar porque não percebeu que era informação relevante.

Voss olhou para o cardeal por três segundos sem dizer nada. Pegou as três anotações com a pena. Transcreveu para o caderno em latim eclesial, porque o cardeal lhe ditou em latim eclesial, abrindo mão da privacidade do veherênico para que o inquisidor pudesse registrar oficialmente.

— Cardeal Veris.

— Sim.

— Como o senhor sabe tudo isso?

— Inquisidor, — disse Adriano —, há vinte e dois anos que eu sou cardeal Reformados em Aurum Roma. Eu vivo numa cidade onde Reformados são minoria. Eu desenvolvi, ao longo desses vinte e dois anos, uma rede de informantes que a Reformada não conhece, e que serve, por motivos teológicos que eu não posso explicar ao senhor agora, apenas a cardeais que rezam o Rito Veherênico em particular. Esta rede tem três regras: primeira, não age sem provocação Coronata; segunda, não delata heresia funcional; terceira, não opera fora do continente. Cumpre essas três regras há vinte e dois anos. Hoje, pela primeira vez, ela vai operar em favor de uma investigação inquisitorial Reformada. Eu peço que o senhor não pergunte sobre a rede depois. Eu peço que o senhor use o que ela entrega, e esqueça que entrega.

Voss anotou. Pousou a pena. Levantou-se. Olhou para o cardeal sem cinismo, sem admiração, sem nada que pudesse ser lido como julgamento. Apenas a olhar profissional do inquisidor que reconhece, em outro homem, capacidade técnica de algum tipo.

— Cardeal.

— Inquisidor.

— Trinta horas é tempo suficiente.

— Eu sei.

Adriano levantou-se. Pegou o livro de horas. Inclinou-se em cumprimento canônico. Saiu da câmara três.

E enquanto saía, e enquanto Voss começava a redigir a ordem de operação para Pohl — entrar no apartamento clandestino de Vorenz em Argênteo nas próximas seis horas, sem mandado público, sob autoridade direta de Voss; interrogar o copeiro auxiliar Brask em sigilo absoluto antes do meio-dia; cruzar o caderno do Bernardo com os registros da vitrina pontifícia —, o sino do Palácio Pontifício bateu nove horas, e o Conclave de Emergência abriu as suas portas com a oração inaugural, e os vinte e quatro Cardeais-Eleitores Coroados, agora todos presentes inclusive Vorenz que tinha chegado com vinte minutos de atraso citando indisposição estomacal, entraram em sessão.

A votação inicial seria às onze da manhã. A primeira rodada de fumaça preta sairia à uma da tarde. Cabia trabalho.


VI. A Carta

Adriano Veris recebeu a carta-resposta de Tomáz na manhã do quarto dia de Conclave.

Foram quatro dias de votação inconclusiva — quatro fumacas pretas, quatro turnos sem dois terços, quatro encerramentos diários com bispos cansados retornando às suas residências em silêncio ressentido. As coisas dentro do Conclave tinham se assentado conforme a aritmética que todos esperavam: Coronatos com onze votos sólidos liderados por Lukas Vorenz no papel de articulador (porque o Vorenz, observava Adriano com aquela frieza interna que só nascia quando se observa um possível pactuado a operar com calma absoluta entre dois turnos de votação, mantinha-se exatamente o que sempre tinha sido — articulador competente, voz medida, sorriso na altura certa, candidatura Coronata gravitando em torno do Cardeal Pradianus de Aurum Romana, decano dos tradicionais); Reformados com sete votos firmes liderados por Sebastien Vidor, apresentando como candidato simbólico o próprio Vidor, que sabia que não venceria; Inquisitoriais com quatro votos compactos, conduzidos pelo Cardeal Garmund de Limes Orientalis, com candidatura própria que ninguém esperava ver coroada; Veligradenses com dois votos divididos; Hospitalários com um voto único do Cardeal Helsinki, que oscilava conforme cada turno como oscila um homem que sabe que o seu voto é o fiel; e os sete Independentes com sete votos imprevisíveis, fragmentados por região e tendência pessoal, incluindo o silencioso Cardeal Lúmen Brask, de Meridia, que sentava no banco mais afastado da janela e que, em quatro turnos, tinha votado quatro vezes em quatro candidatos distintos — uma vez no Pradianus dos Coronatos, uma vez no Vidor dos Reformados, uma vez no Garmund dos Inquisitoriais, uma vez em si mesmo (gesto canônico de protesto, sem peso processual) — e que durante os intervalos não falava com ninguém, apenas lia o seu livro de horas em meridiano latino arcaico que poucos cardeais entendiam, e bebia água sem nunca aceitar vinho.

A carta-resposta de Tomáz chegou pelo correio diplomático da Cúria, com o lacre de Hárkovgrad. Adriano recebeu na sua câmara privada do Palácio Pontifício, onde estava hospedado durante o Conclave conforme protocolo, no fim do café da manhã do quarto dia. O secretário, Padre Mateus, entregou em bandeja. Adriano olhou para o lacre, reconheceu o sinete grosseiro do noviciado de Hárkovgrad — uma cruz patente sobre uma silhueta de torre — e sentiu, pela primeira vez em quatro dias, algo que se assemelhava a alívio.

— Padre Mateus.

— Sim, eminência.

— Por favor, traga chá. E feche a porta atrás de si.

O secretário obedeceu. Adriano sentou-se à mesa pequena junto à janela leste — a janela leste do Palácio Pontifício dava para o pátio interno onde, naquela hora da manhã, jardineiros consagrados podavam os ciprestes votivos com cuidado litúrgico —, abriu o lacre com a destra, desdobrou o papel. Tomáz tinha escrito em latim eclesial sem floreio, com letra apertada de noviço cansado, em três folhas.

Eminentíssimo, começava — e Adriano sorriu interiormente outra vez ao ler o vocativo formal, porque ele tinha pedido a Tomáz, quatro anos atrás, que o tratasse pelo nome em correspondência privada, e Tomáz tinha respondido, na sua primeira carta de noviciado, que eminentíssimo era a forma que sua mãe lhe ensinara para se dirigir a um cardeal e que ele preferia manter, e Adriano não tinha insistido, porque Tomáz era assim e isto, no fim, era exatamente o que tornava Tomáz a única pessoa em quem Adriano confiava sem reservas no continente — Eminentíssimo: a vossa última carta chegou pelo correio do dia 28 de outubro, dezessete dias depois de Hárkovgrad ter cessado o serviço regular dos cabos por motivo da insurreição vykhradiana menor de novembro. Eu sei que esta resposta chegará muito tarde, porque sei que o Conclave estará em curso quando esta linha for lida.

Adriano parou de ler por um instante. Olhou para o pátio. Os ciprestes na poda. Insurreição vykhradiana menor de novembro. Ele não tinha sabido. Os cabos de Hárkovgrad cortados por dezessete dias. Tomáz era cuidadoso em registrar essas coisas pequenas porque ele sabia que Adriano apreciava as miudezas geográficas. Continuou.

Sobre o que o senhor me escreveu — sobre a doutrina velha, sobre o demônio que cai apenas porque o tiro foi consagrado por quem ainda acreditava, sobre a tarefa de não ser o clérigo que perde a fé na hora em que mede o pó — quero responder em três pontos.

Primeiro: aceito. Aceito como doutrina. Aceito como dever. Aceito sem reserva ou negociação. Não consigo, nesta noite, escrevê-lo como o senhor escreveria, com a beleza ondulatória que o seu pensamento tem, porque eu sou ainda noviço e a minha sintaxe é a sintaxe do noviço, mas o sim que respondo é integral.

Segundo: eu vi, em Hárkovgrad, o oposto exato do que o senhor me descreveu. Vi um padre russo aqui, da nossa Ordem, capelão da guarnição, homem de quarenta anos, certificado, ungido, instalado canonicamente — vi este padre consagrar a Hashmalita do batalhão antes da expedição que partiu para o flanco norte na semana passada, em rito perfeito, com sintaxe litúrgica perfeita, com sinete perfeito; e vi a expedição voltar três dias depois com dezessete mortos e quatro possuídos — três soldados e o tenente — , e nos quatro possuídos as balas tinham passado direto, sem efeito, e os outros tinham sido mortos por balas que falharam exatamente como o senhor descreveu. E voltei para o capelão, depois do funeral, e perguntei se tinha rezado durante a consagração, e ele me respondeu que sim, naturalmente sim, e me olhou com olhos vazios; e eu entendi o que o senhor escreveu e nunca mais o esquecerei.

Adriano pousou a folha por um momento. Inspirou. Capelão. Padre russo da Ordem. Consagração tecnicamente perfeita. Tomáz tinha presenciado a tese central a operar em campo. Sentiu uma tristeza profissional curta — porque dezessete mortos era contagem operacional grande para uma frente menor de Limes Orientalis em outubro tardio — e uma alegria pedagógica curta — porque Tomáz tinha entendido sem que ele, Adriano, tivesse de explicar duas vezes. As duas emoções se cancelaram em segundos. Voltou ao papel.

Terceiro: sobre o senhor. Eu rezei, eminentíssimo, como o senhor pediu. Não pelo Conclave. Pelo senhor. Rezei na noite do dia que recebi, e na noite seguinte, e tenho rezado todas as noites desde então. Faço-o sem palavra, no jeito que os anciões veherênicos da minha aldeia me ensinaram em criança antes mesmo de eu saber ler — eu não sei se o senhor sabe, mas eu sou também veherênico de origem, do norte do Limes Orientalis, da aldeia de Strazhka, descendente do Conde Esteban de Brytomark que testemunhou a queda de Ivandir; minha mãe me ensinou o Rito antes de me deixar com a Ordem, e eu o esqueci, depois lembrei, depois esqueci, depois lembrei outra vez. O senhor nunca me perguntou e eu nunca disse, mas o senhor sempre soube, ou eu acho que sempre soube, e o que aprendi com o senhor sobre o demônio que cai ou não cai é exatamente o que minha mãe sussurrou na minha testa antes de me entregar à Ordem, com palavras outras mas com sentido idêntico. Eu rezo por o senhor todos os dias. Rezo em três séries de três. Três Pai Nossos, três Salmos, três silêncios. Como os anciões selavam. Volto à carta agora.

Eminentíssimo: eu não sei o que está acontecendo no Conclave. Eu não saberei até o correio diplomático trazer notícia, que talvez chegue dentro de outros dezessete dias, ou nunca. Quero que saiba isto: se o senhor é eleito Um, eu aceito. Se o senhor não é eleito, eu aceito. Se o senhor é morto antes de ler esta carta, eu aceito também, com uma reserva — que peço, então, vossa permissão póstuma para retornar a Aurum Roma e dizer pessoalmente ao próximo Pontífice, quem quer que seja, que o senhor foi a única pessoa em Aurum Roma que me ensinou a doutrina velha; e que esta doutrina, em Hárkovgrad, em outubro de 1888, em Limes Orientalis, em frente fronteira, é a única coisa que sustenta o que ainda funciona.

Vosso noviço, em fé e dever, Tomáz.

Adriano leu três vezes. Não rasurou nada — não havia rasura na carta, e portanto nada para ele rasurar mentalmente. Apenas leu três vezes. Em russo arcaico veherênico que ninguém em Aurum Roma fora de capela escondida da Maritima Coronata conheceria, ele murmurou, três vezes:

Domine, ne abscondas. Domine, ne abscondas. Domine, ne abscondas.

Pousou a carta sobre a mesa. Dobrou-a com cuidado. Beijou o lacre. Guardou-a no bolso interno da sotaina.

A porta da câmara abriu. Padre Mateus entrou com o chá. Adriano agradeceu sem voltar a cabeça. Tomou três goles. Levantou-se. Pegou a cruz peitoral, a estola, o livro de horas. Saiu da câmara em direção à Sala Verde do Conclave, onde a sessão do quarto dia abriria em vinte e dois minutos.

No corredor, ainda, parou. Reconheceu o passo do homem que vinha em sentido oposto antes mesmo de vê-lo virar o canto. Reinhardt Voss. Tinha em mãos uma pasta com cordão de cera vermelho, fechada por dois selos da Inquisição Reformada.

— Cardeal.

— Inquisidor.

— Segunda prova.

— Que tipo?

Voss não respondeu pela palavra. Levantou a pasta vinte centímetros, suficiente para Adriano ler a inscrição em latim eclesial nas faixas do cordão: PROBATIO LITURGICA SECUNDA, INVENTUM IN ARGENTEO, OCT. XXVIII MDCCCLXXXVIII, INQ. REF. Segunda prova litúrgica, encontrada em Argênteo, 28 de outubro de 1888, Inquisição Reformada. Adriano leu. Inspirou. Olhou para o teto da Antecâmara por dois segundos como quem agradece a Deus em discrição. Olhou de novo para Voss.

— Sister Korlavna?

— Avisada esta manhã. Vem por volta da hora dez. Vai testemunhar.

— Pronto.

— Pronto.

Adriano caminhou para a Sala Verde com a destra apoiada no livro de horas. A sinistra continuava fechada sob o manto. Em vinte e dois minutos abriria a sessão do quarto dia. A primeira votação da sessão estava prevista para as dez e meia. Voss alocaria a Branca para testemunho às onze, em sessão extraordinária convocada por requisição inquisitorial, conforme protocolo. A votação seria suspensa para a sessão extraordinária. A sessão extraordinária revelaria a prova. O Cardeal Lukas Vorenz cairia. O voto se redistribuiria. A votação de continuidade ocorreria à uma da tarde.

Adriano sabia toda esta sequência sem precisar pensar nela. Sabia também — e era esta a parte que ele não tinha contado nem a Voss nem a Korlavna nem a Tomáz nem a si mesmo até aquele instante — que na votação de continuidade da uma da tarde, os Reformados precisariam abandonar o candidato simbólico Vidor, e a sua facção iria, conforme cálculo dele, gravitar em direção a uma figura compromissora que ainda não tinha sido apresentada formalmente. Esta figura, Adriano sabia com a certeza dos cardeais antigos, seria ele próprio.

E ele recusaria.

E quando recusasse, indicaria, em alta voz no Conclave, o Cardeal Lúmen Brask, Independente meridiano, descendente daquela mesma casa Brask que tinha posto o copeiro auxiliar no convento dos Coronatos três anos antes, presumivelmente porque a casa Brask já tinha intuído alguma coisa sobre Vorenz e tinha agido com a paciência meridiana de quem espera o tempo da fruta certa.

Esta era a parte que Adriano confessava agora a si mesmo, à medida que caminhava, e que confessava — em vinte segundos de oração caminhada, em sintaxe veherênica — também a Deus. Domine, eu vou recusar a tiara. Domine, eu vou indicar outro. Domine, este outro é melhor do que eu, mais íntegro do que eu, mais novo do que eu, mais capaz de queimar adequadamente do que eu. Domine, eu te peço que me dês a humildade necessária para que esta recusa seja recusa de fé e não recusa de medo, porque eu reconheço em mim, neste momento, vinte por cento de fé e oitenta por cento de medo, e te peço que inverta a proporção até a uma da tarde.

A porta da Sala Verde abriu adiante. Os outros cardeais já entravam. Adriano apertou o passo. Em vinte e dois minutos abriria a sessão do quarto dia.


VII. A Sala da Vigília

Iván Korlavna entrou na Sala Verde do Conclave às dez horas e cinquenta e três da manhã, conduzida pela Madre Doroteia que vinha à esquerda, e pelo Inquisidor Reinhardt Voss que vinha à direita, e por dois sentinelas da Reformada que vinham atrás. Vestia hábito branco-sem-marca, cíngulo de Vigília, sem nenhuma insígnia que a identificasse fora da Ordem Branca. Mãos vermelhas, agora mais escuras que três dias antes — o sangue capilar mais espesso, a queima mais avançada. Cabelo recém-cortado pela Madre Doroteia naquela mesma manhã. Olhar fixo.

A Sala Verde tinha esse nome pelo tom do mármore das paredes — verde-do-coro, mineral encontrado apenas no Mar do Coro, polido em placas de cinco palmos por dez, dispostas em mosaico vertical desde o piso até o teto abobadado a vinte metros de altura. No centro da sala, em octógono regular, havia uma mesa única em forma de roda — a Mesa do Conclave, mesma roda de carvalho consagrado desde a fundação canônica em 1813 sob Aurelianus I, com vinte e quatro lugares ao redor para os Cardeais-Eleitores Coroados. Atrás de cada lugar, em pé na parede, um banco menor para o cardeal observador não coroado correspondente, designado a cada Cardeal-Eleitor por sorteio à abertura. No nicho leste da sala — único nicho na arquitetura, sem janela porque nenhuma luz natural se admitia em sala de Conclave —, ardia uma lâmpada de Lúmen acoplada à parede, replicando, em escala menor, a chama do Arcanjo da função do dia. Naquela manhã, ardia em nome de Camuel, Arcanjo do Discernimento, conforme calendário litúrgico.

Iván viu a mesa de longe quando entrou pelo corredor de servos — aquela porta lateral pela qual também entravam testemunhas em sessão extraordinária, conforme protocolo. Vinte e quatro homens, sentados em silêncio. Outros vinte e dois cardeais não-coroados nos bancos de parede. Sete Mitrados consultivos nos lugares secundários. Quatro inquisidores em vigília de procedimento, um deles Voss que se separara dela aos seus dois passos da porta para tomar a sua posição protocolar à direita do Decano-Presidente do Conclave. Tudo em silêncio. Tudo em ordem. Tudo em equilíbrio formal que ela, Iván Korlavna, vykhradiana, filha de mineradores, tinha vindo desequilibrar.

A Madre Doroteia, à esquerda, segurava-lhe o cotovelo levemente — não como apoio, porque Iván não precisava de apoio físico ainda, mas como contato simbólico de transferência: eu te entrego, Iván, à mesa que vai te ouvir; eu te transfiro de cuidada minha a testemunha tua. Iván ouviu o contato sem comentar. Avançou. Os passos das suas sandálias canônicas — sandálias finas, de couro morto, propositadamente desconfortáveis para manter a Branca atenta durante o turno — ecoaram no verde-do-coro do mármore. Vinte e três passos da porta até a posição da testemunha, em frente à mesa, no lugar marcado por um quadrado de mármore vermelho-do-coro, embutido no piso, do tamanho exato de dois pés humanos lado a lado.

Parou no quadrado. Madre Doroteia recuou três passos. Iván ficou sozinha no centro da sala, perante vinte e quatro Cardeais-Eleitores Coroados e ao Decano-Presidente — naquele Conclave, era o Cardeal Sebastien Vidor, Reformados, decano formal da facção por idade e antiguidade, sorteado para a presidência pelo conjunto da assembleia segundo costume — que se levantou agora, com solenidade litúrgica.

— Sister Iván Korlavna, da Ordem Branca, Vigília Perpétua, Aurum Roma. Você foi chamada perante este Conclave em sessão extraordinária por requisição da Inquisição Reformada, registrada no protocolo número 1144 da Era da Estagnação, datada 28 de outubro de 1888. Confirma a chamada?

— Confirmo.

— Você está em condições de testemunhar?

— Estou.

— Você compreende que tudo o que disser será registrado nos arquivos do Conclave, e que o seu nome ficará associado ao registro em perpetuidade?

— Compreendo.

— Você compreende que se for atestada falsidade, ainda que parcial, no seu testemunho, será submetida ao Tribunal Inquisitorial Pontifício?

— Compreendo.

— Você confirma, sob juramento solene à Vigília Perpétua, que toda informação que vai entregar é verdadeira ao seu melhor conhecimento?

— Confirmo.

Sebastien Vidor sentou-se de novo. Iván fez a inclinação canônica, uma só — Brancas inclinam uma só vez ao Conclave, em distinção respeitosa do triplo das Brancas em Vigília —, e começou a falar.

Falou em latim eclesial — não no russo arcaico do interrogatório com Voss, porque o Conclave exigia latim, e Iván tinha estudado o latim suficiente para isto, embora o seu sotaque eslavo grosso ainda permanecesse —, mas em latim com a sintaxe especial que as Brancas adquirem em ano três de contato pleno e que se chama, no jargão da Hospitalária, sintaxe Hashmal. É uma sintaxe que omite verbos auxiliares e privilegia substantivos litúrgicos, e que se torna gradualmente mais densa à medida que o falante avança no contato angélico, e que, ouvida por leigos, soa como verso bíblico transposto para prosa moderna. Os vinte e quatro Cardeais-Eleitores Coroados, sentados em silêncio à mesa, reconheceram a sintaxe imediatamente — porque cardeais conhecem sintaxe Hashmal por dever de ofício, e porque a presença da sintaxe é em si mesma testemunho de contato angélico recente, o que confere ao depoimento uma camada extra de credibilidade litúrgica que nenhum testemunho em latim eclesial comum poderia replicar.

Iván contou. Contou do turno. Contou de Sister Estela. Contou da vela de Sariel a tremer aos treze minutos. Contou das outras seis. Contou da queda do ar do santuário. Contou de ter se ajoelhado. De ter rezado. De ter recebido o conhecimento implantado, dois itens, um nome e um sinal. Contou — e aqui pela primeira vez a sala inteira sentiu o silêncio mudar de qualidade, porque até este momento a sala estava ouvindo uma testemunha qualquer, e desde este momento estava ouvindo uma testemunha angélica que estava prestes a pronunciar um nome — contou que o nome era de cardeal coroado, sênior, pactuado em silêncio havia doze anos.

Sebastien Vidor não interrompeu. O protocolo exigia que a testemunha falasse até o fim antes de qualquer pergunta. Iván continuou:

— O nome do cardeal pactuado é Lukas Vorenz. Coronato sênior. Doze anos.

Pronunciou. Lukas Vorenz. Em latim eclesial com sotaque vykhradiano. As três sílabas atravessaram a Sala Verde como uma faca em água parada.

Lukas Vorenz, em seu lugar à mesa do Conclave, lugar número sete em sentido horário a partir do Decano-Presidente, vestido em casaca escarlate de gala dos Coronatos com a estola triangular do sênior bordada em fio de ouro, não se moveu. Não pestanejou. Não respirou de forma visível. Manteve as mãos sobre os joelhos, em postura canônica de cardeal-eleitor em sessão.

E foi exatamente esta imobilidade que o traiu.

Porque um cardeal inocente acusado em sessão pública de pacto silencioso de doze anos teria reagido — com indignação, com gargalhada, com palidez, com qualquer coisa — em algum dos momentos da pronúncia. Coronato sênior em casaca de gala não controla a respiração superficial nessa situação a não ser que esteja acostumado a controlá-la, e estar acostumado a controlar a respiração diante de uma acusação dessa magnitude é em si mesmo prova circunstancial técnica do que se está acusando.

Voss notou. Adriano notou. Sebastien Vidor notou. Os Inquisitoriais, todos os quatro, notaram. E os Coronatos — em especial o Cardeal Pradianus, decano de fato dos Coronatos, ao lado direito de Vorenz na mesa — notaram com a percepção precisa dos políticos de longa data que reconhecem o exato instante em que um dos seus se torna passivo.

Sebastien Vidor levantou-se outra vez. Voltou-se para a mesa em formalidade plena:

— Sister Korlavna fala em sintaxe Hashmal, reconhecida como tal por este Conclave. A Inquisição Reformada possui prova material complementar segundo registro do protocolo 1144. Procedimento exige verificação litúrgica imediata. Inquisidor Voss.

Voss avançou três passos. Trazia a pasta de cordão de cera vermelho que Adriano tinha visto no corredor uma hora antes. Pousou-a sobre a mesa do Conclave, à frente do Decano-Presidente. Falou em latim eclesial de Reformada, sintaxe técnica:

— Apresento ao Conclave, por autoridade da Inquisição Reformada e em consonância com o testemunho da Sister Korlavna, três peças materiais coletadas em domicílio clandestino do Cardeal Lukas Vorenz, no Distrito Argênteo, número 47 da Via Quinta, sob nome falso de Lukas Vermöhler, em operação realizada às vinte e três horas do dia 27 de outubro de 1888 sob autoridade direta minha e do Sargento-Inquisidor Helmut Pohl, com testemunhas Diácono Vavrik e Padre Estepan. Peça primeira: contrato de pacto silencioso, em pergaminho de pele consagrada invertida, com sinete do Cardeal Vorenz em cera negra de Cocyto, datado de 13 de outubro de 1876, em Hor'kava transliterado. Peça segunda: vinte e oito gramas de Mineral Negro purificado, em frasco litúrgico inverso, com etiqueta em Hor'kava confirmando origem de Limbus Mundi via Sathkar. Peça terceira: registro manuscrito de transação entre Cardeal Vorenz e portador anônimo, datado de 20 de outubro de 1888 — dois dias antes do envenenamento —, registrando entrega de Mineral Negro suficiente para inversão sacramental de um copo pontifício de litro. Peças seladas em câmara escura. Peritos litúrgicos da Reformada, sob mandato do Decano-Presidente, podem verificar agora.

Sebastien Vidor levantou-se uma terceira vez. Olhou para o Cardeal Lukas Vorenz, em seu lugar número sete, ainda imóvel, ainda sem respiração visível, ainda com as mãos sobre os joelhos.

— Cardeal Vorenz. O senhor deseja responder antes da verificação litúrgica?

Lukas Vorenz, à mesa do Conclave da Sala Verde, no Palácio Pontifício de Aurum Roma, no quarto dia do Conclave de Emergência de 1888, no quarto ano da Era da Estagnação madura, com vinte e três outros Cardeais-Eleitores Coroados a olhá-lo em silêncio compacto, respirou pela primeira vez em quase um minuto. Foi uma respiração curta, audível por toda a sala, do tipo que um homem dá quando volta de imersão prolongada. Levantou-se devagar. Tirou a casaca escarlate de gala — gesto canônico de quem renuncia voluntariamente à investidura de cardeal — com mãos firmes. Dobrou-a sobre o respaldo da cadeira, de modo cuidadoso, como se ainda quisesse preservá-la para o sucessor que viria.

Falou. Voz nivelada. Sem sotaque.

— Eminentíssimo Decano. Eminentíssimos cardeais. Confirmo as três peças apresentadas pela Inquisição Reformada. Confirmo o testemunho da Sister Korlavna. Confirmo o pacto silencioso de doze anos. Solicito ao Conclave que prossiga sem mim. Solicito ao Tribunal Inquisitorial que me tome em custódia ao fim desta sessão extraordinária. Solicito, por humildade litúrgica final, que se me permita sair desta sala pelos meus próprios pés. Solicito, em registro perpétuo, que se mencione no protocolo que a minha confissão é voluntária e livre, sem coação física, e que se me não atribua, em arquivo futuro, sofrimento maior do que o que efetivamente cumpro.

Silêncio.

Sebastien Vidor olhou para os Inquisitoriais. O Cardeal Garmund de Limes Orientalis assentiu com a cabeça. O Decano-Presidente assentiu também.

— Cardeal — disse Vidor. — A petição é aceita. Sai pelos teus próprios pés.

Lukas Vorenz inclinou-se uma vez. Em direção ao Decano. Não em direção aos demais. Caminhou até a porta principal — não a porta lateral pela qual Iván tinha entrado, mas a porta principal, a porta que os cardeais usavam em ingresso solene à abertura — e dois sentinelas da Reformada o acompanharam, três passos atrás, sem tocá-lo. A porta fechou.

A sessão extraordinária encerrou às onze e quarenta e dois. Os peritos litúrgicos da Reformada conduziram, em câmara apartada, a verificação das três peças durante o intervalo. Confirmaram às doze e quarenta e cinco. O Conclave reabriu para votação de continuidade às treze horas exatas.

E Iván Korlavna, no quadrado de mármore vermelho-do-coro, ainda em pé, com mãos vermelhas mais escuras agora — porque testemunho em sintaxe Hashmal queima a falante na medida proporcional à profundidade da inscrição angélica em curso —, recebeu de Sebastien Vidor a vênia formal de despedida. Inclinou uma única vez. Saiu pelo corredor de servos. Madre Doroteia esperava-a do lado de fora, com um copo de água morna e um pano úmido para o sangue do nariz, que tinha voltado a sair durante o testemunho sem que ninguém da mesa do Conclave tivesse percebido.

— Sister.

— Madre.

Iván Korlavna não desmaiou desta vez tampouco. Mas sentou-se no banco de pedra do corredor de servos e ficou um minuto sem dizer mais nada, e Madre Doroteia, à direita dela, pousou a mão sobre o seu ombro e ali manteve até que a hora batesse meio-dia exato no relógio da Catedral, e Iván então se levantou e disse, com a voz quieta com a qual as Brancas resolvem todas as coisas:

— Vou para casa, Madre.

— Vou contigo.

— Não. Tenho de ir sozinha agora.

— Sister.

— Madre. — E nesta única palavra Iván tinha posto o peso bastante para Madre Doroteia entender que o protocolo da Ordem Branca, naquele instante, cedia à autoridade da experiência angélica recente. Madre Doroteia inclinou a cabeça e recuou.

Iván Korlavna saiu do Palácio Pontifício pela porta dos serventes. Atravessou o pátio da Catedral sob o gás-lume das luminárias ainda acesas porque o smog tinha voltado àquela manhã com força incomum. Caminhou até a casa das Brancas. Deitou-se na sua cama estreita, ainda em hábito. Dormiu por catorze horas seguidas, sem sonhar, com o cíngulo de Vigília ainda na cintura, e foi este o último turno seu sob a regra de seis a oito meses, porque a queima daquela manhã, do testemunho em sintaxe Hashmal, reduzira o saldo a quatro a seis. Iván Korlavna, ao dormir, sabia disso, e ainda assim dormia em paz, e ainda assim, mesmo em paz, o seu sono não foi visitado por nenhum Anjo, porque os Anjos, depois que entregam o conhecimento implantado e o sinal, deixam o portador com o seu corpo, e o corpo é o que carrega o resto.


VIII. A Votação

O Conclave reabriu às treze horas. Vinte e três Cardeais-Eleitores Coroados em assento — Vorenz tinha sido formalmente despojado do voto pela renúncia voluntária registrada às onze e quarenta —, vinte e dois observadores não-coroados em bancos de parede, sete Mitrados consultivos, dois inquisidores em vigília. A lâmpada de Lúmen no nicho leste continuava em nome de Camuel, Arcanjo do Discernimento. Sebastien Vidor abriu a sessão com a oração canônica do quarto dia, em latim eclesial, com a fórmula tradicional do Veni Creator Spiritus abreviada para conclaves de emergência.

A primeira rodada de votação de continuidade começou às treze e dezessete.

Cada cardeal-eleitor recebeu, das mãos do Diácono-Auxiliar do Decano, a cédula consagrada com sinete pessoal. Vinte e três cédulas naquela rodada. O voto era escrito em pena de Lúmen — pena especial, com tinta de mineral consagrado, que produzia escrita auto-purificadora segundo cânones, e que serviria para que após queima, em câmara fechada, a cinza produzida fosse cinza branca em caso de eleição válida e cinza preta em caso contrário. Cada cardeal-eleitor escreveu o nome do seu candidato, dobrou a cédula em quatro, levou-a até a urna central de cobre consagrado, depositou-a com a destra (a sinistra, no rito, fica sempre fechada sob o manto, símbolo da humildade do voto), retornou ao lugar.

Vinte e três votos. Vinte e três deposições. Levou onze minutos.

O Decano contou em voz alta perante a mesa. Os escrutinadores — três cardeais escolhidos por sorteio no início da sessão — verificaram cada cédula.

Cardeal Pradianus de Aurum Romana: 9 votos. Coronatos minus Vorenz: dez menos um = nove. Confirmado.

Cardeal Sebastien Vidor: 7 votos. Reformados: sete. Adriano Veris incluído no voto-bloco. Confirmado.

Cardeal Garmund de Limes Orientalis: 4 votos. Inquisitoriais. Confirmado.

Cardeal Helsinki, Hospitalário: 1 voto. Voto de si mesmo, padrão dos pequenos blocos.

Cardeal Tehmunn de Veligradense: 1 voto. Veligradense interno, divisão antiga.

Cardeal Pradian (Independente do Maritima Coronata): 1 voto. Voto isolado.

A primeira rodada não passou os dois terços. Cinza preta. Fumaça preta da chaminé pontifícia: subiu sobre Aurum Roma às quatorze e três, e a cidade, agrupada nos pátios externos da Catedral à espera, registrou em silêncio que o Conclave continuava.

A segunda rodada começou às quatorze e quarenta. Sebastien Vidor convocou cardeais para reunião curta de facção antes da votação. Reformados saíram para um corredor lateral. Coronatos saíram para outro. Inquisitoriais permaneceram à mesa. Independentes dispersaram-se em duplas e tríades. Cinco minutos de reunião informal. Voltaram aos lugares.

Sebastien Vidor olhou para Adriano Veris, ao seu lado direito na meia-lua dos Reformados. Adriano devolveu o olhar. Vidor inclinou a cabeça meio centímetro. Adriano assentiu com a destra apoiada no livro de horas. Foi tudo.

Segunda rodada: cédulas distribuídas, escritas, depositadas. Onze minutos.

Cardeal Pradianus: 9 votos. Coronatos sólidos.

Cardeal Adriano Veris: 7 votos. Reformados transferiram bloco inteiro do Vidor para o Veris. Movimento esperado: Vidor é decano demais, Veris é compromissório com Independentes pela origem veherênica e pelo histórico inquisitorial.

Cardeal Garmund: 4 votos. Inquisitoriais firmes.

Cardeal Helsinki: 1.

Cardeal Tehmunn: 1.

Cardeal Pradian: 1.

Cinza preta. Segunda fumaça preta às quinze e dezessete.

A terceira rodada começou às quinze e cinquenta. Pausa para café antes — cardeais bebiam café-da-roma no salão anexo, em silêncio compacto, sem comentar votação. Adriano sentou-se à beira da mesa do café junto à janela leste, com Sebastien Vidor à esquerda e Cardeal Helsinki à direita. Helsinki cumprimentou-o com uma inclinação respeitosa — Helsinki tinha votado nele, soube-se sem dizer, na segunda rodada. Adriano agradeceu sem comentar.

Foi neste intervalo que o Cardeal Lúmen Brask, sentado solitariamente no banco mais afastado da janela, levantou-se e caminhou até Adriano. Brask tinha trinta e oito anos. Era o cardeal-eleitor mais jovem da assembleia. Era meridiano, do sul vulcânico, da casa Brask de Stromakra, descendente de família mercantil convertida em clerical três gerações atrás. Tinha cabelo escuro, olhos cinza, sotaina simples sem ouropel. Trazia o seu livro de horas em meridiano latino arcaico, que ele lia em voz baixa nos intervalos.

— Eminentíssimo Cardeal Veris — disse Brask em latim eclesial com sotaque meridiano puro. — Permite-me uma palavra?

— Permito.

Caminharam até a janela. Brask falou baixo, com a expressão de quem precisa de uma confirmação rápida:

— Vossa eminência foi quem me indicou ao confessor Tomáz há três anos, quando o copeiro auxiliar Brask foi posto no convento dos Coronatos. Eu nunca lhe agradeci. Faço-o agora.

Adriano olhou-o por dois segundos. Brask, naturalmente, não sabia que Tomáz era noviço de Adriano, ou ao menos não tinha dito que sabia. Mas a frase estava posta, e Adriano sabia agora — pela primeira vez — que a casa Brask tinha sido quem alertara silenciosamente sobre Vorenz três anos antes, e que a alerta tinha entrado nos canais Reformados via Tomáz, e que Adriano tinha agido na altura sem ainda saber o que continha. Os fios estavam tramados há mais tempo do que ele próprio se dera conta.

— Eminentíssimo — disse Adriano —, agradeço sem agradecer. Você sabe por quê.

— Eu sei.

— Vou indicar você na terceira rodada.

Brask pestanejou uma única vez. Era a primeira reação visível que Adriano lhe vira em quatro dias de Conclave.

— Não me espera.

— Espera.

— Eminentíssimo. Eu tenho trinta e oito. Não posso. Não devo.

— Você pode. Você deve. Eu não.

— A queima vai me consumir em cinco anos, talvez menos.

— Você queimará bem. Eu, mal.

Brask olhou para a janela. O smog tinha voltado em força. A cidade desaparecia atrás dele. Olhou de volta para Adriano.

— Por que eu?

— Porque você ainda crê na hora em que mede o pó.

Brask não respondeu. Mas inclinou a cabeça uma só vez — gesto de aceitação meridiana, o gesto que nas casas mercantis de Stromakra fechava negócios sem palavra — e voltou ao seu banco. Adriano voltou ao seu.

A terceira rodada começou às dezesseis e oito. Cédulas. Pena. Depósito. Onze minutos.

O Decano-Presidente contou em voz alta:

Cardeal Pradianus de Aurum Romana: 6 votos. Três Coronatos defeccionaram. Pradianus em queda.

Cardeal Adriano Veris: 4 votos. Reformados em queda também. Três Reformados defeccionaram.

Cardeal Lúmen Brask, de Meridia, Independente: 9 votos. Surto.

Cardeal Garmund: 4. Mantido.

Cardeal Helsinki: 0. Helsinki transferiu para Brask.

Cardeal Tehmunn: 0. Tehmunn transferiu para Brask.

Cardeal Pradian: 0. Pradian transferiu para Brask.

Total: 23. Confirmado.

A facção Coronata, surpreendida por Pradianus a só seis, hesitou. Dois Coronatos defeccionaram para Brask na quarta rodada para evitar a humilhação da quinta. Reformados, lendo a aritmética, transferiram bloco a Brask também. Independentes consolidaram-se. Inquisitoriais, com Garmund a quatro fixo, mantiveram-se em testemunho.

Quarta rodada às dezessete e dezesseis.

Cardeal Brask: 15 votos. Acima da maioria simples, abaixo dos dois terços (que exigia 16 entre 23 eleitores ativos).

Pradianus: 4. Adriano Veris: 0 (Adriano não votou em si mesmo na terceira; votou em Brask). Garmund: 4.

Cinza preta. Quarta fumaça preta às dezoito e três.

Quinta rodada às dezoito e cinquenta. Reunião curta de Inquisitoriais — viram que Garmund não chegaria —, Cardeal Garmund pediu palavra antes da votação. Falou da sua cadeira:

— Eminentíssimos. A facção Inquisitorial reconhece que o Cardeal Brask é figura de comprometimento aceitável e que a continuação da minha candidatura serve apenas para retardar o Conclave. Eu transfiro o meu voto, e peço aos demais Inquisitoriais que façam o mesmo, ao Cardeal Brask. Mantenho-me em testemunho, conforme cabe à Inquisição em sessão pontifícia.

Quatro votos para Brask. Mais um Coronato defeccionou (o Cardeal Vassek, Coronato menor, antigo aluno de Brask em curso de meridiano latino arcaico).

Quinta rodada, contagem:

Cardeal Lúmen Brask: 20 votos. Acima dos dois terços (16 de 23).

Sebastien Vidor levantou-se. Voz solene:

— O Conclave de Emergência de 1888, em sua quinta votação, elege o Cardeal Lúmen Brask de Stromakra, Meridia, Independente, por vinte votos contra três. Procedimento exige condução imediata à Vigília Perpétua para o Reconhecimento Angélico, conforme cânones de Aurelianus I. A votação está consumada.

Cinza branca.

Quinta fumaça branca da chaminé pontifícia: subiu sobre Aurum Roma às dezenove e quarenta da noite de 28 de outubro de 1888, e a cidade, agrupada nos pátios externos, registrou em silêncio com a sua respiração coletiva contida — porque cinza branca após cinza preta quatro vezes é o sinal canônico maior que a cidade reconhece — e em quinze minutos os sinos da Catedral começaram a bater em todas as paróquias, não os de defunção, mas os do Te Deum, três longos três curtos em modo invertido, e a cidade, em silêncio compacto, começou a juntar-se nas praças.

Lúmen Brask foi conduzido em silêncio através do Palácio Pontifício, em procissão dos vinte e dois cardeais-eleitores remanescentes acompanhando-o do nártex à Catedral, dos Mitrados consultivos seguindo atrás, dos inquisidores em formação cerimonial. A noite estava clara — segunda noite consecutiva de smog levantado, fenômeno raro daquela Era — e Aurum Roma viu pela primeira vez em quase uma década o céu sobre a Catedral do Coro com estrelas visíveis.

Chegaram à Vigília Perpétua às vinte e dezessete da noite.

A porta canônica do santuário abriu-se. Madre Doroteia, posicionada no nártex em hábito branco-sem-marca, com a Branca de turno da noite — não Iván, que dormia em casa das Brancas, mas Sister Beatriz Hosch, de Königsmark, em ano dois de contato pleno — recebeu o Cardeal Brask com a tripla reverência das Brancas. Brask retribuiu com inclinação cardinalícia. Caminhou para o centro do santuário, sob as Sete Velas, e parou na pedra-de-Reconhecimento que ali estava embutida desde 1813.

Sebastien Vidor leu, em latim eclesial, a fórmula canônica do Reconhecimento, redigida em 1815 por Aurelianus I:

Coro do Hashmal, Coro dos Anjos, Coros maiores até o Trono e os Serafins, Pai onde tudo se funda: este homem foi eleito pelos Cardeais-Eleitores Coroados em ato canônico legítimo no Conclave de Emergência da Era da Estagnação. Reconhece-o, se Te aprouver, na chama de teus Arcanjos. Não o reconheça, se Te aprouver, na quietude das mesmas. Que se faça a Tua vontade.

Silêncio. Trinta segundos. Sessenta segundos. Noventa segundos. Os cardeais começaram a se entreolhar — porque o Reconhecimento, quando ocorre, ocorre em até trinta segundos da fórmula; e quando os trinta segundos passam, e o segundo minuto começa, a sala começa a temer o terceiro caso canônico raro: a rejeição angélica, em que nenhuma chama tremula, e o eleito é declarado rejeitado pelo Céu, e o Conclave reabre com sua exclusão definitiva.

Aos cento e cinco segundos exatos, a vela do Arcanjo Camuel — Arcanjo do Discernimento, lâmpada do dia segundo calendário litúrgico — tremulou uma única vez. Uma vez só, breve, como uma respiração pequena de uma chama que se decide. Em seguida, firmou-se.

Sebastien Vidor sorriu pela primeira vez em quatro dias. Voltou-se à assembleia.

Reconhecido.

E à cidade, lá fora, ele transmitiria pelo cabo telegráfico nas próximas horas: Habemus Unum. Temos o Um. Sucessor de Coronatus V, eleito Reconhecido pelo coro: Cardeal Lúmen Brask de Stromakra, com nome de regnal a ser proclamado.

Lúmen Brask ajoelhou-se na pedra-de-Reconhecimento. Sebastien Vidor aproximou-se com a tiara, mas Brask levantou a mão direita em pedido formal de pausa, e falou — em meridiano latino arcaico, ouvido por ele primeiro através do livro de horas que carregava na sotaina:

— Meu nome de regnal será Lumen I. Não pela vela que me reconheceu, mas pela mineralidade da chama da Vigília — porque me ensinou um cardeal velho, há três horas, que o que importa é a luz que não tremula, e o defeito do Lúmen é a sua glória. Lumen Primus. Em latim eclesial.

Sebastien Vidor inclinou a cabeça. Aplicou a tiara. Aurum Roma, lá fora, ouvia os sinos.

E em algum banco lateral da Catedral, Adriano Veris ajoelhou-se em direção ao altar, e em russo arcaico veherênico que ninguém à sua volta conhecia, com a sinistra fechada sob o manto pela última vez naquela noite, murmurou em silêncio três palavras que não eram oração mas eram quase oração:

Domine, gratias ago.

Senhor, agradeço.


IX. As Velas

À meia-noite e doze de 28 para 29 de outubro de 1888, Aurum Roma ainda zumbia em sinos. Adriano Veris voltou para a sua câmara privada do Palácio Pontifício pela última vez — porque a partir dali ele retornaria à sua residência cardinalícia ordinária no Distrito Aurélio. Padre Mateus tinha-lhe preparado a sotaina de dormir, um copo de água, o livro de horas aberto na página da quinta-feira. Adriano agradeceu. Pediu privacidade.

Sentou-se à mesa pequena junto à janela leste. Acendeu a vela de Lúmen — a mesma vela de quatro noites antes, agora reduzida em altura, mas ainda quieta, ainda incapaz de tremular, ainda fiel ao seu defeito e à sua glória. Tirou do bolso interno da sotaina a carta de Tomáz. Releu-a por uma quarta vez. Beijou o lacre uma vez. Dobrou-a. Pousou-a sobre a mesa.

Pegou pena, papel, frasco de tinta preta. O frasco baixou outra vez nessa noite — agora estava em duas linhas do fundo, mais alguma escrita e o frasco seria substituído por Padre Mateus pela manhã. Adriano não pensou nisso. Escreveu.

Tomáz: o Conclave consumou-se. Lumen I, Cardeal Lúmen Brask de Stromakra, foi reconhecido na vela de Camuel. Ele tem trinta e oito anos. Queimará bem. Eu queimaria mal, e por isso te falo agora como cardeal antigo e não como Um: o que aprendi em Solar, o que te escrevi quatro noites atrás, o que tu confirmaste em Hárkovgrad presenciando o capelão russo de olhos vazios, é matéria que opera ainda. A tua mãe tinha razão. Os anciões da tua aldeia tinham razão. Que a tua frente, e a minha, e a nossa, sustente-se na hora exata em que se medir o pó. Não te escrevo mais por algumas semanas — preciso recolher. Reza por mim, e por Brask, e por Korlavna, e por Voss. Por essa ordem, se conseguires. Vosso, Adriano.

Selou. Pingou. Pressionou o sinete do peixe três vezes. Pousou. Apagou a vela com os dedos. Doeu menos do que era de costume.


Reinhardt Voss saiu do Palácio Pontifício pelas três e dez da madrugada. O Cardeal Lukas Vorenz estava agora em custódia no subsolo da Inquisição Reformada, sob a vigilância de Pohl. O processo de exorcismo voluntário — porque Vorenz, em pacto silencioso confessado, optou pela via canônica do exorcismo prático em vez do tribunal sumário com execução — começaria às seis da manhã, e duraria entre quatro e nove dias, e tinha probabilidade de salvar a alma de Vorenz em aproximadamente treze por cento, segundo a casuística da Reformada para pactos silenciosos de doze anos sem progressão a possessão tardia. Voss não tinha esperança particular pelo treze por cento. Vorenz havia abdicado da casaca por humildade canônica final, e isto era em si um gesto que reduzia a probabilidade da salvação alguns pontos a mais, porque os pactuados que renunciam ao protesto de inocência são, na taxa da Reformada, os mais difíceis de extrair.

Voss caminhou para o seu apartamento na ala sul do Palatium Reformatum. Não tinha jantado. Não jantava havia três dias com regularidade. A casa estava escura. Acendeu uma lâmpada de Lúmen de mesa. Sentou-se. Tirou as luvas. Pousou-as sobre a escrivaninha.

Pensou — porque pensar era a única oração que Voss admitia em si mesmo — que o método tinha levado a investigação até oitenta por cento. Os outros vinte por cento tinham sido a Branca Korlavna, com o conhecimento implantado angélico, e o Cardeal Veris, com a rede informal que a Reformada não conhecia e que provavelmente continuaria não conhecendo. O método sozinho, refletiu Voss, não teria fechado. E refletiu também, com aquele incômodo profissional que era a coisa mais próxima de humildade que ele admitia, que o método sozinho nunca tinha fechado, em vinte e cinco anos de carreira; tinha sempre tido um Veris, ou uma Korlavna, ou um Brask, ou um lance qualquer de informação que vinha de fora do que ele construía. Tinha sempre tido. Apenas hoje, pela primeira vez, ele tinha tido a clareza de reconhecer que tinha.

Não rezou. Voss não rezava. Mas levantou-se, foi até a janela do apartamento, abriu uma fresta, deixou entrar o ar úmido de outubro tardio, e olhou para Aurum Roma em silêncio durante três minutos.

Os sinos do Te Deum ainda tocavam em alguma paróquia distante. Lúmen sobre Lúmen das luminárias urbanas. A cidade estava acordada. Estava acordada como há quinze anos não estava. Voss não saberia dizer se isto era esperança. Não saberia dizer se isto importava.

Fechou a fresta. Apagou a lâmpada. Deitou-se sem despir-se. Dormiu nove horas. Não sonhou.


Iván Korlavna acordou na casa das Brancas às onze da manhã de 29 de outubro, descoberta com o cíngulo de Vigília na cintura ainda, com sangue seco na manga do hábito, com a luz de Lúmen do corredor entrando pela porta entreaberta porque Madre Doroteia tinha entrado para verificá-la pelo menos quatro vezes durante a manhã e não tinha querido fechar a porta sem ruído. Bocejou. Sentou-se na cama. Não doía nada. Tudo doía. Era assim quatro dias depois de testemunho em sintaxe Hashmal.

Madre Doroteia apareceu na soleira da porta com uma xícara de chá morno e um pão de Sárvar pequeno, daqueles redondos com cruz na crosta que se faziam apenas em outubro para o oitavário do Feriado de Ivandir, e que Madre Doroteia, por motivo nunca dito, sempre conseguia para as Brancas em ano quatro.

— Sister.

— Madre.

— Lumen I.

Iván sorriu. Foi sorriso curto, contido, mas foi sorriso.

— Lumen I.

Madre Doroteia entregou-lhe a xícara. Iván tomou um gole.

— Madre.

— Sim.

— Eu quero voltar à Vigília esta noite.

— Sister.

— Não me convença a não.

— Não vou. Eu vim para combinar o turno. Quatro horas como sempre, ou turno reduzido?

— Como sempre.

— Como queira.

Madre Doroteia inclinou a cabeça uma vez. Saiu.

Iván Korlavna comeu o pão de Sárvar com lentidão. Pensou — porque pensar era também, para ela, uma oração que ela aprendera a admitir — que o saldo estava agora entre quatro e seis meses. Pensou que isto bastava. Pensou que voltar à Vigília esta noite era certo. Pensou que os Anjos do Hashmal estavam se esvaindo, sim, como diziam os clérigos iluminados antes de morrer, e que o que o Anjo lhe entregara quatro dias antes podia ter sido um dos últimos contatos profundos que a Era da Estagnação registraria; e pensou, com aquela quietude que lhe vinha quando o corpo doía pouco e a alma muito, que se este era o caso, então a sua geração — a dos nascidos por volta de 1864, a dos que entraram à Ordem Branca por volta de 1876 — talvez fosse a última que escutaria com profundidade as Sete Velas; e que a obrigação das que escutavam, agora, era escutar mais devagar, mais atenta, mais honesta, porque nada do que escutavam seria escutado de novo.

Pensou também — pela primeira vez em quatro dias — na mãe. A mineradora de Cracoviana. Que doze anos antes deixara de dar notícia. Que provavelmente já tinha morrido em algum dos ataques pactuários menores que a Defesa de Cracoviana de 1888 viria a culminar e a vingar.

Iván Korlavna ajoelhou-se ao pé da cama. Em vykhradiano arcaico, com sotaque eslavo grosso, em sintaxe Hashmal mínima, rezou pela mãe.

Foi o seu primeiro rosário da semana. Levou onze minutos. Foi exato.


Os sacerdotes saíram. O corpo de Vorenz foi enterrado em túmulo sem marca no Cemitério dos Despossados de Aurum Roma, junto à muralha sul, com cruz simples de Ferro-do-Coro, sem inscrição. A Cúria, por decisão pessoal de Lumen I no segundo mês de seu pontificado, recusou-se a apagar o seu nome dos arquivos, contra o que sugeriam os Coronatos remanescentes. Que se lembre, foi a frase canônica de Lumen I, para que se aprenda. Foi a primeira decisão pontifícia conhecida do novo Pontífice. Marcou o tom.


Quatro dias depois do Reconhecimento, Tomáz, em Hárkovgrad, recebeu pelo correio diplomático a notícia da eleição. Leu numa cela monástica fria. Acendeu uma vela curta de óleo de baleia — o capelão russo de olhos vazios tinha morrido três dias antes em ataque pactuário menor, e Tomáz já tinha sido designado como capelão interino por escassez. Tomáz dobrou os joelhos sobre o chão de pedra fria, em russo arcaico veherênico que sua mãe lhe ensinara antes da Ordem, e rezou por quatro pessoas em sequência precisa:

Pelo Cardeal Adriano Veris, que me ensinou. Pelo Pontífice Lumen I, que governa. Pela Branca Iván Korlavna, que viu. Pelo Inquisidor Reinhardt Voss, que mediu. Nessa ordem. Senhor, ne abscondas.

Quando se levantou, era de noite em Hárkovgrad, e a vela curta de óleo de baleia tinha-se quase consumida. Tomáz tinha vinte e seis anos. Faltavam-lhe três anos antes de tomar ordens menores, mais cinco antes de ordens maiores. Em algum momento desses oito anos, ele saberia, embora ainda não soubesse, que sucederia ao Cardeal Adriano Veris na facção Reformados como decano honorário em algum momento da década seguinte da Era da Estagnação, e que carregaria — não sabia ainda, mas Adriano sabia, e o saber de Adriano era suficiente por ora — a doutrina velha em frente sem nunca a perder.


Aurum Roma dormiu naquela noite de 28 para 29 de outubro como nas noites anteriores tinha dormido, com smog cobrindo gás-lume, com sinos do Te Deum ainda tocando até as três da manhã em paróquias periféricas, com o pão fresco entrando nos fornos do Distrito Argênteo às quatro, com os trens da Pantheon-Solar partindo das estações em direção ao Limes Orientalis às cinco, com as Brancas trocando turnos na Vigília Perpétua às oito e às dezesseis e às vinte e quatro, conforme cânones, com os carros elétricos da Cúria rodando em silêncio cinza pelas avenidas, conforme contava o tempo da cidade nas duas décadas anteriores e contaria nas décadas vindouras.

A Era da Estagnação seguiu. O mundo seguiu. A guerra seguiu. A fé, em alguns, em poucos, na hora exata em que se mediu o pó, seguiu também.

E as Sete Velas dos Arcanjos, no santuário da Vigília Perpétua, sob os nomes esculpidos em pedra polida, mantiveram-se quietas — não tremulavam, jamais tremulavam — porque era esta a sua tarefa canônica, e era este o seu defeito, e era esta a sua glória, e nessa quietude, sob a qual os homens decidiriam ainda muitos conclaves e ainda muitas batalhas e ainda muitos pactos e ainda muitos exorcismos antes que o canon registrado se encerrasse em 1890, ardia, em discrição absoluta, a única certeza que Tales of Cross se permitia entregar ao seu leitor:

que o demônio cai porque o tiro foi consagrado por alguém que ainda acreditava na hora em que mediu o pó;

que Deus não checa credenciais;

e que se houver, ainda, em qualquer rua, qualquer trincheira, qualquer cela, qualquer câmara, qualquer santuário do continente de Cross, uma única pessoa que se sente em silêncio e ainda creia o suficiente para selar três vezes — basta.

Basta, basta, basta.


Fim da peça

Continuar a ler
Crônica Plus

Crônica das Cinco Eras

Cento e dez anos contados por sete arquivistas que não se suportam. Onde as versões batem, é história; onde divergem, é onde alguém teve alguma coisa a esconder.

Leitura
40 min
Ler a abertura →

O mundo desta peça

A era em que se passa, o que nela aconteceu, e o sítio onde acontece. Continua onde a história não parou para explicar.

Conheça a história de Cross →